E Se fosse verdade? 2
24 Meu melhor momento
Em meus sonhos, me vi novamente em cima do monte Tam. Perto de mim a tempestade de nuvens rodopiando troava, e fazia a montanha tremer. Atlas gemia sob o peso do céu.
Não pude deixar de sentir um pouco de pena. Quer dizer, sabia que Atlas tinha participado da guerra dos Titãs contra os deuses, e que os Titãs haviam perdido. Mas mesmo assim perguntei-me se aquele castigo não era duro demais. Ser obrigado a suportar um peso absurdo.
Olhei para ele, tentando ver se percebia minha presença.
— Hã... oi Atlas? Tudo bem?
Assim que disse isso, me senti um idiota. É claro que não estava nada bem para ele. Felizmente ele não respondeu. Acho que não poderia me ver em um sonho. Andei pelo o antigo palácio em ruínas a procura de Igor e Grover, mas não os vi. Tudo o que vi foi... os dois deuses menores conversando.
O primeiro estava sentado tirando a sujeira das unhas com a ponta de uma faca. E usava uma jaqueta preta por cima de uma blusa branca e calças surradas. Uma bandana vermelha cobria seus cabelos. Seu olhar fazia minha pele formigar.
Ele falou:
— Essa coisa de ter que espera-los virem até a gente para nos entregar a Máscara está me dando nos nervos. Deveríamos ir até eles e pegá-la a força.
O outro, que estava em pé e se vestia parecido com seu irmão, ergueu uma sobrancelha e murmurou:
— Até que não seria má ideia. Vamos fazê-los lembrar de que não estamos de brincadeira.
Eu não conseguia identificar quem era Fobos ou Deimos.
— E poderíamos conseguir a máscara e sermos os donos do mundo. — disse o outro.
— Se eles não quiserem dar para a gente...
Eles se olharam e riram.
— Vai haver mortes.
— Vamos. — disse o cara de bandana vermelha. — Vamos encontra-los.
Os dois estalaram os dedos e sumiram.
Acordei com a sensação de que estava caindo.
— Ah! — exclamei, respirando rapidamente.
— Até que enfim. — disse Ashley. Percebi que ela estava sentada ao meu lado. Percy, Annabeth e Kayro dormiam profundamente no banco a nossa frente.
— Ainda estamos no trem? — perguntei.
— Claro. — respondeu ela em um tom óbvio. — Estamos viajando a cerca de... uma hora eu acho.
Franzi a testa.
— Uma hora? Só isso?
— Pra mim não foi só isso. — resmungou ela. — Tentei dormir várias vezes, mas não consegui. Então fiquei só observando vocês e olhando a paisagem lá fora.
— Ah.
Ficamos uns minutos em silêncio. Fora do trem, o céu começava a escurecer, ficando em um tom azul escuro. Arvores, casas e pessoas passavam em um rápido flash.
Ashley deu uma risada.
Olhei para ela.
— O que foi?
— Não, nada. — disse ela. — É que fico pensando nas coisas que acontecem. Tipo, no verão passado, a gente dançou no chalé 69 mesmo sem se conhecer. Ai depois, o tempo passa, e de repente a gente se encontra no meio de uma estrada escura. Muita coincidência.
Concordei com ela.
— Você disse que estava morando na casa de seus pais... — lembrei. — e que monstro atacaram e você fugiu.
Ela assentiu.
— Meus pais estavam dormindo. — seu olhar ficou distante. — E... eu estava assistindo um pouco de TV antes de dormir também. Só que... — ela inspirou. — Ouvi um barulho no quintal de minha casa. Então fui ver o que era, quando uma bomba explodiu e... quase me matou.
— Puxa. — falei, fracamente.
— Sabia que eram monstros. — continuou ela. — Vi um vulto verde com duas caudas de cobra. Fiquei tão apavorada que fugi. Saí correndo de casa sem saber para onde ir.
— Ah... — tentei falar. — Nossa, sinto muito. Eu não sabia.
O olhar dela estava perdido em meio a lembranças ruins.
— Annabeth tem razão. Essa missão não inclui a mim.
— Ei, não. Você está sim na missão. Quer dizer, não iriamos deixar você para trás. Você é uma filha de Atena também. É esperta e inteligente. Você me ajudou lá no covil dos ciclopes.
Ela me olhou agradecida.
— Você é tão gentil Rapha.
Ficamos nos entreolhando por uns segundos quando, de repente, a coisa mais inimaginável aconteceu.
Ashley inclinou-se para frente, encostou seus lábios nos meus e... me beijou.
Arregalei os olhos de tão surpreso que fiquei. Meu coração gelou e ficou batendo descontroladamente. Mas depois, uma sensação de alívio e felicidade me encheu. Me entreguei ao beijo. Quando um flash de luz nos interrompeu.
Nos viramos atônitos.
— Cara — disse Kayro, com um smartphone na mão e segurando o riso. —, isso vai direto para o Facebook e o Twitter.
Meu rosto ficou vermelho e quente. Totalmente envergonhado falei:
— Hã... você... não tem nada para fazer?
— Agora tenho. Irei publicar essa foto.
Ashley agarrou Kayro pela a gola da camisa.
— Se eu ver essa foto em algum lugar, juro por todos os deuses que vou atrás de você e lhe faço ficar estéreo.
Kayro engoliu em seco.
— Okay, não vou postar mais.
Percy e Annabeth se mexeram e abriram os olhos.
— O que houve?
— Nada! — disse eu.
Olhei para fora do trem sentindo-me constrangido, quando tive uma visão desoladora.
Uma cidade passava por nós. Mas ela estava deserta. Completamente deserta. Prédios, casas e outros edifícios estavam em ruínas. As ruas estavam cheias de areia. O ar tremulava com o calor naquela cidade. As únicas pessoas que pude ver estavam agitadas e pareciam estar brigando. Uma delas olhou para o nosso trem, e quando a vi, recuei o rosto da janela.
Ela tinha a cara completamente ferida e dilacerada. Não tinha cabelos. Sua bochecha estava sanguinolenta e aberta, e deu para entrever os dentes. Feridas abertas estavam em seu coro cabeludo, e sangrava.
Mesmo aquela rápida visão fez meu estomago gelar de medo. Aquela pessoa estava em um estado deplorável, e se parecia com o zumbi lá da casa do sr. Richard. Os passageiros talvez tenham visto também, por que todos murmuravam atônitos e receosos.
Virei-me para meus amigos.
— Vocês viram aquilo?
Percy estava de boca aberta.
— Ela parecia aquele zumbi. Que nos atacara na casa do sr. Richard.
— Mas... por que eles ficaram assim? — perguntou Ashley.
Foi quando uma voz soou do alto falante. A voz do maquinista.
— Senhoras e senhores, não fiquem assustados. O que vocês viram foi só uma breve visão do que realmente está acontecendo. Aquelas pessoas deformadas estão contaminadas com um vírus. Creio que alguns já ouviram falar disso.
— Vírus? — perguntou um homem.
— Ele se instala no cérebro da pessoa, e com o passar do tempo, vai tornando-a completamente louca como um animal selvagem. Até agora não há nenhuma informação de que tenha uma cura para esse vírus. Mas ele é letal. Deram o nome de Ful...
O trem chacoalhou de repente. Todos gritaram.
— Calma, não foi nada. — disse a voz do maquinista.
— Um vírus? — sussurrei. — Espera...
— Foi a mesma coisa que o sr. Richard disse! — exclamou Kayro. — Estão lembrados?
— Que vírus é esse? — estranhou Annabeth.
— Não sabemos exatamente. — disse Percy. — Foi o sr. Richard que nos contou.
— Ele afeta o cérebro da pessoa? — perguntou Ashley.
— Pelo o que o maquinista disse... sim.
Nesse momento, a cabeça de um homem apareceu acima das cabeças de Percy e Annabeth.
— Isso é resultado das explosões solares. — disse ele. — As explosões solares são normais, claro, mas aquelas foram as maiores. O calor atingiu a terra, queimando satélites, matando milhares de pessoas, e devastando cidades. Várias cidades ficaram desertas.
— Como aquela que passou? — perguntei.
Ele assentiu sombriamente.
— Depois desta catástrofe, veio a doença. — continuou ele. — O vírus. É uma coisa horrível. Terrível.
Silêncio. Ele nos olhou e finalizou:
— Não posso dizer mais que isso. — E voltou a assentar-se, nos deixando atordoados com a noticia.
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