E Se fosse verdade? 2

23 Damos um passeio de trem


Eu não acreditava que aquilo ainda estivesse acontecendo.

A mãe ciclope ergueu Percy, o qual ficava se debatendo e brandindo sua espada em vão.

— Me larga! Rolha de poço! Peixe-boi!

— Você ainda está viva sua baleia? — rosnei.

Annabeth, que ainda estava no chão, começou a murmurar:

— Huummm... ciclopes... socorro...

Tentei ir ajuda-la, mas a monstra colocou seu pé gordo e sujo em cima das pernas dela.

— Meu nome é Ma Gasket. E vocês vão pagar por ter matado meus filhos. Eles vão demorar tempos se regenerando até retornarem. Sendo assim, irei retribuir o favor.

Eu já estava cansado de estar naquele lugar. Já estava cansado de ser amedrontado por monstros. Olhei ao redor tentando ver Kayro, mas ele havia sumido.

Decidi por um fim naquilo.

— Não se preocupe — disse eu. —, você irá revê-los em breve... no Tártaro!

Corri, empunhando minha espada.

— Raphael, cuidado! — gritou Ashley, ainda segurando as correntes. Por que ela ainda estava lá? Por que não se soltava e vinha nos ajudar?

Cheguei perto o bastante de Ma Gasket e saltei sobre ela com tudo. Houve um momento de surpresa em seus olhos antes de eu cair sobre ela e esmurra-la com toda a minha força.

— SOL-TE E-LE! — eu gritava cada palavra à medida que desferia golpes com os punhos. Uma nova energia se espalhava em meus braços. Queria mata-la com as minhas próprias mãos.

— Argh! Desgraçado! — Ma Gasket soltou Percy e me pegou pelos cabelos, e eu pensei que ela iria arrancá-los, mas não foi isso que aconteceu.

Ela me arremessou para o ar, como uma bola de baseball, e quando comecei a cair, ela deu-me um soco que pegou bem no rosto. Sinceramente, não lembro o que aconteceu depois. Só uma onda de dor extrema se alastrando pela minha face, como se tivessem pregos dentro da minha pele. E também voar por um instante e depois cair rolando pelo o chão frio.

— Raphael! — ouvi a voz de Ashley gritando.

Senti algo escorrendo da minha boca e de meu nariz. Tinha certeza de que era sangue. O mundo pra mim estava girando e embaçado. A dor pulsava constantemente.

— Podem tentar lutar, mas não vão vencer! — rugia Ma Gasket.

Tentei ver o que estava acontecendo, mas não consegui levantar. Só conseguia ouvir sons de espadas, caixas sendo jogadas, correntes balançando e grunhidos de dor.

De repente Ashley estava ao meu lado, pegando minha cabeça, levantando e colocando em seu colo.

Ela olhou em meus olhos.

— Rapha... Acorde! Você está bem?

Eu ri por dentro.

— Claro. — balbuciei, meio inconsciente. — Estou ótimo.

Somente aquelas palavras fizeram meu maxilar doer.

— Besta!

Com a cabeça levantada, vi Annabeth de pé com a sua faca. Ela tentava atingir a senhora ciclope pelos lados, mas a monstra não deixava. Percy estava com contracorrente em uma mão e uma corrente em outra (temia que a espada de Percy e a corrente pudessem entrar em um duelo. Afinal, a espada de Percy é contracorrente. Hahaha! Entenderam? Hahaha. Okay.).

Ma Gasket pegou um saco de arroz enorme e jogou contra Percy, que pulou para o lado, desviando-se.

— É só uma questão de tempo antes de vocês serem... — ela se interrompeu. Depois arquejou, como se algo a tivesse surpreendido. Ouvi um som de uma furadeira em ação, e a monstra sussurrou: — Impossível...

Dito isso, ela se transformou em areia amarelada, espalhando-se pelo o chão. Atrás dela, estava o cabeção, sorrindo, com uma furadeira na mão.

— Mulheres falam demais. — resmungou ele.

— Corram! — gritou Percy.

Ele e Annabeth vieram até a mim.

— Raphael? Está bem? — perguntou Annabeth. Ela estava com marcas pelo o rosto, como se tivesse levado um murro.

Não consegui responder.

— Temos que tirá-lo daqui! — disse Percy com urgência. — Ou o cabeção vai mata-lo. Vamos!

— Uau! Isso me magoou. — murmurou o cabeção. — Você acha que eu iria matar meu... hã... amigo?

Meus instintos diziam que era para darmos o fora dali antes que a carnificina começasse. Mas decidi fazer uma coisa.

— Kayro — usei toda minha força para falar só isso. — como você... conseguiu a máscara?

Annabeth olhou para mim.

— Kayro?

— Cara — murmurou Percy. —, você está delirando.

Balancei a cabeça.

— Não. Vocês estão vendo ele por aqui? — tossi, e isso me causou tontura.

— Você precisa de ambrosia. — disse Ashley, enquanto limpava o sangue de meu rosto. — Onde está a mochila de Kayro?

— Por acaso ele... Não deveria estar aqui com a gente? — murmurei. — Eu... Não queria contar a vocês, mas... A Máscara, ela...

— Ah, okay. — resmungou Kayro-cabeção. — Eu mesmo vou mostrar.

Ele colocou as mãos atrás da cabeça e começou a puxar a Máscara. Sons de trovão e relâmpagos. Quando finalmente Kayro voltou a ser ele mesmo, Percy e Annabeth arquejaram e recuaram pasmados.

— Ah... K-Kayro...? — Annabeth piscou várias vezes, como se estivesse vendo algo irreal.

— Hã... oi pessoal. — acenou ele.

Percy respirava pesadamente.

— Quer dizer que... você... você é o cabeção? Foi você quem causou aquela catástrofe no acampamento? Você matou vários...

— Epa! Calma. — disse Kayro. — Primeiro, eu não sou o cabeção.

— Por que será que eu não acredito nisso? — murmurou Ashley.

— Eu coloquei a máscara por que estávamos em perigo. Sabia que aqueles ciclopes iriam nos pegar facilmente.

Percy deu-me um pedaço de ambrosia, enquanto olhava para Kayro acusadoramente.

— Como você a achou? — perguntei.

— Eu achei em um buraco quando fui cag... hã, fazer minhas necessidades. Foi você quem a enterrou, não foi?

— Isso não importa.

— Espere! — Annabeth olhou para mim. — Você sabia disso? — ela pegou a Máscara de Kayro rudemente. — Essa é a Máscara que você disse que não fazia nada? Que era uma simples Máscara de madeira?

Eu corei. Não estava em um bom estado para uma discussão. Meu rosto ainda pulsava de dor, mas não doía tanto.

— Olha, a história é totalmente confusa e complicada. — expliquei. — Eu nem sabia que essa coisa existia. Fui saber quando peguei a mochila de Igor por engano. E ela estava lá.

— Quer dizer que Igor a achou?

— Sim. — falei. — Eu tive um sonho a esse respeito. Ele a encontrou dentro de uma caixa em um buraco, lá em Nova Jersey.

— Tá certo — disse Ashley. —, isso é de fato uma longa história. Agora que tal a gente sair daqui e ir para outro lugar?

Balancei a cabeça.

— Não. Temos que ir embora dessa cidade. Os dias estão se passando. Igor e Grover estão com a vida em risco por causa dessa droga. — apontei para a Máscara.

Todos concordaram.

— Ah! Deixa só eu pegar a minha mochila. — disse Kayro. — Deixei-a bem ali.

Ashley ajudou-me a levantar, e saímos daquele armazém.

O clima do lado de fora estava mais quente desde que entramos. Se há uma coisa que eu detesto é calor. Fico angustiado.

Depois de alguns minutos andando, Kayro disse:

— Gente, estou com fome.

Quando ele falou isso minha barriga roncou. Me toquei de que não havíamos comido nada desde a casa do sr. Richard.

— Precisamos de dinheiro para pagar a nossa próxima viagem. — murmurei. — Ainda temos alguma grana?

Percy olhou para Kayro.

— O pote de dinheiro. Você deu ao cara da carreta?

Ele balançou a cabeça.

— Não. Ele nem se lembrou do pagamento, graças aos deuses.

— É... pelo visto os deuses estão mais favoráveis a vocês. — resmunguei.

— Cara — disse Percy erguendo as mãos. —, se vocês soubessem o tanto de perguntas que tenho para fazer. Tudo gira de alguma forma ao redor dessa máscara mágica.

— O que eu quero saber é por que vocês não nos contaram isso antes? — perguntou Annabeth.

Eu parei, enquanto olhava para uma trilha de trem que passava por ali. Logo tive uma ideia.

— Vou responder as perguntas de vocês quando estivermos no trem.

— Trem?

— Sim. Vamos viajar de trem até a nossa próxima parada. Se alguém tem algo a dizer, diga agora ou cale-se para sempre.

Ninguém disse nada.

— Ótimo. Vamos passear.

***

Quando finalmente o trem embarcou, estávamos acomodados no vagão restaurante, comendo hambúrgueres e batatas fritas. Havia algo melhor que aquilo? Sim, se todos nós, inclusive Igor e Grover, estivéssemos no acampamento em segurança, relaxando no lago de canoagem. Se aquela máscara maldita não existisse, e se a fúria dos deuses não estivesse sobre mim. Somente isso.

Enquanto viajávamos, pensava sobre a nossa chegada ao monte Tamalpais. Será que conseguiríamos salvar nossos amigos e vencer aqueles dois caras?

— Ei — falei, enquanto mastigava um pedaço de hambúrguer coberto de ketchup e maionese. — Que dia é hoje?

Percy tomou um gole da sua latinha de Coca-Cola e respondeu:

— Acho que é... 18 de junho. Por quê?

— Nada. Só pensando. — pensei um pouco, depois continuei. — Sabe, esqueci de contar uma coisa...

— É sobre a Máscara mortal que você escondeu de nós? — interrompeu Annabeth. — Quer dizer, de nós só o Percy, eu e o Kayro.

Ashley engoliu um pedaço de hambúrguer.

— Não comece, Chase. — advertiu.

— Não comecei. — disse Annabeth. — Só estou dando a entender que a missão não inclui você.

— Ah, por favor, garotas. — resmungou Kayro. — Agora não.

— Continuando... — elevei a voz. — Esqueci de dizer que, em um sonho meu, aqueles dois caras que mantém Grover e Igor presos são...

— Fobos e Deimos. — respondeu Annabeth.

— O quê?

— Os deuses menores, filhos de Ares.

— Sim, eu sei quem são. Mas você já sabia disso?

— Faz um tempinho. A profecia falou que iríamos enfrentar o Medo e o Pânico. Estava um pouco na cara.

— Eu já os enfrentei uma vez. — contou Percy. — Aqueles caras são desprezíveis.

— Fobos é o medo. — explicou Ashley. — Deimos é o pânico. Sei que pode parecer igual, mas acredite, tem uma diferença.

— Era eu que iria falar isso. — retrucou Annabeth.

— Bem, pois eu falei primeiro. — murmurou Ashley.

— Okay, okay. — falei. — Está bem. Eles são deuses menores. Claro. Para variar.

Olhei para fora do trem. Os raios do sol começavam a deixar o céu alaranjado.

A garçonete veio até nós.

— Crianças, desejam mais alguma coisa?

— Não, obrigado. — disse Percy.

— Só um copo d’agua. — pediu Ashley.

A garçonete foi pegar.

Espreguicei-me e bocejei. E isso fez a dor voltar. Percebi que estava cansado.

— Vou tirar um cochilo aqui. — disse eu. — Hã... não aprontem nada comigo.

— Acha que iríamos fazer algo tão engraçado? — sorriu Ashley.

Coloquei a cabeça na janela e fechei os olhos. Diversos momentos da nossa missão passavam pela minha mente. Ouvia as conversas dos meus amigos. Mas depois de alguns minutos, os sons das conversas foram ficando mais distante e obscura, até eu cair no sono.