Dékes

7 Queime até as Raízes


DÉKES POV

Meu quarto era pequeno, mas o suficiente. Uma escrivaninha, com uma pilha de HQs, e três action figures que eu tinha, pouco, mas algo que me deixava feliz. Algumas das HQs eram velhas, dadas quando eu era criança, outras mais recentes. Uma das action figures era do meu desenho favorito, um dragãozinho felpudo, pelos azuis, fofinho, um desenho infantil que eu adorava, mesmo que não visse muito sobre atualmente. Uma outra era um personagem de HQ. E a última e mais nova era de um jogo, Hell & Heaven, um roguelike que eu jogava sem parar com minha irmã, Lira. A personagem, Nêmesis, um anjo caído, de asas negras, carregando uma espada bem maior que ela. Havia comprado com ajuda da minha irmã, e o salário que conseguia com o trabalho que havia começado recentemente. E obviamente a nossa foto, mãe, Lira e eu, de muito tempo atrás... Algo precioso.

Posters desse jogo, alguns animes, e uma banda da qual eu gostava em uma parede. Embaixo da minha cama havia a bolsa com minha guitarra, algo que havia recebido alguns anos atrás pela minha irmã. Ela havia trabalhado tanto só para comprá-la para mim. Uma das poucas coisas a qual eu não tinha tanta dificuldade de aprender, algo que gostava de fazer as vezes. Ainda lembrava quão feliz Lira tinha ficado quando toquei a música favorita dela de presente de aniversário, quão orgulhosa, e o quanto sua alma brilhava.

Atualmente eu estava deitado na minha cama, a mais nova HQ que havia comprado em mãos. Olhos semicerrados, focados nas páginas. Sinceramente, eu não entendia como eu conseguia fazê-lo, afinal, eu era cego. Sem pupilas, era impossível de ver a luz, ou seja, ver o mundo como os outros conseguiam. E mesmo assim, se me concentrasse o suficiente, eu conseguia entender o que estava à minha frente. Era quase... Como se alguém descrevesse as coisas ao meu redor. Como se o mundo fosse desenhado em minha mente. Era complicado, as vezes lento, precisava me concentrar, mas essas imagens se formavam em minha mente aos poucos, página por página, cores, palavras. Por mais difícil que fosse, valia a pena.

Uma batida na porta, que logo se abriu. Lira, minha irmã. 28 anos. 1,72 de altura, os cabelos negros e bagunçados, os olhos verdes. Estava usando a roupa de academia ainda, suada, provavelmente havia acabado de chegar em casa.

“E aí? Tá com fome? Tava pensando em pedir uma pizza, a gente não come uma faz um tempo.” Ela comenta, inclinando a cabeça, olhando a HQ. “O capítulo novo? Espero que esteja bom, tá um roubo em. Tava pensando em comprar também, mas é mais fácil pegar emprestado pra ler depois.”

“Quem disse que eu vou emprestar?” Brinco, segurando a revista contra o peito. Lira finge ofensa, mão no peito.

“É assim é? Tenta pedir minha coleção emprestada pra você ver.” Ela diz, antes de rir. “Vou pedir a pizza e tomar um banho. Você fica de olho, sabe como a pizzaria é louca com o tempo de entrega. A última dizia uma hora, chegou em 10 minutos, nem sei que pacto que eles fazem pra conseguir isso.” A voz dela diz do corredor, conforme ela se afasta para o próprio quarto, a porta do banheiro poucos minutos depois e o som do chuveiro.

Um arrepio. Água, como ela consegue, sinceramente? Claro, ela não tem chamas que ficam agressivas com qualquer gotinha, mas ainda assim.

Coloquei a revista sobre minha escrivaninha, antes de ir até a sala, olhando pela janela. Nuvens de tempestade, outra noite chuvosa, ótimo. Me sento no sofá, me espreguiçando.

‘Eu podia ir na feira amanhã... Comprar ingredientes pra cozinhar um jantar legal pra gente.’ Penso. A feira era grande, e com minha visão, era fácil escolher ingredientes frescos. Só ver a energia remanescente, mais fresco, mais bonita e forte a energia das plantas.

Um trovão ribombou do lado de fora, então silêncio. Olhei pela janela novamente. Uma energia estranha cobria o céu, as nuvens se movendo bem mais lentamente, o próprio ar ao redor se tornando espesso e opressor.

“DÉKES!” Lira gritou, correndo para a sala, claramente havia se vestido apressadamente, colocando a jaqueta camuflada de quando ela havia servido no exército. Ela segurou meu braço, me puxando em direção a saída dos fundos. “A gente tem que sair, agora.”

“O-o quê? O que tá acontecendo?” Pergunto, a seguindo mesmo assim. Sua alma em turbilhão. Preocupação, medo. “Lira?”

“Desculpa, não dá pra explicar. Só vamo, agora.” Ela me puxou, atravessando o pequeno quintal de trás, até a moto dela, como sempre estacionada lá ao invés da frente de casa. “A gente vai ter que ir pra-” Uma explosão a cortou, a frente da nossa casa destruída, destroços e fumaça cobrindo tudo.

Paralisei, olhando enquanto ela era consumida pelas chamas. O lugar que era meu lar por toda minha vida, onde tanto havia acontecido. Memórias... Sonhos... Tudo entrando em colapso na minha frente.

“Não olha, não pensa nisso.” Lira já havia subido em sua moto, me puxando para subir também. Me segurei, com ela acelerando sem olhar para trás. “Se foca, okay? A gente tá junto, é o que importa. A gente tem que te levar pra um lugar seguro.”

“Mas... A nossa casa. As fotos, nossas coisas. A gente...” Mal conseguia falar, lágrimas queimando minhas bochechas. A nossa foto, a guitarra que ela tinha me dado, tudo aquilo. “Por quê? O que tá acontecendo?”

“Dékes... Tem pessoas que querem o seu poder. Eles querem o que você tem, e vão fazer o que for pra pegar ele de você.” Lira explica, punhos brancos, segurando o guidão da moto com força. Medo, raiva, tristeza. “Uma amiga tem cuidado da gente, só que... Ela não tem entrado em contato direito. Só que ela mandou um sinal, disse que eles acharam a gente. Foi por pouco, mas a gente tá bem pelo menos. Agora o que importa é ir até um lugar seguro. Vai demorar, mas tem um lugar que vai conseguir te proteger. A gente tá indo pra lá.”

Aquela energia opressora cobria absolutamente tudo por quilômetros. A região inteira parecia estar em estase, parada no tempo quase. Era como se nós estivéssemos separados do resto do mundo.

Explosões ecoavam na distância. Gritos, sirenes, um caos contínuo que se espalhava por toda cidade rapidamente. Lira pilotava a moto com precisão, como se preparada para uma situação do tipo, através de tráfego e caos, desviando das ruas principais, se movendo por ruas menores, becos, indo em direção a uma das saídas menos movimentadas da cidade.

Então, fumaça, não fumaça normal de chamas. Era espessa, negra, emanando do próprio solo. Meus olhos semiabertos, focados à frente, perceberam antes que Lira.

“PARA, TEM ALGUMA COISA LÁ NA FRENTE!” Gritei mais alto que o vento. Lira felizmente me ouviu, freando imediatamente.

Escuridão cobriu o asfalto, antes de mãos espectrais começarem a sair do solo. À frente, atrás, de becos. Rapidamente dezenas de seres espectrais nos cercavam. Sua energia era fraca, suas aparências antigas, vestidos de múltiplas formas, alguns com armaduras desgastadas, outros vestidos como aldeões. Trajes surrados, olhares vazios, almas perdidas por muito tempo.

“Sinceramente, é uma falta de respeito fugir dessa forma quando se tem visitas, não acha?” Uma voz jovem, masculina. Um adolescente, provavelmente da minha idade. Usava uma camisa de força arrebentada. O sorriso largo e maníaco, os olhos alaranjados cheios de insanidade. A alma escura, quase que invisível em meio a fumaça que só eu podia ver.

“Visitas indesejadas tem que ir se fuder, moleque.” Lira diz, puxando um revólver do coldre escondido embaixo de sua jaqueta, não hesitando um segundo sequer, acertando um tiro bem entre os olhos dele. “Filho da puta, você não vai pegar meu irmão tão fácil assim.”

Ele caiu no chão, morto, ou era o que deveria ser, entretanto, sua gargalhada ecoou pela rua. O jovem se sentou, dedos passando sobre o buraco se fechando rapidamente no centro de seu rosto. Então ele se levantou, cambaleando, uma faca em sua mão.

“Boa de mira, preparada, não hesita por um segundo sequer. Divertido. É melhor assim.” Ele diz, cabelo caindo para o lado, mostrando seus olhos. Arregalados, pupilas dilatadas, sorriso alargado. “Se fosse fácil, seria entediante.” Sua faca levantada, apontando para nós. “Ataquem.”

As almas avançaram, dúzias delas. Mortos-vivos, almas aprisionadas, desesperadas, assustadas. Duas de minhas correntes se manifestaram por conta própria, rastejando ao nosso redor e incinerando dois que tentaram avançar.

“Se segura. Tenta manter eles longe.” Lira ordena, acelerando diretamente contra o adolescente. Ela levanta seu revólver, mais dois tiros contra ele, um na perna, outro no pescoço, o fazendo perder o equilíbrio. Ela fez um drift no último segundo, acertando sua bota bem na cara dele. “Vai pro inferno, louco do caralho! Dékes, na frente!”

Lira pilota diretamente até um beco. Eu a obedeço, mandando ambas as correntes a frente da moto em formação de lança, atravessando as almas, que desaparecem rapidamente, nos dando tempo o suficiente para atravessar o beco até outra rua, deixando o exército de mortos para trás.

“A gente tem que viajar até a Província Amary.” Lira diz para mim, séria, pilotando o mais rápido possível. “Pela cidade de Dahlia é melhor, é a mais próxima da fronteira entre Astera e Amary. É o melhor lugar pra encontrar com ajuda.”

“Por que a Província Amary? É só um monte de planícies e fazendas.” Pergunto, curioso, meus olhos, entretanto, se mantêm atentos ao nosso redor.

“Você vai descobrir lá, agora a gente precisa chegar em Dahlia o mais rápido possível. Eu já mandei um sinal de ajuda, mas não tenho certeza se eles vão receber. O que importa agora é vazar daqui.” Ela responde, focada no caminho a nossa frente.

Nós estávamos próximos dos limites da cidade, porém, aquela energia estava lá. Espessa, como uma barreira. Magia demoníaca.

“Demônios... Isso é...” Sussurro, confuso. Minhas correntes pareciam quase que responder aquela energia.

Nós não estávamos tão longe assim da barreira, apenas mais alguns quilômetros. Foi quando aquela fumaça surgiu novamente, mais escura ainda, espessa, e cobrindo uma região maior. Novamente a escuridão se abrindo no chão, então os espectros se levantando, porém... Dessa vez não eram simplesmente aquelas almas antigas perdidas, eram novas, recentes. Dezenas delas, e mais aparecendo aos poucos.

“Que merda.” Lira pisa no freio. Assustada, medo, raiva. Ela parecia encarar algumas delas com tristeza e dor. “FILHO DA PUTA.” Ela sacode a cabeça, acelerando novamente, mas a quantidade era muito maior dessa vez para simplesmente atravessarmos.

Palmas. Aquele cara de novo, saindo de um beco, sorriso no rosto, roupa ensanguentada.

“Bom, você é boa, realmente. É, eu só tinha algumas almas perdidas da região antes, mas agora...” Ele gesticula com as mãos para o novo exército de almas. “Meus aliados deram uma expandida nisso nesse meio tempo.” O jovem adiciona, rindo.

“Ele só tinha 15 anos... Trabalhando pra ajudar um pouco em casa... E ela... Tinha família fora da cidade que ia visitar...” A alma de Lira estava um turbilhão, mas o que era mais claro era ódio. Absoluto ódio. Lira trabalhou boa parte do tempo desde os 16 em um supermercado perto de casa, até mesmo era gerente do local agora. Ela reconhecia várias dessas pessoas, dessas almas, pessoas que ela provavelmente interagiu múltiplas vezes durantes esses anos. “Dékes... Você sabe o que tem que fazer.” Lira diz, recarregando o revólver dela rapidamente. “Esse arrombado não vai deixar a gente em paz. Você tem que fugir sem mim.”

“M-mas... Você... A gente pode lutar j-” Tento dizer, mas ela me interrompe.

“Eles querem você. O seu poder. Você tem que fugir, que sobreviver. Achar ajuda onde eu te falei. Ficar mais forte. Então meter porrada nesses filhos da puta por mim depois, tá me entendendo?” Lira diz, sorrindo. Podia ver sua alma, ela sabia disso. O medo, a raiva, a tristeza... O amor. “Eu te amo, tá bom? Vai nessa, não deixa isso te afetar, a gente vai se encontrar de novo, não importa onde ou como. Eu prometo.”

Eu desci da moto, dando um passo para trás. Minhas mãos tremiam, lágrimas queimavam minhas bochechas. Então eu corri, o mais rápido que podia em direção a saída da cidade. Minhas correntes pareciam ter vida própria, atacando qualquer alma em meu caminho, abrindo um espaço, mesmo que pequeno para mim.

“Tá pensando que vou deixar você fugir agora é?” O jovem diz, correndo em minha direção, mas o som do motor da moto o interrompe, com Lira dando um drift, acertando um outro chute nele e um tiro de revólver na cara a queima roupa.

“É, vai mesmo. Quem não vai fugir é você, antes deu arrancar todos esses seus dentes na porrada.” Lira ameaça. Ela estava com medo, sim, mas nessas horas, era quando ela mais sorria. Como quando eu chorava pelos trovões a noite quando criança. Quando eu me desesperava com medo de perder o controle das minhas chamas. Ou quando ela correu o risco de perder minha guarda. Ela sempre sorria para mim. Igualzinho nossa mãe fazia.

O som da moto, dos tiros, o caos, as sirenes ecoando pela cidade. Isso tudo era por mim? Por quê? Por que eles têm que lutar por mim? Morrer por mim? Sofrer por mim?

Ouvi um grito de dor da Lira, olhando para trás, paralisado. Ele havia acertado uma facada nela, mas ela não hesitou em retribuir com outro tiro no meio dos dentes dele. Dei um passo em direção a ela. Ela me olha.

“EU VOU FICAR BEM. FOGE! NÃO PARA. SÓ CORRE!” Lira grita, antes de sorrir novamente. “Você sabe que isso não é nada comparado ao resto. A gente lidou com pior. Vai nessa, idiota.”

Eu respirei profundamente, antes de correr novamente. Minhas correntes fazendo o melhor que podiam, exorcizando alma atrás de alma, mas mais continuavam a aparecer, mesmo que a quantidade parecesse ser menor. Estava começando a ficar difícil, eu mal tinha para onde correr, mas não podia parar.

“Aqui!” Uma voz fina chama, de um beco poucos metros à frente. Eu não conseguia ver muito, porém, entre as almas perdidas, uma pequena luz brilhava. Uma alma pequena, mas gentil, era como um farol em meio ao mar de fumaça negra e almas perdidas. Não hesitei em ir em sua direção.

Mal tive tempo de realmente entender a situação. Chegando ao beco, me vi de frente a um coelho de pelúcia. Pequeno, branquinho, olhos grandes e multicoloridos entre roxo e azul, com um sorriso largo, redondo e cartunesco no rosto. Seu corpo era coberto por nada além de uma pequena capa preta com o interior vermelho, e um pequeno chapéu de mágico preso entre suas orelhas longas. Fofinho.

“Para de me olhar igual um idiota! Nunca viu um coelho antes? Entra na cartola, rápido!” O coelhinho ordena, apontando para o fundo do beco. E realmente, havia uma cartola ali. Não uma cartola normal, entretanto, era uma cartola de mágico enorme, que cobria o beco inteiro. Ela estava deitada no chão, a abertura virada para mim. “Sinceramente, é um tapado mesmo! Vai logo! Meu mestre não tem tempo pra ficar esperando um idiota como você ficar enrolando.” Ele adiciona, tentando me empurrar em direção a enorme cartola.

“E-eu...” Olhei para a entrada do beco, onde o exército de almas se aproximava. O som de tiros. As sirenes. Precisava fugir. Olhei novamente para o coelho de pelúcia. Desespero, preocupação. Sim, mas ele não parece mentir, a alma dele é gentil até, me lembra... Aquele desenho que eu sempre assistia. “Tá, mas... Será que... Você consegue tentar salvar as outras pessoas também? Elas tão morrendo por minha culpa, você tem que-”

“E o que você acha que meu mestre tá fazendo? Essa cartola não é a única não! Você pode ser até um caso especial, mas não é tão importante assim pra ele ignorar o resto. Agora vai logo!” Ele grita, dando um salto contra minhas costas para me fazer me mover.

“C-certo, eu... Obrigado... Fofinho.” Disse, antes de correr e entrar na cartola. A sensação era estranha, provavelmente nauseante, se eu tivesse estômago. Quando me dei por mim, eu estava em uma colina quilômetros além de Daisy. Podia ver a cidade ao longe, o estranho domo de energia a cercando. A cartola não estava em lugar nenhum, me fazendo até duvidar de minha sanidade por um momento, porém, não era hora para isso. “Tenho... Que continuar. Dahlia, tenho que chegar lá.”

Respirei profundamente, antes de começar a correr em direção ao sul. Era longe? Talvez, mas isso não importava ao momento.

Horas de passaram, comigo correndo sem parar. Suponho que era algo bom do meu corpo estranho. Sem pulmão ou cérebro precisando de ar e oxigênio. Sem músculos reclamando de dor. Porém, até para mim a fadiga chegava em algum momento. Minhas chamas supriam várias das necessidades físicas do meu corpo, e precisava recuperar energia de alguma forma, seja descansando ou me alimentando.

A pressa havia feito com que eu estivesse sem nada além da minha roupa do corpo. Até consegui comer algumas frutas de árvores pelo caminho, mas não era muita coisa. Felizmente, eu havia alcançado o topo de uma colina alta. No horizonte, as luzes de uma cidade, e ao seu redor, belos campos de Dália. Se realmente teria a ajuda necessária ali era a maior dúvida, mas com sorte, a pior parte havia- O som de galhos se partindo me fez virar rapidamente, só para sentir a lâmina fria contra minha garganta, coberta de sombras que pingavam sobre minha pele.

“Achou mesmo que ia conseguir fugir pra sempre? Sua irmã pode até ser boa no que faz, mas adivinha... Eu sou mais.” Ele gargalha, aqueles olhos alaranjados focados em mim.

“O que... Você fez com ela?” Pergunto, temendo a resposta.

“Eu sou um assassino, esse é meu trabalho, é pra isso que eu fui criado.” Ele diz, inclinando a cabeça para o lado, revelando mais de seus olhos. “Eu vou matar todos... Cada um. Não importa quem seja, se ficar no meu caminho entre mim e meu alvo...” Seu sorriso se alargando, revelando dentes manchados de sangue. “Então por que não adivinha o que eu fiz com ela?”

Sua alma era escura, muito escura, consumida por trevas abissais. Era impossível para mim ler o que ele sentia, pensava. Se era verdade ou não. Minhas mãos tremiam. Medo? Raiva? Eu não sei mais.

“Espero... Que ela tenha arrancado todos os seus dentes.” Disse, sorrindo. Ele até podia se curar, mas o sangue manchando seus dentes entregavam.

Até tentei reagir, mas não era rápido o bastante. Não era forte o bastante. Eu não era o bastante. Minha garganta cortada, aquelas estranhas sombras que pingavam de sua lâmina cobrindo a ferida, e lentamente se espalhando, como uma infecção, que minhas chamas não eram fortes o suficiente para combater.

Meu corpo caiu, rolando pela colina, acertando pedras, provavelmente teria quebrado ossos se ainda possuísse algum, até que finalmente acertei a base da colina, cercado de flores de Dália, meu olhar focado no céu noturno e nas nuvens que rodopiavam.

Então o som de um trovão ecoou, a luz brilhante dos relâmpagos iluminando a região...

Meus olhos se abriram novamente. Gotas de chuva caindo sobre mim, vapor saindo de meu corpo onde elas tocavam. Olhando ao redor, havia poucas almas sobrando, todas aquelas correntes de antes não estavam mais presentes, com uma única atacando os arredores de forma agressiva e incoerente, desesperada pela chuva, antes de dissipar junto com as outras.

Cambaleei levemente, antes de conseguir me levantar completamente. Meus ferimentos sangravam, especialmente o em meu peito. A dor em meu coração era enorme, pior do que a de queimar constantemente com a qual eu já era acostumado.

Olhei ao meu redor, até focar na rua a minha frente. Um carro destroçado, com uma clara marca de punho em sua lataria. Parte do asfalto destruído com uma cratera. A fachada de um prédio completamente colapsado.

Me movi para frente, cambaleando. A chuva e a facada em meu coração só pioravam minha situação. Cura mal funcionava. Só que, eu não podia ir embora, eu precisava achar a Angie.

Eram apenas poucas ruas, porém a destruição era clara. Não como antes, era pior, e quanto mais eu seguia aquele caminho, pior ficava. E então, vieram os sons. Era um som de impacto forte, alto, agressivo, e constante, pouco depois a voz, Angie. Definitivamente era ela, mas claramente não estava bem.

Finalmente virei em uma última esquina, chegando na área da feira. Uma larga rua de tijolos claros, normalmente feita apenas para pessoas caminharem, e para a feira que acontecia todo fim de semana. A rua era dividida por um caminho de grama e árvores altas, a qual davam sombra para caminhadas, ou para relaxar nos bancos, ou para as pessoas fazendo compras na feira. Era um local bonito, que costumava vir todo sábado, às vezes com a Lira. Bons ingredientes. Ou só para caminhar, conversar, aproveitar o ar fresco. Era divertido...

Seguindo pela rua, agora algumas árvores estavam arrebentadas, caídas. Bancos que antes eram presos ao chão tinham sido arrancados com o concreto e tudo. Algumas das tendas destruídas. E então a vi, Angie, e a origem daquele som infernal.

Septem estava no chão, rachaduras nos tijolos, uma cratera de alguns centímetros de profundidade sob ele. Angie estava sobre ele, uma mão segurando seu pescoço com força, claramente afundando a pele e músculo. Seus músculos pareciam mais definidos ainda do que antes. Sua alma mostrava apenas duas coisas. Um ódio profundo e avassalador, e uma dor gigantesca. Seu cabelo cobria seu rosto, e seu outro braço... Seu punho livre estava cerrado, coberto de sangue. Ela o levanta, antes de acertar mais um soco contra a cabeça de Septem, que a esse ponto estava irreconhecível, destroçado, afundado em uma cratera ainda mais profunda.

“Morra... Morra... Morramorra... MORRA!” Angie repetia, com cada soco que ela dava. Seus músculos se contraíam, sua mão apertava mais, seu punho descia com uma violência e força descomunal. “MORRA. MORRA. MORRAMORRAMORRAMORRA!” Ela gritava, atacando de novo e de novo, mais e mais, sem parar, sem hesitar. O som do golpe era alto, destruindo o chão embaixo com facilidade, a própria onda de choque por si só fazia as folhas das árvores voarem. Seu cabelo foi movido pelo vento, mostrando seu rosto. Uma expressão não de ódio, mas de cansaço, dor, lágrimas escorrendo por suas bochechas, mas ela não parava mesmo assim.

“Angie... Angie!” Chamei, cambaleando em sua direção, mesmo que fosse difícil naquele momento. Finalmente a alcancei, segurando seu braço e a puxando, uma corrente fraca se enrolando em seu braço. “Para! Angie, olha pra mim. OLHA!”

Foi só então que ela parou, virando o rosto para olhar para mim. Surpresa, alívio, felicidade. A puxei para longe de Septem, caindo sentado no chão, apoiando minhas costas em uma árvore. Angie veio junto, suas mãos segurando minha camisa, como se com medo que eu fosse desaparecer a qualquer segundo. Eu a abracei forte contra mim.

“E-Eu... Eu pensei... Que...” Ela chorava ainda mais agora, lágrimas de alívio, felicidade, medo. Um turbilhão sem fim em sua alma.

“Tá tudo bem... Eu tô aqui... Você não tá sozinha, Angie...” Sussurro, a abraçando mais forte. Ela se apoiou contra mim, se acalmando aos poucos em meus braços.

“Eu... O que ele disse... Eu...”

“Ei, foda-se o que ele disse. Não é verdade, não importa o que seja. Eu sei.” Interrompo, fazendo carinho em seu cabelo.

“É só que...” Suas mãos se agarram mais forte na minha camisa.

“Sua alma é linda, sabia? Brilhante, provavelmente uma das mais bonitas que eu já vi.” Adiciono, sorrindo. “É, talvez algo tenha acontecido, mas... O que importa é o que você é agora.”

“Eu... Obrigada.” Ela sorri levemente, mais calma. Nós ficamos mais alguns minutos parados embaixo daquela árvore, antes dela olhar para onde o corpo de Septem deveria estar. “Nada... Nem com aquilo ele morre. Por quê?” Realmente. Ele não estava mais lá, mas também não estava nos arredores. Sem exército de almas ou fumaça negra. “Eu destruí a faca dele. Ele não consegue mais escravizar ninguém.” Ela murmura.

“Que bom... Pelo menos eles podem descansar agora.” Suspiro, olhando para o céu, então para um dos prédios mais altos da rua, pelo menos uns cinco andares. “Você tem aquele canivete ainda?”

“Hm? Sim... É o que uso pra abrir minha dimensão de bolso, simples, prático, e menos complicado.” Angie concorda, o puxando do bolso e me entregando. “O que você vai fazer?”

“Tá tudo bem, eu já sei o que fazer com ele. Eu vou ficar bem, eu prometo. Eu vou lidar com ele, então a gente encontra o Hunter, volta pra DELTA e come pudim até explodir.” Respondo, me levantando, respirando profundamente e indo em direção ao prédio. “É hora de queimar o mal pela raiz.”

Angie parecia preocupada, mas confiou em mim, ficando para trás, encostada na árvore, abraçando os próprios joelhos.

“É bom voltar mesmo...”

O prédio parecia um pequeno armazém, pelo menos do térreo. Peguei uma caixa de maçãs no caminho, comendo uma atrás da outra enquanto subia as escadas. Ainda bem que não tinha zelador para ver aquela bagunça agora.

Alguns minutos e uma caixa inteira de maçãs devoradas depois, finalmente havia chegado na porta para o terraço, a abrindo sem cerimônias, novamente sob a chuva, encarando Septem, que estava de pé perto da beira do prédio.

“Bem que tanta porrada podia ter posto um pouco de juízo na sua cabeça ferrada.” Digo, dando uma mordida na última maçã que carregava. “E agora? Sem exército, sem faquinha, vai fazer o quê? Deve ter um monte de planos, né? Óbvio que sim.”

Septem se vira para mim, inclinando a cabeça. O sorriso não estava mais presente, só uma cara de irritação. O pescoço ainda marcado onde Angie definitivamente havia quebrado sem parar enquanto esmurrava ele.

“E o que você vai fazer? Sem fogo, isso é óbvio. Pode até não ter morrido, mas seu coração é obviamente sua fraqueza. Talvez se eu arrancasse ele na próxima? O que acha?” Ele ri secamente. “Sinceramente, era um trabalho simples. Aquela vadia daquela deusa me deu essa merda de exército inútil e um trabalho pra matar você, pra que ela pudesse pegar o poder de Hel direto da sua alma. Simples? É, claro que não. O escravo queridinho dela te ajuda a fugir, ajuda a população inteira da cidade a fugir, essa arma falha dos Filhos do Abismo destrói aquela porra de faca. E puta que pariu, que ódio da sua irmã, sabia? Apesar de toda essa merda, ela provavelmente foi o que mais me irritou nessa história toda.”

Não consigo evitar de abrir um sorriso.

“Óbvio que sim... Você pode até ser imortal, mas a Lira sabe muito bem como por gente merda no lugar. Foi sempre assim a vida toda, especialmente...” Suspiro. “Sinceramente, era mais fácil você se render ou sei lá. O Hunter ou a Zero devem ter uma forma de te prender, de uma forma que não dê pra fugir.” Digo, gesticulando com o canivete para a camisa de força, agora completamente arrebentada, rasgada, furada e chamuscada.

“Sua irmã realmente foi um saco. Mira boa do caralho, aquela porra de soco inglês. Sem falar do fato de que aquela vaca literalmente me esmagou com a moto dela, e depois deu um tiro no tanque pra explodir ela em cima de mim.” Septem abriu um sorriso novamente. “É... Ela arrancou a maioria dos meus dentes como tinha dito.”

“Eu já sabia disso, ela não é do tipo que quebra ameaças. O último imbecil que tentou assaltar o supermercado que ela trabalhava foi parar no hospital com a arma dele enfiada onde o sol não brilha.” Quando ela me contou a história, não consegui parar de rir por meia hora. Sinceramente, ela sempre foi assim, protetora. Ameaçar a colega dela com uma arma foi um erro fatal. “Então... Sua cura é ligada à sua alma, não é? Enquanto sua alma se manter forte o suficiente, você não morre. Ou seja... Igual eu. Óbvio, eu tenho fraquezas que dificultam essa cura, além dela ser bem mais lenta que a sua, mas ainda assim.”

Os olhos de Septem se semicerram, mais sério.

“Tsk. Aqueles filhos da puta do abismo fizeram um bom trabalho com isso. É, acertou, foda-se. Você não tem poder suficiente pra me queimar com suas chamas, não vai ser fácil igual com um bando de alma humana fraca. A minha é pior.” Ele dá de ombros, obviamente de saco cheio de tudo isso. “Vem tentar, quero ver conseguir.”

“É, tô sem combustível a esse ponto... Não consigo criar muito fogo no momento, pelo menos... Não normalmente.” Eu abro o canivete, mas ao invés de usá-lo contra ele, eu uso em mim mesmo. Imediatamente, eu corto ao longo de ambos meus braços, profundamente, fazendo sangue jorrar sem parar.

“Vai só se matar agora? Se era assim tão fácil, devia ter te entregado a faca desde o começo.” Septem ri, sacudindo a cabeça, antes de assumir uma posição de luta. “Beleza então, eu vou te ajudar com isso.”

“Me matar? Não... Eu não vou morrer tão cedo. Desesperado? Talvez, mas...” A chuva continuava a cair, porém ela mal tocava meu corpo antes de evaporar. Duas correntes se formaram, se enrolando ao redor do corpo de Septem. Elas eram fracas, usando a pouca energia absorvida das maçãs que havia comido, mas o suficiente. “Como eu disse antes... Hora de queimar o mal pela raiz.”

Eu me joguei contra ele, que não conseguiu desviar pelas minhas correntes o manterem preso, nos fazendo cair do prédio. Então, segurei seu pescoço e rosto, meu sangue pingando, então pouco depois, fervendo mais e mais, até entrar em combustão.

“QUE PORRA É-” Nós atingimos o chão com força, comigo sobre ele, causando mais dano ainda.

“Eu posso não conseguir criar fogo, mas meu sangue pega fogo da mesma forma, filho da puta.” As feridas no meu corpo eram um problema, sim, mas com meu coração ferido e os múltiplos cortes em veias fazia o sangue fluir ainda mais, e rapidamente o cobrir, ferver e entrar em combustão. “Sua cura é boa, mas quão boa?”

O sangue funcionava quase como ácido ou lava a esse ponto, consumindo seu corpo, mais profundamente, e então, as chamas havia chegado em sua alma. Realmente, minhas chamas eram únicas. Julgavam, purificavam, exorcizavam. Se esse era o poder de Hel eu não sabia, mas eu iria usá-lo como pudesse, especialmente se fosse para impedir que mais alguém se machucasse nas mãos dele.

Não foi rápido, não. Minhas chamas o seguravam o melhor que podiam, minhas mãos fazendo o mesmo. A sorte era que o dano causado era muito, o deixando fraco demais para se libertar. Depois de longos e cansativos minutos, finalmente, ele não se movia mais. Seu corpo em chamas, sendo consumido aos poucos. Aquela alma corrompida por escuridão deixando esse mundo, até que finalmente... Havia acabado.

“Dékes! Você tá bem? Esse era seu plano, sério? Você tá pior ainda agora!” Angie grita, irritada e assustada. “E você destruiu meu canivete!” Ela adiciona, apontando para a lâmina, que havia sido destruída pelo meu sangue.

“Ops!” Ri, cambaleando para me levantar. “Foi mal, mas pelo menos deu certo.”

“Idiota!” Ela me dá um tapa leve nas costas, que me fez quase cair, mas ela me segurou. “Opa, foi mal, esqueço que você é praticamente um saco vazio, nem sei como não é levado embora por qualquer ventinho.” Ela pega o canivete destruído, segurando meus braços e cortando com sua Yinmas Blue, cobrindo os cortes com camadas de gelo. “Pelo menos para o sangramento assim. Vambora atrás do Hunter logo, antes que você faça mais alguma coisa estúpida.”

Ela segura minha mão, antes de me levantar e colocar em suas costas.

“Ei! Eu posso andar, não sou uma criança!” Reclamo, mesmo que não estivesse realmente lutando contra.

“É, andar dois passos pra frente, e outros dois pra baixo, direto na sua cova. Fica quietinho aí, não é como se fosse difícil pra mim.” Ela argumenta, rindo.

“Forte desse jeito também... Quebrou o lugar todo... Maneira.” Murmuro, sonolento, ou era o abraço da morte. Baixa pressão? Foda-se, qualquer coisa é confortável a esse ponto.

Uma soneca não seria ruim agora...