E Se fosse verdade? 2
15 Recebemos uma carona
Notas iniciais
Eu não sabia como reagir diante daquilo. Poderia ter dito: “Como você sabe?” ou “Não estou nem aí.” Ou poderia ter simplesmente partido o corpo de Kayro em dois com o machado. Mas o que eu realmente fiz foi...
— E você acha que eu ligo pro que você fala?
Atingi-o na cabeça com o cabo do machado. Kayro ganiu de dor e se encolheu. Eu não conseguia ter o controle do meu corpo. Não sentia mais nenhum remorso por bater ou ferir meus amigos, e parecia não me importar.
— Bem, nisso você acertou, é realmente o Raphael que está por detrás da máscara.
— V-você está falando como se fosse outra pessoa. — disse Kayro.
— Cale-se! — Coloquei um lado da lâmina do machado embaixo de seu queixo. — Você não devia ter chantageado ele para deixa-lo ir nessa missão. Devia ter ficado no seu acampamento.
Kayro me olhou atordoado.
— Quem é você?
— Sou o cara que vai fazer dois pedaços de você. — Ergui o machado. Mas hesitei no ultimo momento. — Hã... Ah, deuses, o que... Estou fazendo?
Tentei soltar o machado, mas não consegui. Permaneci com o meu pé sobre o peito de Kayro.
— Não, eu não... Eu não vou mais fazer isso. Esse não sou eu. — Eu me encolhi, enquanto outra coisa tomava conta de mim. — Me deixa fazer então. Confie em mim, esse garoto só vai te atrapalhar. — Balancei a cabeça, tirando o pé de cima de Kayro. Cambaleei e gritei pondo as mãos atrás de minha cabeça. — Não! Você é que me atrapalha! Você é que deixa a minha vida uma porcaria!
— Kayro! — gritou Annabeth. — Raphael! Venham aqui! Socorro!
Kayro levantou-se, afastando-se de mim e correndo em direção a voz de Annabeth, enquanto eu rangia os dentes e puxava a máscara. Houve sons de trovões, relâmpagos e raios á minha volta. Fiquei puxando, mas ela parecia estar resistindo.
— Aaaahhh! — gritei. — Sai de mim!
Finalmente ela despregou-se e caiu no chão. Eu estava de joelhos respirando ofegantemente e me sentindo horrível. Minhas mãos tremiam. Levantei-me e corri em direção a Annabeth.
Chegando lá, a primeira coisa que vi foi Kayro ajoelhado sobre Percy, que estava com a cabeça sobre o colo de Annabeth, tremendo e emitindo gemidos. Annabeth estava chorando sem cessar, enquanto Kayro tirava de dentro da sua mochila, néctar, e derramava um pouco em cima de um buraco que estava na barriga de Percy. Ele deu um gemido de dor.
Quando vi aquilo, mal pude acreditar.
— Ah, deuses! — exclamei. Ajoelhei-me perto dele. — Percy! O que aconteceu?
— Aquele louco da cara verde fez isso! — gritou Annabeth, a voz embargada pelo o choro.
Foi ai que me lembrei do que havia acontecido. Eu havia enfiado a espada na barriga de Percy. Eu havia feito aquilo. Não conseguia entender como eu tive a coragem de fazer aquilo com meu amigo.
— Onde vocês estavam? — perguntou Annabeth.
— Depois nós explicamos. — disse Kayro, com os olhos fixos em mim.
Eu não o encarei. Ainda estava em choque sobre o que eu havia feito. Uma raiva como ácido começou a crescer em meu peito. Aquela máscara... Aquela coisa maldita havia feito aquilo.
Levantei-me abruptamente e corri em direção a onde a máscara estava caída. Peguei-a do chão e corri, adentrando a floresta.
— É tudo culpa sua! — gritei. Joguei-a no chão e comecei a pisar em cima. Mas ela não sofreu nenhum dano. — Ah, é? Querendo brincar?
Puxei a antena do mini celular. Coloquei a máscara no chão, ergui a espada e a desci com toda a força em direção a ela. Surpreendentemente, a lâmina ricocheteou sobre a superfície. Isso me deu ainda mais raiva.
— SUA MÁSCARA IDIOTA! — berrei. Fiquei atingindo-a constantemente com a espada.
Nada aconteceu.
Peguei-a do chão e me preparei para jogá-la o mais longe possível, mas uma voz disse:
O que está fazendo? Isso não resolve as coisas. Relaxe, e tudo ira dar certo.
Rangi os dentes.
— Não vou dar ouvidos a você, sua imbecil! Vá para o Tártaro!
Mas eu me interrompi. Outra ideia me ocorreu. Ajoelhei-me e comecei a cavar.
— Você vai ser enterrada!
Cavei e cavei até meus dedos começarem a doer. Joguei a máscara dentro e a enterrei, me sentindo ótimo.
Levantei-me e sacudi a areia das minhas roupas e mãos.
— Perfeito.
Voltei até onde estavam meus amigos. Kayro estava com um pano em cima do ferimento de Percy, que gemia e dizia:
— Lembre-me de não causar raiva naquele cabeção demoníaco.
Annabeth sorriu.
— Calma. Você vai ficar bem. — ela me olhou. — Para onde foi?
— Fui resolver uma coisa. — murmurei. — Como ele está?
— Estou bem, cara. — gemeu Percy. — Bem mal.
— Não está assim tão mal. — replicou Annabeth.
— E sua perna. — falei para ela. — Como está?
— Ah, bem, depois de ingerir ambrosia e um pouco de néctar. — Ela fungou. — Onde... onde está aquele monstro?
— A Hidra?
— Não. O cabeção.
— Ah. — respirei fundo, e sorri. — Ele está em um local onde não poderá perturbar mais.
— Como sabe disso?
— Apenas sei.
Kayro me olhava, mas não o encarei.
— Temos que sair daqui. Outro monstro pode chegar, e não quero ter que enfrentar outro monstro.
— Cara, você está vendo o estado que eu estou? — resmungou Percy.
— Quer ficar aqui e ser comido por um monstro?
— Vamos sair daqui. — ele tentou levantar-se, mas gemeu. Annabeth e eu o ajudamos a andar.
Percy olhou para Kayro.
— Obrigado.
— De nada. — disse ele. — é bom fazer algo de útil.
Andamos até sairmos de dentro daquela mata. Mas antes Kayro foi a algum lugar, dizendo que iria fazer suas necessidades. Não o impedimos. Após isso, eu e Annabeth estávamos com os braços de Percy sobre os nossos ombros, e o ajudávamos a andar. Kayro seguia do nosso lado.
Chegamos a uma pista solitária, escura e sinistra, onde não havia nada ao redor, a não ser mato e arvores. Um vento frio soprava, trazendo cheiro de gramas e folhas. Milhões de estrelas enfeitavam o céu negro. O que teria sido lindo, não fosse o fato de estarmos perdidos e sem saber para onde ir.
— Isso me dá nos nervos. — disse Kayro olhando ao redor. — Toda essa escuridão e esse silêncio.
Eu também estava com medo. Esperava que algo saísse de dentro dos matos e nos fatiasse. Quando nesse momento, um som, a nossa direita, de algo passando por entre os matos foi ouvido. Meu coração se comprimiu de terror.
— O que é isso? — sussurrou Annabeth.
— Eu... acho melhor a gente correr. — falei, trêmulo.
— Não, de novo não! — exclamou Kayro.
Quando alguém saiu correndo de dentro dos matos. Kayro jogou o seu bumerangue na estranha pessoa, e a atingiu bem na barriga.
— Ai! — gritou. Era uma menina. Ela caiu no chão, dobrando-se de dor. — Ai, ai!
— É uma menina? — perguntou Percy surpreso.
— Opa, desculpa. — disse Kayro.
— Por que fizeram isso? — gemeu ela, nos olhando.
— Hã... pensamos que se tratasse de algum... — eu me interrompi. — Você é uma mortal comum certo?
A estranha garota levantou-se ainda gemendo. Mesmo na falta de luz, pude ver um pouco o reflexo de seu cabelo loiro.
— Mortal comum? — ela nos fitou. — Quem são vocês?
— Ashley? — falou Annabeth incrédula. — É você?
A garota contraiu os olhos olhando para Annabeth.
— Annabeth?
Pelo o modo como as duas se olharam, dava para ver que não havia um clima amistoso.
— Vocês se conhecem? — murmurou Percy.
— Infelizmente. — resmungou Annabeth.
Eu estava confuso. Aquela garota me parecia familiar, não sei por que.
— Espere. Você é Ashley? — perguntei. — A garota que... me convidou para dançar no verão passado, no chalé 69?
— Convidei você? — ela pensou, mas depois arquejou. — Hã... Raphael. Você é o Raphael?
— Sim.
— Meus deuses, que coincidência.
— O que está fazendo aqui? — quis saber Annabeth.
— Não é da sua conta. — disse ela.
— Epa! Calma. — falou Kayro. — Que tal a gente sair daqui?
Annabeth deu um olhar ultrajante para Ashley.
— Ótimo. Vamos.
Nos preparamos para andar, quando uma luz amarela nos atingiu em cheio. Um barulho de motor foi se aproximando.
— O que será agora? — murmurou Percy. Um carro grande e velho com uma carroceria atrás parou do nosso lado. Um rosto grande e barbado surgiu da janela.
— Olá? — disse o homem. — Estão precisando de ajuda?
Ninguém disse nada.
— Vocês falam? — perguntou o homem.
— Hã... Sim. — disse Annabeth. — Nós falamos. E estamos precisando de ajuda?
— Ótimo. Agora, o que estão fazendo aqui? E numa hora dessas?
Olhei para Percy.
— É que... Fugimos do nosso orfanato.
— Sério?
— Sim.
O homem nos fitou por alguns instantes.
— Ok. Podem subir. Seria melhor irem ai atrás.
Concordamos e subimos. Depois de alguns segundos estávamos viajando, noite adentro, na carroceria do carro. Encolhi-me em um canto e fechei os olhos. O vento frio e o cheiro de folhas me fizeram dormir rapidamente.
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