E Se fosse verdade?

27 Lutamos contra um chihuahua


Notas iniciais
Olá galerinha. Desculpe a demora, mas é que eu não estava com muita criatividade esses dias. hehe. Mais ai está, espero que gostem.

Acordei com uns pingos de água caindo em meu rosto. Abri os olhos e vi Beatriz com a mão em minha testa. Meu corpo estava extremamente fraco. Estava me sentindo como se tivesse caído rolando de uma montanha. Tentei me levantar, mas minha cabeça doeu.

– Calma, não se esforce muito. – disse Beatriz. Um silêncio constrangedor. Ninguém falava nada, e eu sabia por que.

Jonathan me apresentou seu amigo que ele conseguira salvar do navio. Seu nome era Lauan.

“Ótimo. Mais um semideus com quem se preocupar.” Pensei.

Estava ficando escuro com a chegada da noite, e isso era muito ruim. Estávamos navegando no mar sem ter ideia de onde ir.

– Onde estamos? – perguntei. Minha voz estava grave.

– Não sabemos. – disse Grover timidamente. – Estamos boiando aqui faz algum tempo desde que você desmaiou.

O bote ia para cima e para baixo com o movimento das águas do mar. Eu estava começando a ficar com fome. E pior que a fome era a dor que invadia meu coração. Annabeth, Igor e Matheus... se foram. E minha mãe também. A culpa me fazia morrer lentamente. Se eu tivesse saído para procurar minha mãe antes, talvez ela estivesse aqui.

– Eles... morreram. – disse Dandara quase chorando. – Annabeth...

– Não! – soluçou Percy. Ele estava com os olhos vermelhos. Seu cabelo estava assanhado, e o braço que antes estava ferido, agora estava ótimo.

– É tudo minha culpa... – murmurou Israel fracamente. – Se eu não tivesse dado ouvidos a Luke...

– Ele iria matar você, cara. – disse eu. – Vocês fez o que era certo.

– Vocês ficam falando só da Annabeth, mas Matheus também morreu. – disse Marcos trêmulo. – E o outro menino também.

– Igor. – disse Dandara limpando uma lagrima que caía.

– Gente, temos que achar algum lugar para descansar. – falei, tentando impedir minha voz de falhar. – Está ficando escuro. E... estou ficando enjoado.

– Deixa comigo. – disse Israel.

Ele levantou as mãos, e o vento começou a ficar mais forte, nos empurrando para frente.

***

Alguns minutos depois, avistamos terra.

Israel já estava exausto de tanto ficar controlando o vento. Saímos do bote e adentramos uma estranha floresta. A escuridão aumentou. Mosquitos zumbiam ao redor do meu ouvido, e isso foi o bastante para me irritar.

– Estou com fome. – resmungou Marcos.

– Eu sei. – murmurei.

– Onde estamos? – perguntou Barbara.

– Numa floresta. – sorriu Jonathan. Ela revirou os olhos.

– Acho que ainda estamos em Fortaleza. – disse Stefferson olhando em volta.

– Precisamos comer. – resmungou Grover.

– Sim, vocês precisam mesmo comer. – disse uma voz.

Virei-me e vi um cara usando uma jaqueta de couro vermelha. Óculos escuros e cara cruel.

– Ares. – falei, começando a me irritar novamente.

– Ares? – murmurou Israel impressionado.

– Olá pessoal. Como vocês estão? Pelo visto se saíram bem na missão que lhes dei.

– “Se saíram bem?”. – murmurou Dandara. – Annabeth, Matheus e Igor morreram! A mãe de Raphael também!

– É, eu vi. – disse ele friamente. – Sinto muito.

Não podia acreditar que tivesse ouvindo aquilo. Eu teria avançado pra cima dele com minha espada, mas tentei me conter.

– Por que você não os ajudou? – rosnei.

– Ares não ajuda ninguém. – disse Percy fechando as mãos. – Não sei pra quê você veio até aqui seu “fugitivo de cupido”.

Franzi a testa. Fugitivo de cupido?

– Calma galera. – sorriu o deus. – Vim aqui para ajudar vocês. Uma recompensa por terem conseguido fazer o que mandei. Estão precisando de comida não é?

– Não quero nada de você! – gritou Percy. Eu também não queria nada desse deus insensível e estúpido (espero que ele não esteja ouvindo), mas se ele fosse fornecer comida para a gente...

– Ok. Sim, precisamos de comida. Por favor, senhor Ares, estamos fracos.

Percy olhou pra mim como se eu estivesse louco.

– Muito bem, pirralhos. – disse ele. E estalou os dedos. Em um segundo me vi sentado em uma cadeira, num restaurante que ficava dentro de um shopping enorme. Todos os meus amigos estavam ao redor da mesa junto comigo. O garçom veio trazendo uma bandeja com cheeseburgues, sucos e batatas fritas.

Olhei para os meus amigos sem entender nada.

– Bem, acho que ele não é assim tão mal? – murmurou Lauan olhando para a comida.

Percy estava muito abalado. Eu sabia que ele gostava da Annabeth. E agora que ela morreu... Não. Ela não pode ter morrido assim simplesmente. Tinha de haver um jeito de eles escaparem, certo?

Lembrei-me do que a empousa dissera: “Adeus para vocês três. Uma vez que chegarem lá embaixo, não haverá saída.”.

Por que a nossa vida tinha de ser tão complicada e perigosa? Resolvi deixar o problema de lado e desfrutar da comida. Estava uma delicia.

– Hum... O bom é que não precisamos pagar. – sorriu Jonathan.

Stefferson e Marcos comiam sem vontade. O olhar deles estava distante.

Depois de a gente ter comido até não poder mais, fizemos um breve passeio pelo o shopping. O cheiro do ar condicionado era ótimo. Milhares de pessoas passavam olhando roupas, peças em exposição e outras coisas. Algumas passavam e nos olhavam de cima a baixo. Acho que a gente estava parecendo adolescentes abandonados da rua, com as nossas roupas amassadas, sujas e fedorentas.

Estávamos nos divertindo um pouco, quando Grover, sem querer, esbarrou numa senhora gorda que estava passeando com seu cachorrinho. O boné rastafári dele caiu, deixando aparecer os pequenos chifres por um momento.

– Ah, desculpe. – disse ele, se abaixando para pegar o boné e pondo na cabeça rapidamente.

– Tudo bem, querido. – respondeu ela. – Não tem problema.

O cachorrinho dela, um chihuahua, começou a latir pra nós. Eu nunca gostei de chihuahuas. Então, sorri para a senhora e segui em frente.

– Tão fofo aquele cachorrinho. – disse Beatriz.

– Ele parece um rato grande. – resmungou Lauan.

Percy veio para perto de mim.

– Ah, droga! – murmurou ele. – Aquela senhora gorda com aquele chihuahua significa: “Problemas a vista”.

– Por quê? – perguntei. – São monstros?

Percy assentiu.

Era só o que faltava. Será que não dava para a gente descansar só alguns minutos?

– Então temos que ir. – falei. – Vamos para algum lugar onde podemos passar a noite.

***

Adentramos ao bosque onde já estivéramos antes. Ninguém estava a fim de dormir lá, mas era o único lugar. E eu não estava querendo ser o líder do grupo, afinal de contas, eu não conseguia liderar nada.

Já estava com saudades da minha mãe e dos meus amigos. Se eu desse espaço para pensar a esse respeito, iria começar a chorar.

– Como vocês conseguem dormir em um bosque? – perguntou Barbara fazendo uma careta.

– Nós nos acostumamos. – respondeu Grover. Ele bocejou. – Que tal vocês me acordarem se precisarem de algo? Vou dormir.

Disse a ele que poderia ir em frente. Nos assentamos na grama e ficamos olhando o lugar em redor. O ar estava úmido. Pensei em acender uma fogueira, mas isso poderia atrair monstros. E isso eu não queria.

Barbara e Beatriz estavam tentando se sentirem confortáveis da melhor forma possível. Israel estava sentado ao lado delas, só de olho.

Stefferson e Marcos estavam sentados um do lado do outro, e conversavam sobre alguma coisa. Jonathan e seu amigo Lauan também conversavam, mas em tom baixo.

Fiquei relembrando as nossas lutas. Grover derrubando a medusa no chão. Annabeth matando a manticore. Igor e eu lutando no ferro-velho, e Percy matando o gigante que fez a ponte desmoronar. Meus sentimentos estavam tão bagunçados e confusos que eu senti vontade de sumir dali. Ir pra qualquer lugar, longe de monstros, deuses e semideuses.

– Ei, cara. – disse Percy vindo ao meu lado. – Tudo bem?

– Tudo. – falei. – E você?

– Estou bem.

Um silêncio constrangedor. Não sabia sobre que assunto falar com Percy.

– Me desculpe por ficar daquele jeito no navio. – disse ele. – Eu... estava em choque.

– Tudo bem cara. – falei dando uns tapinhas nas costas dele. – Eu entendo. Tomara que aquela explosão tenha matado Luke.

– Eu também espero isso. – murmurou ele. – Ah, céus! Esquecemos de mandar a mensagem de íris para Quíron, sobre o ataque ao acampamento.

– Mas o navio explodiu. – disse eu. – Isso quer dizer que eles não vão poder atacar.

– Não! Sempre tem alguma armadilha. Pode haver outros monstros que saibam do ataque.

Ouvimos um barulho de galhos se quebrando. Por instinto, puxei a antena do meu mini celular. Percy destampou sua caneta. Stefferson, que ainda não havia dormido, pegou uma pedra grande do chão. Estávamos prontos para atacar, quando a senhora gorda que vimos no shopping saiu de dentro dos bosques.

– Oh! Olá meninos! – saudou ela.

Instantaneamente desconfiei dela. Eu me lembrei da outra senhora que saiu de dentro do bosque, fingindo ser boazinha. Não saiu nada bem.

– Olá. – disse Stefferson.

– Posso me sentar com vocês? – perguntou. O chihuahua que estava com ela começou a latir.

– Olhe, só vamos dizer uma coisa. – falou Percy apontando com a espada. – Saia daqui. A Não ser que queira ser transformado em pó.

– Que é isso cara? – perguntou Stefferson surpreso. – Calma ai.

– Calma nada. Ela não é uma senhora normal.

O chihuahua latia sem parar. Imaginei que ele fosse se transformar em um ser gigante carnívoro ou coisa assim. Tínhamos que acordar o resto do pessoal antes que eles atacassem.

– Hum... isso não foi muito amigável. – resmungou ela. – Eu estou perdida no meio desses bosques. Preciso de ajuda.

– Hã... deixe a gente em paz. – disse eu. – Por que você não vai comer outros semideuses que não sejam nós?

A mulher gorda riu.

– Certo. Chega de fingir.

E nesse momento o chihuahua começou a crescer. E cresceu até ficar da altura de um ônibus. A mulher gorda começou a gargalhar.

– Era o que eu temia. – murmurei. O chihuahua agora era um monstro terrível. Cabeça de leão com um corpo de bode, e no lugar do rabo, havia uma serpente.

– Olá outra vez Perseu Jackson. – sibilou ela. – Sentiu falta de mim?

– Sinceramente... sim. – respondeu Percy. – Senti falta de transformar você em pó.

– O... que... é isso? – perguntou Stefferson trêmulo.

– Quimera. – disse Percy.

– Que merda?

– Não! Quimera!

O monstro soltou um rugido que fez acordar o resto dos meus amigos. Barbara e Beatriz gritaram e correram até nós junto com Marcos. Dandara ficou paralisada olhando para a Quimera. Grover se levantou rapidamente, caiu no chão, se levantou novamente e correu até nós. Jonathan e Lauan correram para trás da gente.

– Que... que bicho... é esse? – berrou Marcos.

– Oh! Tanta comida para você filho. – sorriu a mulher para o seu cachorro selvagem. – Pode se servir.

Em um segundo o monstro saltou para frente e soltou uma coluna de fogo da boca. Todos se separaram aos gritos. Eu não tive tanta sorte. O fogo pegou em mim, e eu comecei a gritar correndo em círculos enquanto o fogo estava sobre o meu corpo. De inicio não era nada quente, depois foi ficando morno, quente, extremamente quente, escaldante.

Rolei pelo o chão tentando apagar o fogo. De repente uma onda saiu num sei da onde, e me encharcou por completo, apagando o fogo.

A mulher gorda gargalhou.

– Está tão divertido desde a ultima vez.

– Quem é essa louca? – perguntou Beatriz.

A Quimera soltava chamas por todo lado. A grama e as arvores estavam incendiadas. Percy saltou para o lado e tentou atacar a mulher, mas a cauda de serpente da Quimera não deixou.

– Agora eu sei quem é ela. – disse Marcos. – É Equidna. Lembro-me de minha professora ter falado sobre isso na aula de historia.

– E eu quero saber quem é ela? – rosnou Stefferson. – Temos que mata-la.

Ele avançou e jogou a pedra diretamente no olho do monstro, que rugiu de dor. Ele lançava fogo tentando nos queimar. Nós tínhamos que ter algo para detê-la.

– Gente, acabei de ter uma ideia. – disse Grover ao longe.

Rolei para o lado escapando da boca da Quimera.

– Que ideia?

Israel levantou sua espada para o céu, e convocou um raio. E teria pegado na Quimera em cheio, mas ela saltou para frente avançando cruelmente em cima de nós.

– Que pena. – resmungou Equidna. – Eu deveria ter comprado um lanchinho para assistir a este espetáculo.

– Pois você vai ter o seu lanchinho. – disse Percy. Ele se concentrou, e ergueu as mãos em direção a Equidna. Nesse momento, uma onda invadiu o local. Percy direcionou a onda bem em cima da mãe da Quimera. Ela se debatia e se engasgava com a água. Quimera se virou para nós. Os olhos cheios de ódio.

– Vão se arrepender. – rosnou ela. Fiquei ainda mais assustado quando ela falou.

Marcos pegou um galho de uma arvore e arremessou contra o monstro. Impressionantemente, o galho conseguiu penetrar dentro do pescoço da Quimera. Ela rugiu de dor. Grover começou a tocar sua flauta, e pedras começaram a se levantar do chão, pairando no ar, e atingindo fortemente o chihuahua gigante. Avancei em direção a ela por trás, e num golpe de minha espada, consegui cortar a cabeça da cobra.

Beatriz gritou:

– Pare!

O monstro obedeceu, e ficou imóvel. Vi a chance que eu tinha, e rolei por debaixo das patas dela e enfiei a espada em sua barriga. Em um rugido, a Quimera se foi.

– Não! – gritou Equidna. – Seus malditos. Vocês vão pagar por isso.

Antes que pudéssemos fazer algo, ela simplesmente desapareceu.

– Eu... ainda não me acostumei a isso. – murmurou Barbara em pânico. – Aquele chihuahua se transformou naquele monstro terrível.

Ficamos em silêncio. Eu estava extremamente cansado de ficar lutando toda hora. Estava cansado de ficar sujo e fedorento. Queria voltar para o Acampamento Meio-Sangue. Olhei para os meus amigos. Todos estavam trêmulos e receosos. Não podia culpa-los.

– Temos que descansar. – disse Percy. – Amanhã será mais um longo dia.

Eu não sabia se conseguiria dormir, mas concordei. Nos sentamos em círculos e nos preparamos para dormir.