Em meus sonhos, me vi novamente em cima do monte Tam. Perto de mim a tempestade de nuvens rodopiando troava, e fazia a montanha tremer. Atlas gemia sob o peso do céu.

Não pude deixar de sentir um pouco de pena. Quer dizer, sabia que Atlas tinha participado da guerra dos Titãs contra os deuses, e que os Titãs haviam perdido. Mas mesmo assim perguntei-me se aquele castigo não era duro demais. Ser obrigado a suportar um peso absurdo.

Olhei para ele, tentando ver se percebia minha presença.

— Hã... oi Atlas? Tudo bem?

Assim que disse isso, me senti um idiota. É claro que não estava nada bem para ele. Felizmente ele não respondeu. Acho que não poderia me ver em um sonho. Andei pelo o antigo palácio em ruínas a procura de Igor e Grover, mas não os vi. Tudo o que vi foi... os dois deuses menores conversando.

O primeiro estava sentado tirando a sujeira das unhas com a ponta de uma faca. E usava uma jaqueta preta por cima de uma blusa branca e calças surradas. Uma bandana vermelha cobria seus cabelos. Seu olhar fazia minha pele formigar.

Ele falou:

— Essa coisa de ter que espera-los virem até a gente para nos entregar a Máscara está me dando nos nervos. Deveríamos ir até eles e pegá-la a força.

O outro, que estava em pé e se vestia parecido com seu irmão, ergueu uma sobrancelha e murmurou:

— Até que não seria má ideia. Vamos fazê-los lembrar de que não estamos de brincadeira.

Eu não conseguia identificar quem era Fobos ou Deimos.

— E poderíamos conseguir a máscara e sermos os donos do mundo. — disse o outro.

— Se eles não quiserem dar para a gente...

Eles se olharam e riram.

— Vai haver mortes.

— Vamos. — disse o cara de bandana vermelha. — Vamos encontra-los.

Os dois estalaram os dedos e sumiram.

Acordei com a sensação de que estava caindo.

— Ah! — exclamei, respirando rapidamente.

— Até que enfim. — disse Ashley. Percebi que ela estava sentada ao meu lado. Percy, Annabeth e Kayro dormiam profundamente no banco a nossa frente.

— Ainda estamos no trem? — perguntei.

— Claro. — respondeu ela em um tom óbvio. — Estamos viajando a cerca de... uma hora eu acho.

Franzi a testa.

— Uma hora? Só isso?

— Pra mim não foi só isso. — resmungou ela. — Tentei dormir várias vezes, mas não consegui. Então fiquei só observando vocês e olhando a paisagem lá fora.

— Ah.

Ficamos uns minutos em silêncio. Fora do trem, o céu começava a escurecer, ficando em um tom azul escuro. Arvores, casas e pessoas passavam em um rápido flash.

Ashley deu uma risada.

Olhei para ela.

— O que foi?

— Não, nada. — disse ela. — É que fico pensando nas coisas que acontecem. Tipo, no verão passado, a gente dançou no chalé 69 mesmo sem se conhecer. Ai depois, o tempo passa, e de repente a gente se encontra no meio de uma estrada escura. Muita coincidência.

Concordei com ela.

— Você disse que estava morando na casa de seus pais... — lembrei. — e que monstro atacaram e você fugiu.

Ela assentiu.

— Meus pais estavam dormindo. — seu olhar ficou distante. — E... eu estava assistindo um pouco de TV antes de dormir também. Só que... — ela inspirou. — Ouvi um barulho no quintal de minha casa. Então fui ver o que era, quando uma bomba explodiu e... quase me matou.

— Puxa. — falei, fracamente.

— Sabia que eram monstros. — continuou ela. — Vi um vulto verde com duas caudas de cobra. Fiquei tão apavorada que fugi. Saí correndo de casa sem saber para onde ir.

— Ah... — tentei falar. — Nossa, sinto muito. Eu não sabia.

O olhar dela estava perdido em meio a lembranças ruins.

— Annabeth tem razão. Essa missão não inclui a mim.

— Ei, não. Você está sim na missão. Quer dizer, não iriamos deixar você para trás. Você é uma filha de Atena também. É esperta e inteligente. Você me ajudou lá no covil dos ciclopes.

Ela me olhou agradecida.

— Você é tão gentil Rapha.

Ficamos nos entreolhando por uns segundos quando, de repente, a coisa mais inimaginável aconteceu.

Ashley inclinou-se para frente, encostou seus lábios nos meus e... me beijou.

Arregalei os olhos de tão surpreso que fiquei. Meu coração gelou e ficou batendo descontroladamente. Mas depois, uma sensação de alívio e felicidade me encheu. Me entreguei ao beijo. Quando um flash de luz nos interrompeu.

Nos viramos atônitos.

— Cara — disse Kayro, com um smartphone na mão e segurando o riso. —, isso vai direto para o Facebook e o Twitter.

Meu rosto ficou vermelho e quente. Totalmente envergonhado falei:

— Hã... você... não tem nada para fazer?

— Agora tenho. Irei publicar essa foto.

Ashley agarrou Kayro pela a gola da camisa.

— Se eu ver essa foto em algum lugar, juro por todos os deuses que vou atrás de você e lhe faço ficar estéreo.

Kayro engoliu em seco.

— Okay, não vou postar mais.

Percy e Annabeth se mexeram e abriram os olhos.

— O que houve?

— Nada! — disse eu.

Olhei para fora do trem sentindo-me constrangido, quando tive uma visão desoladora.

Uma cidade passava por nós. Mas ela estava deserta. Completamente deserta. Prédios, casas e outros edifícios estavam em ruínas. As ruas estavam cheias de areia. O ar tremulava com o calor naquela cidade. As únicas pessoas que pude ver estavam agitadas e pareciam estar brigando. Uma delas olhou para o nosso trem, e quando a vi, recuei o rosto da janela.

Ela tinha a cara completamente ferida e dilacerada. Não tinha cabelos. Sua bochecha estava sanguinolenta e aberta, e deu para entrever os dentes. Feridas abertas estavam em seu coro cabeludo, e sangrava.

Mesmo aquela rápida visão fez meu estomago gelar de medo. Aquela pessoa estava em um estado deplorável, e se parecia com o zumbi lá da casa do sr. Richard. Os passageiros talvez tenham visto também, por que todos murmuravam atônitos e receosos.

Virei-me para meus amigos.

— Vocês viram aquilo?

Percy estava de boca aberta.

— Ela parecia aquele zumbi. Que nos atacara na casa do sr. Richard.

— Mas... por que eles ficaram assim? — perguntou Ashley.

Foi quando uma voz soou do alto falante. A voz do maquinista.

— Senhoras e senhores, não fiquem assustados. O que vocês viram foi só uma breve visão do que realmente está acontecendo. Aquelas pessoas deformadas estão contaminadas com um vírus. Creio que alguns já ouviram falar disso.

— Vírus? — perguntou um homem.

— Ele se instala no cérebro da pessoa, e com o passar do tempo, vai tornando-a completamente louca como um animal selvagem. Até agora não há nenhuma informação de que tenha uma cura para esse vírus. Mas ele é letal. Deram o nome de Ful...

O trem chacoalhou de repente. Todos gritaram.

— Calma, não foi nada. — disse a voz do maquinista.

— Um vírus? — sussurrei. — Espera...

— Foi a mesma coisa que o sr. Richard disse! — exclamou Kayro. — Estão lembrados?

— Que vírus é esse? — estranhou Annabeth.

— Não sabemos exatamente. — disse Percy. — Foi o sr. Richard que nos contou.

— Ele afeta o cérebro da pessoa? — perguntou Ashley.

— Pelo o que o maquinista disse... sim.

Nesse momento, a cabeça de um homem apareceu acima das cabeças de Percy e Annabeth.

— Isso é resultado das explosões solares. — disse ele. — As explosões solares são normais, claro, mas aquelas foram as maiores. O calor atingiu a terra, queimando satélites, matando milhares de pessoas, e devastando cidades. Várias cidades ficaram desertas.

— Como aquela que passou? — perguntei.

Ele assentiu sombriamente.

— Depois desta catástrofe, veio a doença. — continuou ele. — O vírus. É uma coisa horrível. Terrível.

Silêncio. Ele nos olhou e finalizou:

— Não posso dizer mais que isso. — E voltou a assentar-se, nos deixando atordoados com a noticia.