E Se fosse verdade?
6 Meu Amigo invade um Chalé
Depois que Israel foi reclamado filho de Zeus, o senhor dos céus, fomos ao pavilhão–refeitório. Todos estavam conversando e cochichando entre si sobre o fato que acontecera, e sobre como Clarisse não tinha sido transformada em churrasco. Eu mesmo estava impressionado com o que ocorrera.
Quíron ordenou a todos que se sentassem em seus devidos lugares. Notei um grande braseiro no centro do pavilhão. As chamas estavam altas.
As mesas, assim como os chalés, eram divididas em grupos. Cada mesa correspondia a um deus, e assim, os filhos de Apolo sentavam-se à mesa de Apolo. Os de Hefesto sentavam-se á mesa de Hefesto. Então, naturalmente sentei a mesa de Hermes como sempre acontecia com os recém-chegados ao acampamento. Israel sentou-se ao meu lado. Ele me disse que conversou com Quíron, e que no dia seguinte ele iria se mudar para o chalé de Zeus.
Fiquei um pouco sem graça, quer dizer, logo no primeiro dia Israel é reclamado filho de Zeus, o maior dos deuses gregos. E eu ainda não. Não queria que meu pai olimpiano, seja quem for, demorasse anos e anos para reconhecer que tinha um filho. Não era justo.
A mesa de Hermes era lotada de garotos e garotas. Todas as mesas eram redondas e grandes, cobertas com uma toalha branca com detalhes roxos. Eu estava quase na ponta com Israel ao meu lado.
Havia um canto vazio do meu lado direito, quando de repente o lugar vazio ficou ocupado por uma menina que se sentou ao meu lado. Ela era quase da minha altura, com cabelos pretos cacheados e pele parda. Olhos castanhos escuros. Estava vestida com uma calça jeans e blusa verde de manga curta. Ela parecia atordoada. Com um susto, percebi que aquela menina que estava do meu lado era a que estava entrando no acampamento, guiada por um sátiro. Pensei que ela devia estar passando pela mesma situação que Israel e eu, descobrindo que nossos pais eram deuses gregos.
Escutei cascos batendo. Quíron estava chamando nossa atenção. O sr. D suspirou e ficou de pé.
– Bem, acho que eu deva dizer olá a todos vocês pirralhos. Bem, olá. Mais uma noite irritante, digo... espetacular neste acampamento. Amanhã a noite haverá Capture a Bandeira. E... temos novos campistas hoje. Ismael Richard e Raquel Vitor.
Quíron murmurou algo.
– Ah. Israel Rodrigues e Raphael Victor.
Quíron novamente murmurou.
– Ah sim, e Rebeca Dandara. Bem vindos e tudo mais. Agora, podem comer.
Aplausos disformes se ergueram.
Várias meninas com bandejas vieram servindo comida. Queijo, pão fresco, uvas, morangos e churrasco! A garota do chalé de Hermes, Elissa, me contou que as garotas que serviam a comida eram ninfas dos bosques, espíritos femininos da natureza. Quando uma delas passou por mim com a bandeja, enchi meu prato de churrasco. Estava com uma fome tremenda. Meu copo estava vazio. Olhei para os lados para ver se tinha alguma coisa para beber.
– Fale com ele. – disse Elissa.
– Falar com quem? – perguntei.
– Com o copo. Você pode pedir qualquer coisa que queira beber.
Pensei que ela estava ficando louca, mas mesmo assim, pedi que meu copo se enchesse de refrigerante guaraná. Olhei incrédulo enquanto ele se enchia sozinho. Meus olhos se arregalaram. Bebi um gole cauteloso. Estava ótimo. Olhei para Israel ao meu lado, e vi que ele estava pronto para devorar o prato, quando notei que vários campistas se levantavam e iam para o grande braseiro no centro.
Todos estavam jogando as melhores partes das suas comidas nas chamas. Eu fiquei surpreso. Por que estariam jogando a melhores partes no fogo? Pensei que essas partes estavam podres ou com gosto ruim, mas achei que era melhor eu fazer isso também. Levantei-me e Israel me seguiu. Ele estava atrás de mim, quando uma voz ao meu lado sussurrou:
– Oferenda para os deuses. Eles gostam do cheiro da comida.
Virei-me e dei de cara com Percy.
– O quê? Oferenda? Eles gostam do cheiro? – perguntei.
– Sim. – disse ele.
– Tá de brincadeira? Por que gostariam do cheiro de comida queimada?
– Fiz a mesma pergunta quando estive aqui pela primeira vez. Você tem que dizer o nome do seu pai quando for jogar a comida.
Eu era o próximo. Fui para frente. Não sabia quem era meu pai ou qual nome eu devia dizer. Acabei não falando nada. Relutante, joguei a parte mais deliciosa do churrasco. Israel choramingou quando jogou um morango delicioso nas chamas.
Quando voltei para a mesa, a menina que estava do meu lado perguntou:
– Você já é daqui?
Olhei para ela.
– Ah, não, eu... Sou recém-chegado.
– Você já sabe quem é seu pai? – perguntou ela curiosa.
– Hã, não. Ainda não.
– Meu nome é Dandara.
É, eu sei. Pensei em dizer, mas achei que seria ignorante.
– Ah, prazer. O meu é Raphael.
– E o meu é Israel. – disse ele. Dandara sorriu.
Voltamos a comer. Atrás de nós, a mesa de Ares era a mais barulhenta. Fiquei observando cada mesa. A de Apolo tinha não muitas crianças. A de Hefesto, continha pelo menos dez campistas. Olhei para a mesa de Atena, onde estava Annabeth. Um bando de crianças atléticas e loiras, com olhos cinzentos. Annabeth tinha um cordão em volta do pescoço que tinha várias contas de argila que era, ela me contou, uma espécie de prêmio por sobreviver mais um ano.
– Você gostaria de ser filho de quem? – perguntou Dandara.
– Não sei. Eu ainda não estou nessa de acreditar em deuses.
– Queria ser filha de Atena. Mas não sou muito sábia entende? – ela riu. – Ou então filha de Apolo.
– Vamos ver. – eu disse. – Resta só você esperar.
Ela assentiu.
Fiquei observando a mesa de Poseidon. Somente um campista estava sentado lá. Percy. Sozinho, sem ninguém para conversar. Fiquei com pena dele e resolvi ir até lá.
Assim que me levantei da mesa e fui em direção à mesa de Poseidon, vários campistas começaram a murmurar. Cochichos e conversas aumentaram. Não sabia o que estava acontecendo. Cheguei perto dele.
– Oi. – eu disse. – Hã... Tudo bem?
– Sim. Por quê?
– Nada. Eu... só pensei que você gostaria de ter companhia nessa mesa tão solitária.
Ele sorriu. Mas de repente ele arqueou as sobrancelhas.
– Você não devia estar aqui. – disse ele baixinho, olhando para os outros campistas.
– Por quê?
– Acho que se esqueceram de lhe contar. Ninguém pode sair da sua mesa para ir a outra. São as regras do acampamento. Cada um tem que ficar no seu devido lugar, e o seu lugar é na mesa de Hermes.
– Ah. – olhei para Quíron que estava olhando fixamente para mim. – Acho que é melhor eu sair daqui não é?
Percy fez que sim. Levantei-me meio sem jeito e voltei ao meu lugar. Elissa olhava para mim.
– O que você fez? – disse ela. – Não era para você ter feito...
– Sim, eu sei já me contaram. – eu disse. Estava com o rosto um pouco vermelho de vergonha.
Quando todos terminaram de comer, fomos ao Anfiteatro onde o chalé de Apolo liderou a cantoria. Cantamos canções estranhas sobre os deuses, e sobre acampamentos. Divertimo-nos e contamos historias. Meus olhos estavam quase se fechando. Com o estômago cheio, fiquei com muito sono.
Uma trombeta tocou. Era hora de dormir. Fomos em fila, cada um para o seu chalé. Queria dormir profundamente. Esquecer tudo aquilo de deuses e heróis gregos. Talvez fosse só um sonho ou coisa assim. Um sonho muito real.
Chegando ao chalé 11 deitei-me em meu saco de dormir, e fiquei pensando em tudo o que havia acontecido hoje. Será mesmo que aquilo tudo era real? Existiam mesmo monstros gregos e semideuses? Ou será só um bando de gente perturbada da cabeça?
– Ei – Israel estava olhando para mim do seu saco de dormir. – Sabe por que Clarisse não virou churrasco?
– Não. – eu disse. – Estava querendo perguntar isso para você.
– Bom, quando eu, de algum jeito, convoquei aquele raio, eu não queria... Bem, que matasse ela. Eu poderia ter feito isso, mas eu não quis.
– Ah. Pensei que ela fosse à prova de raios. – disse eu sorrindo. Israel riu baixinho. – Cara, estou com muito sono. – eu bocejei. – Boa noite parceiro.
– Ah, sim. Boa noite.
Assim que fechei os olhos, dormi instantaneamente. Assim, meu primeiro dia no acampamento meio-sangue não foi tão ruim. Foi só estranho.
***
Tive um sonho estranho àquela noite.
Eu estava em um navio. Um navio muito grande. Dois homens com lanças estavam andando pelo o navio, mas eles eram completamente estranhos. Eram altos e peludos, com focinhos animalescos. Usavam bermudas jeans, e os pés eram patas com garras. Tremi de medo. Olhei em volta, e não sabia explicar onde eu estava.
Segui os homens peludos pelo navio. Era um navio de cruzeiro, enorme e incrível. Havia piscinas e lanchonetes espalhadas pelo navio. Vários quartos grandes estavam com a porta fechada. Os dois homens peludos desceram umas escadas para a parte de baixo. Segui-os, e quando eles entraram em um camarote grande, eu parei. O lugar era lindo. Grandes janelas estavam abertas para a parte de trás do navio e davam uma visão linda do mar. Um tapete persa vermelho cobria o chão. A única coisa horrível que tinha naquele navio era um caixão grande dourado. Alguns desenhos estavam gravados nas laterais e eu não consegui saber o que era.
De repente, um cara entrou no camarote. Ele era alto, com os cabelos cor de areia e olhos azuis. Tinha um corpo atlético, e estava vestido com uma blusa azul de manga curta. Quando ele se virou, recuei um passo. Ele tinha uma cicatriz no lado do rosto, do canto do olho até o canto da boca. Logo fiquei com uma sensação ruim. Ele se aproximou do caixão dourado. De repente o caixão se abriu violentamente, e uma luz dourada brilhou iluminando tudo na sala. O cara que estava em pé de frente para o caixão foi sugado e ouvi um grito horrível vindo lá de dentro.
Acordei assustado. Israel estava me sacudindo.
– Ei cara acorda. Já é de manhã.
– Ahn... – Tentei falar, mas estava assustado com o sonho. Tentei afastar o sono. – Já é de manhã? O que aconteceu?
– Nada. Era só pra você acordar. Tudo bem?
– Ahn, sim, está tudo bem.
Depois que tomamos o café da manhã, fomos falar com Quíron. Ele nos disse que o jogo Capture a Bandeira seria hoje à noite. Só de pensar no jogo, lembrei o que Clarisse tinha dito ontem para mim. Quíron nos perguntou se já tínhamos nossas armas e equipamentos para o jogo.
– Armas e equipamentos? – perguntei.
– Provavelmente não. – concluiu ele.
– Para quê vocês precisam de armamentos? – perguntou Israel.
– Você verá. – disse ele com um estranho brilho nos olhos.
Quíron naquele dia mudou Israel para o chalé de Zeus. Durante o dia eu treinava em todas as atividades procurando algo em que eu fosse bom.
Treino com Arco e flecha, por exemplo, eu não era muito bom. Não sabia nem mesmo armar o arco, e muito menos atirar. Não tinha a habilidade dos filhos de Hefesto com as armas, nem o jeito de Dioniso com as vinhas, e muito menos a inteligência dos filhos de Atena.
Uma única coisa em que eu era mesmo excelente era canoagem. Não era grande coisa, mas eu gostava. Não sei por que, mas quando contei isso ao Percy, ele franziu a testa e ficou com uma expressão intrigada.
Depois Annabeth me ensinava grego. Não conseguia ler muita coisa, mas era mais fácil que Inglês.
Uma tarde, eu estava treinando esgrima na Arena, quando Percy veio me desafiando para uma luta.
– Ahn, não obrigado. – eu disse. – Não quero ser surrado.
Ele riu.
– Vamos. Só pra ver se você ganha alguma habilidade. Ou então está com medo? – perguntou ele. Todos olhavam para mim, esperando que eu lutasse.
– Mas quero que saiba, – disse eu. – que não sei de nada sobre esgrima.
– Tudo bem. – disse Percy.
Começamos a lutar. Percy veio pra cima de mim com sua espada. Saltei para longe. Aproximei-me dele lentamente, tentando não ser cortado. Percy tentou me dar uma estocada, mas bati minha espada na dele fazendo peso para baixo. Quase que a espada caía das mãos dele. Os outros campistas assistiam de longe. A luta continuou. Tentei lhe dar uma estocada também, mas ele deu um chute no meu peito e caí no chão. Eu estava suado, e respirando ofegantemente. A espada pesava em minhas mãos. Levantei-me quando ele vinha em minha direção. Nossas espadas se encontraram e retiniram uma na outra. Meus sentidos se aguçaram. Estava mais desperto. Fiz um corte no braço dele, girei e lhe dei uma cotovelada nas costelas. Ele se curvou.
– Desculpe! – disse eu. – Sinto muito...
Mas ele fez um corte em minha coxa, e eu caí de joelhos.
– Foi sem querer. – eu tentei me desculpar. Ele me empurrou com o pé e eu caí no chão. Todos aplaudiram Percy e eu. Estávamos ofegantes e suados. Ele se aproximou de mim.
– Nunca tenha pena de seu inimigo numa luta real. – ele enxugou o suor.
– Tudo bem, então. – eu disse. E lhe dei um chute por trás das pernas. Ele cai de costas ao meu lado. Todos pararam de aplaudir. Silêncio absoluto. Mas esse silêncio foi quebrado por mais palmas empolgantes. Percy e eu rimos. Ajudei-o a se levantar.
***
A noite chegou muito depressa. Após o jantar, todos estavam se preparando para o jogo Capture a Bandeira. Estávamos no pavilhão-refeitório e os campistas estavam agitados. Todos aplaudiram quando Annabeth e seus irmãos vieram ao pavilhão erguendo nas mãos um estandarte de seda. Tinha três metros de comprimento. Era prateada, com uma coruja bordada. Aplaudi juntamente com os campistas de Atena.
Por cima do barulho e dos aplausos gritei para Elissa:
– Essas são as bandeiras?
– Sim. – disse ela.
Nesse momento, Clarisse e dois de seus irmãos entraram do lado oposto do pavilhão com outro estandarte. Era do mesmo tamanho que o de Atena, só que vermelho, e uma lança sanguinolenta estava pintada.
– Nós vamos pegar a bandeira de quem? – perguntei.
– Atena e Ares quase sempre lideram as equipes. – disse Elissa. – Hoje nós vamos tirar a bandeira de Ares... de novo. – disse ela baixinho.
Foi quando eu notei que Israel não estava ali. Achei estranho e fui procura-lo. Pedi a Elissa que guardasse meu lugar.
Sai do pavilhão e procurei-o no chalé de Hermes. Não estava lá. Fui à Arena, o Anfiteatro, perto dos bosques... e nada. Estava escuro, e ele não estava em lugar nenhum. O som dos gritos animados dos campistas vindo do pavilhão. Fui procurar nos chalé de Zeus, mas enquanto eu estava indo em direção ao chalé, ouvi risadinhas e um barulho vindo do chalé de Afrodite.
Caminhei em direção ao chalé com receio. A porta estava fechada. O ambiente estava silencioso, a não ser pelos gritos e aplausos dos campistas. Toquei a maçaneta da porta. Escutei risos vindos de dentro. Respirei fundo e abri a porta lentamente. Espiei para dentro. Não vi nada de estranho. O chalé era muito elegante. Mas quando abri a porta um pouco mais, não pude acreditar no que estava vendo. Meu queixo caiu. Fiquei paralisado... enquanto olhava Israel e uma menina do chalé de Afrodite se agarrando e se beijando deitados na cama.
Meu coração ficou acelerado. Como foi que isso pode acontecer? Eu ainda estava lá parado feito um poste, quando a menina me viu. Ela arregalou os olhos. Israel olhou para trás e ficou agitado.
– Raphael? – disse ele surpreso. Percebi que ele estava sem blusa, com um lençol cobrindo o resto do corpo. E a garota... bom, não queira saber. Meu queixo caiu ainda mais. – O que... Como?... – ele tentou falar.
– Ah. Tudo bem. – falei embaraçado. – Ahn... Podem continuar... Eu acho.
Saí do chalé correndo em direção ao pavilhão. Pude ouvir Israel e a menina cochichando nervosos.
Ah meu Deus, pensei. Era só o que faltava acontecer.
Ainda estava correndo quando ouvi Quíron dando ordens para se prepararem para o jogo que ia começar.
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