E Se fosse verdade? 2

19 Nossa pequena estadia em uma carreta


Notas iniciais
Iaiiii galera! Voltei! É... estou falando sozinho, mas n me importo. kkk

— Pelo menos aqui não tem um leão albino, uma zebra e um antílope maltratados. — riu Percy.

Não entendi o que ele quis dizer, mas quando a carreta começou a se mover, tivemos que nos sentar para não cairmos. A escuridão a nossa volta era grande. Eu já estava cansado de ficar em escuridão. Isso só me fazia lembrar do nosso encontro com o zumbi.

Durante todo o trajeto nós nos esbarrávamos com os móveis que lá estavam.

— Opa! Achei uma geladeira. — murmurou de algum lugar a voz de Kayro.

Ouvi um barulho de chute.

— E achei um fogão. — disse Percy.

— Hã... será que dá para acharem um sofá? — pedi. — Preciso deitar.

Meu ombro ainda estava ardendo muito. Não conseguia tirar minha mente da dor. Cada vez que eu mexia meu braço esquerdo, parecia que uma britadeira estava perfurando o local.

— Que tal procurarem uma cama? — sugeriu Annabeth a minha direita.

De repente um feixe de luz atravessou a escuridão. Acompanhei o feixe e vi que se tratava da lanterna de Kayro.

— Assim é melhor. — disse ele.

Com a luz, vimos que vários móveis estavam por toda a parte. Geladeiras, fogões, armários, mesas, e... sim, sofás. Todos cobertos por plástico.

— Bem, aqui até que é bom. — disse Ashley com um sorriso. — Podemos cozinhar, comer e dormir.

— Eu prefiro a parte do dormir. — decidiu Percy. E cambaleou em direção a um sofá cinza meio peludo.

— Vou com você. — disse Annabeth. Percy estendeu a mão para ela, que a agarrou. Os dois se sentaram no sofá.

A carreta chacoalhava, fazendo-me dar pulos involuntários e causando dor em meu ombro. Aquilo me fazia sentir irritado. Fui em direção a outro sofá, grande e vermelho, e sentei. Era bem macio.

— Ei. — Ashley vinha em minha direção. — Tudo bem?

Assenti.

— Sim.

— É meio estranho saber que a gente dançou no verão passado, né?

Não, pensei. Mas não disse isso. Apenas dei um sorriso e confirmei.

— É estranho também o fato de que eu faço parte da missão de vocês agora. — ela sorriu. — Que confusão.

Franzi a testa.

— Hã... parte da missão?

— É. — afirmou ela. — Eu estou indo com vocês, não é? Então... eu meio que estou dentro da missão agora.

Não, não está. Eu queria dizer. Você apenas nos encontrou por acaso. Mas era óbvio que não podia dizer isso.

— É... bem, em parte tem razão. — falei. Estiquei as minhas pernas no sofá. — Ainda temos uma longa jornada.

— Por falar nisso, qual é a missão de vocês?

Pensei em dizer: Eu estou querendo dormir, não está percebendo? Mas não falei. Meu ombro estava clamando por descanso.

Olhei para ela, e por um instante pensei que era Annabeth, e disse:

— Bem... é uma longa história. Mas o problema é o seguinte. Um amigo meu...

— Pronto! — exclamou Kayro. — Terminei o meu projeto. — ele ligou a sua lanterna e iluminou seu rosto. Estava deitado em um sofá de couro a nossa frente. — Olhem, acabei de construir um mini rádio.

— Um mini rádio? — perguntou Annabeth, que estava deitada no sofá e com a cabeça sobre o colo de Percy.

— Sim. Olhem. — ele apertou um botão em uma coisinha retangular minúscula, e uma melodia suave começou a tocar. — Bom para dormir. Isso fará a gente esquecer o terror daquela casa, afinal.

Ouvindo aquela melodia, senti vontade de dormir mais ainda.

— Bom trabalho. — elogiou Percy.

— Obrigado.

Ashley colocou os cabelos para trás e suspirou.

— O que foi? — perguntei. — Você parece tensa.

— Não, é que... eu estou pensando em meus pais. — disse ela. — antes de ir morar com eles, fiz uma oração para Atena, para saber se daria certo eu ir para lá.

— E o que aconteceu?

— Ela não me respondeu, óbvio.

— Ah.

Um minuto de silêncio constrangedor.

— Acho que agora os deuses não vão mais me ajudar. — murmurei. — Nem mesmo meu pai.

— Por quê? — perguntou ela.

— Hã... eu fiz algumas coisas contra alguns semideuses.

— O que fez?

Eu hesitei. Não podia contar para ela. Decidi mudar de assunto.

— Eu estou cansado. — me espreguicei. — Posso dormir?

Ashley bufou.

— Só se você não quiser.

Dei um sorriso e me estirei no sofá. Mas então tive uma ideia.

— Ei, Kayro. Dá para me arranjar um travesseiro?

— Dá. — disse ele. — Bem, acho que dá. Já tirei coisas demais de dentro da mochila. Precisa esperar ela recarregar para poder tirar mais.

— Então eu posso ir ai pegar?

— Venha.

Levantei-me, tentando não cair com os balanços do veículo, e meu ombro ardeu.

— Droga de ombro machucado. — resmunguei.

— A culpa foi da Annabeth. — murmurou Kayro dando uma risadinha.

— Eu o quê? — interveio ela.

— Nada não.

Aproximei-me de Kayro.

— Onde está o travesseiro?

— Ah, sim. Deixe-me pegar a minha... — ele tentou agarrar a alça da mochila, mas esta escorregou e caiu no chão, esparramando diversas coisas de dentro dela. — Ah, droga.

— Eu pego. — falei.

— Não! — Kayro exclamou. — Pode deixar que eu faço isso!

Mas eu já estava juntando as coisas do chão. E de repente, peguei algo que senti que era feito de uma madeira dura e áspera. Um pequeno arrepio percorreu meu corpo. Fiquei apalpando-a, sentindo aquilo muito familiar em minhas mãos, quando Kayro a puxou de uma vez, tirando o objeto de mim.

— Eu disse que não precisava! — gritou ele.

Do nosso lado direito, a voz de Percy ecoou:

— Shiii! Dá pra parar de gritar? Annabeth já está dormindo.

Meu pensamento ainda estava naquele objeto. Revistei a minha mente tentando ver se eu lembrava daquilo, mas não consegui.

— Okay, cara. — falei, meio atordoado. — Só estava tentando ajudar.

Ele me deu o travesseiro, e eu o peguei.

Voltei ao meu sofá, e vi que Ashley estava deitada nele.

— Hã... Ashley?

Ela abriu os olhos e se levantou.

— Ah... me desculpe. Eu...

— Não, não. Está tudo bem. Pode ficar, eu arranjo outro lugar para mim.

— Não tem mais sofás aqui. — disse ela, coçando os olhos. — Venha, deite-se aqui.

— Mas e você?

Ela revirou os olhos.

— Vamos fazer assim. Eu durmo com a cabeça pro outro lado do sofá, e você dorme com a cabeça pro outro. Entendeu?

Achei aquilo meio embaraçoso. Mas assenti.

— Entendi.

Ashley se deitou repousando a cabeça no braço do sofá oposto ao meu. E eu deitei-me no outro (Queria empurrar ela dali. Meu ombro latejava de dor.), de forma que nossos corpos ficaram em sentidos contrários. Os pés dela estavam perto do meu pescoço, e os meus estavam perto do pescoço dela.

— Boa noite. — murmurou Ashley.

— Boa noite.

O silêncio se instalou no local. Bem, um silêncio meio barulhento, por causa do som do motor da carreta.

Apesar das balançadas, fechei os olhos e tentei dormir. Só levou alguns minutos até eu mergulhar em um profundo sono.