E Se fosse verdade? 2

18 Annabeth torna-se uma louca desvairada


— Annabeth! — exclamou Percy, o sorriso se alongando em seu rosto. — Graças aos deuses, você está viva!

Ela não respondeu. Tinha a sua faca na mão, e olhava para mim fixamente. Havia algo diferente nela. Seus olhos estavam inexpressivos, vidrados e... dourados. Estavam realmente dourados. O alívio se desvaneceu dentro de mim. A camisa do acampamento que ela vestia estava suja, e a calça jeans corroída na parte de baixo, devido ao ataque da Hidra.

— Hã... Annabeth, você está bem? — perguntou Kayro.

— Melhor do que nunca. — respondeu ela. Só que aquilo não era a voz dela. Aquela voz era profunda e totalmente desconhecida. Eu recuei um passo.

— A voz dela é assim mesmo? — perguntou o sr. Richard com a espingarda em direção a Annabeth. — E os olhos dela também?

— Não. — respondeu Percy, confuso. — Annabeth, o que está acontecendo?

— Preciso destruir você. — disse ela.

— Eu?

— Não, seu idiota. Ele. — e apontou para mim. Eu revirei os olhos, farto daquilo.

— Que porcaria é essa que está acontecendo? — murmurei, completamente irritado. — Todos estão querendo me matar? Vai ver que até...

— Espere! — pediu Percy. Ele contraiu os olhos em direção a Annabeth. — Não é você, não é?

— O que está dizendo? — retruquei, mas Percy insistiu.

— Annabeth? É você mesma que está...?

— Annabeth Chase não está aqui. — falou a voz profunda.

Aquilo estava indo de mal a pior. O que estava acontecendo? Por que tudo estava tão estranho? Senti-me olhando para outra pessoa, e não para Annabeth.

— Hã... então quem é você? — perguntei.

— Um Eidolon. — disse a voz.

— Eido... o quê? — murmurou Kayro.

Percy arquejou.

— O que está fazendo no corpo dela?

Eu murmurava totalmente confuso.

— No corpo...?

— Vim destruir este semideus. — disse o tal eidolon.

— Ah, ok. — resmunguei. — Para me destruir. Claro! Sou um assassino e blá blá blá... Olha, já estou ficando de saco cheio disso.

— Você não sabe o que está acontecendo não é, filho de Poseidon?

— Não, e nem quero saber.

— Olha, garotos — disse o sr. Richard. —, vocês querem me explicar que droga é essa que está acontecendo aqui? Que negocio é esse de semideus e filho de Poseidon?

Os olhos de Annabeth ainda estavam fixados em mim.

— Você matou vários semideuses. Destruiu filhos inocentes dos olimpianos. Acha que eles não iriam querer vingança?

— O que...? — minha cabeça estava a ponto de explodir. — Espere ai. Quer dizer que os deuses estão, tipo, com raiva de mim? São eles que estão fazendo isso comigo?

— Vocês conseguiram destruir o meu companheiro. — falou o eidolon na boca de Annabeth. — Mas a mim, vocês não irão destruir.

— Seu companheiro? — murmurou Kayro. — Hã... o zumbi?

Nesse momento, Annabeth nos atacou, saltando para cima da gente com a faca. Não... não era Annabeth, eu tinha que me lembrar disso. Era o eidolon.

O sr. Richard disparou a espingarda contra a Annabeth possuída, mas ela se desviou, abaixando-se. Tentou passar por ele, mas o sr. Richard a empurrou para trás com um chute.

— Corram! — exclamou o sr. Richard. — Eu cuido dela.

— Sei que armas celestiais não matam mortais. — falou Annabeth possuída, olhando para o sr, Richard. — Por isso vim preparado. — e tirou de trás de seu bolso um punhal pontiagudo.

— Cuidado! — gritei para o sr. Richard, mas foi tarde demais. Em uma velocidade incrível, ela enterrou o punhal na garganta dele. O sr. Richard largou a espingarda e caiu de joelhos com o punhal cravado em sua garganta até o cabo.

— Uuhhh... — ele gemeu e caiu no chão, debatendo-se, tentando tirar o punhal. Sangue escorria do pescoço e de sua boca. Seu olhar veio em minha direção, cheio de dor e surpresa.

— Não! — gritei. Aquilo não podia estar acontecendo. Eu já estava no máximo do desespero. Não conseguia ir mais além.

Ele tentou falar algo, mas tudo o que saiu foi sangue. Annabeth possuída pegou o punhal e o tirou da garganta.

— É ruim, não é? — disse ela. — Ver a pessoa que você gosta ser morta. Imagina ser um pai ou uma mãe, e ver seu filho morrer. Digam adeus a ele.

E então começou a apunhala-lo, sem parar, por todo o corpo. Aquela cena foi horrorosa. Senti o medo me dominar por completo.

Os olhos dourados da Annabeth possuída fixaram-se em mim.

— Agora é a sua vez! — exclamou ela, e avançou em nossa direção. Meu corpo ficou paralisado de medo. Não consegui me mexer.

Percy virou-se para mim e disse:

— Raphael, fuja!

— O quê? — olhei para ele. — Claro que não.

— Cuidado! — gritou Kayro.

No segundo seguinte, um chute atingiu-me no rosto. Minha cabeça tombou para trás violentamente, a dor alastrando-se, e caí de costas. Ouvi barulho de socos e lâminas se chocando. Vi Annabeth possuída dar uma cotovelada no estomago de Kayro e uma rasteira em Percy. Os dois estavam no chão agora.

Seu rosto apareceu acima de mim, com um sorriso sinistro.

— Essa é a justiça dos deuses, e você tem que pagar. — Ela levantou a sua faca em direção ao meu peito, e no exato momento em que a lâmina foi atravessar, segurei seu braço.

— Annabeth. — rosnei. — Ouça, você não está pensando direito! — minhas mãos tremiam enquanto eu segurava seu braço. Ela forçava a faca para baixo, mas eu impedia. — Você... não pode fazer isso.

— Posso, e vou fazer! — com a outra mão, ela tirou a minha e cravou a lâmina em meu ombro. Gritei, não só de dor, mas também de medo, tristeza e frustração. Senti meus músculos se rasgarem por dentro.

De repente Kayro apareceu do nada.

— Toma essa! — gritou ele, e empurrou Annabeth possuída de cima de mim. Sua cabeça bateu na parede, e ela ficou desacordada.

Kayro arfava segurando a barriga. Ele se ajoelhou diante de mim e gemeu.

— Ah, cara. Tenho que bancar o médico de novo? — ele olhou para trás. — Espere aqui. Vou buscar minha mochila. Já volto.

Esperei pelo o que pareceu ser horas. Quando ele chegou, tirou de dentro da mochila, néctar, e derramou sobre a minha ferida.

— Ai, ai. Odeio quando isso acontece. — gemi.

— Cara, essa foi... a noite mais horrorosa da minha vida. — ele fungou. — Vi um zumbi querendo nos devorar vivo...

— Me devorar vivo. — corrigi.

— E depois, Annabeth com uma coisa dentro dela chamada eidolon. — ele me entregou um pedaço de ambrosia, o qual comi. — Não sei, mas quero sair daqui. Quero viajar para bem longe daqui.

— Certo, vamos acordar Percy. — tentei sentar, mas meu ombro pareceu estar cheio de ácido dentro. — Acorde o Percy.

Do meu lado, Annabeth murmurou algo e abriu os olhos.

— Hã... o que... aconteceu?

Suspirei, aliviado por ela estar de volta.

— Depois lhe explico.

Ela viu meu ombro ferido.

— Deuses, quem fez isso com você?

— Olha, — tentei parar de gemer e falar direito. — depois eu lhe conto. Juro. Agora me ajude a levantar.

Ela ajudou-me. Percy levantou-se do chão e olhou para Annabeth ao meu lado.

— Você está normal agora?

— Normal? — perguntou.

— Galera, por favor, — implorei. — só vamos sair daqui.

Olhei para o corpo do sr. Richard com um aperto no coração. Tudo o que eu queria era sair dali e ir para bem longe.

Voltamos pelos os corredores até o nosso quarto, e demos de cara com Ashley.

— Onde vocês estavam? — exclamou ela. — Pelo o amor de Zeus, eu acordo ouvindo barulhos de tiros e gritos dentro da casa, chamo por vocês e vocês não aparecem. E quando finalmente crio coragem para sair do quarto, vocês aparecem.

Eu estava me sentindo impaciente demais para explicar. Meu corpo estava cansado e dolorido. Apertei o botão off no cabo da minha espada, ela voltou a ser um mini celular, e falei que contaria depois.

***

Saímos dali à noite mesmo, sem esperar pelo o dia. Sei que pode parecer estranho, mas aquela casa havia me desesperado completamente. Kayro conseguiu achar uma lata cheia de dinheiro na casa, e trouxe consigo. Me senti mal por pegar aquilo do sr. Richard, mas agora, ele não iria precisar mais. Tentei afastar a imagem dele ensanguentado e caído no chão.

O vento frio soprava contra nós à medida que andávamos pela a estrada de terra. A escuridão era absoluta à frente. Graças à mochila mágica de Kayro, que tirou outra lanterna de dentro, é que conseguíamos enxergar um pouco mais.

Finalmente chegamos à rua feita de asfalto. Nada passava por ali. Queria que pelo menos um caminhão, ou carro, ou ônibus ou o que for passasse por ali. Pedi aos deuses, fazendo uma oração, mas lembrei-me de que eles estavam com raiva de mim, e queriam vingança. Será que aquilo era mesmo real?

— Por que saímos uma hora dessas? — perguntou Annabeth. — Por favor, o que aconteceu lá na casa? Me contem.

Então contamos a ela. Por um instante, ela ficou muda. Até que murmurou:

— Eu... não acredito. — a voz dela tremeu. — Eu... matei um homem. Eu...

— Annabeth, não foi você. — disse Percy. — Foi o eidolon. Ele estava controlando você.

Mas ela começou a soluçar constantemente.

Alguns minutos depois, andando na beirada da estrada cercada por escuridão, ouvimos um barulho de motor. Senti uma pontada de esperança. Será que...?

— Aqui! — gritou Kayro acenando com os braços. — Para!

Alguns segundos depois, uma grande carreta parou ao nosso lado. Tossimos com a fumaça dele.

— Ei. — falou um cara da janela. — O que vocês estão fazendo aqui?

— Por favor, pode nos ajudar? — pediu Annabeth. — Precisamos de uma carona.

— Ei, Jorge. — falou outra voz do banco do motorista. — Cuidado. Podem ser bandidos.

— Hã? Não somos bandidos.

— E então? — perguntou o cara que se chamava Jorge.

— Bem, fugimos do nosso orfanato por que ninguém se importava com a gente. — falei. Aquela história sempre funcionara.

— Sinto muito, pessoal. — disse ele. — Não podemos ajudar.

O motor da carreta roncou pronto para partir.

— Espere! Por favor! — implorou Annabeth.

— Sinto muito.

A carreta começou a ir embora. Não podia acreditar que eles iam nos deixar ali, quando Kayro gritou:

— Nós vamos lhe pagar!

O veículo de repente parou. Deu a marcha ré, ficando perto de nós. O cara perto da janela perguntou:

— Como vão nos pagar?

Kayro mostrou a lata.

— Está cheia de dinheiro. Podemos dar a vocês se nos ajudarem.

O cara, Jorge, murmurou algo para o amigo do seu lado.

— Ok. Tudo bem. — murmurou ele. — Mas... vocês vão ter que ir atrás. Não cabem todos aqui. Não se preocupem. Só tem móveis novos lá. Nós transportamos isso.

— Hã... tudo bem. — assenti. — Obrigado.

Jorge desceu e foi com a gente para trás da carreta, pra abrir a porta.

— Não sujem, não arranhem, e não quebrem nada. — avisou ele. — Senão, vão ver só.

— Okay.

Ele puxou a porta que se abriu com um rangido. O cheiro de móveis novos nos atingiu. Inspirei profundamente. Todos nós entramos.

— Hã, afinal, para onde vocês vão? — perguntou Percy.

— Vamos descarregar em Ohio. Mas ainda tem outros caminhões de carregamento que vão para Nebraska.

— Nebraska? — perguntei.

Ele assentiu.

— E vocês? Querem ir para onde?

— Hã... Nebraska seria bom.

— Tudo bem. Afinal de contas, onde estão seus pais?

Ninguém respondeu.

— Ah... Estamos cansados. — fingi um bocejo. — Obrigado por nos deixar ir aqui.

— Não se esqueça do dinheiro. — avisou.

Lá na frente, o outro cara buzinou.

— Jorge! Vamos logo! Essas estradas aqui são estranhas! O que está fazendo? Dando amor e carinho a esses fedelhos?

— Durmam bem. — disse Jorge. E fechou a porta, nos deixando na completa escuridão.