E Se fosse verdade?
4 Conhecemos um Centauro
Notas iniciais
Acordei em uma cama confortável, travesseiro fofo, e um pano úmido sobre minha testa. Olhei em volta para o lugar estranho em que eu estava. Israel estava ao meu lado, dando-me de comer alguma coisa que tinha gosto de pipoca com manteiga, mas era pudim. Achei estranho. Meu corpo doía, e meu braço direito estava com marcas de arranhões. Minha cabeça latejava.
– Você está melhor? – perguntou Israel pra mim.
– Acho que sim. – consegui falar. – Onde estamos?
– Naquele acampamento em que queríamos chegar. – disse Israel em tom soturno.
– Ah... certo. Ajude-me a levantar. – Ele me ajudou, e senti tontura na mesma hora. Fui para fora, e não compreendi o que vi.
Estávamos numa varanda de uma casa, mas de lá, dava para ver todo o lugar a nossa volta.
Uma campina verdejante com plantações de morangos. Havia colinas ao longe, que circulavam o lugar onde estávamos. Vários garotos e garotas estavam andando de um lado para o outro com armamentos. A maioria era adolescente como eu. Vi um garoto com um arco e flecha. Outro com uma espada. Olhei para o lado, e vi o grande pinheiro no alto da colina onde estivéramos. Um conjunto de “casas” estava disposto no formato de U.
O céu estava totalmente azul sem nuvens. Um riacho sinuoso estava por entre o acampamento. Todas as construções daquele lugar lembravam a arquitetura grega. Todos os adolescentes estavam com uma camisa laranja claro que dizia: ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE. Vi uma menina loira com olhos cinzentos andando com o meu amigo Grover. Os dois com a mesma camisa laranja. Tentei ignorar o fato de que ele era metade animal.
– Até que esse lugar não é tão ruim assim. – disse Israel olhando para a menina loira.
Eu estava me perguntando o porquê de minha mãe querer que eu não viesse para cá, e porque ela falara que aqui eu estaria seguro. Não via como eu estaria seguro aqui. Pelo o que eu estava vendo, não tinha nada que separássemos nós do lado de fora. Qualquer monstro poderia entrar aqui fácil. Era só cruzar o pinheiro. Eu estava começando a me sentir confuso e perdido, quando alguém disse:
– Ei.
Olhei, e vi Grover vindo até a mim.
– Você esta melhor?
Assenti.
– Sim, um pouco. Que lugar é esse?
– Você vai ver. Venha, precisamos que você conheça Quíron.
– Quíron? É o mesmo nome do cara que treinava heróis na mitologia grega. – disse Israel
Grover esboçou um sorriso.
– Sim é. Venha, vamos conhecê-lo.
A varanda da casa onde estávamos era enorme. Circulava quase a casa inteira. Andamos e andamos, até que chegamos a um local onde havia dois homens numa mesa jogando um jogo de cartas. O homem que estava de costas para mim estava numa cadeira de rodas. Lembrei-me de ontem, quando um homem veio em nossa direção com uma cadeira de rodas. Chegamos perto dele. Ele tinha uma barba desalinhada e grande. Olhos castanhos intensos. O Cabelo estava quase chegando aos ombros.
O outro homem que estava jogando com ele, era gorducho, e estava vestindo uma camisa havaiana com estampa de tigre. Cabelos muito pretos e o nariz meio avermelhado.
– Quíron – chamou Grover. – Este é Raphael e Israel.
O homem se virou e sorriu.
– Ah. Por favor, sentem-se.
Sentamos-nos. Sentei do lado de Quíron, e Israel ao lado do homem gorducho. Quando ele nos viu suspirou.
– Mais dois – murmurou ele. – bem, eu acho que eu deva dizer isso: Bem vindo ao Acampamento Meio Sangue.
– Obrigado. – falamos. Grover ficou em pé, do lado do homenzinho gorducho.
– Então... Vocês são irmãos. – perguntou Quíron para nós dois.
– Bem, quase né – falou Israel rindo, mas parou quando viu que ninguém ria. – Ahn... Somos apenas amigos.
– Sr. D posso comer sua lata de Diet Coke? – perguntou Grover.
– Comer a lata?
– Sr. D?
Israel e eu perguntamos surpresos. O tal sr. D olhou para nós com enfado.
– Se vocês forem ficar fazendo perguntas tolas, é melhor saírem daqui. – Israel se afastou um pouco dele.
– Vocês podem, por favor, nos dizer o que é este lugar? E o que nós estamos fazendo aqui? – perguntei. Quíron sorriu.
– Bem, vamos começar com o assunto. Vocês sabem que o amigo de vocês aqui é um sátiro.
– Opa! Sátiro? Aquele das historias gregas? – perguntei.
– Bem, sim. – disse Grover.
– Ah, eu pensei que ele era um mutante. – disse Israel. Grover o ignorou.
– Somos mandados disfarçados a varias escolas para ver se há possíveis meio-sangues. – disse Grover, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
– Meio o que? – perguntou Israel. – Espere... O professor Brayck quando se transformou naquele gigante feio, nos chamou desse mesmo nome. O que quer dizer?
– É como são chamadas as crianças ou adolescentes que são filhos de deuses. – explicou Quíron. – Ou então podem ser chamadas de semideuses. Esse é termo oficial.
– Semideuses? Aqueles heróis de quem o sr. James falava? – perguntei surpreso. – Como Perseu, Hércules, Teseu?
– Sim, esses mesmos. – falou Quíron. – Suponho que vocês já ouviram falar dos deuses gregos também.
– Ah sim. – disse Israel animado. – Como Zeus ou Apolo.
De repente, um trovão ribombou sobre nós. Mas o céu estava sem nuvens e limpinho. O sr. D parou de jogar as cartas.
– Rapazinho, os nomes são coisas muito poderosas. Então, tente não ficar soltando-os por ai.
– Por quê? O que tem de mais em dizer o nome de Zeus? – Outro trovão. Israel olhou para o céu.
– Ahn... Zeus? – Mais um trovão. Israel riu. – Apolo, Atena. – Trovões e trovões. Israel ria sem parar como se o trovão o divertisse. Comecei a rir também.
– Legal! – disse eu. – Poseid...
– Chega! – disse o sr. D irritado. Os olhos dele estavam com um fogo arroxeado, e me fez ver coisas horríveis. Homens virando golfinhos, e videiras enforcando pessoas até a morte.
– Vocês dois estão começando a revelar quem vocês realmente são. Moleques bagunceiros e presunçosos como aquele Peter Johnson.
– Ahn... Percy Jackson senhor. – corrigiu Grover.
– Tanto faz!
– Ahn, quem é o senhor? – perguntei.
Ele deu um grande suspiro.
– Você ainda não descobriu?
– Acha que eu estaria perguntando se eu soubesse?
Grover arregalou os olhos.
– O que você disse? – perguntou o sr. D com um olhar de ameaça.
– Ele é Dioniso – disse Grover.
– O deus do vinho? – falou Israel impressionado. – Você... É um deus grego? De verdade?
– Sim, criança. – afirmou o sr. D.
Não pude acreditar. Um deus grego estava ali, bem na minha frente. Não sei por que, mas sempre imaginei Dioniso caminhando como um bêbado sem rumo.
– Bem, vocês querem saber o que é este lugar não é? – disse Quíron ansioso para sair dali.
– Sim. – falei.
– Pois vamos andando.
Ele se levantou e começou a sair, literalmente, da cadeira de rodas. Ele usava uma roupa branca por baixo. Mas depois vi que não era roupa branca, era a parte de um animal. Ele estava ficando mais alto, e de repente, uma pata de cavalo saiu de dentro da cadeira de rodas. Israel e eu pulamos das cadeiras assustados.
– Meu Deus! – eu gritei apontando para a pata. – Cara, o que é isso?
– Você estava montado num cavalo ai dentro? – Israel falou surpreso.
Percebi que a parte de cavalo estava grudada, junto com a parte humana de Quíron. Até que um homem–cavalo saiu de dentro da cadeira de rodas.
– Não, eu... eu tenho que sair desse lugar. Ah meu Deus! – Eu estava começando a ficar assustado de verdade.
– Você é um centauro! – disse Israel admirado.
– Sim, criança. – falou Quíron calmamente.
– Quer dizer que... todos aqui são metade animais? – perguntei, pensando na menina loira e bonita que eu vira.
– Não, não. – disse Quíron rindo. – Só alguns de nós. Venham, vamos conhecer o acampamento.
***
Conhecemos o acampamento parte por parte. Fomos ao pátio de vôlei, onde varias crianças e sátiros brincavam umas com as outras. Vimos o lago de canoagem, e os bosques. A floresta era muito grande. Tomava quase que um quarto do vale. Com arvores altas e largas. Quíron nos contou que ali eles faziam um jogo que se chamava Capture a Bandeira. Disse que precisávamos estar equipados com espadas, armadura e escudo. Não sabia por que um jogo como esse tinha que estar todo armado.
– Então... O que é o Acampamento Meio-Sangue? – perguntou Israel. Quíron estava no nosso meio, andando com a sua parte cavalo calmamente.
– É um lugar de refúgio para todas as crianças ou adolescentes que descobrem que são filhos de deuses gregos. Ou seja, semideuses.
– Sim, mas... isso não existe. São historias gregas, são mitos que eles inventaram.
Quíron suspirou.
– Foi assim que todos aqui começaram, não acreditando nisso, chamando de mitos e historias. Mas acredite isso tudo é real.
– Mas como pode ser real? Esses deuses não existem. – insistiu Israel.
Quíron parou e olhou para ele.
– Você pode acreditar ou não. Mas com o passar do tempo, verá que você estava enganado. – Continuamos a caminhar.
– Quer dizer que... todos aqui são semideuses? – perguntei.
– Nem todos. Aqui também existem sátiros, ninfas, dríades e náiades que fazem parte do acampamento. Mas sim, a maioria aqui é meio-sangue.
Fiquei um pouco animado com isso, quer dizer, nesse lugar existiam mesmo filhos de deuses gregos. Filhos de Apolo, Poseidon, Atena... Etc.
– Então... eu sou um meio sangue? Ou estou só tendo um sonho com esse lugar?
– Você realmente é um meio sangue criança. Vocês dois.
– Sério? – disse Israel alegre. – Então de quem eu sou filho? Hem? Eu queria muito ser filho de Apolo, que tem flechas e sabe tocar música, ou então...
– Mas vocês ainda são meio-sangues indeterminados. – interrompeu Quíron.
– O que quer dizer isso? – perguntei.
– Quer dizer que ninguém sabe quem são seus pais olimpianos. São indeterminados.
– Então, o meu pai é um deus grego. – falei ainda impressionado com o que estava ouvindo. – Meu Deus, que loucura.
– Minha mãe sempre falou que meu pai tinha ido embora. – disse Israel um pouco triste. – Ela se casou com outro cara, que não se parece nem um pouco comigo. Um dia, perguntei a ela se eu era adotado, e ela me contou que eu era filho de outro homem, mas que ele precisou ir embora. Todos esses anos eu fiquei com raiva de meu pai.
– Minha mãe também contou que meu pai precisou sair numa viajem de emergência – disse eu. – E nunca mais voltou. Agora eu descubro que ele é um deus grego.
Ficamos em silêncio por uns minutos. Quíron nos mostrou o arsenal, onde todas as crianças de lá forjavam as suas próprias armas. Mostrou-nos o anfiteatro para cantoria, a arena para prática de lutas. Ele mostrou também o refeitório, que era um pavilhão a céu aberto, com colunas gregas. E depois os chalés.
– Esses são os chalés em que todos ficam. – disse Quíron. – Cada chalé é representado por um deus. Se você é filho de Atena, você fica no chalé de Atena junto com os demais.
Olhei para o primeiro que era maior que os outros, e mais bonito.
– Uau, esse aqui é muito massa. – Falei. – Parece que raios atravessam a porta. Deve ser o chalé de Zeus não é?
– Sim, isso mesmo.
– E olhem esse aqui do lado, – disse Israel. – É muito elegante também. E tem pavões nas paredes. – ele riu. – Deve ser o chalé de Hera.
– Correto. – falou Quíron.
Fomos adiante, para os outros chalés. Chegamos perto de um meio baixo, com pedras de praia incrustadas na parede, e tinha a cor azul clara. Achei-o bonito, por que minha cor favorita é azul.
– Ahn, por que não tem pessoas nesses chalés? – perguntei. – O chalé de Zeus está vazio. E esse também.
– Esse chalé está vazio agora. – disse Quíron. – Mas existe um campista que reside ai.
– Quem?
– Percy Jackson. O filho de Poseidon.
– Então esse chalé é o de Poseidon?
– Exatamente.
Cheguei mais perto do chalé. Tinha um odor salgado que vinha de dentro. Fez-me lembrar da brisa do mar, e a água da praia.
Passamos pelo o numero 4 que parecia uma casa que foi feita por grama, e tinha tomateiros nas paredes. O numero 7 parecia que era feito de ouro sólido, cintilava um reflexo dourado. O numero 5 era estranho. Era vermelho, e tinha uma lança desenhada sobre o chalé. A cabeça de um javali estava pendurada em cima da porta. Haviam meninos e meninas brincando e discutindo lá dentro. Diversos adolescentes passavam por nós e nos olhavam como se fossemos estranhos – e éramos mesmo. – Depois, vi novamente a menina loira, conversando e andando com um cara quase da minha altura. Ele tinha olhos verdes, e o cabelo preto. Tinha a aparência de ser bem simpático, mas também de irritante.
– Será que é o namorado dela? – perguntou Israel um pouco curioso.
– Já esta pensando nisso cara? – disse eu. Ele corou.
– Não, é que... temos que nos enturmar com as pessoas. Quíron, como eu vou saber quem é meu pai?
Ele alisou a barba.
– Seu pai tem de mandar um sinal a você, reclamando-o como filho. Ás vezes pode demorar um pouco, mas não se preocupe com isso.
Paramos diante do chalé 11. Era de um marrom deprimente, e a pintura estava se descascando. No alto da porta tinha um símbolo de médico, um caduceu, com duas cobras enroladas. Esse chalé era o mais lotado, com crianças correndo e brincando. Umas mal–humoradas, e outras sorrindo para mim. Quando viram Quíron, pararam e fizeram reverência.
– Vocês irão ficar aqui por enquanto. – disse Quíron. – Boa sorte. Não se preocupem, aqui somos uma grande família. Tenho que ir agora. Sintam-se em casa.
Ele partiu galopando. Israel e eu ficamos na porta sem saber o que fazer. Os garotos do chalé nos olhavam com um olhar brincalhão.
– Oi. – disse uma voz de menina. Virei-me, e dei de cara com a menina loira, e corei. Ela era muito bonita. Tinha os olhos cinzentos, o que era estranho. Nunca havia visto olhos cinza. Estava com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo. Israel estava quase chegando em cima dela.
– Ahn, oi! – eu disse um pouco tímido. – Tudo bem?
Ela riu.
– Tudo. Sejam bem vindos. Meu nome é Annabeth Chase.
– Ah, o meu é Raphael Victor.
– E o meu é Israel Rodrigues.
– Prazer. – disse ela. – Apresento a vocês o chalé onze!
Pensei que todos iam gritar: “Uhuuu”,ou então, “bem vindos!” Mas ninguém deu um pio.
– Normal ou indeterminado? – perguntou alguém do chalé.
– Indeterminado. – disse Annabeth. Todos gemeram. Eu não estava entendo nada. Entramos no chalé, mas Annabeth nos chamou.
– Venham, vamos conhecer o resto dos campistas.
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