E Se fosse verdade?
2 Meu Professor vira um Canibal
Notas iniciais
Antes que você conheça minha mãe, vou falar um pouco sobre ela. Seu nome é Kathryn Miller. Ela é uma mulher de meia idade, mas a aparência é de mais jovem. O cabelo é louro e liso, mas preto nas raízes. Tem os olhos claros, e a pele parda. Ela trabalhava em casa, fazendo bolsas femininas para vender depois.
Era solteira. Sempre perguntei a ela o que havia acontecido com meu pai que nunca cheguei a conhecer. Ela sempre falava que ele era um homem alto e bonito, com os olhos verdes e cabelos pretos. Era um homem rico, mas ela nunca disse que eles tinham se casado. Contou que eu era ainda muito pequeno quando ele precisou partir numa viajem, e nunca mais voltou. Sempre quis conhecer meu pai. Não sei por que, mas sempre achei que eu e ele iriamos nos dar bem.
Assim que cheguei em casa, ela ficou louca de preocupação comigo quando viu minhas mãos arranhadas e minhas costas sangrando, e com quatro cortes horizontais. Não sabia como explicar isso a ela, não sabia como falar a verdade por que ela ia achar que eu estava ficando doido. Depois que ela colocou remédios para as minhas mãos e joelhos, e curativos nas minhas costas, ela quis saber o que havia acontecido.
Minha cabeça ainda estava girando com o que eu havia passado. Como aquilo poderia ter sido real? Como eu sobrevivi àquela luta contra aquele bicho enorme? E pior, quem colocou aquela faca na minha mochila? Essas perguntas ficavam girando em minha mente.
Sentamos na cadeira da mesa de jantar. Não quis falar a verdade para minha mãe. Não quis que ela ficasse assustada também. Então inventei que eu havia brigado com um garoto da escola, e que ele havia me derrubado, e eu arranhei as mãos e os joelhos na queda. Os cortes nas costas eu disse que havia arranhado na parede. Ela me olhou como quem não acreditava na parte da parede,mas não disse nada.
– Esta certo. O importante é que você esta bem.
Ela era muito calma. Não se irritava facilmente. Mas se alguma coisa acontecesse comigo, ela entrava em pânico.
Mamãe se levantou, e começou a preparar o almoço. Quis que Israel estivesse ali. Queria contar aquilo pra alguém. Mesmo que ele me achasse louco, eu sabia que podia contar com ele.
Fui para o meu quarto. Os pensamentos vieram a minha cabeça rapidamente. Aquele monstro gigante estava mesmo atrás de mim. E pretendia me matar. Mas por quê? O que eu havia feito? Não havia roubado nenhum osso de cachorro. Então, de onde aquele bicho saiu?
***
No dia seguinte, quando estava me aprontando para outro dia de aula, minha mãe me perguntou se eu queria que ela fosse junto comigo até lá.
– Não, obrigado mãe, não precisa.
– Tem certeza Raphael? E se acontecer alguma coisa?
– Mãe eu tenho certeza, não vai acontecer nada. Foi só ontem isso.
Ela suspirou.
– Está certo, cuidado, por favor.
– Certo mãe, não se preocupe. – Disse eu sorrindo.
Assim que sai de casa e fechei a porta, meu sorriso desapareceu. O medo voltou ao meu coração. E se aquele bicho aparecer de novo? Fiquei me perguntando. Minhas mãos ainda estavam um pouco arranhadas. Tentei afastar aquilo da mente.
– Ora, aquilo foi só um pesadelo, não aconteceu. – sussurrei para mim. Ajeitei minha mochila e fui para a escola.
Graças a Deus, nenhum “cachorro gigante” veio me pegar no caminho. Quando cheguei à porta da escola, uma voz gritou.
– Espere!
Olhei, e vi Israel correndo em minha direção.
–Tudo bem? – Perguntei a ele quando se aproximou de mim. Os olhos dele estavam com uma expressão estranha, assustado talvez.
– É... Está tudo bem. – disse ele. Mas eu sabia que não estava “tudo bem” com ele.
– O que houve? – perguntei.
– Nada.
– Sua cara diz que houve alguma coisa.
Ele olhou para mim.
– Lhe conto na hora do recreio. – E entramos.
Fomos até a quadra e avistamos Dayane. Ela acenou para nós, e sorriu. Fomos até ela. Dylan me olhou com desprezo enquanto passávamos, mas decidi ignorá-lo.
– Ei, o que aconteceu que chegou cedo hoje? – Ela falou rindo. Israel e eu nos entreolhamos.
– Nada. – Falamos juntos. Fiquei olhando para os alunos nas filas. Olhando ao redor. Ainda estava um pouco traumatizado pelo que aconteceu. Então, notei que o garoto de ontem, Grover, estava na minha fila pronto para ir para a sala.
– Ei! – Falei pra ele. – Você esta aqui? – Fiquei surpreso por que ele não estava ontem na sala. Quer dizer... Ele não esteve presente em nenhum dia de aula.
– Você faz o primeiro ano também?
– Ahn... Sim. Faço sim. – disse ele.
– Mas por que eu nunca lhe vi na sala de aula?
– Ah, é por que... eu entrei agora. – Ele sorriu. Achei estranho, mas deixei pra lá.
– Você esta bem? – Ele me perguntou.
– Por quê?
– Você esta com uma cara assustada. O que aconteceu? – Ele soou muito preocupado comigo.
– Ahn... Nada, está tudo bem. Só umas coisas que aconteceram ontem. – Eu não devia ter dito nada, mas aquilo estava me incomodando tanto, que resolvi contar. Se ele me achasse louco, bem, eu não o conhecia direito mesmo.
– Ontem, quando eu estava saindo da escola... alguma coisa veio para cima de mim. Fui atacado por... – Assim que eu ia falar, o sinal tocou. E cada fila começou a ir pra sala.
– Por favor, – ele me disse. – Me conte isso depois.
Parecia que ele estava prestes a passar mal. Vi ansiedade nos olhos dele.
Tivemos aula de Química no primeiro tempo. A professora, Marry, escrevia formulas químicas e moleculares na lousa, falava sobre os tipos de átomos e várias outras coisas que me davam dor de cabeça.
Depois, de Biologia. Eu gostava de Biologia. Pelo menos não continha cálculos. E por fim, antes do recreio, de Historia novamente.
O Sr. James continuou a falar sobre o povo grego. Depois contou sobre a cultura deles e no que acreditavam. Finalmente ele falou sobre os monstros gregos.
– Os gregos acreditavam em vários monstros e seres mitológicos. Como foi dito ontem, a Medusa era uma mulher muito bonita, mas foi transformada em uma Górgona por Atena, a deusa da sabedoria. Desde então, ninguém podia olhar diretamente para a Medusa. Há também outro monstro mitológico em que eles acreditavam.
Ele foi até a lousa e começou a desenhar um animal. No começo eu não sabia o que era, mas depois, eu reconheci imediatamente. Assim que ele concluiu o desenho, eu fiquei de boca aberta. Era um cachorro, só que muito maior do que o normal. Tinha dentes pontudos e garras afiadas. Os olhos eram selvagens. Isso me deu um calafrio na espinha.
– Esse monstro, – Disse o sr. James apontando para a lousa – Se chama Cão infernal, ou pra ficar mais leve, Cachorro infernal.
As meninas do meu lado esquerdo murmuraram algo sobre ter pesadelos a noite. Dylan, o idiota da sala, disse que tinha um cachorro desses em sua casa.
Eu não acreditava no que estava ouvindo. Meu coração estava acelerado. Mesmo sendo só um desenho, aquilo fez me lembrar do pânico de ontem e do meu desespero. Olhei para trás, para Grover, que estava sentado um pouco longe, e vi que ele estava olhando diretamente para mim. Tentei falar no modo silencioso com ele. “Foi esse monstro, foi ele!” tentei falar, mas ele não entendia. E para minha sorte novamente, o sr. James me chamou.
– Raphael?
É brincadeira, pensei. Olhei para ele.
– Quer falar alguma coisa? – perguntou ele.
Eu suspirei.
– Não.
Dylan riu de algum lugar lá trás.
– Alguém pode me dizer um nome de um dos deuses gregos?
O sinal tocou. Era hora do recreio. Descemos as escadas, e Grover veio mancando, junto comigo. Dayane e Israel estavam atrás.
– Vou contar a você. – disse Israel para mim. – Sobre aquilo.
– Certo. – respondi. Israel olhou com desconfiança para Grover.
Sentamos nas cadeiras da mesa de lanche. Israel sentou a minha direita e Grover a minha esquerda. Então me dei conta de que não tinha apresentado ainda Grover ao Israel.
– Ahn, Israel este é Grover, Grover este é Israel. – Grover olhou para ele, e não sei por que, ele cheirou o ar perto do Israel e arregalou os olhos.
– Ah meus deuses! – Ele exclamou. – Ahn... Quer dizer, oi.
– Meus deuses? – perguntei a ele.
– Não é nada. Conte-me, por favor, o que aconteceu com você ontem.
Contei-lhe tudo, inclusive a parte da faca que apareceu em minha mochila. Israel me olhou como se eu fosse um E.T visitando a Terra. Grover começou a roer a unhas.
– Posso ir com você para casa? Por favor! – Ele estava ficando branco. Mais branco do que o normal eu acho.
– Ta certo. – Assenti desconfiado.
– Esperem! – Israel colocou as mãos na cabeça. – Isso aconteceu com você? – perguntou pra mim.
– Olhe, sei que você acha que isso é loucura. – respondi. – Mas...
– Não! Eu não acho loucura. – disse ele alarmado. – Aconteceu comigo também.
Eu quase berrei “O QUÊ?”, mas as palavras não saíram. Israel continuou.
– Eu estava voltando para casa depois de nos separar, e estava ouvindo musica em meu celular, quando uma mulher veio em minha direção. Ela era meio enrugada, uns quarenta anos de idade acho, usava chapéu de renda roxo, e um casaco preto. Ela me perguntou que horas eram e eu disse que não tinha relógio. Ela insistia em ficar me parando e fazendo perguntas, quando eu falei que ia embora. Quando eu estava andando escutei um barulho atrás de mim, e de repente, ela se transformou em um monstro feio e horrendo. O casaco dela virou asas negras, e as mãos em garras. O rosto ficou com uma expressão perversa. Os dentes afiados e amarelados. Eu gritei e sai correndo, mas ela voou e quase me faz em pedaços se eu não tivesse me abaixado. Não sei como sobrevivi, mas ela era bastante rápida. Peguei um pedaço de madeira, e assim que ela investiu em mim, joguei bem na cara dela. Ela caiu, e eu saí correndo gritando por ajuda. Ela rosnou, e disse que antes de eu chegar a um acampamento, eu morreria.
Ele terminou de contar.
Minha cabeça só não explodiu por que não era uma bomba. Eu estava quase entrando em desespero de novo, e Grover também. O que estava acontecendo conosco?Triiiimm... o sinal tocou novamente, e fomos para a sala.
Era aula de matemática agora. Grover sentou atrás de mim. Quando todos se sentaram, o Sr. Brayck disse que a aula seria breve. E realmente foi breve. Assim que ele acabou de explicar, falou pra gente ir embora.
– Sr. Victor? – O Sr. Brayck disse. – Quero falar com você.
Israel me olhou e disse:
– Eu vou ficar aqui junto com você. – O sr. Brayck riu. Era engraçado ele rindo com sua voz fina. Ele falou.
– Ah sim, é mesmo, você também tem que ficar. Os dois tem que ficar. O sr. Underwood pode esperar lá fora.
Grover foi com receio. O sr. Brayck fechou a porta.
– Sabem, vocês causam muitos problemas em minha aula.
– Ahn? Problemas? Que problemas? – respondi.
– Não banque o inocente! Vocês achavam mesmo que eu não perceberia vocês aqui? – Disse ele.
– Do que esta falando? – murmurou Israel.
O Sr. Brayck riu de costas.
– Eles pensam que conseguem levar vocês até o seu belo acampamento. Acham que conseguem nos enganar mandando sátiros disfarçados para manter vocês a salvos. Mas... Dessa vez, isso vai mudar. – ele riu cruelmente.
Foi quando algo estranho aconteceu. Ele começou a crescer, até que ele tocava o teto. Seus braços ficaram musculosos, e sua cara ficava horrível. Olhos cruéis e dentes pontudos. Os sapatos se rasgaram. A calça se rasgou até a metade. Parecia estar vestindo short jeans. As mãos tinham garras. O cabelo longo e preto. Até que ele era um monstro gigante e feio querendo nos matar.
– É agora que eu vou comer carne de meios-sangues! – Ele gargalhou. Sua voz agora era grossa e assustadora.
–Meio o que?– gritou Israel – O que esta acontecendo?
Meu coração deu um salto de ginastica super alto. O que era aquilo? Não podia ser real, não podia. Tudo o que pude falar foi:
– Sempre achei esse professor estranho!
Nós corremos para o fundo da sala. Ele veio em nossa direção.
– Qual dos dois eu como primeiro? – disse o monstro rindo.
– Coma isso! – gritou Israel. Ele pegou uma cadeira da sala e jogou no ex-professor de matemática. Não adiantou. Ele desviou a cadeira com um murro e rosnou.
Então eu notei Grover, batendo na porta tentando abri-la. Ele esmurrava, mas ela não abria. Peguei uma cadeira e Israel pegou outra.
– E agora? – berrei – O que nós fazemos?
– Jogamos as cadeiras ué! – respondeu Israel. Eu joguei primeiro. Como previsto o monstro jogou a cadeira pro outro lado. Israel jogou a outra, e ela pegou bem na cara do monstro.
– Aaarrgghh! Vou moê-los até não sobrar mais nada de vocês! – Berrou ele.
Foi ai que me lembrei da faca na minha bolsa. Abri o zíper e peguei-a.
– Recue! – eu disse mostrando a faca. – Ou eu enfio essa faca num lugar que você não ira gostar! – O monstro hesitou. Talvez tivesse funcionado, mas depois ele avançou em minha direção.
– Vai! Mata ele! – gritou Israel. Mas, não sei por que, o monstro gigante avançou para o Israel. Ele foi muito rápido. Pegou ele pelo braço e o jogou para o outro lado da sala. O monstro gargalhou.
– Não! – eu disse. – Você não vai matar meu amigo! – e corri em direção a ele com a faca. Mas ele me afastou para o lado com um soco tão grande, que eu voei, bati minhas costas na parede e cai. Ele apareceu diante de mim sorrindo, mostrando as presas. E soube que eu ia virar comida de monstro–professor.
– Raphael! – Gritou Israel.
Então algo aconteceu. Um trovão irrompeu lá fora. Uma tempestade estava se formando com ventos fortes, nuvens escuras e raios caindo. Eu não tinha visto isso antes. O Monstro olhou para a tempestade. Foi o tempo que eu tive para correr para o lado do Israel. Foi quando, eu vi Israel em pé, com raiva olhando para o gigante. O monstro olhou para nós. A chuva caia, e os raios continuavam, os trovões ecoavam fazendo a sala tremer.
– Vocês não vão me derrotar! – berrou ele – Terei vocês como almoço para mim!
Assim que ele avançou em nossa direção, Israel pegou a faca das minhas mãos, apontou para o monstro e gritou para ele se afastar. Então, um relâmpago brilhou, quase me cegando, e de repente o teto da sala foi arrancado, e a chuva se derramava para dentro. O vento ficava mais intenso.
Nesse momento, fechei os olhos e tapei os ouvidos por causa dos raios e trovões que ficavam mais fortes. Ouvi fracamente o monstro berrando nãããoo e uma pequena explosão. Tudo ficou em silêncio de repente. Quando abri os olhos, não tinha mais nenhum monstro. A sala era uma bagunça total, com cadeiras viradas, molhadas e quebradas.
A tempestade se dissipava. Eu estava todo molhado. Olhei para Israel que estava ajoelhado, molhado também e respirando com dificuldade. Não sabia como tinha acontecido aquilo tudo, e como o sr. Brayck se fora. Peguei a mão dele e ajudei a se levantar. Abri a porta, e Grover me deu um abraço. Ele estava tremendo.
– Ah meus deuses, pensei que vocês morreriam! E o que foi aquilo? Como aquilo aconteceu? – Ele olhou para o Israel, que estava se recuperando.
– Eu não sei. – disse Israel ofegante. – Eu... senti uma coisa. Fiquei com raiva do monstro e de repente senti uma onda de energia passar pelo meu corpo. Eu... Não sei explicar. – Grover ficou com a boca aberta.
– Eu acho que sei. – disse ele contraindo os olhos. – Mas primeiro, temos que sair daqui.
Fale com o autor