E Se fosse verdade?
35 Fazemos uma visita a uma casa de Aranhas
Notas iniciais
Por mais que eu temesse estar de voltar ao labirinto, estava feliz por finalmente termos saído da mira daquele assaltante. Meu coração estava acelerado. Os sons dos tiros ainda ecoavam em minha mente. Ficava pensando na sorte em que tivemos de encontrar bem ali uma passagem para o labirinto. Eu não estava me sentindo seguro ali, mas pelo menos estávamos a salvos.
A escuridão estava espessa ali. Parecia que estávamos no vácuo. O único som que se ouvia era o da nossa respiração ofegante. O chão a onde estávamos era irregular. Toquei nas paredes e percebi que eram feitas de tijolos.
– Bem, Annabeth. – murmurei. – Você quis estar de volta ao labirinto. Aqui estamos.
– Está tão escuro. – sussurrou Grover.
– Calma, vamos andar cautelosamente. – disse Annabeth. Demos os primeiros passos. Não houve nenhuma armadilha para nos pegar.
– Continuem andando. – insistiu ela.
– Uma vez, – contou Percy. – Luke disse que quanto maior for o grupo que estiver andando pelo o labirinto, maior a possibilidade de se perderem.
– O quê? – exclamou Beatriz.
– Isso, continue fazendo a gente se sentir bem. – resmungou Israel.
– Estou cansado. – murmurou Igor.
– Se fosse só você. – retruquei.
De repente, uma pequena luz amarela apareceu ao longe.
– Opa! O que é aquilo? – perguntou Dandara.
Comecei a sentir cheiro de fumaça, e a ouvir o som de uma fogueira crepitando. Será que alguém estava acampando ali?
– Deve ser fogo. – falei.
Andamos em direção à luz, e com certeza era uma fogueira. O caminho estreito onde estávamos se abriu em uma sala. Não sei por que, mas eu estava reconhecendo aquele lugar.
– Alguém se esqueceu de apagar o fogo. – disse Annabeth.
Olhei em volta. Tive o pressentimento de que eu já havia estado ali.
– Ah, pronto! Vamos acampar aqui. – decidiu Barbara. – É um ótimo lugar, e tem fogo.
– Por mim tudo bem. – Igor deu de ombros.
Annabeth logo se sentou no chão perto da fogueira.
– Realmente estou cansada. – ela estralou as costas. – Preciso dormir.
Nos acomodamos para dormir, se é que se pode acomodar em um chão sujo e duro. Quando me deitei, meu corpo pareceu agradecer. Senti um alívio. Meus olhos estavam ardendo. Eu comecei a sentir angustia de uma hora para outra. Uma sensação de ansiedade, de preocupação e desânimo tomou conta de mim.
Calma. Falei para mim mesmo. Só durma. Amanhã vai estar tudo bem.
Mas alguma coisa me incomodava no fundo do coração. Alguma coisa extremamente importante. Olhei para o lado, e vi Israel conversando com Barbara. Meus sentimentos estavam uma loucura. Comecei a ficar zangado pelo o fato de Israel estar falando com a Barbara. Então fiquei com raiva por eu estar zangado com aquilo. Fechei os olhos e tentei organizar minha mente.
– Ei. – disse Igor sentando ao meu lado. – Tudo bem?
Suspirei.
– Não.
– Por quê?
– Alguma coisa está me incomodando. Não sei o que é, mas sei que é importante. É como se... eu tivesse deixado algo para trás, como se estivesse me esquecendo de algo.
– Como aquela garrafa térmica de vento? – perguntou ele.
– Como você sabe disso?
– Percy me contou.
– Pois é. – resmunguei. – Hermes me deu aquela garrafa para nos ajudar na viagem, e o que eu faço? A esqueço.
Igor pareceu entender.
– Eu também já passei por isso. Eu me esquecia de coisas realmente importantes, como as provas da escola, trabalhos e etc... Eu não conseguia ficar parado por muito tempo na cadeira da escola, quer dizer, eu ainda não consigo. Começo a me sentir impaciente e irritado quando fico parado.
Assenti. Eu me identifiquei bastante com aquilo que ele dissera.
– Minha mãe dizia que isso faz parte do TDAH. – disse eu.
– Pois é. É isso que eu queria dizer. – ele olhou para cima. – Todos nós temos esse problema.
Ficamos em silêncio por alguns minutos.
– Hã... é verdade que você beijou a Annabeth? – perguntou Igor baixinho.
Olhei para ele.
– Cara, o Percy está te contando tudo é?
Ele sorriu.
– Não. Mas ele me falou disso. Então... foi ou não? Safadinho.
– Foi, mas não fui eu quem beijou ela. – falei meio sem graça. – Ela que me beijou.
– Huumm... – Igor me olhou desconfiado.
– É verdade. Agora, se a entrevista tiver acabado, posso dormir?
– Claro. – Igor fingiu que estava segurando um microfone. – E assim a entrevista com o semideus Raphael Victor termina. Tenham uma boa noite, e não se esqueçam: Entrevistas de verdade, vocês só encontram aqui.
Dei uma risada.
– Bebeu quantas latas de cerveja hoje?
Virei-me, colocando a cabeça por cima dos braços, e fechei os olhos. Naquela noite, eu tive um sonho diferente e estranho.
Eu sonhei com a nossa luta contra a Medusa. Só que em vez de eu a matar, ela me matava. Depois o sonho mudou de repente, e sonhei com a Quimera, matando todos os meus amigos com o seu hálito de fogo. Após isso, visões das Fúrias e de outros monstros me fizeram acordar suando frio durante a noite.
Quando voltei a dormir, sonhei com o navio de Luke explodindo, e o rosto da minha mãe gritando de terror por entre as chamas. O sonho mudou, e vi Luke com seu exército de monstros, lutando contra uma porção de aranhas negras e peludas dentro do labirinto.
Acordei com um salto.
Minha mãe. Era isso. Era com isso que eu estava preocupado. Como eu pude se esquecer dela? Como eu pude ter feito isso? Nem mesmo o pior filho do mundo esqueceria. Eu havia me preocupado mais com os meus amigos do que com a minha própria mãe.
Que vergonha! Censurou minha consciência. Não se lembrou da própria mãe.
É que... com tantas coisas acontecendo... não deu.Tentei me justificar.
Um absurdo! Ralhou ela.
A culpa me fazia sentir tão pesado quanto uma tonelada de concreto. Eu nem sequer perguntei sobre ela, se ela havia sobrevivido.
Me levantei e fui para perto da Annabeth.
– Ei. – sussurrei, cutucando ela. – Annabeth?
– Hããã... – resmungou ela dormindo. Olhei para ela fixamente. Havia me esquecido de o quanto Annabeth era bonita. Balancei minha cabeça tentando tirar aquilo.
– Annabeth, posso fazer uma pergunta?
– Huumm... pode. – murmurou ela.
– Você sabe se minha mãe sobreviveu à explosão do navio?
Ela abriu os olhos.
– O quê?
– Se minha mãe... sobreviveu a explosão.
– Hã... eu não sei Raphael. Ela estava lá?
– Estava. – falei fracamente. – Presa em algum lugar.
– Sinto muito, mas... eu não a vi em nenhum lugar. – ela esfregou os olhos. – Por que você esta falando disso só agora?
– Por que eu me lembrei só agora. – murmurei, me sentindo culpado. – Aliás, eu tive uns sonhos loucos enquanto estava dormindo.
Contei tudo a ela. Quando cheguei à parte em que Luke estava lutando contra um bocado de aranhas, Annabeth arregalou os olhos.
– Aranhas? – falou ela atônita. Eu me lembrei de que Annabeth odiava aranhas. Sabia da historia entre Atena e Aracne, a mulher que fora transformada em uma aranha asquerosa por desafia-la.
– Bem, nós podemos desviar desse caminho. – sugeri. Ela relaxou um pouco.
– Mas... se Luke estava lutando contra elas...
Um barulho vindo atrás de nós a interrompeu. Um grunhido assustador seguido por um rosnado grave estava ecoando ao longe.
– Hora de ir embora. – sussurrei. Annabeth assentiu.
– Chame os outros. – pediu ela.
Enquanto eu acordava o restante dos meus amigos, Annabeth olhava para frente como se estivesse pensando em algo.
– O que houve? – perguntou Percy sonolento.
– Temos que ir embora. – respondi. – Tem alguma coisa monstruosa atrás de nós.
– Eu queria dormir mais. – reclamou Beatriz. Outro grunhido e rosnado, agora um pouco mais perto. – Estava brincando. – sorriu ela. – Não quero dormir mais.
– Vamos. – chamou Annabeth. Seguimos ela sem relutar. O estranho grunhido ficou mais alto assim que começamos a andar. Annabeth ia à frente, nos indicando a onde deveríamos ir. Em um momento, o chão ficou liso e escorregadio. Depois de alguns escorregões, quedas engraçadas e reclamações, conseguimos atravessar.
Em outro momento, um buraco grande apareceu á nossa frente. Havia umas barras de metal enferrujadas nos dois cantos das paredes. Fiquei morrendo de medo de atravessar, por que tenho um pequeno medo de altura. Ok... não um pequeno medo, um grande medo de altura. Tá bom... um enorme medo de altura. Especialmente quando se está em um lugar escuro, com um buraco grande em que não se da para ver o fundo. Israel ajudou Barbara a atravessar, e Beatriz foi com Matheus. Por que elas também estavam com medo.
Fui o último a atravessar. (Me cagando de medo, mas consegui. Obrigado).
Após isso, entramos em um corredor estreito.
– Annabeth, você sabe a onde está indo não é? – perguntou Grover.
Ela parou e olhou para ele.
– Bem... saber a onde estou indo eu sei. Para o acampamento. – ela sorriu.
– Engraçadinha. – murmurou Grover.
– Agora, se você estiver se referindo ao caminho pelo o labirinto... eu apenas sinto que devo ir naquela direção. Não sei bem exatamente a aonde vai nos levar, mas sinto que é o caminho certo.
– O caminho certo tem tantas coisas perigosas. – resmungou Igor – Imagina o caminho errado.
Foi quando o estreito corredor se abriu em outra sala grande. O teto era alto, com varias teias de aranha. Havia centenas de buracos do tamanho de uma bola de tênis nas paredes da sala. A parte mais horrível era o chão. Cheio de ossos espalhados por toda a parte. Caveiras e esqueletos estavam espalhados por todo o canto. Algumas caveiras tinham uma cor amarronzada, outras tinham a pele ainda sobre o crânio. O cheiro daquele lugar era de corpos em decomposição e de morte. O lugar me dava um desespero tão grande que me segurei para não sair dali correndo.
– Que lugar é esse? – perguntou Grover, tremendo de medo.
Ninguém respondeu.
– Vejam. – sussurrou Dandara.
No fim da sala, havia um pequeno túnel. Uma saída daquele lugar horrível.
Annabeth havia ficado pálida. Ela estava tremendo mais do que eu. De repente, um garoto saiu de trás da gente. Igor sacou suas duas espadas e apontou para ele.
– Quem é você? – perguntou.
– Opa! Calma ai! – disse o garoto levantando as mãos. Na mesma hora eu o reconheci. Era o espião de Luke, que vinha mantendo ele informado sobre nós.
– Você! – rosnei.
– Eu o quê?
– Você é o espião de Luke.
– Espera. – Percy franziu a testa. – Que espião?
Contei o meu sonho para eles.
– E você veio falar isso agora?
– Ah! Eu esqueci! – falei, irritado.
– Então o que vamos fazer com esse... – Percy se calou. Um barulho vinha de dentro das paredes. Alguma coisa se mexia lá dentro.
– O que é isso? – exclamou Barbara.
Nesse momento, centenas de aranhas pretas e grandes saíram de dentro dos buracos das paredes. Meu estômago gelou de pavor. Annabeth, Barbara, Beatriz e Dandara começaram a gritar de desespero. As aranhas saiam e saiam até que todas estavam fora. Elas fizeram um meio circulo asqueroso a nossa volta, nos cercando. Algumas tinham pelos e patas longas e grossas, enquanto outras tinham patas curtas e bundas grandes.
– Socooorro! – gritava as meninas. Elas se esconderam atrás de nós. Saquei meu mini celular e puxei a antena, que logo se transformou em uma longa espada. Percy, Israel e Igor também sacaram suas espadas. Stefferson, Marcos, Matheus e o garoto espião pegaram ossos do chão, para usarem como armas.
– Pelos deuses. – murmurei, de queixo caído. – Alguém aí tem um inseticida?
– Precisamos de um aranhacida, isso sim. – retrucou Percy de olhos arregalados.
As aranhas nos olhavam fixamente com aqueles olhos pretos. Nenhum de nós se movia.
– Afastem-se! – gritou o garoto espião.
Nesse momento, elas atacaram.
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