E Agora?
7 Capítulo 7 - O Plano do Aioria
Notas iniciais

E Agora? — Capítulo 7
"Oi vou continuar a história o Camus não gosta muito de falar desta época ainda é difícil pra ele, aquele cabeça dura se finge de durão, mas é um manteiga derretida."
Bom, aqueles foram dias difíceis para eles, Hyoga não demorou muito no hospital, mas ele voltou com defeito, ele não falava.
Sério mesmo, o menino voltou mudo, sei lá, os médicos disseram que ele teve um grande trauma em ver a mãe e o irmão mortos, a questão é que ele voltou mudo e...
"Milo o que está fazendo?"
"Oras tô contando nossa história"
"Mas isso é jeito de falar? Milo que falta de sensibilidade."
"Camus, o que quer que eu fale? O moleque deu defeito mesmo"
"Milo, deixa que eu conto essa parte, ok?"
"Tem certeza? Não vai te fazer mal?"
"Não, tudo bem eu assumo daqui, Milo por favor, não faz essa cara, eu tenho mais sensibilidade para narrar estes fatos"
"Ok, Camus tá bom"
Certo, depois dos funerais fomos para o hospital, estávamos preocupados com o Hyoga. A Sra. Cassandra estava lá cuidando dele, ela me abraçou forte e também abraçou meu irmão.
Olhamos o Hyoga, ele mantinha os olhos abertos olhando para o nada, e estava em silêncio, a mãe do Milo nos chamou para fora do quarto e nos contou: — Ele não está falando nada, o médico disse que ele está em choque, vamos ter que ter paciência neste momento.
Meu pai não disse nada, ele estava arrasado, também parecia em choque, ele sentou na poltrona do quarto e ficou olhando pela janela.
Eu me aproximei do meu irmão e segurei sua mãozinha, — Hyoga eu tô aqui, vou estar sempre junto a você, eu prometo.
Sei que parece sem sentido, mas me sentia culpado... culpado por ter passado um fim de semana incrível, enquanto minha mãe e meu irmão morriam, me sentia culpado por ter roubado um beijo do Milo enquanto ele dormia e isso tenha custado a vida do meu irmão.
Podem falar o que quiserem, mas o Isaak não queria ir, eu poderia ter falado pra mamãe deixar ele comigo, eu podia ter me oferecido pra cuidar dele, mas não fiz isso.
Não fiz para poder ficar a sós com Milo, pra poder ficar olhando pra ele enquanto ele dormia. A culpa me corroía por dentro e eu carregaria ela por muito tempo, mas jurei que sempre priorizaria o Hyoga.
Sempre!
Quando voltamos pra casa o Hyoga queria dormir comigo no meu quarto, entendi: Como ele ia ficar no quarto que ele dividia com o Isaak?
Era tudo muito difícil, pegar nas coisas dele, saber que meu irmão nunca mais ia voltar pra casa...
"Camus, tudo bem? Eu posso continuar daqui."
"Milo, por que acha que não está tudo bem?"
"Porque você está chorando, Camus, só por isso."
"Eu não estou chorando, foi só um cisco que caiu nos meus olhos. É o vento, por favor, feche a janela."
"Camus a janela está fechada"
"Hum, vou continuar, Milo."
O Degel ficou um tempo lá em casa, trancou a faculdade, ele era a voz sensata da família agora, papai estava muito estranho, totalmente apático.
Bom, eu tive que aprender a cozinhar, foi complicado, passamos quase um mês comento pizza, lanche essas ... bobagens. Isso pode ser bom alguns dias, mas todo dia não é legal, ainda mais quando se tinha o costume de comer algo saudável, como era na época da mamãe.
— Pai, a gente tem que ver um médico para o Hyoga, acho que não é o caso de um fonoaudiólogo, e sim de um psicólogo. — Degel comentou com papai na sala.
— Ele sempre falou, isso é frescura, isso sim. — Papai respondeu com o jeito "doce" dele, mas o Degel o olhou feio e falou na lata.
— Se tá difícil pro senhor, que é um adulto, homem feito, pai de quatro filhos, imagina pra ele que só tem oito anos e viu a mãe e o irmão morrerem? Pai, isso é sério, não uma frescura, por favor, não pense assim.
Hyoga estava dormindo, eu tava na sala e fiquei atento, sem saber qual seria a reação do meu pai, mas ele fez a única coisa que jamais imaginaria ele fazendo, muito menos na nossa frente.
Ele começou a chorar, mas tipo... igual criança, sabe?
No começo fiquei sem reação, olhei para Degel que me retribuiu o olhar, sem saber como agir também.
— Pai, a gente tá aqui, vamos passar por isso juntos, — Degel falou sentando de frente pra ele e eu sentei ao seu lado.
— É pai... a gente tá aqui. — Eu falei tentando confortar meu pai, apesar de tudo eu o amava muito.
— A mãe de vocês era o amor da minha vida, e não sei como vou fazer pra viver ser ela me ajudando. — Papai começou a falar entre as lágrimas, era a primeira vez que eu via meu pai como um homem comum, senti até pena dele. — E o Isaak, meu menino, vocês sabem que eu amo todos vocês igualmente, não sabem? Mas, o Isaak era o mais parecido comigo, digo em termos de gostar das mesmas coisas, e tudo mais, como vou fazer sem meu menino?
Eu e o Degel abraçamos o papai, ele estava arrasado.
ooOoo
Uma tarde de domingo eu estava na cozinha com o Hyoga, eu lavava a louça e ele me ajudava, quando o Sr. Klaus chegou com o Kárdia.
Logo o Degel foi para fora com Kárdia e papai ficou conversando com o Sr. Klaus, ele tava tentando animar meu pai que estava péssimo desde o acidente.
Da janela da sala papai viu Degel e Kárdia conversando próximos, e ele perguntou ao Sr. Klaus. — Como você faz pra aceitar isso?
O Sr. Klaus sorriu e respondeu. — Eu amo meus filhos, Crystal, e vou apoia-los, não vou mentir que não me choquei com a revelação do Kárdia, mas o que eu poderia fazer? É meu filho e nada vai mudar isso.
Os olhos do meu pai encheram de lágrimas e o Sr. Klaus continuou. — A gente não escolhe os caminhos dos filhos Crystal, nós só apoiamos e caminhamos junto com eles e somos o porto seguro para o caso deles precisarem voltar.
— Talvez se eu não... talvez a Natassia e Isaak... — Papai começou emocionado.
— Acredito que a gente só parte quando chega a hora, não se culpe, essa era a hora deles.
— Aprendi desde pequeno que homem é homem e mulher é mulher, não entendo isso. — Meu pai falou para minha tristeza, sim eu estava ouvindo a conversa toda, bom eu e o Hyoga.
Sr. Klaus sorriu antes de responder. — Eles são homens, Crystal, nenhum dos dois deseja ser mulher, são dois homens que se amam. E, sabe, eu não escolheria ninguém melhor que o Degel pro meu filho, então eu agradeço aos Deuses por isso
Papai começou a chorar, ele estava assim: Tudo ele chorava. O Hyoga foi correndo abraçar ele.
Este era o clima aqui em casa ultimamente.
ooOoo
— Ah! Camus, vamos lá, poxa você nunca mais foi na minha casa! — O Milo reclamava comigo.
Eu tinha acabado de dar banho no Hyoga, e tava ajudando ele a se trocar, o Hyoga agora ficava no meu quarto, bom, até que ele se sentisse a vontade de voltar para o quarto que ele dividia com o Isaak.
Ele ainda não falava, apenas ficava quieto ou fazia algum sinal pra se comunicar.
— Milo, não posso, tenho que ficar com o Hyoga e tenho que fazer o jantar. — Expliquei o motivo da minha recusa em ir pra casa dele jogar.
— Camus, não é justo que você fique sobrecarregado, poxa... você tem que fazer tudo agora? — Meu amigo reclamou.
— Não, Milo, não tenho que fazer tudo, mas Degel foi ver um trabalho e também está tentando uma faculdade aqui perto para não ter que trancar o curso. Meu pai tá no trabalho, ele vive lá agora e eu tenho que cuidar de mim e do Hyoga. — Eu tentei explicar.
— Quando você vai ter tempo pra mim? — Milo me cobrou olhando em meus olhos, quem visse e ouvisse a conversa iria imaginar uma briga de casal, mas, claro que na realidade não tinha nada disso, o Milo é uma criança grande ele quer sempre atenção e ter que dividir a minha com o Hyoga pra ele era demais.
— Milo, tenha paciência... as coisas aqui tão se ajeitando, por favor, não me cobra nada... — Eu pedi triste, ele assentiu com a cabeça e logo foi embora.
Suspirei triste, o Hyoga me abraçou e ficou me olhando. — Tudo bem, Hyoga, o Milo vai sobreviver ficando alguns dias sem mim. E além do mais, ele tem muitos amigos e não vai ficar sozinho.
O meu irmãozinho ficou me encarando, "Hunf você é muito pequeno pra entender certas coisas, Sr. Hyoga" — Eu pensei.
ooOoo
O tempo foi passando, eu e Milo ainda éramos amigos, obviamente, porém eu me mantinha mais distante, eu precisava cuidar do Hyoga e me sentia culpado em ficar perto do Milo.
Já estavávamos com quinze anos.
Meu irmãozinho passou uns seis meses sem falar nada, depois começou a falar somente mamãe.
Acordava a noite chamado por ela.
Então, encontramos uma "terapia" pra ele, o difícil foi convencer meu pai.
— O quê? Ballet?? Vocês querem me dizer que devo matricular meu filho no ballet? — Papai perguntou incrédulo.
— Pai... é para terapia, o Hyoga gosta muito de dançar, não veja com maus olhos, é só uma dança... e vai fazer bem pra ele. — Degel explicou, mas papai negou com a cabeça.
— Não, não!! Vamos pensar em alguma coisa, em outra coisa. — Ele disse indo para a cozinha, infelizmente hoje era a vez dele cozinhar, ele ia tentar fazer alguma coisa "comível", mas no final sempre acabávamos pedindo pizza, ou comendo macarrão instantâneo.
...
Havíamos terminado nossa pizza quando recebi uma ligação.
— Oi, Camus sou eu, Aioria,
— Oi, Aioria o que houve? — Eu perguntei estranhando a ligação.
— Olha, sábado nós vamos ao cinema e você vai. — Ele me falou, ou melhor, me avisou.
— Aioria, não posso, tenho que ficar com o Hyoga e... — Eu comecei, mas ele me cortou.
— Nem vem, Camus, você vai sim, tem que sair de casa um pouco, pode perguntar agora pro seu pai se você pode ir? Espero na linha. — Ele falou com aquele jeito autoritário dele, suspirei e pedi sem vontade.
— Pai, posso ir ao cinema sábado?
Papai me olhou e perguntou, — Quem vai, e como vão?
— Como a gente vai? E quem vai? — Perguntei ao Aioria.
— Eu, você e o Milo. O Sr. Klaus vai nos levar. — Ele me respondeu.
— Eu, o Aioria e o Milo. E o Sr. Klaus é quem vai levar. — Respondi.
— Tudo bem, pode ir. — Meu pai deixou, mas que merda se eu quisesse muito ir ele não deixaria.
— Tudo bem, ele deixou, — Pensei um pouco e perguntei, — Ei! Que filme vamos ver? — Questionei, ia sem nem ao menos saber o filme.
— Sei lá, a gente decide quando chegarmos lá. — Aioria me respondeu sorrindo, eu tinha a impressão de que ele tava aprontando alguma coisa.
ooOoo
— Um programa de TV? — Eu perguntei incrédulo.
— Sim, Camus, o programa do Lucio Batman*, aquele QI nota Dez, nós fomos escolhidos para representar a escola isso não é o máximo? — Shaka me contava animado.
— Uau, Shaka! Eu nunca imaginei! — Falei embasbacado.
— Camus, isso quer dizer que somos os mais inteligentes da escola! Os mais inteligentes!!! — Shaka dizia pulando e dançando uma música da cabeça dele, acho que era um hit dos mais inteligentes.
Eu sorri pra ele, e com ele, Depois entrei no clima da comemoração, afinal, nós éramos os garotos mais inteligentes da escola, agora oficialmente, e íamos participar de um programa de TV.
Quando estávamos rindo e pulando, tudo bem, não parecíamos tão inteligentes agora, e o chato do Argol chegou. Estávamos numa praça em frente à escola.
— Você é uma bicha mesmo né, Camus? Agora fica o tempo todo grudado nesse aí. — Ele falou como se me acusasse de alguma coisa.
Eu e Shaka paramos e ficamos olhando aquele idiota.
— Vá embora, Argol, to sem paciência pra você. — Mandei bravo, estava sem ânimo pra lidar com ele.
— Ah! Quando não tá grudado no Milo tá grudado nesse aí, dois viados é o que vocês são. — Ele falou irritado como se estivéssemos o ofendendo por algum motivo.
Eu francamente não estava mais com paciência pra ele, e quando ele veio pra cima de mim, desviei do golpe dele e reagi distribuindo um golpe do jujitsu, um daqueles que aprendi de defesa pessoal, que pra minha surpresa funcionou e bem, o Argol caiu longe.
Não cheguei a comemorar, pois tinha receio do que ele faria quando se levantasse.
Não preciso dizer que ele voltou parecendo a invocação do mal, o rosto estava transformado pela raiva, onde já se viu apanhar do nerd da escola?
O Argol olhou para o Shaka, acho que ele pagaria por meu atrevimento.
Mas para minha surpresa e alegria o Shaka se defendeu de um golpe do Argol com um de Kung Fu, o levando ao chão novamente.
Argol levantou novamente, e eu e o Shaka ficamos lado a lado em posição de defesa.
Resumindo a história, oferecemos ao valentão uma bela surra, ele saiu correndo envergonhado.
— Uau, Shaka onde aprendeu a lutar assim? — Quis saber totalmente surpreso.
— Faço aulas de artes marciais há muito tempo, não gosto da sensação de não saber me defender, e você? — Ele me perguntou.
— Estou fazendo aulas há dois anos, por causa do Argol, ele sempre pegou no meu pé, aí eu quis aprender a me defender sozinho, o Milo me ajuda, mas ele não está grudado em mim sempre, não é? — Falei até um tanto triste, sentia falta do Milo, e eu sabia que o estava afastando, mas de certa forma era a coisa certa a se fazer, não era?
Me despedi de Shaka e fui pra casa dar a notícia a todos, claro que não demorou para a história se espalhar pela escola.
...
"Posso contar minha história?"
"Milo, mas eu..."
"Camus é a MINHA história"
"Que horror Milo, você é tão possessivo as vezes, pode vir escrever a SUA história"
"Obrigado"
"Hunf, aposto que só veio me interromper porque ainda tem inveja de eu ter ido ao programa representar a escola"
"E por que eu teria inveja disso?"
"O mais inteligente da escola"
"Vai ver se eu to na esquina Camus! E não me olhe com essa cara de deboche"
"... Ele saiu, hunf onde já se viu eu com inveja de uma tosqueira dessas?
Deixa eu ver onde ele parou, ah sim!"
...
— Como assim, você vai participar do programa do Lúcio Batman?! E eu só fico sabendo na escola, pela Shina? — Perguntei pra aquele sonso, puto da vida.
— Milo, eu ia te falar, mas fiquei sabendo ontem de tarde e precisei levar o Hyoga no ballet, você sabe que estamos fazendo isso escondido do meu pai. — Camus começou sem graça.
— Camus, você não quer ser mais meu amigo? É isso? — Eu tinha que perguntar, ele tava cada dia mais estranho, cada dia mais arredio, sei que ele tinha sofrido com a morte da mãe e dos irmãos, mas poxa... eu não tinha culpa e ele tava se afastando de mim.
— Por que você tá me perguntando isso, Milo? — Camus me respondeu com uma pergunta.
— Porque há meses você foge de mim, me evita, tentei entender, te dar o tempo necessário, mas poxa...! Você não quer mais ser meu amigo? Se for isso me fala que eu sumo da sua vida, não falo mais com você, mas preciso saber. — Declarei exaltado.
Camus ficou me olhando, depois a respiração dele ficou pesada como se ele tentasse segurar o choro, até que ele começou a chorar baixinho.
— Camus, o que tá acontecendo? — Perguntei com os olhos cheios de lágrimas também.
— Eu... me sinto culpado, passei o melhor final de semana da minha vida na sua casa, eu tava me divertindo enquanto minha mãe e meu irmão estavam morrendo. — Meu amigo confessou seus sentimentos emocionado, escondendo os olhos com as mãos.
Abracei o Camus, ele parecia tão frágil, eu tinha que protegê-lo, então senti o cheiro dos cabelos dele, cara como eram cheirosos, ele devia usar o melhor shampoo do mundo, me sentia inebriado com o aroma dos cabelos dele.
Percebi que passei tempo demais em silêncio abraçado ao Camus, isso não era coisa de garoto, ainda bem que estávamos só nos dois no quarto dele. Me afastei sem graça.
— Camus, você não tem culpa de nada, pelos Deuses! Como você ia saber? — Perguntei de forma branda.
— O Isaak... ele não queria ir, eu podia ter falado com minha mãe pra que ele ficasse com a gente, mas eu não quis que ele nos atrapalhasse... — Camus revelou triste e envergonhado.
— Foi uma fatalidade, se não fosse o Issak, seria o Hyoga. Camus, tira isso da cabeça, você não tem culpa, eu não tenho culpa, e nossa amizade também não. — Falei sério, mas ainda com o tom brando.
Ele ficou me olhando com aquela cara de cachorro que caiu da mudança que ele tem.
— Camus... me promete que nunca vai deixar de ser meu amigo? — Eu pedi.
Camus ficou me olhando antes de responder, — Será que você vai querer ser meu amigo pra sempre, Milo? — Ele me perguntou sério. Havia algo estranho naquela pergunta, alguma coisa que não entendi direito.
"Que tipo de pergunta é essa? — pensei antes de responder. — Claro que sim Camus, que pergunta besta, ô cabeça de tomate, falei puxando-o para dar uns cascudos em sua cabeça.
Depois fomos falar do programa de TV.
ooOoo
Chegou o dia em que o Aioria tinha marcado o cinema, Camus chegou lá em casa cedo, ainda era umas seis horas, logo depois chegou o Aioria.
— E aí meninas, animadas? — Aioria perguntou perturbando a gente.
— E aí? — Falei o cumprimentando com as mãos.
— Então, tenho uma surpresa pra vocês, — o leonino safado falou rindo malicioso.
— Eu sabia! O que você tá aprontando, Aioria? — Camus perguntou observando-o com os olhos apertados.
— Hoje você vai deixar de ser BV! — O Filho da mãe do Aioria disso pro Camus na maior cara de pau.
— O QUÊ?! — Eu e o Camus soltamos juntos.
O Aioria ficou rindo da nossa cara antes de responder. — Eu sou o salvador da pátria aqui, não fosse por eu ter acertado tudo, o Milo ainda era um BV.
Ei! — Resmunguei em minha defesa.
— Você sabe que é verdade, Milo. — Oria falou me olhando.
— Não, não é verdade! Eu ia beijar a Shina com ou sem sua ajuda! Hunf — Resmunguei novamente.
— Tá, e o que isso tem a ver comigo? — Camus perguntou sério com os braços cruzados.
— Tem que EU mais uma vez vou salvar a pátria aqui, consegui uma garota pra você, Camus. — O Aioria falou estufando o peito orgulhoso.
— O QUÊ?! — Perguntamos novamente juntos, Camus e eu.
— Não lembro de ter pedido nada disso pra você, Aioria. — Começou Camus rabugento.
— Não, não pediu, mas se eu não te ajudar vai morrer BV, fracamente Camus, você já tem quinze anos! — O Aioria falou.
— E quem te disse que eu sou BV? — Camus perguntou desafiando.
— Não é? — Dessa vez perguntei junto com o Aioria.
Camus olhou pra mim, vermelho, e o encarei interrogativo.
Quem será que ele tinha beijado? Bom, na noite do acampamento eu beijei ele, mas ele tava dormindo, então não era de mim que ele falava, certo?
— Quem você beijou, Camus? — Perguntei sério, não acredito que ele beijou uma garota e não me contou nada.
Eu e o Aioria ficamos olhando para o Camus a espera de uma resposta, mas ele foi ficando cada minuto mais vermelho.
Aioria começou a rir — Camus, deixa de ser mentiroso, se você tivesse beijado alguém teria contado pra gente.
Camus soltou o ar dos pulmões e falou, — Não sei se quero beijar alguém que não conheço, posso muito bem fazer isso sozinho.
Aioria deu um tapa na cabeça do Camus antes de responder. — Não, não pode! Se pudesse já teria feito, você deveria estar me agradecendo.
— O Camus, não quer, ué, deixa ele. — Falei com certa raiva do Aioria, que papelão ficar dando uma de comadre.
— Milo, não seja egoísta, agora é a vez do Camus. — Aioria me disse sorrindo.
— O Camus já disse que não quer ficar com ninguém, pra ele tá tudo bem do jeito que tá. — Falei irritado.
— Eu tô namorando, você tá namorando, só o Camus nunca beijou ninguém na vida. — Aioria me respondeu, e fez uma cara de indignado.
— Você tá namorando? — Ele perguntou pra mim.
— Ué, Camus... eu... — Não sabia o que dizer, — Ah! Você sumiu, não deu tempo pra te contar.
Na realidade eu queria dizer "Você me abandonou e eu me senti sozinho" ou "Ela não me abandonou ao contrário fez marcação cerrada em mim enquanto você simplesmente me esqueceu.” Mas não falei nada disse, sei lá soaria estranho, nos meus pensamentos já estava estranho, Imagine falar isso em voz alta?
Camus ficou me olhando um tempo como que se analisasse aquela informação e por fim perguntou ao Aioria olhando pra mim, — Quem é a garota, Aioria?
Aquele leonino safado sorriu antes de responder, — A Hilda, do sétimo ano, ela é amiga da Marin e da Shina, e pelo que Marin me disse ela é muito a fim de você.
— A Hilda da sétima série a fim do Camus? — Perguntei incrédulo e acho que o meu tom de incredulidade ofendeu o Camus.
— Ah! Você não acha que sou capaz de despertar o interesse de uma menina bonita como a Hilda? — Camus perguntou me desafiando.
— Não acho nada! Mas você não precisa provar nada pra ninguém também. — Eu aconselhei sério.
— Ah, tá!! Quem está dizendo isso é o mesmo Milo que me deixou sozinho no aniversário da June porque tava preocupado em deixar de ser BV? — Ele me provocou novamente, não sei por que ele tava usando aquele tom comigo.
— Meninas, por favor! Sem brigas, as garotas estão esperando a gente no cinema, vamos? — Aioria interrompeu nossa discussão pra variar, e se voltando para o Camus, ele continuou. — Camus você não é obrigado a ficar com ninguém, mas, oh, vamos lá, você vê... se pintar um clima você fica com ela, ok? — Concluiu o Aioria e o Camus concordou com a cabeça firmemente.
...
Estávamos os três no banco de trás do carro do meu pai, meus pais vão sair para o jantar e o shopping estava no caminho deles.
Aioria estava numa ponta, o Camus no meio e eu na outra ponta, percebi como meu amigo estava tenso, não sei se fiquei assim quando ia deixar de ser BV, eu sabia que tecnicamente ele não era BV, mas eu não podia contar isso a ele e nem a ninguém, não sei o que me deu naquela noite. Olhei pra ele de soslaio, apesar de me sentir incomodado com aquela situação, queria dar meu apoio ao meu amigo, mas não ficaria bem segurar em sua mão, então apenas sorri como se o incentivasse assim que ele encontrou meu olhar.
Quando chegamos fomos à praça de alimentação e vimos as meninas sentadas conversando, assim que nos viram elas começaram a dar risadinhas, particularmente achei infantilidade da parte delas.
Aioria foi cumprimentar a Marin com um beijo e eu tinha que fazer a mesma coisa com a minha namorada, mas sei lá fiquei sem graça, não por mim, claro, mas pelo Camus. No entanto, a Shina é insistente e veio ela mesma me roubar um beijo.
Vi meu amigo vermelho como um pimentão cumprimentando as meninas, em seguida o observei sentar ao lado da Hilda, já que era o único lugar vago à mesa.
Comecei a sentir pena do Camus, sim é verdade. Uma coisa é você beijar alguém em uma festa, outra bem diferente é a galera armar para você ficar com alguém no cinema, e antes do cinema ficar todo mundo junto sabendo que quando entrarmos vocês vão ficar se agarrando.
Camus era muito branco e ficava vermelho com facilidade, tava até engraçado de se ver, acho que ele não teria coragem de beijar a Hilda hoje, não na frente de todo mundo.
Teria?
Entramos no cinema, a safada da Hilda puxou o Camus para sentar num lugar, eu ia segui-lo, mas a Shina me puxou fazendo careta pra mim, então eu e a Shina, o Aioria e a Marin, sentamos na frente e o Camus e a Marin logo atrás.
Eu estava inquieto, mal conseguia prestar atenção no filme, vi quando a Hilda pegou na mão do Camus, francamente garota oferecida, aposto que o Camus não vai dar bola pra essa menina.
Mas passou o filme todo e eles nada de se beijarem.
— Milo, o que aconteceu? — ,Shina me perguntou estranhando.
— Hein? O quê? Como assim? — Perguntei sem entender.
— Você tava com um humor péssimo no começo do filme, nem me beijou quando chegou. — Minha namorada reclamou com manha.
— Ah! Shina é chato ficar beijando na frente dos outros. — Respondi sem graça.
— Bom, agora a gente vai lá pra minha casa, meus pais tão viajando e o Aioros só vai chegar bem tarde. — Aioria falou interrompendo minha conversa com a Shina.
— Oba! Poderemos namorar em paz! — Minha namorada falou me beijando, fui pego desprevenido, não tive como fugir. Quando separamos o beijo, notei que o Camus estava me olhando, não sei porquê, mas acho que ele ficou irritado.
— Então, vamos? — Aioria perguntou abraçado a Marin.
— Vamos! — Pra minha surpresa foi Camus quem respondeu, e Hilda sorriu.
ooOoo
"Eu quero contar essa parte, Milo"
"Por quê?"
"Ora, Milo, estamos falando da minha intimidade"
"Ah! Sim, entendo. MAS quando foi a MINHA intimidade você quem contou também, não acho isso justo, Camus"
"Contei a sua porque eu estava lá e tinha muito mais coisa para ser contada do que ficar se agarrando no canto de uma festa! E vale lembrar que fiquei duas semanas de castigo por causa daquilo e..."
"Pelos Deuses, Camus, você não vai esquecer isso nunca?"
"Vai me deixar contar a história?"
"Depois eu é que sou birrento! (Soltando o ar dos pulmões), tá bom, Camus, conte sua versão dos fatos, mas sem falar mal de mim.
"Prometo que farei o possível para evitar isso".
...
Chegamos a casa do Aioria fomos de táxi, já que os pais do Milo deixaram o dinheiro para isso uma vez que ninguém iria nos buscar. Ligar para o meu pai não foi nem cogitado.
Lá o Aioria colocou uma música lenta pra todos entrarem no clima de "festa".
Eu estava bem nervoso, mas tinha pensado a noite toda, achava que eu era gay, mas como saberia? Digo, eu nunca tinha ficado com menina nenhuma. De repente eu era hétero, só precisava de um empurrão. E também o fato de ver o Milo e a Shina se beijando na saída do cinema me fez ter vontade de parar de gostar daquele idiota, ops prometi não falar mal dele, senti vontade de parar de gostar de alguém que era incapaz de notar o quanto eu o amava.
— Dança comigo, Camus? — Pediu Hilda decidida.
— D...D-dançar? — Perguntei engolindo seco.
Eu estava muito nervoso, muito tenso.
Aceitei e começamos a dançar.
Percebi que o Milo não tirava os olhos de nós, acho que ele estava sendo o curioso que sempre era, ou melhor, dizendo, acho que ele estava sendo observador.
Não tirei os olhos dele também, vi quando Shina falou alguma coisa em seu ouvido e ele olhar pra ela aparvalhado, de repente aquela oferecida pegou Milo pelas mãos e subiu para os quartos.
Olha, vou falar uma coisa, essa menina é muito oferecida, isso sim!
Parei de dançar quando os vi subindo, e Hilda ficou me olhando. — O que foi, Camus? — Ela perguntou antes de seguir meus olhos, — Hã, esses dois... tomara que eles se protejam.
— Hã? Como assim? — Perguntei sem querer acreditar.
— Ah! Camus... sabe, eles não vão lá em cima pra rezar, né? — Ela comentou sorrindo.
Eu não tava acreditando...
AQUELE FILHO DA PUTA IA PERDER A VIRGINDADE NA NOITE EM QUE TECNICAMENTE EU IA PERDER MEU BV!!!
...
"Fiquei muito irritado na época, claro que hoje em dia nem penso mais em como o Milo foi filho da puta, aliás, não sei onde eu estava com a cabeça pra gostar de um cara desses. Mas voltando a história..."
...
— Camus, tá tudo bem? — Hilda me perguntou.
— Claro, tá sim. — Falei olhando em volta e percebi que o Aioria também tinha sumido com a Marin. Pelos Deuses!
A Hilda era mais velha que eu, acho que ela tava com dezesseis ou dezessete anos, algo assim.
Ela começou a acariciar meu cabelo e olhei pra ela, vi que ela estava aproximando o rosto, meu coração estava acelerado, era a hora, eu ia tirar a prova.
Nossos lábios se encontraram e ela pediu passagem com a língua.
Foi diferente das vezes em que eu "beijei” o Milo, sim... duas vezes e sempre beijos roubados, sem língua, mas esse beijo, mesmo sendo mais quente, e mesmo que envolvesse língua e tal, confesso que não senti nada.
Sério mesmo, eu estava beijando uma das meninas mais bonitas da escola, mais velha do que eu, e isso era um bônus, mas não senti nada.
Parei o beijo de repente, a Hilda ficou me olhando sem entender. — Desculpe, Hilda, eu...eu.
Eu não sabia o que dizer e alguém escolheu este momento para gemer, eu olhei pra cima, teria sido o Milo?
— Você gosta dele, não é? — Hilda me perguntou de supetão, fazendo com que eu a encarasse.
Realmente não sabia o que fazer, não sabia o que dizer, não podia negar, podia? — Hilda, eu... por favor... não fale isso pra ninguém. — Não confirmei, não neguei, mas pedi silêncio, acho que deu pra perceber, não é?
— Tudo bem, Camus, de certa forma eu já tinha reparado. — Ela me respondeu, até ela já tinha reparado e o tonto do Milo ainda não.
Fiquei parado, não sabia o que fazer, meu segredo estava sendo revelado para uma estranha e eu queria sair correndo, gritar ou morrer, porém, fiquei parado olhando pra Hilda.
Ela pegou na minha mão e me levou até a sala, nós sentamos no sofá. — Você já contou a ele?
— Eu... O quê? Hilda, não! Ninguém pode saber, o Milo me odiaria e não quero ficar sem a amizade dele. — Falei sentindo meus olhos arderem, eu era patético.
Outro gemido veio lá de cima, nós viramos a cabeça juntos para o lugar do barulho.
— Venha, vamos sair daqui. — Ela pediu segurando em minha mão, saímos em silêncio e fomos andando até minha casa, que era no fim da rua. A casa de Hilda era duas quadras pra cima.
— Eu não vou contar a ninguém, Camus, quero ser sua amiga, gosto de você... bom, agora só como amiga, mas ainda assim gosto, quer conversar sobre isso? — Ela sugeriu sincera.
Eu teria alguém pra conversar, em todos estes anos não falei sobre isso com ninguém, seria uma boa ideia. — Eu não sei ainda o que eu sou e nem o que sinto, Hilda... jamais arriscaria minha amizade com o Milo por causa de uma coisa que nem ao menos sei o que é.
— Entendo, mas você tem que descobrir, Camus, se não com o Milo, então... com outra pessoa, você me beijou e não gostou, então talvez... — Ela começou a falar e eu a cortei.
— Não, não é que não gostei, talvez só estivesse nervoso, eu posso te beijar novamente para tirar a prova? — Perguntei corajoso, como tive essa coragem? Não sei.
Ela sorriu e concordou, não demorou muito já estávamos nos beijando novamente.
Nos separamos com o susto de ouvir a porta se abrir, era meu pai que ficou parado sem graça nos olhando, e eu não sabia onde enfiar a cara, isso é hora dele sair?
— Pai, eu posso levar a Hilda em casa? Ela mora no quarteirão de cima. — Pedi sei que ele havia saído para reclamar da minha demora, mas a surpresa de me ver com uma garota o deixou sem palavras por um momento.
— Er... claro, tudo bem, — Ele olhou no relógio para ver se não era muito tarde, — Mas não quero que demore, é ir num pé e voltar no outro, nada de ficar namorando no caminho.
Ah, os pais! Por que eles fazem isso?
— Tá bom, pai.
— Ei, Camus, não vai me apresentar sua amiga? — Papai pediu.
— Claro, desculpe. Hilda, papai. Papai, Hilda. Aliás, o nome dele é Crystal. — Apresentei apressadamente.
— Muito prazer, Sr. Crystal. — Hilda cumprimentou educada.
Saímos em direção à casa dela, antes que meu pai me pedisse para convidar a Hilda pra comer pizza com a gente.
— E aí, o que sentiu dessa vez? — Ela me perguntou.
— Você beija bem. — Disse vermelho.
— Mas não te despertei nada, não é? — Ela novamente me perguntou direta.
Neguei com a cabeça, — Desculpe.
— Não precisa se desculpar, pode contar comigo, quero ser sua amiga e acho que sou a única que sabe, não é? — Ela me perguntou e confirmei com a cabeça.
— Não está mais sozinho, Camus. — Ela falou me abraçando.
Eu sorri, durante muito tempo aquela foi a primeira vez que me senti leve. Eu teria alguém com quem dividir meu segredo.
Eu estava feliz, mesmo sabendo que o filho da puta do Milo tava transando uma hora dessas. Ops! Digo, mesmo sabendo que o cabeça de vento, lerdo, (como dizer sem ofender? Ah, sim!) Mesmo sabendo que o desatento do Milo estava nos braços de outra pessoa, descobrindo o prazer do sexo.
Lembrei do dia no armário, se eu fosse menos covarde talvez nós tivéssemos descoberto isso juntos, há muito tempo.
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