Dunyas eno Unyaah - O Rapto e A Viagem
13 CAPÍTULO 3 parte 2
As aulas de matemática são a segunda e a terceira. A bruxa da dona Shirley nos deixa estudar os vinte primeiros minutos para, em seguida, aplicar a maldita avaliação.
Sinto minha cabeça pesar com todos esses números e fórmulas anotadas no caderno. Deveria pedir ajuda ao Júlio. Droga! Não vou dar o braço a torcer, foi ele que começou a dizer bobagens, ninguém mandou falar comigo daquele jeito.
E aqueles lindos olhos negros que parecem ter mudado de cor, estavam ficando azuis cristalinos, mas foi tão rápido que não pude ter certeza. Agora, mais do que nunca, acredito que ele é tão estranho quanto eu.
Dou uma espiada na direção dele e... Nossa! Está me encarando como se tentasse descobrir algum segredo que estou escondendo. Novamente, percebo seus olhos mudando de cor. Agora, eles permanecem por um tempo um pouco maior desta forma. Ele franze a testa e seus olhos retornam ao normal.
Volto meu olhar para o caderno sentido um frio na espinha. Não sou religiosa. Na verdade, creio que nunca entrei em uma igreja ou templo na minha vida. Mas... meu pai do céu! Me socorre porque acho que estou vendo coisas! Não é possível a cor dos olhos de uma pessoa mudar, assim, do nada.
— Muito bem! O tempo terminou. Agora, vamos começar a prova. – a megera declara, me tirando do meu devaneio.
Mas... espera... não faz nem cinco minutos que ela entrou na sala. Olho para a tela do celular. Nossa! Já se passaram trinta minutos desde que a bruxa entrou. O tempo passou tão rápido que nem percebi.
Guardo meu caderno, estojo, deixo apenas uma caneta, o lápis e a borracha sobre a carteira, conforme as instruções da megera. Ela também manda guardar o celular. Droga! Pensei que poderia fazer algumas contas com ele. Bruxa! Sem dúvida alguma, odeio essa megera que se diz professora.
Dona Shirley me entrega a folha da avaliação, ao observar as questões dou um longo suspiro. É, sem dúvida, vou levar bomba nessa prova. Realmente, deveria ter engolido meu orgulho e pedido ajuda ao moreno.
Júlio... meus pensamentos voltam para o momento em que olhei para ele, lembrando do que aconteceu com seus olhos. Será que imaginei coisas? Meu pai do céu! Não quero ficar louca! Já vi algumas pessoas falando sozinhas pela rua porque suas mentes adoeceram por algum motivo. Não quero que isso aconteça comigo.
Será que a minha velha cuidaria de mim se ficasse maluca? Ou será que me colocaria em um hospital psiquiátrico? Não... acho que ela não faria uma coisa dessas. Desde que me conheço por gente, sempre cuidou de mim se preocupando com a minha alimentação, com meus estudos, além, é claro, de sempre me dar muito amor e carinho. Tenho certeza de que ela não me colocaria em uma prisão de loucos.
— Sara? – ouço a voz da professora, olho para ela – Já terminou a aula. Me entregue a prova, por favor.
— Como? – pisco várias vezes tentando entender suas palavras.
— Já terminou a aula. Me entregue a avaliação.
Olho para a folha que está em branco. Nossa! Não respondi nenhuma pergunta. O que aconteceu?
— Mas eu não terminei. – digo franzindo o cenho e olho ao redor, sou a única aluna ainda na sala.
— Escute. Sei que você acabou de entrar nessa escola, por isso acredito que esteja difícil acompanhar as aulas. – ela abre um grande sorriso para mim – Não se preocupe com a sua nota, vou passar um trabalho extra para você recuperar o tempo perdido e, assim, não terá dificuldades para acompanhar a turma no próximo bimestre, mas precisa se dedicar, tudo bem?
Eu aceno com a cabeça, positivamente. Até que ela não é tão ruim. Lhe entrego o papel, saio da sala seguindo na direção do prédio do refeitório. O que aconteceu comigo? Não é possível que tenha passado tanto tempo assim, sem nem sequer ter percebido.
Entro na fila do lanche e pego um prato cheio de risoto de frango, o cheiro e a cara estão ótimos. Sigo para o pátio, me sento em um dos bancos de concreto e começo a saborear o alimento.
Quando estou na metade da refeição, sinto meu estomago doer e minha cabeça começa a girar. Não! Novamente não! Antes que pudesse correr para o banheiro, coloco toda a comida para fora. Quando já não resta mais nada dentro do meu estomago, ouço as vozes da Alessandra e da Bianca atrás de mim.
— Sara? Está tudo bem? – antes que pudesse me virar para encará-las, a escuridão me engole.
(***)
— Sara? – ouço a voz da professora Shirley e do professor Romeu me chamando.
— Acho que ela está voltando a si. – ouço uma voz feminina desconhecida.
Abro meus olhos e vejo alguns professores a minha volta, além de uma senhora muito distinta de cabelos grisalhos. Creio que é a diretora. Já tinha visto ela conversando com o Júlio certo dia.
— Você está melhor, Sara? – a senhora distinta abre um leve sorriso que não chegam aos seus olhos, pois demonstram sua total preocupação.
— Sim. – respondo com a voz baixa, quase inaudível, passo as mãos no rosto.
— Ficamos todos preocupados! – o professor Romeu abre um sorriso sutil.
— Você sempre tem esses desmaios? – a professora de artes pergunta.
— Às vezes, mas já procurei o médico. – minto para deixarem de fazer perguntas.
Me sento no sofá encarando o ambiente em que me encontro. É a sala dos professores. Ainda não tinha entrado aqui, mas tenho certeza que é, pois há uma mesa grande retangular posicionada bem no centro da sala e várias cadeiras estão em volta dela. Dois computadores em um dos cantos ao lado de uma impressora grande, bem abaixo das vidraças. Também tem um grande armário de madeira com várias pequenas portas, cobrindo a totalidade da parede do outro lado da mesa.
Acho que essa sala é bem maior do que as salas de professores das outras escolas que já frequentei. Se bem que, em algumas delas, minha passagem foi tão rápida que nem sequer conheci a sala deles.
— Quer que avise seus pais? – a senhora distinta questiona levantando uma sobrancelha.
— Não será preciso. Minha mãe está no trabalho. – minto novamente, pois acredito que minha velha não vai gostar de sair de casa para vir aqui.
— Certo. Você quer ir para casa? Posso te levar. – Dona Shirley abre um leve sorriso. Engraçado, ela parece mesmo muito preocupada comigo.
— Não. Está tudo bem. – respondo me levantando do sofá, me dirijo para a porta. – Muito obrigada! – agradeço olhando para todos, em seguida volto rapidamente para o pátio.
Parece que meu desmaio durou pouquíssimos minutos, pois ainda estão todos do lado de fora das salas. Quem será que me levou para a sala dos professores?
A Alessandra e a Bianca, assim que me vê, correm na minha direção.
— Você está bem? Ficamos muito preocupados. – as duas falam ao mesmo tempo, depois vejo os outros três se aproximarem.
— Não foi nada demais, meninas. – mostro um sorriso sutil.
— Tem certeza que está tudo bem? – Gustavo questiona levantando as sobrancelhas.
— Sim. Não se preocupem. Essas coisas têm acontecido, às vezes, mas não é nada demais. Já procurei um médico e ele disse que não tenho nada. – minto descaradamente e sinto que não os convenci, contudo se dão por vencidos – Ah... Quem me levou para a sala dos professores?
— Foi o Júlio. – Bianca responde, abrindo um sorriso no canto de seus lábios.
O quê? Aí que vergonha! Sinto minhas bochechas queimando e as meninas caem na gargalhada. Droga! Por que isso sempre acontecesse comigo?
O sinal do fim do intervalo toca, os casais se abraçam e seguem para a sala. Eu começo a segui-los, mas Júlio me interrompe, segurando meu braço:
— Me perdoa, Sara? Sou um grande imbecil! – diz encarando meus olhos, noto que ele está realmente triste.
— Olha, na verdade, eu é que preciso te pedir desculpas, afinal não era para tanto. Você e seus amigos têm sido muito gentis comigo e fui muito rude com você. Também quero agradecer por ter me levado para a sala dos professores.
— Pois é, minha esquentadinha! Mas não precisa me agradecer, sempre tento ajudar quando posso. – ele abre um sorriso sutil.
— Não sou sua esquentadinha! – exclamo franzindo o cenho.
— Tá bom! Vamos, que o pessoal já deve estar nos esperando na sala. – ele abre mais o sorriso.
Júlio solta meu braço. Até que desta vez gostaria que segurasse minha mão, mas não vou dizer nada. Enquanto puder, vou manter distância dele, principalmente porque quero saber se o que eu vi foi real ou apenas minha imaginação fértil me pregando uma peça.
Ao voltar para a sala, ele entra na minha frente, vai até o lugar onde estou sentada e pega minhas coisas:
— Ei! O que você está fazendo? – questiono franzindo o cenho.
— Você vai voltar a sentar do meu lado. – responde caminhando para o lugar que estava sentada nos primeiros dias.
— Espera! Sento onde eu quiser! – tento pegar minha mochila.
— É mesmo? Deixo você sentar onde quiser se conseguir pegar sua mochila. – se vira e abre seu sorriso lindo, em seguida, levanta a bolsa o mais alto possível.
— Ei! Isso não é justo! Você é muito mais alto do que eu! – reclamo cruzando os braços.
— Tente! – dá uma piscadinha.
Ele está me desafiando? Que insolente! Minhas bochechas começam a queimar de raiva. Descruzo os braços e tento, várias vezes, pegar minha mochila, mas sem nenhum sucesso. Ele fica rindo e se esquivando a cada tentativa minha. Está brincando comigo! Agora, tenho certeza que esses garotos são estranhos mesmo.
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