Desisto de tentar pegar a bolsa quando o professor de biologia entra na sala:

— Ok, Júlio. Você venceu. – murmuro resignada, encarando os olhos dele que, só agora, percebo mudando do azul cristalino para o negro.

O que foi isso? Agora, tenho certeza que não estou alucinando. Realmente vi seus olhos mudando de cor. Como pode? Um ser humano mudar a cor dos olhos radicalmente, ainda mais com uma diferença tão grande, isso não é possível!

Não vou questioná-lo sobre isso, por enquanto. Preciso ver acontecer mais vezes para não dar uma de louca. Me sento no meu antigo lugar, enquanto ele coloca minha mochila ao meu lado:

— Eu sempre venço. – sussurra perto do meu ouvido, em seguida me dá um beijo na bochecha.

Sinto meu rosto pegar fogo como brasa viva novamente. Puxo meu cabelo para escondê-lo, mas tenho certeza que ele percebeu porque dá uma risadinha quando se senta. Como pode ser tão convencido? Ele se acha o tal! Pode até ser bonito, mas isso não quer dizer que pode se aproveitar das situações dessa forma.

Durante as próximas aulas, trocamos bilhetinhos conversando sobre filmes e também alguns diretores de cinema que gostamos. Interessante! Descobri que ele é fã de Tim Burton tanto quanto eu. Mais uma coincidência? Quem vai saber? Mas acho que existem muitas pessoas com os gostos parecidos.

Ao sair da escola, como sempre, Rylo está parado no portão como uma estátua guardiã, afago sua cabeça:

— Seu gato é bem estranho você sabe, não é? – declara Júlio ao encarar o bichano.

— Ele é meu amigo. Isso é o que importa. – pego-o no colo.

— Sara! Esquecemos de te contar, no sábado que vem vai ter uma baladinha aqui, no fim da tarde, para comemorar o outono. – Alessandra mostra um grande sorriso.

— O grêmio estudantil se atrasou um pouco esse ano para fazer a festa, por causa de algumas divergências com a direção escolar, por isso vamos precisar de toda ajuda possível para decorar a quadra da escola. Você pode nos ajudar? – Bianca declara levantando uma sobrancelha.

— Claro! Mas acho que não venho para essa festa. – digo ainda acariciando o Rylo.

— Por quê? – os meninos questionam ao mesmo tempo.

— Não sou fã de festas. E nem adianta insistir.

Júlio me encara com os olhos comprimidos. Creio que ele vai tentar me persuadir, mas vai perder nesse jogo.

— Já que você gosta de skate, conhece as pistas de São Paulo? – o moreno questiona, ao mudar totalmente seu semblante. Agora, parece que nem se interessa em saber se vou ou não para a festa. Garoto maluco! Isso, com certeza ele é!

— Como faz poucos dias que me mudei, ainda não conheço. Por quê? – levanto uma sobrancelha.

— O que vocês acham de levarmos ela, amanhã, na pista do Parque Zilda Natel? – Júlio pergunta olhando para os amigos.

— Com certeza. – o Fernando e o Gustavo falam quase ao mesmo tempo.

— Onde é esse lugar? – questiono levantando as sobrancelhas.

— Fica perto da estação Sumaré do metro. – Alessandra responde – Acho que você vai gostar, tem quadra de basquete e a pista parece ser legal, apesar de nunca ter andado de skate.

— Preciso falar com a minha mãe. Ela não gosta muito que eu fique andando por aí sozinha. – coloco o Rylo no chão.

— Se quiser, vou te buscar na sua casa. – Alessandra franze o cenho.

— Ok. Mais tarde passo uma mensagem para você Júlio.

— Certo.

Despeço-me deles, depois sigo meu caminho ouvindo "A Demon's Fate" do grupo Within Temptation acompanhada pelo meu melhor amigo Rylo, além de um belo dia de sol.

https://www.youtube.com/watch?v=8Z1eW4n9sAE

(***)

As horas passam rapidamente, enquanto leio meu livro novo sentada no sofá. Realmente, o livro do Submundo está cada vez melhor, há um gato estranho, a garota é cheia de problemas por causa de alguma coisa que aconteceu na sua infância. Ela acredita que tudo não passa de delírio de uma mente conturbada. Que esse estranho ser que a persegue em seus pesadelos, não existe. Estou começando a me sentir como ela, já que um estranho guerreiro sempre aparece em meus sonhos.

Às seis da tarde minha velha finalmente acorda:

— Mãe, posso ir amanhã numa praça que tem pista de skate? – pergunto assim que ela sai do quarto.

— Com quem você vai e que horas volta? – questiona enquanto caminha para a cozinha.

— A Alessandra vem me buscar, mas não sei que horas vamos voltar. – digo afagando o Rylo que está deitado do meu lado desde a hora que chegamos.

— Tudo bem, mas tente não chegar muito tarde.

— Ah... tem mais uma coisa, passei mal na escola.

— Sério? – ela me encara com os olhos cheios de preocupação.

Rylo se levanta, caminha sobre meu colo sentando-se sobre minhas pernas, encara meus olhos como sempre faz. Até parece que entende o que digo, pois parece estar preocupado. Como pode um gato se preocupar com seu dono? Melhor ainda, como pode entender o que digo?

— Cheguei a desmaiar, mas foi rápido. Os professores foram bem legais comigo, incluindo a megera da dona Shirley. Acho que não é tão chata, afinal. Ela até queria me trazer em casa.

— Eles chegaram a chamar algum médico? – ela vem até mim, pega meu queixo e encara meus olhos.

— Não. E foi tão rápido que logo me senti melhor. Você tem certeza que não preciso ir no médico?

— O que exatamente aconteceu hoje na escola?

— Hoje teve prova de matemática nas segunda e terceira aulas, mas eu estava tão no mundo da lua que nem percebi o tempo passar. Quando dei por mim a aula já tinha acabado e entreguei a folha em branco, mas a professora Shirley disse que vai passar um trabalho extra para me recuperar, já que cheguei agora na escola.

— Você disse que o tempo passou e nem percebeu? – minha velha questiona levantando uma sobrancelha, em seguida senta ao meu lado.

— Sim. Depois fui comer o lanche que, inclusive, estava muito gostoso, mas me deu uma dor forte no estomago igual daquele dia, então coloquei a comida toda pra fora. Minhas amigas tentaram me ajudar, mas apaguei. Acordei na sala dos professores.

— E você comeu alguma coisa depois disso? – ela se levanta.

— Não, mas não estou com fome.

— Vou dar uma saída rápida, já volto. – pega sua bolsa que estava sobre a mesa e sai antes mesmo que eu pudesse fazer qualquer pergunta.

Sigo para o meu quarto, guardo meu livro, me deito na cama depois de pegar o celular. Abro o Whatys e envio uma mensagem para o Júlio.

Oi.

Oi

Eu vou no parque.

Legal!

:)

Vc vai gostar!

Vc pode avisar a Alessandra?

Sim

Mas vou passar seu Whatys

pra ela

Ok

Q horas vamos?

Lá pelas 2 da tarde

Blz

Até amanhã

:)

Até :)

Começo a jogar no celular. Será que é legal mesmo essa pista de skate? Algumas das cidades que já moramos não tinham pista, o que de me deixava bem chateada. Uma das coisas que amo é andar de skate e a falta de um lugar apropriado sempre me deixou muito irritada.

Alguns minutos passam, ouço um toque de mensagem do whatys, no mesmo instante em que minha velha entra no quarto. Deve ser a Alessandra!

— Trouxe algo para você beber. – minha mãe senta ao meu lado na cama.

— Espera. Tenho que mandar uma mensagem para a Alessandra.

— Depois você conversa com ela, beba logo e de uma vez.

Ela me entrega um copo do MC Donald's contendo um líquido morno e escuro.

— O que é isso?

— Nada de perguntas, apenas beba.

Coloco o canudo na boca e sugo o líquido. Percebo que o canudo fica em um tom vermelho bem escuro, ao experimentar o primeiro gole da bebida sinto ela morna e... Nossa! É muito gostosa. É encorpada, meio adocicada, com um leve sabor metálico no final.

— Que gostoso, mãe! O que é?

Ela dá um longo suspiro, mas não me responde, apenas me observa beber todo o líquido. Estranho, mas creio que já senti esse gosto antes. Onde será que foi? E o que será esse líquido tão saboroso?

Quando termino a bebida, lhe entrego o copo ao mesmo tempo que percebo meus olhos pesarem uma tonelada. No instante seguinte, sinto ela me deitando na cama e pegando meu celular da minha mão:

— Durma meu anjo. Minha princesa. Amanhã tudo ficará bem. – ouço minha velha falando, mas estou longe para responder alguma coisa. A neblina do sono me engole.

Notas finais
Olá! Espero que estejam gostando! Qual a opinião de vocês sobre a história até o momento?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.