E Agora?
10 Capítulo 10 - O Filme Pornô
Notas iniciais

E Agora? — Capítulo 10
"Olá, o Camus ainda não voltou e eu vou continuar a história..."
Peguei meu celular e enviei um torpedo para o Camus.
"Cara, o que aconteceu? O que foi aquilo?"
Pra variar ele não me respondeu, dei um tempo antes de enviar outra mensagem.
"Camus, só me fala se tá tudo bem?"
Esperei e nada, mas depois pensei "O Crystal deve ter confiscado o celular do Camus".
Liguei pro Kárdia e contei tudo pro Degel, acho que com o irmão sabendo seria mais fácil pro Camus.
O Camus ficou sem ir para a escola durante uma semana, eles viajaram e eu não sabia pra onde. Três dias depois o Camus me mandou uma mensagem dizendo que estava tudo bem.
Pois sim, tudo bem! Acredito!
Eu estava muito confuso com tudo, ficava lembrando do Camus lá chorando e eu o consolando, querendo beijar a sua boca, eu ia beijar aquela boca apetitosa dele...
— Droga! — Praguejei alto!
"Por que essa ideia de beijar o Camus não sai da minha cabeça?" — Pensei irritado.
Foi uma semana bem difícil, eu não queria ficar perto da Shina e nós acabamos discutindo. Até entendo o lado dela, eu estava estranho, eu sei... mas como explicar pra ela as coisas, se nem eu sabia o que estava acontecendo comigo?
Lembrei do Kárdia falando que já tinha tentado namorar garotas antes do Degel, mas aquilo era diferente, não era o meu caso, claro que não.
Porque eu não tinha tesão em homens, bom tudo bem que eu bato umas sempre pensando no Camus, naquela bunda delícia que ele tem, mas isso é normal o cara tem uma bunda tão... Eu já vi o Aioria e o Argol olhando pra ela também.
Lembrar daquilo me deu raiva, eles não passam de dois cretinos, isso sim!
Mas, e a boca do Camus? Por que eu quis beijar aquela boca? Por que o cheiro dele é tão bom? Por que meu coração sempre aquece quando ele está comigo? E por que diabos eu tô pensando nessas coisas?
— Droga, Milo... você tá ficando maluco isso sim. — Falei comigo mesmo cobrindo meu rosto com o travesseiro.
Peguei o celular e liguei para o Kárdia.
— Fala, Frank! — O meu irmão atendeu me chamando pelo doce apelido que ele me deu.
— Kárdia, o Camus ainda não apareceu, vocês precisam fazer alguma coisa. — Pedi aflito.
— Calma, Milo, o Degel ligou pro pai e conversei com o Camus. — Meu irmão me informou. — O Camus explicou o que aconteceu.
— E o que diabos aconteceu? — Perguntei aflito e curioso.
— O Camus não te falou nada? — Kárdia sondou.
— Eu não consegui falar com o Camus essa semana inteira, me fala de uma vez o que aconteceu com ele? — Pedi, ou melhor, implorei.
— Milo, o Camus vai falar com você e te contar tudo quando ele achar que deve, não posso fazer isso por ele. — Meu irmão me explicou.
— Kardia, isso não é justo! Eu avisei o que tinha acontecido, como vocês já sabem das coisas e eu não? — Falei bravo, aquilo não estava certo.
— Milo, vou pra casa neste final de semana, aí gente conversa, tá bom? — Meu irmão falou e não tive outra opção a não ser aceitar.
Como eu já disse, foi uma semana complicada, não tive vontade de sair nem nada, mas eu precisava ir pra escola.
Lá avisaram que o Camus tinha ido viajar e não apareceria na escola naquela semana. Fiquei com raiva, porque eu sabia qual era a viagem dele: Punhos do maníaco do Crystal.
— Ei, Milo, pra onde o Camus foi? — Escutei alguém me perguntando quando levantei a cabeça vi o Argol parado na minha frente.
O Argol preocupado com o Camus? Estranhei.
Franzi a testa e respondi mal-humorado. — Não sei.
— Mas ele não falou nada pra você? — Ele insistiu.
— Não, Argol, por que não liga pra ele pra saber? — Sugerir mal-humorado, sabendo que nunca que o Argol ligaria para o Camus.
...
O sábado finalmente chegou e fiquei no quarto o dia todo, quando vi meu irmão aparecendo na porta.
— Ei, Frank tá doente? — Ele me perguntou.
— Você chegou que horas? — Interroguei ignorando sua pergunta.
— Chegamos há pouco, a mãe falou que você não saiu do quarto, o que houve? Levou um fora da Shina? — O Kárdia perguntou me provocando, mas eu não estava no clima de provocações.
— Na realidade eu que tô pensando em pedir um tempo pra ela. — Respondi meio que automático.
O Kárdia sentou na cadeira do computador enquanto eu ainda estava na minha cama.
— Por quê? — Ele me perguntou.
Eu fiquei meio envergonhado tenho certeza que minhas bochechas estavam vermelhas, pois me subiu um calor enorme nesta hora.
— Não sei Kárdia, eu...— Comecei inseguro, não era muito comum me abrir com meu irmão, mas precisava falar com alguém, claro que eu não ia falar TUDO o que estava acontecendo comigo, afinal, eu ainda presava minha sanidade e o Kárdia ficaria me torrando o resto da vida. — Tô confuso, não sei, mas acho que estou gostando de outra pessoa.
Meu irmão foi bem sagaz em não dar um gênero para a tal "pessoa" que eu mencionei, então de forma discreta ele perguntou. — E essa "pessoa" sabe dos seus sentimentos?
— Não! — Falei rápido. — Tenho medo... de perder a amizade.
— Você podia tentar, nunca vai saber se não tentar, diga a essa "pessoa" que você tá afim e veja no que vai dar. — Meu irmão me aconselhou.
Eu não respondi nada, como explicar o que nem eu conseguia entender?
— Cadê o Degel? — Perguntei mudando de assunto.
— Foi ver a família dele. — Meu irmão respondeu e trocamos olhares, aquela família estranha dele.
— Eles chegaram? — Perguntei me levantando e indo para a janela espiar.
— Eles voltaram ontem à noite. — O Kardia me informou.
Tanto eu quanto meu irmão ficamos atentos para ouvir algum grito vindo lá da casa do Camus, mas tudo estava calmo, aparentemente.
Pouco depois o Aioria me ligou para que eu fosse na casa dele, acabei aceitando, acho que nem o Degel ia conseguir tirar o Camus de casa tão cedo, seja lá o que for que tenha acontecido, me parece que foi bem sério.
— E aí? — Cumprimentei o Aioria assim que cheguei, vi que os outros caras estavam lá, o Argol, Sírios e o Shura, que também estudava com a gente ele tinha se mudado há pouco para nosso bairro, mas já tinha conseguido entrar no time de vôlei na escola, então ele já fazia parte da turma.
— Ei, Milo entra aí, o Sirius trouxe uns filmes, vamos aproveitar que meus pais saíram, vamos, entre. — O Aioria foi falando assim que abriu a porta.
Entrei e o pessoal estava lá com cara de quem tá fazendo coisa errada. — O que vocês estão aprontando?
Eles começaram a rir e o Aioria foi até o aparelho de DVD e ligou, logo apareceu na tv três casais mandando ver, tipo nível hader!
— Uau! — Falei procurando um lugar pra sentar e apreciar aquele filme.
Bom, não sei como você que está lendo faz quando está assistindo um filme pornô com a galera, aqui nós fazemos assim:
Ficamos vendo até que nossa ereção comece a doer, daí vamos ao banheiro tocar uma, nos aliviar e voltamos para assistir.*
Masturbação na frente um do outro é complicado, precisamos ser bem íntimos pra isso, tipo quando eu tô com o Aioria é até normal a gente "tocar uma bronha" no mesmo lugar, cada um bate sua punheta e pronto, sem contato, nem físico e muito menos visual.
Mas ali estavam o Argol, o Sirius e o Shura, isso exigia o mínimo de compostura da nossa parte, em outras palavras era punheta privativa no banheiro.
Não preciso dizer que não demorou muito para o meu pau ficar duro, o Aioria já tinha ido duas vezes, "ao banheiro", agora estava o Sirius lá dentro, quando a campainha tocou para o nosso desespero.
— Caralho, quem será agora? — Perguntou o Aioria se arrumando pra ir atender a porta, mas ele não estava muito apresentável.
Fiquei em pé eu, o Aioria e o Argol para ver quem estava mais apresentável, o Argol acabou indo ele tava de jeans e conseguia disfarçar melhor o volume, o Aioria correu para o quarto, pois a situação dele estava pior e ele usava uma calça de moletom, daí já viu, né?
Quando o Argol abriu a porta deu um sorriso aliviado. — Camus! Finalmente. Tudo bem?
Notei que o Camus olhou como se estranhasse aquela educação toda do Argol, confesso que até eu estranhei.
— Venha, entre junte-se a nós. — O Argol convidou educado puxando o Camus pelo braço.
O Camus não disse nada, quando seus olhos encontraram os meus ele meio que perguntou "o que tá acontecendo?" Eu acho que ele estava se referindo ao jeito do Argol.
Daí sem mais nem menos o Argol filho da puta religou o DVD. — Senta aí, Camus, a gente tá vendo um filminho. — O imbecil do Argol falou para o meu desespero.
Por que fiquei desesperado? Simples, eu jamais conseguiria ficar concentrado com o Camus ali, e também, eu conheço muito bem o Camus, ele NUNCA falou um palavrão, nem as bobagens que os outros caras falavam, então eu sabia que ele não ia aprovar aquele tipo de entretenimento.
Mas o que mais estava me irritando era o jeito do Argol, sério mesmo, ele estava todo besta pro lado do meu Camus, digo do meu amigo Camus.
— Senta aqui, Camus. — Ele chamou indicando o lado próximo a ele no sofá. Pra mim aquilo já tinha ido longe demais, peguei o Camus, que ainda estava em pé, pelos braços e o levei pra fora.
— Vem Camus, vamos conversar em outro lugar. — Falei vendo o Argol estreitar os olhos pra mim, "qual é o problema desse cara?" — Pensei.
Assim que saímos o Camus começou a resmungar, como previ que ele faria.
— Milo! Vocês... Por todos os Deuses, o que vocês estavam fazendo lá? — O cabeça de tomate me perguntou incrédulo.
— A gente tava vendo filme pornô, Camus, achei que isso tinha ficado óbvio. — Respondi sabendo que ele não pararia por ali, eu estava tentando disfarçar minha ereção colocando a camisa por fora da calça.
— Vendo filme pornô? Todos juntos? Milo... que... pouca vergonha! E quando...? Pelos Deuses, que vergonha! Vocês ficam ali... um na frente do outro? —Camus continuava a resmungar e perguntar as coisas.
— Ei, ei, o que você tá pensando com essa sua mente poluída? Ninguém faz nada na frente de ninguém não, seu pervertido! — Falei e ele ficou me olhando, como se quisesse me pegar na mentira.
— Hunf. — Ele fez, e a gente continuou andando.
— Você tá bem? — Perguntei mudando de assunto e indo ao ponto que me fez sair da casa do Aioria.
— Tô sim, obrigado. — O Camus me respondeu ainda estreitando a boca em desagrado.
— Você vai me contar o que aconteceu? — Questionei direto, ignorando o jeito dele.
Camus me olhou e negou com a cabeça, suspirei triste, mas no fundo eu já sábia que ele não ia me falar nada.
Fomos pra minha casa jogar videogame.
Ainda insisti para que ele me falasse, mas Camus disse que só quando estivesse pronto pra falar.
— Camus, vamos ao cinema ver Transformers? Vai estrear na próxima semana. — Eu o convidei meio de supetão, fazia tempo que a gente falava desse filme por causa dos jogos, e de repente me pareceu uma boa ideia ir ao cinema com o Camus.
— Não sei, Milo, por que não vai com a Shina? — O mal-agradecido me perguntou mal-humorado, acho que ele ainda estava bravo por causa do filme pornô, mas ele é muito desaforado, onde já se viu?
Ergui a sobrancelha esquerda para ele com meu melhor jeito desafiador e respondi. — É, talvez eu vá com ela.
— É melhor. — O Camus me respondeu seco.
— É melhor mesmo, ela é minha namorada, afinal! — Joguei isso na cara dele como se o fato de eu ter namorada irritasse o Camus, sei que ele não tá nem aí pra isso.
— É melhor, vai com ela, vai. — O cabeça de tomate me respondeu atrevido.
...
"Milo, cheguei, pode me ajudar com as compras?"
"Nossa, que rápido, Camus, achei que fosse demorar mais"
"Milo, você é quem fica de enrolação, eu fui ao mercado sabendo o que ia comprar, comprei e voltei".
"Certo, vou pegar as coisas no carro, ei! Você vai ficar aí?"
"Claro, comprei, você descarrega, nada mais justo. Não me olhe assim, Milo, sabe que estou certo."
"Ele foi resmungando, mas foi. Deixa-me ver onde ele parou... ah sim, ele pulou o encontro com meu pai, bom, não houve muito diálogo naquele dia..."
Quando meu pai viu meu histórico sobre os sites gays, chat e tudo mais, ele ficou possesso, como já disse não tivemos muito diálogo naquele momento.
— Pai?
— QUE PORRA É ESSA, CAMUS? — Ele me perguntou já aos gritos, senti meu coração bater disparado, o medo me paralisou e não consegui falar nada. — RESPONDE!
Eu só olhava pra ele com os olhos arregalados, nem forças para sair correndo eu tinha.
— CAMUS, POR QUE VOCÊ ESTÁ ENTRANDO EM SITES GAYS? — Papai continuava gritando batendo a mão na mesa. A essa altura, meus olhos já estavam cheios de lágrimas.
Eu não conseguia falar nada.
— ME RESPONDE, CAMUS! — Ele gritou socando a mesa do computador.
Sobressaltei com esse último grito e falei tentando não gaguejar. — Eu...Eu sou gay, pai! — Despejei de uma vez com a voz fraca, fiquei esperando o tapa, ou algo parecido, não demorou, senti um soco me acertando o olho, outro me acertando a boca, outro e mais outro, achei que fosse morrer, pois meu pai estava insano. Não me defendi, na realidade não sabia o que fazer.
— Sai da minha frente, Camus, senão sou capaz de matar você! SAI DAQUI, AGORA!!! — Meu pai ordenou e eu saí correndo, mas não sabia pra onde ir, pra quem pedir abrigo. Se eu fosse falar com o Milo teria que contar o que houve e jamais falaria algo ao Milo, e se ele me virasse as costas também? Eu não suportaria.
Assim que cheguei ao portão sentei e comecei a chorar, estava desesperado, era como se tivesse perdendo minha família novamente. "O que vai ser de mim?" Eu pensei aflito.
Algum tempo depois senti que alguém estava se aproximando, mas não queria conversar com ninguém, então não levantei a cabeça, senti a pessoa se ajoelhando ao meu lado, quando ouvi a voz do Milo meu coração apertou, ele estava querendo saber se eu estava bem, e porque eu estava chorando, mas como poderia dizer alguma coisa pra ele? Antes que eu pudesse pensar em alguma coisa, levantei a cabeça e olhei para o seu rosto, talvez fosse a última vez que eu o veria.
Ao ver o meu rosto machucado Milo ficou bravo, ele sempre teve aquele jeito protetor comigo, nem me lembrei de que estava machucado, se lembrasse, talvez tivesse tentado me esconder.
— Camus, pelos Deuses! Quem fez isso com você? — Ouvi o Milo perguntando nervoso, ele devia estar achando que tinha sido alguma coisa do Argol, ou dos caras da rua de Prata, como eu poderia dizer que foi meu pai fez quem fez aquilo? O Milo não entenderia, não tendo a família perfeita que ele tem.
— Ninguém, Milo, vá embora. — Respondi entre soluços, não queria que o Milo soubesse a verdade sobre mim, não assim.
Senti a mão dele me tocando o rosto com cuidado e carinho. Olhei praqueles olhos azuis tão intensos. — Me fala, Camus... me deixa te ajudar.
Eu estava sofrendo tanto, como eu poderia dizer alguma coisa para ele, como dizer que eu era gay e que o amava? Que desde sempre o amei... como? Ele nunca mais falaria comigo se soubesse.
— Camus, confia em mim. — Milo me disse e comecei a chorar novamente, então o Milo me abraçou forte, ou fui eu quem o abraçou, não sei ao certo, só sei que eu tinha medo de perder o Milo.
Milo separou do meu abraço e voltou a me olhar, eu devia estar maluco, pois por um momento achei que ele fosse me beijar, pela forma que ele olhava para minha boca, é claro, eu devia estar delirando para imaginar alguma coisa assim, mas era o que eu queria de fato.
Estava aproximando meu rosto do dele, talvez fosse a última vez que estaríamos juntos, eu ia beijá-lo!
Quando ouvimos a voz do meu pai, nós dois demos um pulo, meu coração acelerou muito mais, senti minhas pernas tremerem, por favor, pai... não me humilhe na frente do Milo. — Eu pedi em pensamento.
— Camus! — Papai falou parando ao nosso lado, ele olhava para o Milo como se achasse que o meu amigo, e amor secreto, tivesse alguma coisa a ver com as minhas escolhas. Sim, o Milo tinha tudo a ver com minhas escolhas, mas não da forma que meu pai estava pensando.
Levantei rápido, movido pelo medo do meu pai falar algo que não devia que me expusesse ali na frente do Milo, então pulei na frente dele. — Não pai, o Milo não sabe de nada.
Milo nos olhou desconfiado, eu sabia que ele ia ficar me infernizando para que eu dissesse a ele aquilo que ele “não sabia”.
Papai tirou os olhos do Milo e olhou para mim e eu sustentei seu olhar, ficamos nos olhando com a expressão séria no rosto.
— Vamos entrar, Camus. — Meu pai finalmente falou.
Fui andando a passos lentos, quando cheguei perto dele nossos olhos se cruzaram e nós nos abraçamos e começamos a chorar, eu pedia desculpas pelo que eu era silenciosamente, com meu jeito, e perdoava tudo que ele havia feito comigo naquela noite e senti que ele também me perdoava por eu ser do jeito que eu era.
— Eu te amo Camus, eu vou aprender a lidar com isso. — Papai me falou enquanto a gente estava entrando, isso aqueceu meu coração, ele ia tentar, ao menos tentar, me aceitar.
Quando entramos meu pai foi pegar gelo e algumas pomadas para colocar no meu rosto, o estado que o meu rosto estava, mais que qualquer outra coisa, foi o que mais doía no meu pai.
Logo o Hyoga chegou, ele estava com o Shun, um amiguinho da escola, eles estavam ensaiando para uma apresentação da escola e mãe do Shun os trouxe.
Fui para o meu quarto, não queria que o Hyoga me visse daquele jeito, assim que o Hyoga se despediu do amiguinho, meu pai entrou no meu quarto pedindo pra eu arrumar algumas coisas numa mala que a gente ia viajar, olhei confuso pra ele, mas papai não me disse mais nada apenas pediu pra eu ajudar o Hyoga a arrumar as coisas dele.
Fiquei aflito, aonde iríamos?
Meu pai não disse nada, apenas nos arrumamos e fomos para o aeroporto, pegamos um voo para França, acho que estávamos indo para casa da tia Saori.
"Meu Deus, eu não falei com o Milo, e nem mandei uma mensagem pra ele". Pensei preocupado.
Fazendo uma breve explicação, a tia Saori é irmã do meu pai, com certeza ele não estava sabendo lidar comigo e precisava da ajuda de outra pessoa, ou ele estava pensando em me abandonar lá, não sei, estava em dúvida sobre isso.
Não falamos nada durante a viagem, meu pai se manteve em silêncio, o Hyoga sensível que era sacou que algo estava errado, mas não questionou nada, apenas olhava para meu rosto machucado e eu fazia sinal para que ele não comentasse nada.
Desembarcamos em Alsácia, uma cidadezinha do interior da França, pela manhã não tive como avisar ninguém, o que mais me preocupava é que não tive como avisar o Milo, mas estava um tanto assustado, confesso, pra mim estava tudo muito estranho.
Minha tia estava nos esperando no aeroporto, ela nos abraçou com seu jeito bondoso, percebi que ela levou um choque a me ver, não que eu tivesse deformado ou algo assim, mas é que eu estava com o olho roxo e também com a boca ferida.
Não era algo que não se percebesse.
Quando chegamos a tia nos deu café, eu não estava com muita fome, mas comi mesmo assim, não queria mais problemas, a casa da minha tia era bem florida, apesar da cidade ser na França a arquitetura local era quase toda em estilo alemão, ou melhor, era uma mistura dos dois países, mas as casas aqui, incluindo a da minha tia eram bem graciosas, e floridas, não havia jardim na entrada da casa e sim nos fundos, a decoração da casa da minha tia era quase toda estilo casa de campo, bem simples, rústica, contudo elegante, flores e cores pastéis se destacavam na decoração.
Depois do café, minha tia Saori pediu para que eu e Hyoga fôssemos para o quarto de hóspedes que ela tinha arrumado, lá haviam duas camas de solteiro, ajudei o Hyoga a se trocar e logo ele dormiu, fui ao banheiro antes de dormir e acabei ouvindo a conversa deles, sem querer, mas não consegui voltar e não ouvir.
— Crystal, isso não é motivo para você espancar seu filho. — Ouvi minha tia reclamando.
— Eu sei, Saori, mas quando vi os sites, quando descobri que ele é gay, eu... eu surtei caramba, não sei o que fazer, já é difícil aceitar o Degel, que de qualquer jeito já é adulto, não tenho como impedir, mas o Camus? Nem idade pra isso ele tem! O que ele sabe da vida? — Retrucou meu pai nervoso. — Como posso aceitar dois filhos gays? Ou três uma vez que o Hyoga faz balé, eles acham que não sei, mas como era para terapia e ele realmente melhorou eu deixei, até fui ver ele um dia escondido numa apresentação, — Meu pai suspirou. — Ele parecia um anjinho dançando.
Minha tia sorriu pra ele que continuou. — O Isaak não, ele com certeza era homem! Mas os outros... Eu não sei... onde eu errei? Como posso aceitar três filhos gays?
— Meu irmão, não se trata de aceitar ou não, se eles são gays cabe a você apenas os apoiar e torcer para que eles sejam felizes. Eles SÃO homens, e muito mais corajosos do que muitos caras que você conhece, disso tenho certeza. Já vai ser muito difícil pra eles, irmão, se você os rejeitar será muito mais. Não faça isso com você e muito menos com eles. — Minha tia falou bondosa, como ela podia ser irmã do meu pai?
— Aceitar? Não quero aceitar, não quero isso para meus filhos, sonhei tantas coisas diferentes pra eles, Meu Deus, isso é pecado! Abominação! — Ouvi meu pai falando, confesso que doeu ouvir aquilo dele.
— Pecado? Abominação? — Repetiu minha tia indignada. — Pecado e abominação é você fazer o que fez com seu filho, e mesmo depois de saber como é a dor de perder um filho você ainda tomar uma atitude dessas, por um preconceito ultrapassado! Se você não quiser o Camus tudo bem! Eu fico com ele e fico com o Hyoga também, vai ser ótimo para mim, e ótimo pra você que não vai mais precisar ficar perto dos filhos gays. — Falou minha tia em tom bravo, comecei a chorar, não queria que aquilo tivesse acontecendo, não queria ficar longe do meu pai e não queria ficar longe do Milo.
Me sentia culpado por estar fazendo minha família acabar, por ser como eu era. Quando escutei meu pai chorando, acho que ele estava chorando da mesma forma que eu.
— Não sei o que fazer Saori, não sei, mas jamais vou abrir mão da minha família, dos meus filhos, jamais! — Falou papai com a voz embargada.
— Então abra mão do seu preconceito, e aprenda a lidar com seus filhos, pois tenho certeza que eles te amam. — Os dois se abraçaram e voltei para o quarto, eu não queria chorar, mas simplesmente não conseguia parar.
O Hyoga acordou e correu pra minha cama me abraçando, o abracei também, ele não perguntou nada, meu irmãozinho era muito sagaz, ele sabia que havia algo errado, mas era discreto e não me questionou em nenhum momento.
ooOoo
Os dias aqui na França passaram rápido, minha tia cuidava dos meus ferimentos, quase não tinha mais marcas no meu rosto.
A tia Saori havia saído com o Hyoga para ir ao mercado, eu estava na sala vendo TV era bom para colocar meu francês em dia. Meu pai chegou e sentou ao meu lado, nós ainda não tínhamos conversado, eu estava magoado, pois sabia que ele queria me deixar lá na França.
— Camus, a gente precisa conversar...conversar sobre "aquilo." — Ele falou de forma calma e controlada o que me assustou por algum motivo, eu não sabia lidar com meu pai assim, sei lá não sabia o que esperar dele.
Desviei os olhos da TV e olhei para ele, logo papai desligou o aparelho.
— Camus, você é muito novo, como pode falar que é gay? O que você conhece da vida? — Ele me perguntou de forma calma ainda, acho que ele ensaiou essa conversa desde que chegamos.
— Pai, sei o que sinto e sei o que sou. — Respondi seguro, tentando parecer firme e escondendo que estava com medo e magoado.
— Você deve estar confundindo as coisas, sei que tem uma admiração muito grande pelo seu irmão, mas não é porque ele é gay que você precisa ser, Camus! Você não precisa imitar seu irmão nisso, seja você. — O Senhor Crystal estava me aconselhando, ele achava que eu não tinha personalidade alguma, para querer imitar o Degel sendo gay também.
— Pai, eu já sabia que eu era diferente muito antes de saber do Degel. — Falei e ele me olhou confuso. — Eu sabia pai, há muito tempo eu sei, não tenho dúvidas quanto a isso.
— Você estava beijando uma menina há poucos dias, Camus, como pode ser gay se estava beijando uma garota? — Papai me perguntou como se aquele fato desmentisse minha condição sexual.
— Estava tentando pai, tentando ser normal, tentando me encaixar, tentando não ser o que sou, como sou. — Falei sentindo minha voz embargar e algumas lágrimas teimosas cair pelo meu rosto.
— Camus, você não tem idade pra isso... para saber dessas coisas! — Insistiu meu pai.
— Pai, com quantos anos o senhor descobriu que gostava de meninas? — Perguntei.
— Ora, Camus que pergunta, eu sempre soube disso. — Ele me respondeu seguro.
Então o encarei e ele se calou.
— Sei que o senhor vai me deixar aqui na França, mas não escolhi ser assim. Juro. — Eu queria dizer que me apaixonei, mas isso complicaria muito mais as coisas e envolveria o pobre Milo que não tinha nada a ver com isso, pelo menos não propositalmente.
Meu pai me olhou e negou com a cabeça, — Nunca! Jamais! Você é meu filho e vai ficar perto de mim, não vou abrir mão da minha família, prefiro abrir mão do meu preconceito.
Olhei pra ele e sorri, nós nos abraçamos e ficamos chorando como dois idiotas.
Eu sei que seria complicado, sei que ele pegaria muito no meu pé, muito mais que o normal, mas só em saber que ele ia tentar me aceitar isso já fez toda a diferença.
ooOoo
"Hunf, você tá falando daquela viagem bizarra pra França?"
"Sim, Milo estou contando como foi com meu pai, depois daquela noite, você sabe".
"Sim, eu sei, mas pegar um avião pra chorar no colo da irmã é muito estranho".
"Eu consigo imaginar você chorando no colo da Sônia, aliás, você já fez isso algumas vezes, Milo!"
"Camus, é diferente, a Sônia mora no mesmo país que eu, eu estava bêbado e a culpa foi sua. Não me olhe assim, sabe que a culpa foi sua"
"Hunf, sei... minha culpa, ei Milo você já está comendo as coisas?"
"Eu achei esses chips de maçã, adorei isso, sabe que eu adoro maçã."
"Não são chips de maçã, isso é maçã desidratada, ótimo para chás, Milo"
"Prefiro comer como chips de maçã, Camus. Ei! Eu também quero escrever!!"
"Calma, Milo. Só vou contar uma parte"
"Tudo bem, eu fico aqui, acho que a partir de agora a gente vai ter que contar junto mesmo, não é?"
"Verdade, Milo, mas então, me deixa continuar"
Uma semana depois nós estávamos de volta, claro que eu sabia que meu pai ficaria com marcação cerrada em cima de mim.
Ele bloqueou muitos acessos a alguns tipos de sites gays, eu não tinha idade pra isso, segundo ele.
No sábado pela manhã meu irmão chegou em casa, eu estava no meu quarto quando ele apareceu na porta, nós nos olhamos e fui abraçá-lo. — Por que nunca me contou, Camus? — Degel me perguntou ainda no abraço.
— Não sei, não queria te preocupar. — Respondi após me soltar de seu abraço com a cabeça baixa.
— Como não queria me preocupar? Camus, somos irmãos e você sabendo sobre mim, deveria ter se aberto comigo, eu poderia ter tentado te ajudar. — Degel falou sentando na minha cama, continuei em pé de frente para ele.
— Desculpe. — Pedi, foi a única coisa que me passou pela cabeça.
— Não tem que se desculpar, Camus, só confie em mim. — Ele me pediu. — Como você descobriu?
Eu fiquei vermelho na hora, não sei se estava preparado para me abrir assim com o meu irmão, mas ele continuou me olhando com os olhos bondosos dele.
— Faz tempo que eu sei, acho que sempre soube que eu era diferente. — Respondi sincero.
— Você já ficou com alguém ou algo assim? — Degel me perguntou.
— Só fiquei com a Hilda. — Respondi e o Degel me olhou franzindo a testa, eu ri.
— Você gosta de alguém? — Ele me perguntou me encarando, com aqueles olhos verdes cinzentos que pareciam ler minha alma.
Confirmei com a cabeça, tinha certeza de que o Degel sabia de quem eu gostava, mas eu não queria falar, isso era uma coisa minha. Acho que ele entendeu isso.
— Tudo bem, Camus, mas quero que me prometa que sempre vai recorrer a mim quando precisar, por mais bobagem que possa parecer pra você, tudo bem?
Confirmei com a cabeça, então ele me perguntou como foi com o papai e que contou que o Milo havia ligado apavorado falando que me viu machucado que ele tinha que vir imediatamente me ajudar.
Eu sorri ao saber que o Milo se preocupou comigo, contei ao Degel o que houve claro que eu omiti o fato de eu quase ter beijado o Milo.
— E você já falou com o Milo depois que chegou? — Degel me perguntou notando o brilho dos meus olhos ao falar do Milo.
— Pelos Deuses! Não, nós chegamos ontem à noite e eu ainda não saí de casa depois que voltamos, será que o papai vai me deixar sair? — Perguntei inseguro, não sabia se eu estava de castigo.
— Vá ver o Milo, eu converso com o papai. — O Degel me pediu sei que ele deveria estar querendo falar a sós com o meu pai, o Hyoga estava no balé, a mãe do Shun veio buscá-lo pela manhã.
Concordei com a cabeça e me olhei no espelho para ver se eu estava apresentável, já não tinha marcas no meu rosto, minha roupa estava Ok.
Abracei meu irmão novamente antes de sair.
...
Aos poucos as coisas foram se normalizando, o Milo ainda tentou arrancar alguma coisa de mim, mas eu não falei nada do que tinha acontecido, em parte porque eu o peguei vendo filme pornô com os meninos, sinceramente não gostei daquilo, pode chamar de ciúmes, mas onde já se viu uma coisa dessas? Hunf!
ooOoo
Meu pai bloqueou vários sites, mas eu já tinha adicionado o Ruivo16 no Messenger, então ainda conversávamos muito, contei pra ele sobre o que tinha acontecido, achava o Surtr um bom amigo, claro que ele flertava comigo, a Hilda sempre dizia para que eu deveria dar uma chance a ele.
— Camus, por que não quer ir? — Hilda perguntou sentada na minha cama.
— Hilda, não sei, e se ele tentar alguma coisa? — Respondi sincero, estávamos falando sobre o convite do Surtr para ir ao cinema.
Ele queria ver Transformers, ou ao menos esse foi o filme que ele me convidou pra assistir, mas o Milo tinha me chamado para ver esse filme e eu não quis ir com ele, como iria com o Surtr agora? Eu não sabia o que fazer.
— Mas é justamente por isso que você deve ir, pra ver se rola alguma coisa. — A Hilda me falou direta.
— Hilda! Pelos Deuses, você é uma péssima influência. — Falei e ela sorriu.
— A gente faz assim, diz pro seu pai que vamos juntos ao cinema, acho que ele não vai se opor, daí você combina com o Surtr para conhecê-lo, não precisa beijar o cara se não quiser. — Ela acrescentou ao ver a minha cara de espanto.
— Não sei, será? — Perguntei inseguro, mas o que poderia dar errado?
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