E Se fosse verdade? 2

16 Nos hospedamos em uma casa de Fazenda


Em meus sonhos, eu vi Grover com uma espada nas mãos, tentando cortar as algemas de Igor.

— Rápido! — sussurrava Igor.

— Estou indo. — murmurava Grover. Ele tentava cortar a todo custo, mas as algemas não cediam. Seus sapatos haviam sumido deixando ele com os cascos a mostra.

— Eles provavelmente já estarão chegando. — disse Igor olhando para algum ponto distante. Ele estava com os cabelos assanhados, o que até ai não é nenhuma novidade. Só que havia medo em seus olhos, e sua pele estava suada e meio avermelhada. Ele e Grover estavam com as mãos e os pés presos em algemas.

Igor suspirou.

— Graças aos deuses que consegui pegar minha espada. Foi por um triz.

— Essa lâmina está cega! — resmungou Grover. — Ela não corta nada!

De repente uma pedra grande desmoronou, não sei da onde, mas por pouco não esmagavam eles.

— Ah, meus deuses! — exclamou Grover.

Nesse momento, quando as coisas não poderiam ficar ainda mais estranhas, Grover olhou direto para mim. Eu não sabia se ele havia me visto, mas sorriu e exclamou:

— Ainda bem! Graças aos deuses você está aqui!

Fiquei confuso, por que não pude responder. Mas não precisei, por que alguém atrás de mim falou:

— Grover? O que está acontecendo?

Franzi a testa. Aquela voz... será que era...?

Virei-me, e me deparei com Percy. Minha mente ficou lotada de pontos de interrogação. Como aquilo era possível? Eu estava vendo Percy no meu sonho, e ele estava falando com Grover.

Ele se aproximou um pouco de Grover.

— O que aconteceu? Vocês estão bem?

— Percy, estamos no Monte Tam. — dizia Grover desesperado. — Por favor, nos ajude. Eles estão nos mantendo presos aqui por que querem que vocês tragam uma máscara. Sabe o que isso significa?

Eu estava tão confuso que minha cabeça começou a girar. Como Percy podia se comunicar com Grover através de um sonho?

— Grover. — disse Igor. — Você está maluco? Com quem está falando?

— Estou falando com Percy. — respondeu ele.

— Percy? Ele nem está aqui.

Mas Grover insistiu:

— Percy, venha rápido. Eles nos disseram que se vocês não trouxessem essa máscara até o dia 25 de junho, nos matariam.

— Não se preocupe. — disse Percy. — Vou salvar vocês.

Quando nesse momento um cara apareceu bem no nosso meio.

— Mas olhem só, estão tentando escapar. — ele estava usando uma jaqueta de couro marrom, calças jeans surradas e sapatos pretos. Uma bandana cobria seus cabelos. Tinha uma faca presa ao cinto. Seus olhos eram cruéis e perversos.

O cara se aproximou de Grover e tirou a espada de suas mãos. Colocou a ponta na garganta dele, e fez um corte. Grover ganiu e se encolheu segurando o pescoço.

— Não faça isso seu verme inútil! — gritou Igor.

O cara deu um soco em seu rosto.

— Falei para vocês ficarem quietos. Agora olhe para mim e divirta-se. — seus olhos de repente ficaram vermelhos como carvão de churrasco. Igor olhou para ele e começou a tremer e a gritar.

— Não! — gritava. — Socorro! Sai de cima de mim!

Eu não sabia o que estava acontecendo. Parecia que algo invisível o estava atacando.

— Percy. — gemeu Grover, segurando o pescoço que estava sangrando. — Cuidado com o dragão.

Depois disso, o sonho se dissolveu, e eu acordei com um sobressalto.

Não sabíamos bem para onde estávamos indo, mas o homem que nos oferecera a carona parecia saber. Ele fazia curvas e acelerava de vez em quando. Continuamos sentados atrás, na carroceria, com o vento frio nos atingindo. Annabeth olhou para Ashley com repugnância, e perguntou como ela chegara ali.

— Não lhe importa! — disse Ashley.

— É melhor que você diga. — ameaçou Annabeth. — Ou eu juro que lhe lanço para fora desse carro.

— Epa, meninas! — falei. Não sabia o porquê de tanta raiva entre elas, mas prossegui. — É... não é uma boa hora para brigar, e nem para lançar pessoas de carros.

— O que há entre vocês exatamente? — perguntou Percy, que estava deitado perto de Annabeth. Ele ainda gemia um pouco cada vez que falava.

Nenhuma delas respondeu a pergunta.

— Hã, tudo bem. — disse ele. Olhou para Ashley. — Como você veio parar aqui?

Agora que ela estava mais perto, pude vê-la mais claramente. Seus cabelos loiros caiam em cima de seus ombros. Era idêntico ao de Annabeth, só que os dela eram lisos, enquanto os de Annabeth eram cacheados. Seus olhos também eram cinzentos. Estava com uma camisa listrada, jeans sujos, e uma faca estava presa á sua cintura. Sinceramente, ela era parecida com Annabeth, só era diferente no contorno do rosto, no formato do nariz, sobrancelha, e no formato dos olhos.

Ashley suspirou e disse:

— Minha casa era próxima dali. Eu estava querendo passar o ano todo perto de meus pais, mas aparentemente não deu certo. Uma mulher-cobra invadiu minha casa. Consegui escapar e fugir. Até que saí dos matos e fui atingido por um bumerangue.

Ela olhou acusadoramente para Kayro.

— Ei, foi sem querer. — murmurou ele. — Eu pensava que se tratasse de um monstro.

— Não se preocupe Kayro. — disse Annabeth. — Você acertou.

— Nossa. Não sabíamos disso. — falei, olhando para Ashley.

Annabeth me fitou.

— Acredita nela?

— Hã... por que não acreditaria?

— Você acha que eu inventaria isso? — perguntou Ashley asperamente para Annabeth. — Não sou igual a você, Chase, para ficar inventando histórias.

Annabeth cerrou os punhos.

— Não me provoque. — disse ela perigosamente. — Você se acha à sabe-tudo, mas não passa de uma louca estúpida que teve a sorte de ser uma meio-sangue, e ainda por cima de ser filha de Atena, o que obviamente isso foi um erro grave.

A tensão no ar era quase palpável. Ashley riu com desdém.

— Olha quem fala. Pelo menos não fiquei apaixonada por um garoto que havia decidido exterminar a nós e aos deuses. Com certeza você seria capaz de trocar o Percy por ele... Se ele estivesse aqui juntinho de você.

Nesse momento, Annabeth atacou Ashley, saltando em cima dela e a agarrando pelo o pescoço.

O caos se formou.

— Ei, ei! — gritei.

— Separem elas! — exclamava Percy.

Ashley empurrou Annabeth e lhe deu um chute em seu ombro, o qual ela revidou, puxando-lhe os cabelos. Ela gritava e esmurrava Annabeth, que puxava com toda a força. Só se via um amontoado de pernas e cabelos esvoaçando-se.

— Annabeth, pare! — tentei separa-las, mas Ashley deu-me um murro na cara, o que provavelmente era para ter sido em Annabeth. Uma onda de dor alastrou-se pela minha face.

— Sua idiota! — gritava Annabeth.

Ashley conseguiu tirar os cabelos das mãos dela e lhe deu um soco no rosto. Por fim, me pus entre as duas, separando-as com as mãos estendidas.

— Okay. Chega! — gritei.

O carro de repente diminuiu de velocidade.

— O que está acontecendo ai? — perguntou o homem que dirigia.

— Hã... nada. — falei. — Estamos só brincando de... — olhei para as duas. — de artes marciais.

— Tem sorte de ainda estar de pé. — resmungou Ashley.

Ficamos em silencio enquanto o carro fazia uma curva para a direita e entrava em uma rua de terra. Meu rosto ainda pulsava de dor por causa do murro de Ashley. Não sabia por que elas brigavam dessa maneira.

— Eu tive um sonho. — falei, tudo para quebrar o silencio constrangedor. — Não foi muito legal.

Contei-lhes o que eu sonhara. Quando cheguei na parte em que pude ver Percy se comunicando com Grover, ele se mexeu desconfortável.

— Você... pôde me ver falando com Grover?

— Bem, sim. Como isso é possível? Ele viu você em um sonho e lhe pediu ajuda, como se soubesse...

— É uma conexão empática. — revelou ele. — Grover criou isso. Não sei como, mas permite que eu saiba quando ele está em perigo e se comunique com ele através de sonhos.

— Ah. — disse eu, sem entender nada.

— Mas espere. — interveio Annabeth. — Hã... o cara que mantém Grover e Igor presos disse que temos até o dia 25 para lhe entregar essa tal máscara, certo?

— Certo. — falei.

— Hoje são 17 de Junho. Temos oito dias para chegarmos até a Califórnia e depois São Francisco.

— Okay. Tempo de sobra.

— Agora, onde está essa máscara? — Annabeth me olhava. — Vocês tem alguma?

Sacudi a cabeça rapidamente. Percy fez a mesma coisa, igualmente Kayro, que estava deitado com um travesseiro na cabeça.

— Se formos até lá sem essa máscara, ele vai matar os dois. — prosseguiu ela. — Então temos que encontrar essa máscara.

Eu odiava o rumo que a conversa estava tomando. Não queria falar mais daquela coisa. Mas agora que Annabeth havia falado isso, percebi que precisávamos daquela coisa para libertar nossos amigos. Uma sensação inquietante tomou conta de mim. E agora? O que íamos fazer? Talvez pudesse voltar até lá, desenterra-la, e ficasse com ela por tempo suficiente até chegarmos ao nosso destino. Mas é claro, não dava. Estava longe demais para isso.

Não, pensei. Farei o que tiver de fazer para que aqueles dois caras soltem meus amigos. Se precisar lutar, lutarei.

Nosso carro entrou em um amplo espaço de terra e grama, com uma casa no meio. Era meio velha e desgastada, mas parecia ser bem grande para nos acomodar.

Havia um poço há alguns metros da casa, cujo objetivo era para puxar água. Cabras perambulavam para lá e para cá, juntamente com algumas galinhas e pintinhos. Estava escuro demais para que eu pudesse ver todo o local, mas sabia que devia ser bem grande.

Não pude deixar de pensar o que estávamos fazendo ali, em uma casa de fazenda. Era para estarmos indo para a Califórnia. Precisávamos chegar o quanto antes.

O carro parou perto da casa, e descemos da carroceria. O homem abriu a porta e saiu do carro.

— Bem, chegamos. — disse ele.

Agora que ele havia saído do carro, pude ver que ele usava calças jeans coladas, uma camisa de xadrez, e sapatos preto e branco grandes. Sua cara dava-lhe um ar severo, com um bigode arrepiado e barba. Mas ele falava com simpatia.

— Hã... obrigado, senhor. — agradeceu Annabeth.

— De nada. Sigam por aqui. — disse ele, abrindo a porta da casa. Entramos e ficamos olhando em volta. O homem ligou as luzes, o que nos deu uma visão melhor da casa.

A sala onde estávamos não era nem pequena e nem grande. Era do tamanho ideal para um homem só. As paredes eram brancas. O piso era feito de concreto com uma cor amarelada. Do nosso lado esquerdo havia um banco grande e comprido de madeira com almofadas coloridas. A poucos metros a nossa frente via-se a mesa de jantar. Haviam dois corredores a nossa frente. Um se projetava para a esquerda, o outro para frente, depois da mesa. Ele se alongava, até eu ver um portão preto no final.

— Estão com fome? — perguntou o homem. — Venham por aqui.

Ele nos guiou pelo o corredor, direto para a cozinha, que era no final da casa, depois da mesa de jantar. Um fogão estava posto perto da geladeira.

— Uau. — murmurou Kayro, segurando sua mochila. — Até que não é nada mal.

O homem sorriu.

— Bem, essa casa é muito antiga. Vivo morando aqui há cinco anos, mas ainda não conheço toda a história dessa casa. Diziam que era assombrada e tal. Que havia espíritos por aqui. Mas não se assustem. Isso é bobagem. Por favor, sentem-se. Fiquem a vontade enquanto preparo o jantar.

Fomos nos sentar á mesa de jantar enquanto o nosso anfitrião cozinhava.

— Será que ele não é um monstro? — perguntou Percy, que já conseguia andar sozinho, mas ainda assim precisava de ajuda de vez em quando.

— Não sei. — respondeu Annabeth. — Mas fiquem de olhos abertos, e atentos a tudo.

Ficamos em silêncio, esperando a comida chegar.

Fiquei observando a casa. Parecia mesmo ser muito antiga. O telhado era desgastado e velho. Havia colunas horizontais que sustentavam o telhado, só que era estranho. Parecia ser um tronco de arvore.

Enquanto eu olhava a casa, senti uma coisa fria passar por trás de mim. Os pelos dos meus braços se arrepiaram. Virei-me, mas não vi nada. Era quase como se fosse uma presença.

Finalmente o homem veio com a comida. Uma bandeja com sanduiches e limonadas. Estava ótimo.

Enquanto comíamos, o homem se apresentou como Richard, e nos perguntou quem éramos e o que fazíamos naquela estrada escura e deserta.

— A gente era de um orfanato. — disse Percy. — Só que acabamos fugindo de lá por que... — ele ficou sem fala.

— Por que não cuidavam bem da gente. — disse eu.

— Isso.

— Humm... entendo. — disse o sr. Richard. — Vocês deviam denunciá-los.

— Não. Deixa pra lá. Faz tempo que isso aconteceu.

O sr. Richard perguntou se queríamos mais alguma coisa. Dissemos que não.

— Bom, então, vamos dormir. Podem virar no corredor seguinte e encontrarão dois quartos um a frente do outro. Um para os garotos e outro para as garotas.

— Okay. Obrigado. — agradeceu Kayro.

Depois de tomarmos banho, fomos para o nosso quarto. Annabeth e Ashley iriam dormir no outro. Perguntei-me se elas duas iriam começar a se agredir quando todos estiverem dormindo.

Havia uma cama de casal em nosso quarto. E um abajur a sua cabeceira. Na parede, um espelho redondo. Nada mais que isso.

— Hã... temos que dormir juntos? — perguntei.

— Acho... que sim. — murmurou Kayro.

Percy deitou-se na cama.

— Já tenho o meu lugar.

Aquilo era praticamente desconfortável, mas deitei-me no meio da cama e Kayro deitou-se na ponta.

— Nada de peidos. — murmurei.

Kayro riu. Percy bocejou e disse:

— Estou cansado até demais. Boa noite para vocês.

— Boa. — disse eu.

Virei-me e coloquei minha cabeça em cima de meus braços. Fechei os olhos. Poucos minutos antes de dormir, tive a impressão de sentir a mesma sensação fria passando perto de mim. Fiquei meio receoso. Pensei no que o sr. Richard dissera, que a casa era assombrada.

Tolice, pensei. Não há nada nessa casa.

Por fim o sono venceu, e eu mergulhei na escuridão.