E Se fosse verdade? 2
32 Uma senhora nos acolhe
Vocês já ficaram em estado de choque? Tipo, ficar paralisado, sem se mexer por nada, e ficar olhando para um ponto distante enquanto reflete sobre tudo o que aconteceu ali? Pois é. Eu fiquei mais ou menos assim.
Ainda estávamos dentro do trem (Que estava parado e totalmente destruído.), deitados no chão, imóveis, enquanto vários destroços estavam ao nosso redor. O teto havia sido arrancado. Os bancos haviam sido tragados. Vigas de ferro estavam soltas acima de nós e pedaços de metal estavam espalhados por todos os lados. Faíscas saltavam de vez em quando. E o único som que se ouvia naquele triste ambiente era o de choro.
— Ele... ele se foi. — chorava Ashley, desconsolada. — Ele se foi.
Annabeth, que estava sentada e com lágrimas nos olhos, também parecia estar sentindo uma tristeza devastadora. Percy ficava olhando para o chão, com as sobrancelhas franzidas, como se estivesse pensando se aquilo fora de fato real. E eu, como já disse a vocês, estava em estado de choque, parado, sem falar nada, sem esboçar nenhuma reação. Somente olhando para um ponto distante e querendo ser capaz de fugir dali, ir para o Grand Canyon e gritar o mais alto que pudesse, liberando toda a tristeza e infelicidade que sentia.
Do lado de fora, ouviam-se pessoas aflitas pedindo ajuda e chamando a ambulância.
— Eu não acredito. — sussurrou Percy. — Isso não pode ter acontecido. Não... aquele buraco negro... deve ter sido...
— Isso foi real, Percy! — exclamou Annabeth. — Pare de falar que não foi.
— Não precisa gritar comigo! — retrucou ele.
— Bem, se você não agisse feito uma criança eu pararia de gritar.
— Parem! — gritou Ashley dando um murro no chão. — Parem com essa briga idiota! Kayro morreu.
Ouvir aquilo fez meu coração se aquebrantar ainda mais. As lágrimas começaram a brotar dos meus olhos, mas eu as impedi de sair. Já havia chorado bastante.
— Vamos nos levantar. — disse eu, inexpressivo. — Vamos continuar a viagem.
Levantei-me, as pernas tremendo e o coração apertado, como um gordo dentro de um elevador estreito.
Os três olharam para mim.
— O que você está dizendo? — perguntou Annabeth. — Quer que continuemos a viagem assim, sem mais nem menos? Como se nada tivesse acontecido?
— Ainda temos Igor e Grover para resgatar. — falei.
— É assim que você respeita a morte de seu amigo? — gritou Ashley.
— Ele não morreu! — berrei, descontrolado. — Ele não morreu! Ele não pode morrer assim.
— Ah, verdade. Ele foi engolido por um buraco negro, mas ainda está vivo, dançando lá dentro e sendo feliz para sempre.
— Do que adianta a gente ficar aqui se lamentando? — eu continuava gritando. — Os dias estão se passando e ainda temos que chegar até São Francisco, filha de Atena. Ou será que o buraco sugou a sua inteligência e sabedoria?
Ashley olhou para mim, magoada. Seus maxilares estavam apertados.
— Raphael, o que deu em você? — perguntou Annabeth. — Mesmo não sendo comigo, me senti totalmente ofendida.
Eu lamentei por ter dito isso, mas não poderia pedir desculpas. Virei-me e sai de lá, enquanto me sentia ainda pior do que antes.
***
O céu agora estava escuro, com as estrelas o enfeitando. O ambiente estava silencioso e sombrio. Não havia postes de luz onde estávamos. E eu nem sabia onde a gente estava. Apenas andava lentamente enquanto sentia a dor da perda de Kayro. Minha mente ficava trabalhando toda hora, tentando saber se havia alguma coisa que eu pudesse ter feito para que Kayro ainda estivesse aqui. Eu não sabia, mas eu gostava muito dele.
Não! Não é como vocês estão pensando. Estou dizendo como amigo. Apesar de que no inicio eu o achava um idiota por ter me chantageado para deixa-lo ir na missão.
— Droga. — murmurava. — Por quê? Por que isso tinha que acontecer?
Eu estava me sentindo tão culpado e furioso, que se um monstro aparecesse agora querendo me devorar, daria graças aos deuses. Pelo menos podia descontar tudo o que estava sentindo nele.
Nesse momento, ouvi vozes de pessoas conversando do outro lado do trem. Assim que eu fui até lá, vi várias pessoas em pé olhando para o nosso vagão destruído. Algumas estavam com um celular nas mãos, tirando fotos e filmando. Eram apenas moradores da região. Eles murmuravam entre si sobre o que havia acontecido. Um garotinho que estava com seus pais, apontou para mim e gritou:
— Olha, pai! Um menino.
Cabeças se viraram em minha direção. Recuei um passo.
— Ei, garoto. — chamou um homem. — Você estava nesse trem?
Assenti.
— Um sobrevivente.
Eles me cercaram, perguntando-me se eu estava bem, se queria ir para o hospital, se queria água, comida, qualquer coisa.
— Não, obrigado. — eu falava, constrangido. — Estou bem.
— Meus Deus, você está vermelho e quente. — disse uma senhora. — Seu pescoço está sangrando!
— Chamem uma ambulância!
— Vou buscar um curativo.
— Há mais sobreviventes?
Fiquei atordoado com tanta gente falando.
— Hã... há sim. Meus amigos estão lá dentro do vagão. Vou busca-los.
Quando me virei, eles estavam vindo em minha direção.
— Hã... Raphael — disse Percy olhando receoso para as pessoas. — Quem são?
— Acho que são... Moradores daqui. — respondi.
— São seus amigos? — perguntou a mulher que me oferecera comida.
— Sim. Estávamos nesse trem e... não sei o que aconteceu.
Uma senhora que estava observando tudo disse:
— Venham, meus queridos, vamos lá para casa. Eu os darei comida e tratarei de seus ferimentos.
Fiquei impressionado com a tamanha bondade daquela senhora.
— Obrigada, senhora. — sorriu Annabeth. — Agradecemos muito.
Passamos pelo o meio da multidão, seguindo a senhora em direção a sua casa.
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