E Se fosse verdade?
28 Entramos em um buraco
Se eu tivesse tido a oportunidade de desejar alguma coisa antes de dormir, teria desejado não sonhar.
Mesmo eu tendo sonhado muitas e muitas vezes, aquilo foi bastante assustador.
Sonhei que eu estava no acampamento. O sol brilhava em um céu limpo. Os campistas andavam felizes por todo o lado fazendo suas atividades normais. Comecei a me sentir bem, eu estava de volta em um lugar seguro. Vi Annabeth andando com Percy de mãos dadas, e não sei por que, senti uma pontada de ciúme.
Olhei para o lado, e vi Igor e Matheus acenando para mim do lago de canoagem, me convidando a se juntar a eles. Fui até lá. Mas, no meio do caminho, o céu escureceu. Tudo ficou numa escuridão absoluta. De repente, Igor, Annabeth e Matheus estavam do meu lado. E eles gritavam pedindo a minha ajuda. Imploravam para que eu os salvasse. Nesse momento, alguma coisa começou a suga-los para trás. Eu fiquei desesperado. Meu coração estava em pânico. Tentei correr até eles, mas eu não me mexia.
Annabeth erguia as mãos para mim gritando. Foi quando o chão se abriu abaixo deles, e num instante, os três caíram para dentro da terra. Olhei para o lado, e vi um exército de monstros invadindo o acampamento. Eles destruíam tudo que via pela frente. Os chalés, o pavilhão, a casa grande... tudo era transformado em entulho.
De repente, uma voz gélida e ancestral ecoou pelo o vale do acampamento.
Veja o que você fez. – provocou a voz. Eu já havia ouvido essa voz antes. Era Cronos, o titã do tempo. – Tudo isto é culpa sua. Você abandonou seus três amigos. Deixou eles morrerem. Seu acampamento será invadido pelo meu exército em poucas horas, e você é o culpado disso tudo.
Cronos riu.
Poderia ter sido diferente se você tivesse se juntado a mim. Nada disso teria acontecido. Ainda teria seus amigos com você, mas escolheu seu próprio caminho. Então terá que aceitar as consequências. Não tem mais volta. Prepare-se para a batalha pequeno meio-sangue.
Dito isso, ele deu outra risada fria e o sonho se dissolveu.
Acordei assustado e suando frio.
Olhei em volta. Ainda estávamos no bosque dormindo. Percy estava acordado juntamente com Israel e Dandara.
– Raphael, o que foi? – perguntou Israel.
– Eu... – tentei falar, mas estava tão assustado com o sonho que minha língua travou.
– Você teve um sonho? – adivinhou Percy.
– Depois eu conto.
– Cara, estávamos conversando a respeito de uma coisa. – disse Israel. – Uma coisa bastante incrível.
– O que é? – quis saber.
– Enquanto vocês estavam dormindo, fomos ver se deixavam pelo menos a gente usar o banheiro do shopping para tomar banho. Mas é claro que não deixaram. Então, eu...
– Ele pegou umas roupas “emprestadas” do shopping. – falou Dandara.
– O quê? – disse eu. – Cara, como você pode ter feito isso? É roubo.
– Mas eu deixei dinheiro no balcão de lá. – retrucou ele.
– Ah, bom.
– Deixei dez reais que achei.
– Hã? Dez reais?
Atrás de mim Barbara murmurou:
– Dá para falarem mais baixo? Estou tentando dormir.
Foi quando percebi que Jonathan e Lauan não estavam mais ali.
– Onde está Jonathan e o Lauan?
Percy olhou para Israel, que olhou para Dandara. Alguma coisa tinha acontecido. Dandara olhou pra mim e disse:
– Raphael... É, não sei como dizer isso. Mas eles foram comidos vivos por insetos rastejantes.
– O quê? – exclamei.
– Não! – disse Percy segurando o riso. – Não foi isso.
– Mas você disse...
– Eu disse isso brincando. – concluiu Percy. – A verdade é que... Não sabemos o que houve com eles. Quando acordamos, eles já haviam sumido.
– Como? Eles não podem ter sumido assim simplesmente. – falei. Estava começando a pensar o pior.
– Talvez eles tenham fugido. – sugeriu Israel. – Foi por isso que saímos, para procurar por eles.
Eu já estava começando a me sentir angustiado. Logo de manhã isso acontece. Não podia nem ter uma noite de sono tranquila.
– Mas não era isso que eu queria falar. – murmurou Israel. – Era outra coisa. Quando estávamos procurando por eles, achamos um tipo de caverna.
– Não é uma caverna. – disse Percy. – Já disse que é o labirinto.
Israel riu.
– Que labirinto seu bêbado? Se fosse um labirinto seria cheio de curvas e de coisas para nos enganar.
– Você nem entrou nele. Como vai saber?
– Você que não nos deixou entrar.
– Por que se vocês entrassem a entrada iria se fechar. Dã!
– Ok. Esperem ai! – interrompi. – Eu não estou entendendo nada! Que negócio é esse de caverna e labirinto?
– O labirinto de Dédalo. – disse Percy com um tom soturno. – Nós o encontramos. Eu sei por quê... Annabeth vivia me falando sobre ele.
– Perdi o sono. – murmurou Grover atrás de mim. – O que temos para comer?
– Por enquanto nada. – murmurei. – Mas, o que esse labirinto faz?
– Bem... pelo que Annabeth me contou, ele é como uma segunda pele embaixo da terra. E funciona como um caminho mais rápido para se chegar aonde deseja. Era a onde o Minotauro era mantido preso.
– Sim, eu me lembro dos mitos. – falei.
Israel ficou olhando pra mim.
– Acredita nele cara? – murmurou ele.
– Hã... sim.
– Eu acho melhor a gente ir rápido. – avisou Percy. – A passagem não vai se manter aberta por muito tempo.
***
– Tem certeza de que isso é seguro? – resmungou Barbara.
Estávamos todos em frente ao tal labirinto. O lugar ao redor era cheio de coisas velhas e enferrujadas. Pessoas passavam andando a poucos metros da gente. A entrada era um pouco inclinada para baixo. Havia correntes soltas ao redor da porta, como se alguém tivesse cortado elas para poder entrar.
Olhei lá para dentro, mas não vi nada.
– Isso é um labirinto? – perguntei.
– Sim. – disse Percy.
Grover fez som de repulsa.
– Tem cheiro de subterrâneo. Um cheiro bastante desagradável para os sátiros.
– Para o quê? – perguntou Beatriz.
– Sátiros. – respondeu Grover.
– E o que é isso?
Grover levantou uma parte da sua calça, e tirou os cascos de dentro do sapato falso.
– Isso é um sátiro.
Beatriz deu um grito estridente. Percy pediu para que Grover colocasse de volta o sapato.
– Vamos entrar. É o único jeito. – murmurou Percy.
– Eu não vou entrar ai. – resmungou Grover.
– Deixe de ser medroso. – disse Stefferson.
– Não sou medroso.
A verdade é que eu também não queria entrar. Só de ver o quanto o lugar era escuro, já me dava calafrios.
– E... pra onde nós vamos quando entrarmos? – perguntei.
– Hã... Bem, eu ainda não pensei nisso.
Dandara bateu palmas.
– Como nós vamos ver o caminho sem luz? – disse Marcos.
– Temos que arranjar alguma coisa. – Grover foi até a um canto, e voltou com um galho de uma arvore. – Podemos fazer uma tocha com isso.
Fazer uma tocha foi fácil. Israel só precisou fazer com que um raio acertasse a ponta do galho e pronto, a tocha estava acesa.
– Entramos? – perguntou Dandara nervosa.
– Sim. – respondi.
Percy foi primeiro, depois eu. O cheiro ali embaixo era de terra, misturado com água e lodo. Todos começaram a entrar. Quando todos nós já estávamos dentro, a entrada se fechou, como uma boca.
– Ah... meu Deus. – arfou Barbara. – Não estou conseguindo respirar.
– Pareceu que o labirinto sabia que estávamos entrando. – murmurou Marcos receoso.
Grover permaneceu parado no lugar com a sua tocha.
– Bem... Grover. – sussurrou Percy. – Vá em frente.
– Hã? Por que eu? – resmungou ele.
– Por que você está com a tocha.
– Ah, sim. É verdade. – ele engoliu em seco, e foi andando.
Estava totalmente escuro. Não conseguia ver nada, a não ser o fogo crepitando. Admito, eu estava com muito medo. Não sabia o que ia acontecer depois. Ouvia barulhos estranhos distantes.
– Galera, cuidado. – avisou Percy. – Annabeth disse que existem muitas armadilhas por aqui.
– E você vem dizer isso agora? – ralhou Dandara.
– Cara, você é tão esperto. – sorriu Stefferson.
– Mais esperto que você sim. – resmungou Percy.
– Só que não.
– Só que sim.
– Você é muito lerdo. – provocou Stefferson.
– E você é muito feio. – devolveu Percy.
– Ei, da para vocês pararem? – falei.
Stefferson parou de andar.
– Você que mandou parar.
– hahaha. Você é tão engraçado. – disse eu. – Olhe, estou rolando de rir.
– Cala a boca e ande. – disse Stefferson.
– Venha calar. – desafiei.
– Parem! – gritou Marcos. Seu grito ecoou pelo o labirinto. – Vocês estão agindo feitos crianças.
Voltamos a andar. Grover iluminava a nossa frente, mesmo não gostando disso. De repente o lugar se abriu, e percebi que estávamos dentro de um tipo de salão. O teto era muito alto. As paredes eram velhas e desgastadas. Olhei para o piso, e vi desenhos pintados nele. Desenhos dos deuses.
– Será que aqui embaixo tem monstros? – perguntou Israel.
– Não sei. – falei. – Olhem!
A nossa frente havia três tuneis diferentes. Um ia para frente, outro para a esquerda, e outro para a direita.
– E agora? Qual desses? – sussurrou Marcos.
Percy destampou sua caneta, e contracorrente apareceu. A lâmina lançou um leve brilho nos túneis.
– Já sei como escolhemos. – disse Percy. Ele apontou o dedo para o túnel da frente. – Mamãe mandou eu escolher este daqui, mas...
– Claro que não! – exclamou Israel. – Grover, por que você não vai na frente e vê qual dos três é o melhor?
– Não! É muito perigoso. – falei. – Vai que tenha alguma armadilha.
– Se não arriscarmos... – Israel foi interrompido por um barulho vindo de um dos túneis. Todos nós ficamos em guarda. Saquei minha espada.
– Que barulho foi esse? – perguntei. Foi quando algo passou por mim na velocidade de um jato.
– Ai! – gemeu Marcos. Ele caiu no chão segurando seu braço. Olhei, e vi que havia uma flecha cravada em seu braço direito.
– Marcos! – gritou Stefferson.
Outra flecha passou zunindo, e atingiu Stefferson no ombro.
– Aargh! – berrou ele.
– Se abaixem! – gritou Percy.
– Ah, meu Deus! – exclamou Beatriz.
Flechas passavam acima de nós quando nos abaixamos. Nesse momento, alguém saiu de dentro do túnel da frente.
– Ora ora, o que será que temos aqui? – falou uma voz feminina.
Olhei para cima, e vi uma garota com um cabelo preto e comprido, cobrindo a metade de seu rosto. Usava uma jaqueta surrada, e calças jeans pretas e rasgadas na parte do joelho. Pensei que ela estava sozinha, quando mais cinco garotas saíram do túnel de trás dela.
– Bem, acho que temos alguns prisioneiros aqui. – disse ela com um sorriso torto.
– Quem é você? – perguntei.
– Meu nome é khamis. A protetora do labirinto.
– Khamis? – sussurrou Israel. – Que nome ridículo.
A garota atirou uma flecha que se cravou no chão, a poucos centímetros do rosto de Israel.
– Tome cuidado garoto desprezível. Você não sabe com quem está lidando.
Ela andou em nossa direção, nos olhando como se fôssemos lixos no chão.
– Vocês virão comigo. – disse ela com frieza. – Sem reclamar, e sem falar nada. Se não obedecerem, vou lhes mostrar como eu trato os prisioneiros rebeldes.
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