Dékes

6 Insanidade e Lealdade


HUNTER POV

Uma luta entre dois seres poderosos muitas das vezes é sobre quem é capaz de dar o primeiro golpe.

Confiança, habilidade, experiência em batalha. Tudo isso é algo necessário se você quer sobreviver em um embate de vida ou morte, e para isso, se manter firme é algo necessário, porém...

Primeira Lei, Inércia.’ Um objeto sempre mantém seu estado, a não ser que uma força externa cause alguma mudança sobre ele. O campo de matéria escura ao meu redor tem propriedades únicas, sendo extremamente parecido com estar no próprio espaço. O que isso significa? A única força gravitacional que o afeta é a minha própria vontade. Por isso qualquer objeto na esfera do meu campo de matéria escura o orbita seguindo a minha vontade. Os dois anéis orbitando ao meu redor em velocidade constante, mas não por muito tempo. Com o cerrar de um punho, aos poucos sua velocidade tem aumentado.

Continuando. Se manter firme é algo necessário, porém, em uma situação de vida ou morte, um simples ato que o coloque em desvantagem pode ser o suficiente para destruir essa confiança. Falta de confiança lhe faz tomar as decisões erradas, e então, falhar. Em uma situação dessas, sua primeira ação é o que pode definir absolutamente tudo, afinal, com o golpe certo, você pode causar a absoluta queda da estratégia inimiga, ou vice-versa. Então...

Segunda Lei, Impulso.’ Já que meu campo de matéria escura é similar ao espaço, isso faz com que qualquer objeto dentro de si não tenha qualquer força sobre ela outra que minha própria gravidade. Dessa maneira, também se torna mais fácil usar minha matéria escura para manipular a força sobre tais objetos. Meus dois anéis orbitando em velocidades cada vez maiores conforme mudo a pressão gravitacional sobre eles.

Daemon mantinha seu olhar firme sobre mim, seu baralho se embaralhando entre seus dedos. Suas mãos se movendo com expertise, ele também estava pronto para isso, era óbvio.

Nós nãos nos movemos de onde estávamos em pé, porém nossos ataques sim.

Os dois anéis saíram da orbita, voando a altas velocidades contra o demônio. Ao mesmo tempo, ele lançou quatro diferentes cartas de seu baralho. Duas cartas acertaram os anéis, mudando sua trajetória, as outras duas voaram em minha direção, mas consegui as desviar assim que entraram em meu campo gravitacional. Terceira Lei, Reação. Assim que as cartas atingiram minha matéria escura, meu campo reagiu com a força equivalente, desviando ambas as cartas para longe de mim.

Uma se cravou fundo no concreto, a outra cortou um galho grosso de uma árvore, como se fosse manteiga. O galho caindo no chão com um barulho alto. Enquanto isso um dos meus anéis havia sido desviado e acertado a fonte, criando uma cratera do tamanho do meu punho no pedestal, o outro passou perto de Daemon, acertando e amassando a lataria de um carro na rua atrás dele.

“Seus anéis são surpreendentemente pesados para seu tamanho.” Daemon comenta.

“E suas cartas bem afiadas pra algo tão delicado.” Eu adiciono, sorrindo.

Mais três dos meus anéis saem dos meus dedos, orbitando com velocidade terminal rapidamente, antes que eu os lançasse contra o mágico. Ele respondeu da mesma forma, cinco de suas cartas voando contra mim.

Com um giro eu desvio de uma, usando um dos anéis para desviar outra e lançando o terceiro anel diretamente contra ele. Com um giro próprio, ele levanta sua capa, que recebe e absorve o golpe, o arrastando alguns passos para trás. Ele não hesita, porém, o seu baralho flutuando e se abrindo em um largo leque como um pavão tentando demonstrar seu território.

As mãos de Daemon eram rápidas, mãos de um mágico afinal, conforme ele guia as cartas como um maestro, lançando uma rajada delas, um verdadeiro inferno em forma de baralho.

Todos os anéis saem de meus dedos para me orbitar, comigo batendo minhas mãos em conjunto, aumentando a quantidade de matéria escura ao meu redor, fazendo meu campo gravitacional se expandir. Terceira Lei. Era um embate de força, entre suas cartas imbuídas em magia demoníaca, e meu campo de matéria escura. Cada carta que entra na órbita era desviada pela gravidade, atingida por um dos anéis que me rodeavam a altas velocidades ou tinham suas velocidades diminuídas o suficiente para que eu desviasse por mim mesmo.

Eu não estava parado, entretanto, me movendo em sua direção aos poucos conforme desviava dos ataques. Com a distância diminuindo, também diminuíam sua quantidade de cartas.

Em uma pequena brecha, eu lancei um de meus anéis contra ele. Sua reação foi rápida, mas não o suficiente, com o anel atingindo um de seus braços, fazendo parte das cartas restantes caírem. Entretanto, ele também aproveitou a chance, com um movimento de sua outra mão, uma de suas cartas mudou sua trajetória mesmo dentro do meu campo gravitacional, cortando minha bochecha por pouco.

“Controla elas mesmo sem estar próximo, devia ter previsto essa.” Digo, sorrindo.

“Peso, força e velocidade de cada anel é diferente... Mais difícil de manipular, porém difícil de se prever também.” Daemon responde, a parte atingida havia rasgado seu terno, revelando escamas dracônicas brancas por baixo. A habilidade mais básica de um demônio, cobrir seu próprio corpo com essas escamas duras para proteção.

Usei aquele momento para avançar contra ele, cinco dos meus anéis voltando para minha mão direita. Algo único desses anéis realmente era o fato de que eles eram especiais, cada um feito de um material diferente e supercondensado, tendo um peso muito maior que o esperado, sendo leves para mim por serem imbuídos com minha matéria escura e não terem peso dentro do meu campo gravitacional. Porém, isso era algo a qual eu podia mudar a minha vontade, e era o que havia feito agora.

Trazendo o peso verdadeiro desses anéis e com ajuda da minha Segunda Lei, meu soco tinha um peso dezenas de vezes maior que o normal. Consegui atravessar a barreira de cartas, atingindo Daemon no estômago, o lançando voando por múltiplos metros. Ele parou pouco antes de atingir um dos pilares da prefeitura, sua capa fluindo, o fazendo flutuar metros acima do chão.

O que aconteceu em seguida foi o mais surpreendente. Sangue. Ele cuspiu sangue. Isso não era possível. Os Anjos de Lúcifer eram covardes, indo em campo usando cópias feitas com a magia de Lúcifer. Eles sentiam dor, sim, mas apenas sangravam escuridão. Matar aquelas cópias apenas os mandavam de volta para seus corpos reais.

Porém, ali estava ele. Daemon, o braço direito de Lúcifer, sangrando como qualquer outro ser vivo. Vermelho. Ele puxou um lenço de seu terno, limpando o sangue escorrendo de sua boca, abrindo um sorriso calmo.

“Suponho que terei que fazer mais do que alguns truques com cartas. Nada além do esperado do deus reencarnado.” O mágico comenta, guardando seu lenço novamente.

“Por quê? Geralt e Seraphina eram dois covardes com cópias feitas pela Lúcifer. Mas você tá aqui. Não uma cópia barata, o real. O braço direito da própria deusa da morte, aqui. Por quê? Só por causa do Dékes?” Questiono, confuso. Isso era fora do que eu esperava. “Vai me dizer que o grande mágico não tem um dos quadros dela?”

O sorriso de Daemon estremeceu levemente, sua respiração se acalmando aos poucos. “Bom, que tipo de mágico não aparece em pessoa para seus shows, não é mesmo?” Ele pergunta de volta, sorrindo, entretanto, parecia haver algo a mais naquilo. Seria uma ótima hora para ter o Dékes aqui lendo suas emoções. “Dessa vez, eu vou trazer um show de verdade, em honra aquele que me atingiu após muitos anos.”

Daemon abriu seus braços, respirando profundamente, antes de puxar sua cartola e a lançar para o alto. Ela voou bem alto acima da praça, antes de emanar uma energia roxa de si. Logo em seguida, a energia demoníaca que circundava toda a cidade começou a ser puxada para dentro, como água para um ralo.

A escuridão em sua maioria diminuiu, agora que a cidade não estava mais em estado de estase na mesma noite de dias atrás. Porém, o céu continuava fechado, com as nuvens escuras e densas cobrindo a região. Trovões ecoavam, anunciando a tempestade que se aproximava.

A cartola então voou novamente para a mãos de Daemon, que a colocou novamente em sua cabeça, perfeitamente entre seus chifres.

“Agora, acredito que esteja pronto para um combate verdadeiro. Sem barreira para manter, agora posso demonstrar um show verdadeiro, digno de nosso encontro.” Ele anuncia, se mantendo acima do solo, flutuando com sua capa. “Espero que esteja pronto para o verdadeiro show que um mágico como eu pode oferecer.”

Eu ri levemente, fazendo todos meus dez anéis começarem a me orbitar lentamente mais uma vez. O olhei, de uma forma diferente agora. Ele não era só mais um daqueles assassinos covardes, não, ele era algo diferente, e apesar de tudo, eu não conseguia deixar de me sentir animado com o que estava por vir.

“Me mostra tudo que você consegue fazer então. É bom que seja divertido.” Respondo, assumindo uma posição de combate. Isso só estava começando.

DÉKES POV

Angelyne foi a primeira a avançar. Seu facão coberto com a Yinmas Blue, seus ataques cortando o ar com facilidade e força. A temperatura caía ao seu redor, com seus cortes se movendo de forma única. Ao invés de simplesmente cortarem o que estava no caminho, a ausência de calor das chamas criava cortes que congelavam o que atingiam.

Com um corte, ela cria uma barreira de gelo para parar o exército de mortos. Um olhar de fúria em seu rosto, focado completamente em Septem e a lâmina que escorria sombras que ele carregava.

“Pelo que eu sei, aquela piranha consegue invocar mortos com o poder dela, usando a foice que ela tem. Se for pra funcionar de forma parecida, então ele tá fazendo isso usando a faca dele.” Angie diz, criando uma segunda barreira com outro corte. “Porra, eu não consigo atingir eles. São almas, eles não são físicos o suficiente pra eu conseguir congelar.”

Eu dou um passo à frente, respirando profundamente antes de invocar cinco correntes diferentes, que deslizam pelo ar, como cobras, analisando os arredores, antes de focarem no exército que tentava passar pelas múltiplas barreiras de gelo que Angie continuava criando.

Almas perdidas. Clamam pelo julgamento. Almas purificadas. Avance. Que merda, essa voz na minha cabeça faz cada vez menos sentido. É a minha voz? Ela... Parece cada vez mais diferente. Só que... Minhas correntes pareciam querer avançar por vontade própria, e se tivesse alguma chance de usá-las, então que assim seja. Eu corri em direção as almas.

“Espera, é perigoso!” Angie grita, mas ignorei.

Pulei no ar, uma de minhas correntes se movendo para baixo de mim, servindo de plataforma – nunca vou entender como elas conseguem ser sólidas — para que eu pulasse mais alto, passando por cima das barreiras e aterrissando bem no centro das almas.

Olhares vazios, expressões de medo, tristeza, desespero. Conseguia ver através da fumaça, através da força os controlando. Eles gritavam por socorro.

Minha expressão mudou, mais séria que nunca, cerrando meus punhos. Minhas correntes obedeceram, duas delas seguraram a alma de alguém que claramente havia morrido queimada. Apesar do olhar de medo em seus olhos, eles logo mudaram, se acalmaram. As queimaduras desapareceram, a própria fumaça que rodeava a alma desapareceu, antes da própria alma, agora em paz, desapareceu. Julgar. Purificar. Salvar. Julgamento... Que seja. Se for para salvá-los.

Comecei a me mover, uma corrente acertando outra alma, que também foi purificada e desapareceu. Uma outra atravessou mais outra alma, o mesmo destino. Duas tentaram me segurar, mas minhas correntes responderam, se enrolando ao seu redor e as exorcizando como as outras.

“Tsk. Irritante. Eu juntei tantas almas assim pra você só mandar todas pro além? Nem ferrando.” Septem avançou, planejando em me atacar, só para ser parado quando uma onda de gelo cortou seu caminho. Ele mal teve tempo de desviar, com um de seus braços ficando preso.

“Você vai lutar contra mim agora. Se acha que vai manter tanta gente presa tá bem enganado. Vou congelar você completamente e destruir essa merda de arma sua.” Angie anuncia, avançando contra Septem enquanto eu mantinha os mortos em controle.

“Vadia do caralho. Isso não vai me parar.” Ele sequer hesitou. Com a própria faca, ele cortou o próprio braço, próximo do ombro, o decepando completamente e desviando de outra onda de gelo de Angelyne. “Eu te mato primeiro então, se tá tão a fim de morrer assim.” Septem responde, sorriso se alargando.

O ponto onde ele havia arrancado o próprio braço jorrou sangue por alguns segundos, antes que rapidamente um novo braço começou a se formar. Em menos de um minuto um novo braço estava no lugar, a única prova que um dia o havia perdido era o sangue e a camisa de força rasgada sem aquela manga presente mais. Septem sequer parecia afetado por aquilo.

Angie por outro lado. Seus olhos estavam arregalados, suas mãos tremiam. Medo? Surpresa? Não, eu sequer conseguia ler o que ela estava sentindo naquele momento. Sua alma estava um caos, as marcas sobre ela pareciam se expandir, como feridas sendo reabertas. Pânico. Trauma. Trauma? O que quer que fosse, ela não estava bem.

Tentei ir em direção a ela, mas as almas não paravam de vir. Quanto mais eu exorcizava, mais apareciam. Mesmo que a maior parte da cidade houvesse sido evacuada, ainda assim, havia vítimas demais da mesma forma. Muitas almas presas e forçadas a servir e atacar.

Cerrei meus punhos, fazendo ainda mais correntes aparecerem. Eram pelo menos dez delas, se movendo se forma agressiva para atacar qualquer alma que se aproximasse. Várias tentavam me segurar, cortavam minha pele, mordiam, faziam qualquer coisa que pudessem para me ferir, mas aquilo só me deixava mais furioso. A dor não importava, nunca importou, mesmo que eu sangrasse, ele simplesmente fervia e entrava em chamas. Se uma ferida fosse aberta, minhas chamas surgiam de dentro de mim, as curando rapidamente. Minhas correntes atacando mais agressivamente com cada vez, queimando o controle sobre qualquer alma que se aproximasse.

Sigma havia dito que meu poder estaria instável por um tempo. E que a manipulação temporal de Kronos estava afetando meu corpo. A cura das minhas chamas estava acelerada por causa dele, certo? Se é assim... Então pelo menos por agora, não tem problema se eu exagerar um pouco, já que eu tenho a energia extra.

“JULGAMENTO!” Gritei, a mesma palavra que aquela voz parecida com a minha repetia em minha mente. Minhas chamas explodiram em força, se multiplicando. Pelo menos duas dúzias delas, então três dúzias. Era como um ninho de serpentes, se enrolando e rastejando pelo chão e ar, cobrindo metros ao meu redor, queimando a magia de Lúcifer e mandando alma atrás de alma para a pós vida.

Por um momento consegui voltar a minha atenção novamente para Angie e Septem. A alma dela continuava um caos, mas ela não estava mais parada em choque, ela estava atacando. Porém, não era a mesma forma de antes. Antes ela lutava com foco, precisão, uma forma parecida com a forma de lutar de Sigma, mesmo que ainda nos estados iniciais. Agora... Ela lutava de uma forma extremamente agressiva, violenta, uma expressão de fúria em seu rosto.

Seus ataques eram uma mistura dos cortes de gelo, que agora cobriam múltiplas partes das ruas e prédio. E cortes violentos, que partiam carros ao meio, atravessavam concreto com facilidade e destruíam partes do corpo de Septem nas poucas vezes que eles acertavam.

Sem a precisão, e tão focada em ataques violentos, os ataques de Angelyne eram desviados com certa facilidade por Septem. Um passo para o lado, desviando de uma onda de gelo que atingiu a fachada de uma loja. Um mortal para cima de um carro, então um salto para o lado, desviando de um corte que cortou o carro ao meio e arrancou um dos pés de Septem, que rapidamente se regenerou.

Eram poucas as chances que ele tinha de retribuir com seus próprios ataques, mas quando ele as tinha, ele não hesitava de atacar de volta, porém, ele sequer parecia estar levando aquilo tão a sério assim. Seus ataques eram rasos. Um corte na bochecha, um corte pequeno na perna ou no braço dela. Parecia mais que ele estava brincando com ela do que realmente lutando, parecia se divertir com a fúria cada vez mais descontrolada dela.

“ANGIE! ESPERA, SAI DE PERTO DELE!” Gritei, mas ela não parecia ouvir, e minha própria luta contra o exército de almas parecia não ter fim. Foi quando aconteceu, o céu mudando, a energia demoníaca que cercava toda a cidade recuando, indo em direção ao centro da cidade. A escuridão da noite agora dava lugar a luz fraca de um dia nublado, a neblina desaparecendo quase que completamente. “Será que... O Hunter ganhou?”

A barreira desaparecendo foi uma distração pequena, mas o suficiente para fazer Septem sair de seu foco dos ataques, substituído por confusão.

“Que merda ele-” Septem não conseguiu terminar, o facão de Angie o acertando no ombro, cortando para baixo, saindo próximo da cintura, antes de voltar, atingindo seu joelho, cortando metade de uma perna, o fazendo cair. Um terço do torso e metade de uma perna destruído, porém o ponto principal que havia sido atingido era seu coração, metade cortado. “Filha da puta...” Ele geme de dor, cuspindo sangue, antes de rir. “Vai... Precisar de mais que isso.” Ele zomba.

O olhar de fúria de Angelyne só aumentou, ela levantando seu facão coberto pelas chamas azuis, pronta para continuar cortando Septem, pedaço por pedaço. Foi quando algumas mãos a seguraram. Espectrais, pequenas. Era várias crianças, as almas delas, controladas por Septem, seguraram Angie. Os olhares vazios, assustados, aterrorizadas, olhando diretamente para ela.

O olhar de Angelyne mudou completamente. De fúria, foi para medo, tristeza. Culpa. Culpa? Por quê? O casaco pesado de inverno de Angie estava destruído, rasgado pela lâmina de Septem, logo caindo ao ser puxado pelas mãos das crianças.

Por baixo, Angelyne usava uma regata preta, mas isso não importava. Era possível ver o corpo dela agora, atlético, musculoso, obviamente de um treino intenso e constante, mas não isso também não importava... O que realmente chamava a atenção eram as cicatrizes, várias delas, visíveis em seus braços, e provavelmente pelo resto do corpo. Era por isso que ela sempre usava aquelas roupas pesadas? Esconder as cicatrizes dela?

Os olhos de Angie encontraram os meus por um segundo. A alma dela gritava vergonha, culpa, dor, seu corpo inteiro tremia. Não, não era simplesmente pelas cicatrizes... Era pelo que elas representavam.

“Você e eu somos iguaizinhos, não é? A única diferença, é que eu aceito o que eu realmente sou. Ao invés de esconder a realidade como você.” Septem diz, rindo, sorriso novamente no rosto, seu corpo ainda se regenerando, mesmo com o coração destruído. Ele cambaleia para ficar de pé, apontando sua faca para Angelyne. “Eu sou um assassino, um monstro criado por aqueles filhos da puta. Só que você também. Você é uma arma, feita para nada além de matar seu alvo... Assim como eu.”

Angelyne estava paralisada, punhos cerrados. Seu facão caiu no chão, sua alma em turbilhão com um conflito de sentimentos que eu mal podia compreender. Foi quando Septem avançou, pronto para matá-la, porém, eu também me movi.

Fiquei entre eles no último momento, e a lâmina que era para Angie, me acertou ao invés disso. Diretamente em meu peito. Em meu coração. Aquilo me fez me lembrar dos exames. O único órgão que ainda havia dentro de mim era meu coração... Como minhas correntes pareciam defender meu peito mais que qualquer outra parte. Agora entendia o porquê.

Cuspi sangue, minhas chamas se apagando, até mesmo as que antes curavam minhas feridas enfraqueceram até se apagarem. Talvez eu não fosse tão difícil de matar assim... Só... Tinha que ser o lugar certo. Ha... Que merda...

“DÉKES? DÉKES!” A voz de Angelyne gritava, absolutamente desesperada.

A escuridão era algo normal para mim, porém dessa vez era pior. A energia que eu costumava ver, as almas, tudo se apagou, até que eu havia perdido completamente a consciência.