E Se fosse verdade? 2
11 Meu professor de matemática me encontra
Notas iniciais
Naquela mesma noite, enquanto dormia, tive um sonho muito estranho.
Eu via uma tribo indígena dançando em círculos ao redor de uma fogueira central. Eram ao todo cerca de vinte pessoas, todas com os rostos pintados, seminuas e com chocalho nas mãos. Eu fiquei completamente atordoado. Vi que enquanto as outras estavam dançando ao redor da fogueira, havia uma no meio com as mãos para cima. Ela gritava e falava algo que eu não compreendia. Quando olhei mais de perto, quase tive um ataque cardíaco. A pessoa que estava no meio dançando e gritando... Tinha a cabeça grande e verde. Estava usando a máscara. Ela dançava e saltava enquanto os outros ao redor da fogueira gritavam em coro sempre que ela saltava.
Nesse momento, alguém chegou com uma espada por trás da pessoa com a máscara. Ele levantou a lâmina, e em um golpe a cortou pelo o meio. O sangue se derramou por terra enquanto as duas partes dela se separavam. O grupo ao redor da fogueira parou de cantar e dançar. Um silêncio absoluto. Foi quando o inacreditável aconteceu. A parte de cima da pessoa foi se arrastando até a sua outra metade. Ela virou e, usando as mãos, encaixou a metade de baixo na de cima e... Levantou-se. O grupo inteiro de índios gritou de animação e começaram a retomar o seu canto.
A pessoa que foi divida ao meio tirou a máscara e colocou em cima de uma grande pedra, que parecia ser uma mesa, e saiu.
Quando pensei que tudo não podia piorar, uma mão, saindo de dentro de uma moita, pegou a máscara e a colocou em sua mochila. No segundo seguinte eu me vi seguindo a pessoa que roubara o objeto. Era um jovem. Ele aparentava ter uns vinte anos de idade. Era loiro, e usava uma camisa social alaranjada com calça jeans. O rapaz corria ofegante com a mochila nas costas.
Depois de uns minutos ele parou e se ajoelhou, respirando dificultosamente.
— Ah. — ele suspirou, e tirou a máscara de dentro da mochila. — Finalmente peguei. — O cara olhava para o objeto, e depois para trás. — Eles não vão nem saber quem pegou. Vou embora e levar a máscara comigo. Agora eu só preciso...
— Entregar a máscara para mim. — falou uma voz vinda não sei da onde.
Foi quando três homens saíram da mata. O cara arregalou os olhos e tentou esconder a máscara detrás das costas.
— Tentando fugir e levar a minha encomenda? — falou um homem usando um terno marrom. Ele estava com um cigarro em sua boca, e tinha jeito de que era o líder daquele trio.
— N-não senhor. — falou o cara de joelhos.
— Eu tenho a impressão de que você está querendo me enganar, Denis. — observou o homem.
— Não, eu... Fiz o que o senhor pediu.
— Então dê a máscara para ele. — disse o outro homem que era meio gordo e usava terno preto.
O rapaz chamado Denis se pôs para frente e a entregou.
— Eu acho que ele está nervoso, chefe! — riu outro cara com terno meio azulado.
O homem de terno marrom observava a máscara.
— Obrigado, Denis. É bom ter rapazes competentes como você. — ele se virou para os seus dois companheiros. — Podem mata-lo.
— O quê? — exclamou Denis. — Mas... Mas eu fiz o que...
— Cale a boca! — disse o cara de terno preto encostando uma arma na cabeça de Denis.
— Espere! — disse o homem de terno marrom olhando para a máscara mais atentamente. — Essa não é a verdadeira.
Seus dois companheiros se aproximaram para observar.
— É falsa! — disse um.
— Sério? — falou uma voz estranha. Eles se viraram, e deram de cara com o cabeção verde. A julgar pelas roupas, era Denis quem estava usando a máscara.
Ele apontou para o seu rosto.
— Bem, então acho que essa é a de verdade.
— Como...? — o líder do grupo não teve tempo de falar, por que na mesma hora o cabeção pegou um machado, levantou-o e desceu em direção à sua cabeça.
— Ah! — acordei com um salto. Meu coração estava disparado. Percebi que eu estava suando.
Que sonho foi aquele? Eu não sabia se aquilo havia sido um sonho real ou só uma alucinação minha.
Levou alguns minutos, mas quando voltei a dormir novamente, sonhei que eu estava em um castelo destruído em cima de um monte. Devia ser o mesmo do sonho anterior, por que eu via o mesmo tornado cinzento vindo das nuvens girando e girando com clarões de raios dentro dele. E fiquei atordoado quando vi que o enorme tornado descansava nos ombros de um homem. Ele era forte e musculoso. Usava armadura grega preta, e parecia sentir muita, muita dor. Ele gemia e gritava maldições em grego antigo.
— Droga! — gemeu uma voz vinda detrás de mim. Quando olhei, vi Igor e Grover sentados em um canto escuro e presos por algemas nas mãos. Igor se debatia tentando se livrar, mas era inútil.
— Eu não acredito nisso! — choramingava Grover. Ele estava usando calças jeans e seu boné rastafári para se passar por humano. Seu rosto estava sujo e seus olhos cheios de medo. — Eu estava procurando o deus Pã e... De repente sou sequestrado novamente.
— Procurando o quê? — perguntou Igor.
— O deus Pã!
— Ah, sim. Já li várias historias sobre ele.
Grover olhou para Igor.
— E como você veio parar aqui?
— Eu não sei. — disse Igor. — Eu estava indo de táxi para o acampamento, quando o motorista parou o carro. Alguém de repente apareceu do meu lado e colocou um capuz preto em minha cabeça e então... Não me lembro mais.
— Ah, meus deuses. E nos trouxeram para cá. — murmurou Grover trêmulo. — Logo para cá.
— E o que tem de tão mal aqui?
— Aqui é... Era o palácio dos Titãs. O Monte Otris. É também onde Atlas segura o céu.
— É, eu o estou ouvindo. — resmungou Igor. — Eu não sei por que me sequestraram, mas eu juro que se eu achar quem fez isso...
— Você não vai fazer nada! — disse uma voz vinda da escuridão. Parecia ser de um adolescente. — Vocês estão aqui só como uma isca.
— Isca? — perguntou Igor. — Pra quê?
A pessoa misteriosa suspirou.
— Ouvimos falar sobre a tal máscara que você estava usando. Ouvimos sobre o que ela é capaz de fazer.
— Ouvimos? — perguntou Grover. — E do que é que está falando? Que máscara?
— Pergunte a seu amigo, Igor. — disse a voz. — Ele sabe muito bem.
— Eu não sei de nada. — murmurou Igor.
A voz riu.
— Assim que eu e meu irmão ficamos sabendo da máscara, procuramos ela por toda a parte, até saber que estava com você. Por isso o sequestramos.
— Mas ela não está comigo. — disse Igor. — Vacilou.
— Eu sei. Ela agora está com o seu amigo Raphael, que está saindo em uma missão juntamente com os outros semideuses para resgatar vocês. Por isso vamos manter vocês dois aqui até ele chegar, e assim o convenceremos a nos dar a máscara.
— E para que você a quer?
A voz deu um risinho.
— Para usá-la, óbvio. Com ela, ficarei mil vezes mais poderoso. Serei muito mais forte. Poderia provocar o caos entre os mortais, assustar as pessoas e quem sabe... Até mesmo os deuses. Eu e meu irmão seremos os donos do mundo. Nada poderá nos atingir, e ninguém poderá nos deter.
O sonho se dissolveu. Alguém estava me sacudindo.
— Ei cara, acorde.
Abri os olhos e dei de cara com Percy.
— O... O que foi?
— Você estava murmurando toda hora “não vou lhe dar”. O que houve?
Eu não queria contar. Um sonho já era ruim, agora dois era ainda pior. Mas por fim contei a ele, deixando de fora a parte em que falavam da máscara, o que fez o sonho ficar incompleto.
— Bem, não faz muito sentido, mas ok. — disse Percy pensativo. — Nós já estamos indo resgatá-los. Venha, vamos nos preparar.
***
Tentei não pensar muito nas palavras do Oráculo, apesar de a frase sem sabedoria, a máscara irá causar a ruína estar toda hora em minha mente. Queria saber quem iria desaparecer no meio do caminho. Eu já pensava o pior. E a parte em que teríamos que enfrentar o Medo e o Pânico, e o filho do submundo nos salvariam... Simplesmente não conseguia entender.
Nosso grupo de missão reuniu-se na colina onde estava o pinheiro de Thalia. Não levei muita coisa, apenas meu mini celular, a máscara, um pouco de dinheiro mortal que alguns filhos de Hermes me deram e minhas roupas. Falei para mim mesmo que não usaria aquela máscara durante a missão. Eu poderia simplesmente matar todos os meus amigos, e isso era a última coisa de que eu precisava.
Kayro estava com uma expressão de alegria no rosto. Usava a camisa do acampamento e uma calça jeans preta, e uma simples mochila nas costas. Tentei ignorá-lo. Annabeth estava com seu boné mágico dos Yankees no bolso e sua faca. Percy estava somente com sua caneta letal e um saquinho de ambrosia. Ninguém levava nada a mais. Quíron e alguns campistas vieram nos desejar boa sorte.
— Tenham cuidado. — avisou Beatriz. — Seria melhor se vocês andarem juntos. A profecia disse que um iria desaparecer.
— Pode deixar. — garantiu Percy. — Vamos tomar cuidado.
— Tomara que vocês não encontrem aquele louco da cabeçona. — murmurou Dandara. — Senão vocês já estarão mortos.
— E aquela máscara? — perguntou Beckendorf. — Será que ela, tipo, tem algo a ver com o sonho?
Suspirei.
— Não sei. Mas vamos descobrir.
— Vamos, Raphael. — chamou Annabeth. — Precisamos ir o mais rápido possível.
— Tenham cuidado. — advertiu Quíron. — E que os deuses estejam com vocês.
Dei tchau para os meus outros amigos e desci a colina. Argos, vestindo um terno de chofer, nos esperava no carro.
***
Durante todo o trajeto, ficamos em silêncio, o que para mim foi constrangedor. Ao meu lado, Kayro assobiava uma musica agitada. Fiquei pensando: Será mesmo que ele sabe lutar? Ele só passou sete meses no acampamento. Bem, é um bom tempo, mas devia ter treinado mais.
Lembrei-me do que ele havia me dito, que eu nem havia ficado um mês no acampamento e já partira para uma missão.
— Tudo bem com você? — perguntou Annabeth.
Estranhei aquela pergunta, mas assenti.
— Claro. Por quê?
— Você estava com uma expressão chateada.
Pensei em como responder.
— Não, eu... Só estava pensando em nossa missão. Sabe, aquelas frases do Oráculo ainda ecoam em minha mente.
— Não se preocupe, Ok. — ela tentou me animar. — Vamos conseguir.
Depois de alguns minutos o nosso carro parou na estação. Descemos e ficamos esperando o ônibus chegar. Argos entrou no carro, deu um sorriso para nós, o olho do seu braço piscou, e depois pisou no acelerador. A partir dali, estávamos por nossa própria conta.
— Cara, sair do acampamento é surreal. — disse Kayro.
Olhamos para ele.
— Eu me lembro de você. — disse Annabeth. — Filho de Hefesto?
— Sim.
— Você foi um dos recém chegados a alguns meses atrás, não foi?
— Acertou.
Percy pigarreou.
— Hã... Você sabe lutar? Digo, sabe que a missão é perigosa, certo?
— Sei. — murmurou Kayro.
— Ótimo!
O nosso ônibus chegou. Só agora percebi que não tínhamos malas. Talvez nem precisasse. Alguma coisa iria acontecer durante a viagem e então seríamos forçados a abandona-las. Era de se esperar.
Entramos no ônibus e sentamos. Percy e Annabeth á nossa frente, Kayro e eu atrás.
— Não vi nenhum monstro até agora. — observou ele.
Dei um sorriso torto.
— Ore para que continue assim.
A viagem continuou. Observei os passageiros. Alguns estavam dormindo, outros ouvindo musicas com seus fones e celulares, e até alguns lendo, embora não sabia como dava para ler em um ônibus em movimento. Sempre gostava de viajar sentado perto da janela. Então encostei minha cabeça tentando não se sentir incomodado com os balançados do veículo. Fiquei pensando no que estava a nossa espera mais a frente. Coisa boa não podia ser.
— Ei. — disse Kayro. — Posso fazer uma pergunta?
Imaginei qual seria essa pergunta.
— Pode.
— Aquela máscara... O que ela faz?
Por que todo mundo pergunta sobre isso? Falei para mim. Olhei para ele.
— Ela não faz nada. Okay? Nada.
— Tem certeza? — insistiu ele. — Por que quando eu estava com ela, ficava com uma forte vontade de coloca-la.
Franzi a testa.
— Acho que devia ser só uma sensação. — falei, tentando por um fim naquela conversa. Foi quando notei que as mãos dele ficavam se mexendo toda hora. Os dedos tamborilavam como se estivessem à procura de algo para pegar. Pensei que ele devia ser ou muito hiperativo, ou que ingerisse muito açúcar.
— Seus amigos foram sequestrados? — ele quis saber.
Assenti.
— Por quem?
— Não sei. A profecia disse que no oeste deveríamos enfrentar o Medo e o Pânico. Não sei o que quer dizer.
— Disse também que o filho do Submundo nos salvaria. Quem será?
Balancei a cabeça. Encostei novamente minha cabeça na janela e fechei meus olhos. No mesmo instante adormeci.
Em meus sonhos, vi novamente as ruínas do grande castelo em cima do monte Tamalpais. Andei para dentro das ruínas, para a parte mais escura, esperando encontrar Igor e Grover, mas o que achei foram dois garotos conversando. Não conseguia vê-los muito bem, mas um deles falava:
—... Vai ser muito divertido. — ria.
— Quem sabe? — disse o outro. — Posso até fazer hora com a cara de Hermes, ou de Apolo.
— Sim, cara. Quando tivermos aquela máscara, nada poderá nos deter. Vamos ver se seremos deuses menores quando a tivermos.
— Será que papai não vai ficar furioso? — perguntou o outro.
— Bah! Claro que não. Não se lembra daquela vez quando o raio-mestre de Zeus sumiu? Ninguém sabia, mas papai estava com ele, claro, depois de tomar daquele garoto Luke. Ele o colocou em uma mochila e a deu para aquele idiota do Jackson. O raio iria parar nas mãos de Cronos. Iria haver uma guerra civil no Olimpo. E papai não disse nada. Estava só esperando a guerra começar para poder assistir.
Eles riram.
— É verdade. — riu o outro. — Nosso pai adora ver os olimpianos brigando entre si.
— Acho até que ele se juntaria a nós.
— Pode ser. Vou ali ver como está aquele semideus ridículo e o sátiro. Acho que agora eles aprenderam a não subestimar a gente.
— Onde você os colocou?
— Perto do dragão Ládon. — ele deu um riso. — Aposto que ficaram tremendo de medo.
Quando o cara que estava falando veio para a luz, eu o vi. Ele estava usando uma jaqueta preta e uma blusa vermelha por baixo. Os olhos eram cruéis. Seu rosto era feio e cheio de cicatrizes. Uma bandana vermelha cobria sua cabeça. O cara estalou os dedos e desapareceu.
Acordei com um barulho ensurdecedor. Olhei á minha volta e vi os passageiros gritando. Percebi que eu estava no chão do ônibus. Fiquei muito atordoado. Levantei-me tonto. Senti um calor horrível vindo de trás, e quando virei, vi que a parte de trás do ônibus estava pegando fogo. Os vidros quebraram. Alguns passageiros estavam imóveis em seus assentos com sangue escorrendo pela a boca. Coloquei minha mão em meu rosto e senti dor. Quando a tirei, vi que minha mão estava manchada de sangue.
— O... O... Que... — gaguejei. Meu coração estava disparado.
— Raphael! — gritou Percy do lado de fora.
O ônibus tremeu violentamente. Cai no chão no exato momento em que a parte de trás se abria ao meio com um rangido horrível. O fogo se alastrava pelas poltronas. Recuei desesperado quando vi uma mão grande com garras tentar agarrar alguma coisa dentro do veículo.
— Socorro! — berrei.
Uma cara monstruosa apareceu pela a janela. Eu reconheci instantaneamente. Era um Lestrigão.
— Ah, você! — ele sorriu. — Ótimo! Diga olá para o seu antigo professor de matemática.
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