E Se fosse verdade? 2
31 A profecia se cumpre
Em meus sonhos, vi Fobos e Deimos arrastando Igor, juntamente com Grover, para o topo do Monte Tam, em São Francisco. Meus dois amigos se debatiam e esperneavam, mas de nada adiantava.
Quando chegaram ao topo, os dois deuses os jogaram de lado como se fossem sacos de trigo, e depois cumprimentaram Atlas.
— Malditos! — rosnou Atlas, tremendo sob o peso do céu. — Tirem-me daqui, e eu os ajudarei com os seus planos.
— Acho que não, Lord Atlas. — sorriu Deimos, desdenhoso.
Ele se virou para Igor e o chutou na barriga.
— Isso é para você aprender a não escapar quando não deve.
Igor se contorcia e gemia de dor. Grover gritou para que parasse, mas Fobos olhou para ele, os olhos ficando incandescentes, e logo, Grover começou a gritar e a se encolher de medo.
— Não! — gritava ele. — Pare! Não me coma! Socorro!
— Isso, sátiro. — ria Fobos. — Grite mais alto. Talvez seus amigos o ouçam daqui.
Eles os pegaram e levaram para o canto mais escuro do antigo palácio arruinado.
— Por vocês terem feito a gente se passar por idiotas — disse Fobos. —, agora vão receber o que merecem.
Após isso, os dois deuses começaram a chutar e a esmurra-los. Deimos golpeava o rosto de Igor com os punhos, e a cada golpe, Igor ia ficando mais inconsciente. Fobos pisou na perna de Grover, o qual uivou de dor. Eu queria pegar um martelo e atacar aqueles dois imbecis, mas eu não me mexia no sonho. Só ficava parado, vendo os meus dois amigos sendo torturados.
O sonho se dissolveu, e eu acordei com um salto.
— Ah!
— Ahhh! — gritou Ashley ao meu lado. — Que susto, garoto!
Eu respirava rapidamente. Meu coração estava apertado por ter visto meus amigos sendo mal tratados.
— O que foi? — perguntou Ashley. — Outro sonho?
Assenti.
— Eu... vi Igor e Grover sendo torturados por Fobos e Deimos. — contei. — Eles estão batendo neles. Precisamos chegar lá!
— Ei, calma. — Ashley pousou a mão em meu peito. — Você não pode ficar assim. Além do mais, o que você faria para chegar lá mais rápido? Voar?
— Eu daria um jeito. — resmunguei. — Não posso ficar aqui parado.
Ela me olhou, e sorriu.
— Você é tão fofo quando está zangado. — e assim, ela me beijou na boca, sem mais nem menos. Não foi um beijo demorado. Mas quando ela se afastou, senti meu rosto ficar ainda mais vermelho.
— Hã... certo. — falei, minha voz aguda.
Depois de alguns minutos de silêncio, perguntei a Ashley:
— Ei, que pássaros eram aqueles? Digo, sei que eram corvos, mas... eles não eram corvos normais, eram?
— Não, não eram. — respondeu ela. — Eles guardam o templo de Ares, que fica lá em Nova Yorque. É um dos bichinhos de estimação dele.
— Ah, Ares. — resmunguei. — Tinha que ser. Hera disse que ele também está com raiva de mim. Eu o odeio.
Ashley me deu uma cotovelada.
— Não fale isso alto. Quer ter mais problemas do que já tem?
Olhei para a janela, e vi que o céu lá fora estava escurecendo. Senti um alivio. Depois de tanto calor, era ótimo ver o sol se pondo. Mas as marcas do sol ainda estavam em minha pele, que estava vermelha e ardendo. Meus lábios não ficavam úmidos, mesmo eu passando a língua sobre eles. E sentia meu rosto pegando fogo.
Olhei para Percy, Annabeth e Kayro, que dormiam profundamente.
— Com licença. — falei. — Vou ao banheiro.
— Okay. — disse Ashley.
Me levantei e andei para a parte de trás do trem. No caminho, três garotas (Eram lindas demais!) que estavam sentadas juntas, me olharam e sorriram para mim. Olhei para elas, mas segui em frente. Abri a porta do banheiro e entrei. Lá, fiquei refletindo sobre tudo. Fiquei pensando em tudo o que estava acontecendo.
Do meu lado, havia uma pia, com um espelho acima. E perto dela o sanitário. Fui até ao espelho e me olhei.
— Pelo tridente de Poseidon! — exclamei.
Eu sabia que minha cara não estava lá essas coisas, mas não sabia que estava tão horrível assim.
Meus cabelos estavam um ninho de rato. Meu rosto estava avermelhado como um pimentão, e com alguns cortes. Os lábios estavam secos. Eu parecia um abandonado esfarrapado. Enchi minhas mãos de água e molhei o rosto. Bom demais! Pensei nas meninas que sorriram para mim. Com certeza elas não deviam estar atraídas. Provavelmente pensaram: Cruzes! Quem deixou esse sem-teto vagabundo e favelado entrar aqui?
Alguém bateu na porta do banheiro, o que me fez pular de susto.
— Hã... está ocupado. — falei.
Toc, toc.
— Já disse que está ocupado.
Toc, toc.
Resmunguei e abri a porta.
— Eu disse que está... — me interrompi.
— Eu sei que está ocupado. — disse uma das garotas que havia sorrido para mim. — Foi por isso que eu vim.
Fiquei sem fala. A garota era linda. Olhos verdes, cabelos lisos e cacheados nas pontas. Lábios vermelhos e atraentes.
— Ah... O que... quer entrar? — perguntei, ficando nervoso.
— Ah, muito obrigada.
Ela entrou. E eu saí, mas a garota me puxou para dentro e fechou a porta.
— Ei! — protestei. — Eu quero sair.
— Depois de alguns segundos, você vai implorar para ficar. — sorriu a garota. E de uma vez, ela saltou sobre mim e me beijou, enroscando-me com seus braços.
— Huummm... — tentei empurra-la, mas ela era forte. Continuou me beijando, e eu resistindo, tentando sair, mas... cara, que vergonha! Okay, vou falar. Depois de alguns segundos, a minha tensão e meu medo se transformaram em... Ah, esqueçam! Só sei que parei de fugir e deixei ela me beijar.
— É isso ai. — sussurrou a garota. — Se entregue totalmente.
Coloquei minhas mãos em sua cintura e a continuei beijando. A garota levantou minha blusa, e quando ela fez isso, a porta do banheiro se abriu de repente.
— Por que você está demorando tanto...? — Ashley parou quando me viu abraçado com a garota.
— Ah! Ashley! — empurrei a menina. — Hã... eu estava...
— Então era por isso que você estava demorando tanto. — disse Ashley, olhando para mim. — Bem, pode continuar. Desculpe ter atrapalhado.
Ela se virou e saiu, irritada. Fiquei totalmente envergonhado. Mas fui atrás dela.
— Ashley, espere!
A garota puxou-me de volta e fechou a porta.
— Ah, deixe ela pra lá. Vamos continuar.
— Me solta! — exclamei, começando a ficar zangado. — A culpa é sua! Saia da frente!
Eu a empurrei para o lado com um pouco de violência e abri a porta. Quando olhei para fora, meu coração se afligiu.
— Kayro, cuidado! — gritou Annabeth, brandindo sua adaga para duas empousas que estavam rosnando para eles, com seus cabelos flamejantes, pernas horríveis e garras compridas e afiadas.
— Ah, meus deuses! — exclamei.
Assim que fui ajuda-los, a garota que estava comigo dentro do banheiro emitiu um sibilo. Virei-me, e me deparei com outra empousa.
— Ninguém me dá um fora assim. — rosnou ela. E em um rápido movimento, cravou suas presas no meu pescoço. Eu gritei de dor. Minha perna fraquejou, fazendo-me cair no chão de joelhos. Meu pescoço começou a arder.
— Você é tão delicioso. — riu a empousa com as presas manchadas de sangue. — Vou aproveitá-lo direitinho.
Quando ela foi morder outra vez, levantei-me e desferi um golpe com o meu punho bem no seu nariz.
— Argh! — ela cambaleou para trás e caiu sentada no sanitário.
Fechei a porta, e fui ajudar meus amigos.
Kayro, Percy e Annabeth estavam em pé em cima dos bancos, e brandiam suas armas para as duas empousas. Ashley estava em outro banco com uma faca nas mãos. Aonde ela conseguiu uma faca eu não sabia.
— Ei! — gritei, e empurrei uma para fora do caminho. Ela caiu no chão do trem, as pernas de burro e bronze emitindo barulhos estranhos. Fiquei em pé ao lado de Ashley em cima dos bancos, e tirei meu mini celular do bolso.
— Seu desgraçado! — rugiu a outra.
A porta do banheiro se abriu, e a outra empousa veio se juntar ao combate.
— Por que ainda não os mataram? — perguntou ela.
— Por que eles estão com armas nas mãos, não está vendo? — sibilou a outra que caíra no chão.
— Onde estão os passageiros? — perguntei, apontando a minha espada para os três monstros.
— Eles foram para a outra cabine. — respondeu Annabeth.
— É, enquanto você estava se agarrando com a empousa lá dentro. — resmungou Ashley.
— O quê? — exclamou Percy, me olhando com nojo.
— Por favor, não me lembre disso. — estremeci, sentindo nojo. — Eu nem sabia. E além do mais...
Uma das empousas saltou sobre mim e me fez cair do banco junto com ela.
— Raphael! — Annabeth saltou, e em pleno ar, deu um chute no rosto do monstro que estava perto dela. Percy tentou atingi-la com a espada, mas ela agarrou-lhe a mão e a girou, fazendo a espada cair.
A que estava sobre mim tentava cravar suas garras em meu peito, mas eu estava segurando seus braços e impedindo-a, quando a ponta de uma faca apareceu bem onde deveria estar seu umbigo.
Ela arregalou os olhos.
— Não acredi... — e explodiu em poeira branca. Atrás dela estava Ashley, me olhando com irritação.
— Obrigado.
Mas ela não disse nada. Simplesmente virou-se e foi ajudar o resto dos meus amigos. Por que ela estava agindo assim? Só por que me pegou abraçado no banheiro com a... Eca! Deixa pra lá.
— Percy! — Annabeth brandiu sua adaga para a empousa mais próxima, que estava com as garras no pescoço de Percy. — Solte-o!
— Acho que não. — riu a monstra.
Kayro mexia em sua mochila, e eu sabia que ele estava procurando algum brinquedinho mortal.
A outra empousa estava de olho em Ashley.
— Sua miserável! Vai pagar por ter matado minha irmã.
— E vou matar você também, se não der o fora daqui. — disse ela.
As duas se avançaram e trocavam golpes de faca e garras. Avancei em direção àquela que estava com as garras no pescoço de Percy, mas a monstra o jogou com força em minha direção. Não consegui me desviar, e colidimos um com o outro, caindo no chão.
— Ai. — gemeu ele.
Annabeth avançou sobre ela com a adaga, mas a empousa se agachou e contra-atacou, empurrando-a para longe.
— Achei! — exclamou Kayro, com uma esfera de metal em suas mãos. — Demorei uma eternidade para forjar essa coisa. E só pode ser usada uma vez. Então...
Ele tirou sua mochila e a jogou com força contra a empousa, fazendo-a cambalear para trás.
— Maldito! — sibilou ela.
— Pegue a mochila dele! — rugiu a irmã empousa que lutava contra Ashley.
Ela pegou a mochila e começou a rasga-la em pedaços com as suas garras. Peças de engrenagens, ferramentas, brinquedos letais e a Máscara caíram no chão, espalhando-se.
— Não! — gritou Kayro. — Ah, você vai pagar por isso!
— Pegue a Máscara! — exclamei.
Percy correu para pegar a Máscara, mas a monstra que lutava contra Ashley deu as costas a ela e saltou sobre Percy, arranhando seus braços. No entanto, eu pulei e agarrei a Máscara, colocando-a dentro da minha calça (Não sabia outro lugar para esconder.) A outra que rasgara a mochila gargalhou, e avançou com ferocidade sobre Kayro, fazendo-o cair de costas no chão e cravando suas presas em seu pescoço. A esfera que estava em sua mão se soltou, quicou no chão, e começou a emitir um bipe agudo.
— Não! Fujam! — berrou Kayro, esmurrando a empousa.
A esfera explodiu em uma nuvem mágica, e de repente, um grande buraco negro surgiu no chão do trem, rodopiando e sugando tudo violentamente.
— AAAHHH! — Annabeth e Ashley começaram a ser sugadas, mas as duas se agarraram a um banco. A empousa que estava sobre Kayro não teve tanta sorte, e foi engolida pelo o buraco. Alguns bancos se desprenderam do chão e voaram para dentro da grande boca negra. O teto do trem começou a tremer e a envergar-se em direção ao buraco. Eu tentei me segurar em alguma coisa, mas não consegui, e comecei a ser sugado pelas costas.
— Socorro! Socorro! — eu berrava, aterrorizado. Me debatia como um louco tentando segurar-me em algo, quando Percy, que estava se segurando na perna de um banco, estendeu sua mão e pegou-me pelo o braço.
— Segurem-se! — gritava Kayro, sua voz saindo fraca devido ao grande barulho de sucção.
Um pedaço do teto quebrou-se. As janelas quebraram-se e foram sugadas junto com os vidros. A outra empousa, vendo que não conseguiria se segurar por muito tempo, olhou para Kayro com ódio e rugiu:
— Se eu for, você também irá!
E pulou sobre ele, agarrando-lhe o calcanhar. As pernas horríveis da empousa estavam a centímetros da beira do buraco.
— Não! — berrou Percy. — Segure-se, Kayro!
— Não estou conseguindo! — suas mãos estavam escorregando.
— Você vai morrer! — rugiu a empousa. E puxou as pernas de Kayro.
— AAAAHHH!
— KAYRO! — gritou Ashley.
Ele e a empousa se desprenderam e foram em direção ao buraco negro, mas Kayro se segurou na beirada do buraco, enquanto a monstra se foi.
— Socorro! — clamava ele. — Me ajuda! Me ajuda!
— Ajuda ele! — minha voz saiu num rasgo de desespero. Eu estava em um nível de pânico altíssimo. Queria ajudar meu amigo, mas o instinto de sobrevivência falava mais alto, impedindo-me de me soltar.
— Meus deuses! — chorava Ashley.
Infelizmente, Kayro não conseguiu mais se segurar.
— AAAHHHH! — suas mãos se soltaram, e ele foi engolido pelo o buraco negro.
— Nããããoooo!!
Nessa hora, todo o teto do trem veio abaixo, sendo engolido. Bancos desprenderam-se, inclusive o nosso, e teríamos sido sugados, mas o buraco imediatamente fechou-se como uma boca, e desapareceu.
Kayro tinha sido engolido. Acabávamos de perder mais um amigo.
Fale com o autor