Dungeoneer - Interativa

45 Como dizia o velho ditado...


Notas iniciais
Olá meu povo e minha pova! Demorei um pouco mais do que eu queria, mas finalmente ouviremos a versão da história do Zerus. Boa leitura!

– Ah sim, você está certo. Enquanto seus ouvidos ainda não viraram cinzas, ouçam a minha história. Assim como vocês, eu vim de um mundo distante, um lugar realmente muito deprimente...

– Já sei, aquele mundo onde os caras desprezados vão parar – interrompeu Loren.

– Não, ele veio da Terra que nem arrente – corrigiu Junpei.

– Que pouca vergonha é essa, eu é quem tinha que revelar que sou da Terra e vocês tinham que ficar de boca aberta e falar “Oh, não é possível” – reclamou Zerus.

– Já que insiste “Oh, ele veio da Terra, não é possível” – disse Hyugi, ironicamente.

– Como você descobriu que o Zerus veio da Terra? – perguntou Beatrice.

– Quando eu falei em todinho você sabia exatamente o que era. Só um lugar pode ter a bebida mais perfeita já inventada e esse lugar é a Terra – explicou Junpei.

– Até que você não é totalmente burro, então ouçam com atenção como eu cheguei até aqui e o que farei depois de matar vocês e as rainhas restantes...

DE VOLTA PRA MINHA TERRA FINAL

Tudo começou quando eu era uma jovem gazela assim como vocês. Eu tinha um namorado lindo, atencioso e pirocudo, deixando todas as recalcadas morrendo de inveja.

Eu e ele já estávamos juntos há alguns anos, quando ele me mandou uma mensagem pelo bip dizendo “Quero falar uma coisa importante pra você, hoje à noite no show você saberá o que é”. Inicialmente eu fiquei preocupado e mostrei a mensagem para a minha melhor amiga, mas ela me disse para ficar tranquilo porque provavelmente ele queria me pedir em casamento. Realmente eu fiquei despreocupado e pensei que se fosse algo ruim ele não faria tanto mistério e me contaria logo de uma vez.

Ele me pegou na minha casa e fomos logo pro estádio da nossa cidade, onde o famoso grupo A-La faria um show histórico. Eu fingi que havia esquecido a mensagem e deixei rolar, quando no auge da noite quando estava tocando “Te Comi” o meu boy veio falar com seriedade.

– Zerus, já estamos juntos há muito tempo.

– Sim, é verdade.

– E não há segredos entre nós.

– Sim – meus olhos brilhavam.

– Por isso venho pedir...

– Eu aceito! – disse alegremente.

– Que bom! – ele deu um suspiro de alívio – Pensei que você ia dar um chilique quando eu te falasse que queria terminar.

– Ah? Como assim? – eu não conseguia assimilar o que estava acontecendo.

– Lembra da Hinata?

– Aquela garota que fica fazendo aquele negócio com os dedos, o que tem ela?

– Eu e ela estamos tendo um caso, mas agora estou querendo oficializar e por isso estou terminando com você. Que bom que não ficou chateado!

Não acreditei no que estava ouvindo. Ser trocado, ainda mais por uma racha e tão sem sal quanto a Hinata? Não falei nada, apenas saí correndo dali, totalmente desnorteado. Saí do estádio e quando estava passando por uma rua deserta, senti o chão desaparecendo debaixo dos meus pés e caí em um precipício infinito. Felizmente ou não, o buraco infinito tinha fundo e dei de cara no chão.

Depois de me recuperar da queda comecei a explorar o lugar onde eu estava. Nunca tinha visto nada parecido, o Sol estava sempre se pondo e pessoas feias andavam murmurando e sem rumo. Sem ter muito o que fazer, comecei a andar murmurando e sem rumo também, até que um dia, resolvi tentar falar com alguém.

Conseguir manter uma conversa era muito difícil porque a maioria dos habitantes dali não me ouviam ou apenas diziam coisas sem sentido, até que um dia eu vi um homem estranho com chifres segurando um gato. Mas o que me chamou mais atenção foi quando ele cuspiu fogo, assou e comeu o bicho.

– Você consegue me ouvir? – me aproximei e perguntei.

– Todos conseguem te ouvir, o problema é que estão tão ocupados lamentando por terem sido largados, trocados ou desprezados que não te respondem.

Nesse momento eu comecei a imaginar onde eu estava, mas deixei ele prosseguir.

– Vejo que você é novo por aqui. Estamos na Friendzone, o lugar onde as pessoas largadas, trocadas e desprezadas vem parar. Em outros tempos eu já teria te matado, mas matança não me diverte mais então vamos conversar.

Foi então que ele me contou os detalhes do mundo onde estávamos, como todos viviam ali e que havia um rei, o rei Gelado, que exercia alguma influência sobre seus súditos, apesar de não bater bem da bola. Me ensinou também que existiam três mundos que de certa forma forneciam habitantes para a Friendzone e que ele era um demônio vindo do universo que chamam de Dungeoneer.

Não tinha muita coisa pra se fazer naquele lugar estúpido então apenas ficávamos perambulando juntos por lá jogando conversa fora e queimando coisas. Um dia (maneira de dizer), quando estava junto com o meu amigo comendo um espetinho queimado de cachorro, fui fazer algumas perguntas por simples curiosidade.

– Desculpe perguntar querido amigo, mas como você veio parar aqui?

– Como todo mundo, levando um fora!

– Eu sei disso, mas como aconteceu? Meu ex namorado me trocou por uma vadia, e você?

– Eu me apaixonei por uma rainha, a mulher mais bela e forte do meu mundo. Ela matou meus companheiros de bando mas eu não estava nem aí, na verdade eu prometi que convenceria os outros demônios a pararem de matar humanos deliberadamente. Eu até tentei fazer isso, mas quando descobri que ela tinha um noivo, resolvi organizar os demônios sob o meu comando e sequestramos o dito cujo. Ela e alguns companheiros do seu reino o resgataram e, para minha felicidade, ela rompeu o compromisso com ele.

– Depois disso, ela começou a perseguir e exterminar todos os demônios. Na verdade, esse era o meu plano, fiquei na moita até ser o último, e foi então a pedi em casamento. Ela recusou e nem teve a decência de me matar, e foi então que vim parar aqui.

Não entramos em mais detalhes nem sobre o caso dele nem sobre o meu, mas eventualmente eu contava algumas coisas sobre a vida na Terra e ele, sobre Dungeoneer. Vivi uma vida pacata e extremamente chata até que um dia ouvi uma voz que parecia alguém falando em um megafone “Alô som, um dois três testando, pessoas do quarto universo respondam!” e que vinha do nada. Como não tinha mais o que fazer, respondi.

– Alô voz misteriosa sexy, está me ouvindo?

– Uau, finalmente alguém me respondeu! Sim, eu te escuto, aqui é Kisuke Urahara e falo de um universo chamado Dungeoneer, e aí, quem fala?

– Sou Zerus Rose, a maior diva da Friendzone. Estou com o meu amigo demoninho, dá um alô lindo!

– Nem morto quero falar com alguém de Dungeoneer, me chame quando tiver terminado – ele se afastou de mim e da voz do Urahara.

Eu e o Kisukizinho conversamos por horas, até que ele teve que desligar. Todos os dias de Dungeoneer ele vinha falar comigo, o que me ajudou a ter alguma noção de tempo, e ele me contou muita coisa sobre ele e sobre o seu universo, muito mais do que o demoninho tinha me falado até então. Quando ele percebeu que eu também sou um gênio o rumo da conversa mudou e começamos a discutir a estrutura cosmoplanar do multiverso e juntos elaboramos um teoria extremamente elegante e complexa demais para você entenderem, meus pobres burrinhos, mas o titio aqui vai simplificar pra vocês.

Existem quatro universos habitáveis, a Terra, Dungeoneer, Etérnia e Friendzone. Apesar de não compartilhar o mesmo espaço, existe uma relação entre eles tanto que é possível viajar de um mundo para outro, conforme todos nós fizemos. Outra coisa que talvez vocês devam saber é que cada universo ocupa um nível energético, sendo a Friendzone o nível mais baixo, seguido por Etérnia, Dungeoneer e a Terra, que ocupa o nível de maior energia. Imaginem que estão numa festa junina e resolvem subir num grande e grosso pau de sebo, o chão é a Friednzone e a ponta é a Terra. De cima pra baixo é só escorregar no pau, mas de baixo pra cima é preciso muita disposição.

Outro fator importante que descobri. Existe um ramal central do multiverso, é como se para passar de um lugar para outro tenha que passar por ele, e esse lugar é Dungeoneer. Por conta disso, uma pessoa de tamanho médio demandaria um milhão de puta-elétron-volts para ir da Friendzone para Dungeoneer o que é difícil, porém viável, mas ir da Friendzone para a Terra precisaria de um caralhon de puta-elétron-volts, e faça me o favor, qualquer criança de cinco anos sabe que é impossível conseguir tanta energia.

Foi então que tive uma ideia brilhante, voltar para a Terra para matar meu ex namorado e a namoradinha ridícula dele, mas para isso, eu precisaria dar uma passadinha em Dungeoneer primeiro. Depois desse insight, fui falar com o Urahara.

– Kisukizinho – gritei para o alto, sabendo que ele iria responder.

– Que foi Zerus? – ele perguntou.

– Eu gostaria muito de ir para o seu mundo, será que tem como?

– Dificilmente. Eu até poderia construir um transportador interuniversal de matéria, entretanto temos dois problemas, primeiro você teria que construir parte da máquina aí onde você está e não sei se existem os materiais necessários no seu universo, depois, para te trazer para cá seriam necessários hum... me deixe calcular... um milhão de puta-elétron-volts.

– Aguarde e confie.

Eu encerrei a conversa e comecei a colocar o meu plano em prática. Eu precisava de material para construir a minha parte da máquina, mas na FZ só existiam cães, gatos, alguns tipos de plantas e pessoas que caiam dos outros três universos, e foi então que eu percebi que a solução dos meus problemas estava nessas pessoas. Observando, descobri que quando alguém vem para a Friendzone as roupas e objetos que estavam carregando vem junto.

Usando o meu corpo nu, arrecadei uma infinidade de objetos. Eu chegava na frente das pessoas, tirava a roupa e dizia que só me vestiria novamente quando elas me passavam tudo o que tinham, aí ficou fácil. Consegui celulares, armas e consolos de pessoas vindas da Terra e algumas armas e objetos mágicos de pessoas de Dungeoneer e de Etérnia. Utilizando essas coisas, seguindo as orientações do Urahara e com muita criatividade, consegui construir a minha parte da máquina que me traria a este mundo.

Agora faltava conseguir a fonte de energia suficientemente poderosa para fazer a viagem. Continuei procurando, contudo, nenhum daqueles inúteis tinha algum item mágico poderoso ou sequer uma vareta de urânio enriquecido, porém, durante a minha busca começou uma guerra pelo controle da Friendzone. Um tal de Poseidon queria se tornar o novo rei, e pelo que se murmurava por aí ele era muito forte e conseguiu reunir um exército de seguidores. Por outro lado, o Rei Gelado se recusou a entregar a coroa e reagiu violentamente contra a revolta, e assim a guerra se instaurou.

Eu queria continuar sossegado procurando pelo combustível que me levaria embora dali, mas era difícil catar coisas dos habitantes daquele mundo quando eles morrem e seus pertences são roubados ou destruídos. Um dia eu estava indo atrás de um bando de pessoas que eu desconfiava que pudessem ter algum objeto mágico energeticamente valioso, e quando os encontrei, vi que eles estavam sendo atacados por alguns soldados. Não quis nem saber se eram soldados do PoPô ou do Geladinho, peguei um trabuco que tinha comigo e atirei neles.

Eu nunca havia matado ninguém, mas quer saber? Eu gostei. Quando eu ia extorquir eventuais bens dos sobreviventes, fui surpreendido por eles vindo espontaneamente me entregar suas bugigangas.

– Oh senhor, obrigado por os salvar tome isso – um homem me entregou uma bolsa com alguns objetos – sei que não é muito, mas é o nosso agradecimento.

– Pode ficar com meu corpo nu – uma loira oxigenada veio se oferecer pra mim.

– Desculpe garota, sou alérgico a aranhas, mas aceito essas porcariazinhas dessa bolsa.

Peguei as coisas e quando estava pronto para voltar ao meu covil para testá-las no transportador de matéria, ouvi patéticas súplicas.

– Senhor, nos deixe ir com você, somos fracos e estamos em uma guerra, com essa coisa de metal estranha que cospe fogo você poderia nos proteger.

– Desculpem, não nasci pra ser babá – respondi.

– Podemos ser seus servos!

Servos? Nunca tinha pensado nisso, mas a ideia era interessante. Aceitei que eles viessem comigo e aos poucos fui sentindo o delicioso sabor do poder. Com a sucata que juntei depois de tanto procurar a almejada fonte de energia e a ajuda dos meus escravos, montei armas e máquinas de combate, algo parecido com tanques de guerra terrestres. Reuni cada vez mais pessoas e formei um pequeno exército e finalmente decidi entrar na guerra almejando me tornar o novo rei, mas é óbvio que não abandonei o plano de sair da Friendzone.

Entrei oficialmente na guerra. Meu exército era o menor dos três, mas por outro lado, nenhum daqueles energúmenos dominava qualquer tipo de tecnologia me fazendo ter vantagem sobre eles. O conflito parecia não ter fim, assim como a minha busca pela fonte fuderástica de energia que eu teimava em acreditar que existia.

Querendo alguma sugestão de como por fim à guerra, comigo sendo vitorioso obviamente, procurei pelo meu antigo amigo demônio. Ele havia se afastado desde quando eu comecei a me corresponder com o Urahara e talvez ele nem quisesse falar comigo, mas não custava nada tentar. Apesar de não saber onde ele estava, busquei por ossos queimados de gatos e o encontrei facilmente.

– Demoninho! – eu o chamei assim que entrei na caverna onde ele estava vivendo.

– O que você quer?

– Mas que recepção horrível, assim vou chorar. Não fique com ciúme, meu interesse no Kisukizinho é apenas ir para Dungeoneer.

– Não tenho ciúme de roludo! O que veio fazer aqui, achei que você estava ocupado na guerra para ser rei.

– Vejo que está bem informado. Serei bem sincero, apesar de estar como um líder de guerra, eu não tenho interesse nenhum em continuar na Friendzone, porém sendo rei terei acesso a qualquer coisa nesse mundo, inclusive algum item mágico que possa me fornecer um milhão de puta-elétron-volts de energia e viabilizar minha ida para Dungeoneer.

– Não entendi nada do que você disse.

– Vou explicar. Essa guerra está se estendendo demais e do jeito que as coisas vão, pode ser que o meu contato em Dungeoneer morra ou desista de mim antes do fim do conflito. Quero sua ajuda para vencer logo a guerra, e eu posso te levar comigo de volta para Dungeoneer, não quer voltar para o seu mundo de origem?

– Não, e não vou lutar na guerra. Mas se quer um conselho, proponha um acordo de paz. O meu mundo de onde eu vim é regido por três rainhas e que eu saiba as três vivem numa boa, porque não ter três reis na Friendzone? Já que o seu objetivo é meter o pé daqui não vai se importar em dividir o trono, o importante é conseguir essa tal coisa para fazer a viagem não é mesmo?

– Obrigado meu lindo!

Saí apressado dali. Tinha que admitir que a ideia que ele me deu era boa, se os outros reis aceitarem o acordo eu teria carta branca e recursos para procurar a fonte de energia. Eu sei que seria duro me submeter a dois “reis” mentecaptos, mas eu poderia acabar com eles mais tarde. Pesquisei sobre quem eles eram, de onde vieram e até suas personalidades, para então dialogar com eles sem correr riscos.

Depois de muita insistência e muitos mensageiros assassinados, os outros reis aceitaram se encontrar comigo. É claro que todos nós fomos com nossos soldados e armados até os dentes, mas isso é apenas um mero detalhe.

– Meus queridos, fico muito feliz que vocês tenham aceitado o meu convite para conversar – eu disse cordialmente.

— Desembucha logo, qual é o seu plano? – Poseidon estava impaciente.

— Eu os chamei aqui porque quero acabar com essa guerra sem sentido.

— Sem sentido? Esse cara apareceu do nada e quer me destronar – reclamou o rei Gelado, apontando para o Popô.

— Não sei por que, mas acho que você esconde o segredo para escapar da Friendzone – Poseidon se dirigiu ao Gelado.

— Calma, queridos Poseidon e Rei Gelado. O seu objetivo é apenas escapar da Friendzone Popô?

— Basicamente – Poseidon respondeu.

– Eu já me acostumei com esse lugar, pena que aqui não tem belas princesas, mulheres bonitas não vem parar na Friendzone... – falou Gelado.

– E se eu disser que eu sei como escapar desse lugar deplorável?

Os dois ficaram mudos, então eu continuei a falar.

— Só peço a confiança de vocês.

— Isso é desculpa para que aceitemos que você se torne o novo rei – disse Poseidon, raivoso.

— Nada disso. Minha proposta é que você, antigo rei do mar de Dungeoneer, seja coroado o rei da Friendzone – eu propus.

— Como? – reclamou o Rei Gelado.

— Desculpe Geladinho, você não vai aguentar muito tempo contra o PôPô! Damos a vitória ao Poseidon e nós dois nos tornamos o presidente da câmara e do senado, o que acha?

— Não sei... – gelado ainda estava desconfiado.

— Sei que você gosta de princesas. Existe um universo chamado Etérnia que possui uma linda princesa loira chamada She-Ra. Assim que possível, você se transporta para lá e vai atrás dela, tenho certeza que ele não resistirá ao seu chame! – me aproveitei das informações que os meus servos que vieram de Etérnia me passaram.

— Estou dentro – Gelado concordou.

— E é claro que você não se importará em ser o soberano da Friendzone, pelo menos até conseguir voltar para Dungeoneer, não é verdade?

— Aceito seu acordo – concordou Poseidon.

Assim, o tratado de paz foi selado e a paz voltou à Friendzone, sob a liderança do Poseidon e logo abaixo, o Gelado e eu. Era duro estar abaixo daqueles dois, se bem que ficar literalmente embaixo do Poseidon não seria má ideia, mas eu precisava dar um passo atrás para dar dois à frente mais tarde.

Com o mundo em paz, pude fazer o que realmente interessava, manter seguidores fiéis e buscar a fonte megafuderosa de energia. Busquei objetos, busquei animais e busquei plantas, e foi nessa época que descobri o potencial das plantas únicas da Friendzone, mas não é sobre isso que vou falar agora. Eu havia buscado essa energia em tudo, menos... nas pessoas. Isso mesmo, e se a energia que eu necessitasse não estive em algo, mas em alguém?

Foi então que comecei a procurar pessoas que tivessem algo especial. Procurei muito e fiz os testes necessários, mas aqueles inúteis eram tão fracos que morriam rapidinho. Eu até fiz experimentos coletivos para ver se a pequena energia de várias pessoas se tornaria uma grande energia, mas aquilo acabou virando um genocídio e por mais divertido que isso fosse, o rei Poseidon começou a reclamar que eu estava matando súditos demais e tive que ser mais discreto.

Tudo havia falhado, então lembrei de alguém que poderia me fornecer o que eu precisava para a viagem. Mais uma vez procurei pelo meu antigo companheiro demônio, e não foi difícil encontrá-lo, ele ainda vivia na mesma caverna.

– O que você quer dessa vez? – ele me perguntou assim que me viu.

– Por que está tão rabugento, não está feliz em me ver?

– Claro que não estou. Mas a que devo a honra da sua ilustre visita?

– Saudade. Como você já deve saber, eu sou o terceiro em comando na Friendzone e vivo em um palácio, quer morar lá?

– Nunca fui chegado a luxo, prefiro cavernas sujas e úmidas.

– Tem certeza? Eu estou construindo secretamente uma máquina que viabilizará uma viagem de volta para Dungeoneer, eu poderia te levar comigo, não quer se vingar daquela rainha que o desprezou e o fez parar aqui?

– Já vem você com essa ideia de novo. Não quero vingança e não há mais nada que me interessa em Dungeoneer, sai daqui antes que eu faça florzinha assada de você.

– Ai ai, assim você não me deixa escolha, súditos, ataquem!

Assim que eu ordenei, meus capangas que ficaram me esperando na entrada da caverna atacaram. Assim começou a batalha, com meus súditos combatendo o demônio e eu atrás observando. O demônio já havia matado a maioria deles quando aproveitei sua distração para jogar uma rede mágica em cima dele, o prendendo.

– Não... consigo... sair – ele disse.

– Essa é uma rede mágica original de Dungeoneer, é inútil contra humanos mas consegue neutralizar demônios, cortesia de um ex caçador de monstros. Servos, o arrastem até o meu laboratório.

O levei até o meu laboratório secreto, onde estava a máquina que eu construí. Depois de fazer testes complexos demais para pessoas de intelecto inferior como o de vocês entenderem, descobri que eu poderia derreter o seu corpo e usá-lo como uma espécie de pilha líquida. Me despedi dele com uma lágrima escorrendo do meu olho e então usei o sumo de uma flor ácida para obter o líquido que precisava.

Eu poderia ter feito a viagem naquele mesmo momento, mas precisava tomar algumas precauções. Se eu simplesmente viajasse escondido para Dungeoneer e por algum motivo caísse de volta na Friendzone, poderia ter problemas com o rei Poseidon, então fui falar com ele no seu castelo que ficava em um lago, já que não existem mares naquele mundo.

– O que deseja, Zerus?

– Meu lindo Popô, lembra que eu prometi encontrar uma maneira de escapar da Friendzone?

– Lembro, e particularmente acho que aquilo foi só uma mentira sua para ganhar a simpatia minha e do presidente Gelado, mas não me importo mais, sou rei novamente!

– Me chamou de mentiroso, estou com o coração partido! Mas como não guardo rancor, vim te informar que finalmente construí uma máquina capaz de levar alguém da Friendzone até Dungeoneer.

– Que maravilha, vou arrumar minhas malas.

– Calminha! Infelizmente a máquina é fraca e se a pessoa for muito poderosa, não poderá ser transportada.

– O que isso significa?

– Como você é a pessoa mais poderosa da Friendzone, não conseguirá fazer a viagem.

– Então veio aqui apenas para desperdiçar o meu tempo?

– Vim pedir a pedir sua permissão para que eu faça a viagem.

– Está querendo me enganar? – ele se irritou – se você pode fazer a viagem, eu também posso.

– Está bem, eu te coloco na máquina, o presidente Gelado vai ficar muito feliz quando o seu corpo for despedaçado e ele voltar a ser o rei.

– Hum... realmente não tentarei fazer a viagem, mas o que eu ganho permitindo que você a faça?

– Porque um dia as dimensões se aproximarão e será possível para qualquer um transitar entre os mundos, mesmo alguém tão poderoso como você.

– Ainda não acredito...

– E o que você tem a perder? Se eu partir e nunca mais der notícias você continua sendo o rei da Friendzone, por outro lado se eu estiver em Dungeoneer e conseguir levá-lo para lá,você ganha uma passagem só de ida para o seu universo, o que acha?

– Está bem, permitirei desde que você me mostre algum meio de continuar me comunicando com você.

– Venha comigo que eu te mostrarei como.

Ele deixou o seu lago, e veio comigo acompanhado por um catatau de guardas, então eu os levei até o meu laboratório.

– Que espécie de lugar é esse? – Poseidon perguntou.

– Isso não importa, quero apenas te provar que sou leal e que manterei contato mesmo após ter deixado esse mundo. Ô Uraharaaaa!

Chamei pelo meu amiguinho de outra dimensão algumas vezes, até que enfim ele atendeu.

– Zerus, há quanto tempo...

– Eu estou com um grande amigo meu mas ele está receoso de nunca mais ouvir minha linda voz, explique para ele que o comunicador interdimensional continuará funcionando e que poderei falar com ele sempre.

– É claro que sim. O comunicador está no meu laboratório e está sintonizado com o universo de vocês, é só prestar atenção que qualquer um poderá ouvir e falar com o Zerus de qualquer lugar do seu mundo.

Vocês devem estar se perguntando “Como só eu ouvi o Urahara se ele disse que pelo comunicador é possível entrar em contato com qualquer um em qualquer lugar da Friendzone?”. Bem, existe uma coisa chamada “Psicologia do Problema de Outra Pessoa”, se algo não te interessa, simplesmente ignoramos. Ninguém além de mim ouvia os chamados do Urahara porque não estavam interessados, apenas isso.

– Ouviu rei Popô, não precisa se preocupar porque eu não vou sumir!

– Ouvi o suficiente. Pode fazer a viagem.

O rei se retirou e eu comecei com os preparativos. Reuni algumas plantas e cogumelos bem especiais, abasteci a máquina com o demônio líquido e guardei o restante em frascos, o que mais tarde se tornou as poderosas poções demonizadoras. Instruí o meu seguidor mais forte para que destruísse a máquina assim que eu ordenasse.

Apertei o botão e o buraco negro que não é negro e sim colorido se abriu. Entrei nele e após fazer uma viagem totalmente desagradável, saí no laboratório do Urahara. Depois eu dei a ordem para que o Brutus destruísse a máquina do lado de lá, afinal, eu não poderia correr o risco de outra pessoa fazer aquela viagem, pelo menos não enquanto eu não fosse o soberano de Dungeoneer. Ops, essa parte eu só vou contar no próximo capítulo.

Finalmente eu havia chegado em Dungeoneer, mas tinha que ser paciente, pois como diz o velho ditado, “Quem quer ir da Friendzone para a Terra passando por Dungeoneer tem que esperar bastante e ser muito ardiloso para conseguir.”

Notas finais
Eu esperava terminar o de volta pra minha terra do Zerus ainda nesse capítulo, mas percebi que a história de um vilão dessa magnitude precisava de um pouco mais de espaço para ser contada. Até mais!