Dueto - Olhares

2 Lembrança de bons momentos


Notas iniciais
No cap de hoje, recomendo a música Bad Liar - Imagine Dragons. Gosto do contraste que o título faz com o Snape, já que ele sabia "mentir" muito bem, ou pelo menos sabia. Obrigada por acompanhar a história. Boa leitura!

— Snape, você os acompanhará na viagem?

— O que disse? — Severo respondeu, voltando sua atenção para o meio duende.

— O Torneio Tribruxo deste ano. — Disse Flitwick.

— Deveria ser totalmente claro que não Fílio, será em Durmstrang este ano e haverão muito mais alunos desta vez com a alteração das regras, desejo sorte para quem for lá congelar, com um bando de pirralhos a tiracolo. — Respondeu áspero.

— Pois eu acho que será uma ótima oportunidade, sabe? Para avaliar como andam as outras escolas e sua qualidade de ensino.

— Sem dúvidas, não melhor que aqui. — Disse Severo já se servindo do delicioso banquete.

— Professor poderia me passar a salada, se não for incomodo? — Olivia perguntou ao Flitwick.

—Oh, querida, eu poderia se conseguisse alcançá-las. — Respondeu ele com uma pequena risada. — Severo pode passar a salada para Olivia, sim?

Severo acenou em confirmação, pegou a salada que estava à sua esquerda de modo trouxa, sem perceber, e estendeu o braço em direção a moça. Ao fazer isso, Olivia franziu o cenho e se esticou pela mesa para alcançá-lo, acabou esbarrando na taça de suco de abóbora de Neville, que sentava à sua esquerda, neste momento riu constrangida pedindo desculpas ao colega.

Seu sorriso era claro como a neve, contrastava bem com a pele e seus cabelos, tão lisos quanto os de Severo, brilhavam com o reflexo das velas, era de um castanho que Severo apenas conseguia pensar em cravos e canela, quase como se apenas ao olhar para ela desse para sentir o cheiro das especiarias, e novamente aquela sensação de familiaridade o tocou. Sabia quem ela era, ou ao menos, de que família ela era, Prewett, dos 28. Uma das 28 respeitosas famílias de puro sangue. Pensava não haver mais ninguém que ainda carregasse o sobrenome, afinal os últimos homens desta casa tinham morrido na primeira guerra contra o Lorde das Trevas.

— Está tudo bem Livi, não se preocupe. — Disse Neville, limpando a capa com um simples movimento de varinha. -Ainda bem que esse aqui minha avó me obrigou a aprender rápido. — E os dois riram ainda mais da situação.

— Ah, Severo, me desculpe! — Olivia alcançou finalmente a salada, e trouxe o professor de volta a si em estantes.

Como ela sabia seu nome sem nem terem se apresentado formalmente? E desde quando ela se sentia à vontade para chamá-lo pelo primeiro nome? O homem estava realmente confuso ao voltar para seu lugar e Minerva notara imediatamente a pequena curva que se formava em sua testa.

— Algo lhe incomoda Severo? Parece mais pálido que de costume. Tem tomado seus remédios, rapaz? — A diretora havia acabado de se sentar entre Longbottom e Flitwick, ocupando a cadeira principal, no meio do pequeno semicírculo.

— Eu estou perfeitamente bem, diretora. E para sanar sua curiosidade por particularidades minhas, que não lhe cabem, eu não preciso mais dos remédios, fazem dois meses. — Severo não precisava ter sido tão rude, ele sabia, todavia era seu jeito de se proteger quando não se sentia confortável em alguma situação, geralmente de vulnerabilidade.

— Fico muito feliz por estar se recuperando tão bem, então. — A diretora riu consigo mesma.

— Agora, Longbottom, fazem menos de cinco minutos que o apresentei como novo professor e você já conseguiu se atrapalhar com algo.- Neville ria junto com Minerva, em constrangimento, cada vez mais vermelho.

— Não foi culpa dele, Minerva, não desta vez — Disse Olivia. — Eu que acabei por envergonhá-lo logo de cara. Acredito que ele tenha me passado sua predisposição a ser desastrado por osmose.

Ela sorriu para o professor ao seu lado, pedindo desculpas novamente e por um instante Severo se perguntou como reagiria se aquele sorriso fosse para ele.

— Snape, você anda tão distraído hoje.- E ele reparou que alguém lhe dirigia a palavra.

— Peço desculpas Fílio, o que estava dizendo?

— Perguntei se você fez algo novo neste verão.

— Andei estudando novas ervas e raízes encontradas na Austrália, que podem servir como catalisadores na produção de poções menos complexas.- Respondeu automaticamente, sem sequer tirar os olhos de seu prato.

— E além disso? Não vá me dizer que não saiu de casa durante essas semanas. — Retrucou Fílio.

— Não que seja da sua conta o que eu faço em meu tempo livre, não é mesmo? — Respondeu-lhe ácido.

— Ah, vamos, não precisa ser sempre tão rude, Severo. — O professor se chocou com o que veio a seguir.

— Ele não passou todo este tempo trancado em casa professor Flitwick, pois fora visitar os Potter algumas vezes. — Disse, para o espanto de todos na mesa, Olivia.

Severo, incrédulo, olhou para a bruxa em um misto de curiosidade e irritação.

— Não sei como a senhora obteve esta informação, professora, mas confesso que não esperava que fosse o tipo de pessoa que, além de interromper uma conversa da qual não era participante, cuidasse da vida alheia.



— Olivia —



Quando o bruxo estendeu a mão com as saladas ela estranhou, poderia ter feito aquilo com magia, por que não o fez? Era muito curioso como uma pequena escolha de ações, que não pareciam significar nada para olhos desatentos, diziam tudo para quem prestava atenção aos detalhes.

Entretanto, neste momento ela olhou para Severo, expressando todo o absurdo que sentia ao ouvir a frase que ele acabara de dizer. Com muito esforço conseguiu reunir palavras para respondê-lo à altura, antes que se perdesse na raiva e constrangimento que ele lhe causara, afinal realmente havia lhe faltado tato para se intrometer assim na conversa dos dois professores.

—Em primeiro lugar é senhorita. Em segundo, peço desculpas por interromper a sua conversa, professor Flitwick. E em terceiro, lamento que sua memória seja falha Snape, ao ponto de sequer lembrar de mim na casa dos Potter durante todo o verão.

O ar de repente parecia pesado, ninguém ousou falar no meio da guerra fria que travavam à frente de todos. A verdade é que estavam tão chocados que, se não fosse pelo barulho dos alunos por todo o Grande Salão, eles estariam sendo afogados pela tensão. Ela notou Snape expressando, por poucos segundos, surpresa em sua máscara carrancuda, que logo se regenerou.

Neville pigarreou, tentando amenizar a situação, e então começou um diálogo com a professora McGonagall sobre o que havia planejado para suas aulas. Todos voltaram ao seus diálogos, menos o professor de feitiços, que preferiu apreciar as batatas do seu prato à voltar ao assunto iniciado com o outro bruxo.

Severo ainda a encarava, de um jeito intimidador e profundo, como se seus olhos negros a estivessem analisando, se valia ou não a pena gastar energia com ela. Até que Olivia foi surpreendida com um "sinto muito" do homem que baixava a cabeça e voltava a se concentrar no jantar, tão brando que ela poderia jurar que apenas ela o tinha percebido.

Olivia também voltou a sua refeição, porém apenas enrolava a comida no garfo. Estava lembrando do primeiro dia em que Snape tocara a campainha dos Potter, como estava desconcertado e deslocado quando ela abriu a porta e avisou que a família tinha saído brevemente com as crianças. Lembrou-se da primeira vez que seus olhos se encontraram e que, no mesmo instante, sentiu um arrepio na espinha.

Contudo, ele não a reconheceu. Apenas lamentou ter incomodado, desejou boa tarde e foi embora com um pequeno embrulho nas mãos. E Olivia ficou lá, plantada à porta sem conseguir se mexer, vendo-o sumir ao dobrar a esquina. Mesma capa, mesmos cabelos, mesmo rosto, pouco parecia ter envelhecido, no entanto nunca tinha visto a cordialidade daquele homem, muito menos qualquer sinal de zelo que não fosse com seu estoque vasto de poções, enquanto estudava em Hogwarts. Ela viu beleza naquilo, na tentativa do gesto, algo a tocara naquele instante.

Nas próximas vezes que ele foi até lá, ela apenas observou de longe, com medo de que ele a reconhecesse agora, observou o carinho com o qual ele tratava os pequenos Tiago e Alvo, quando Gina e Harry não estavam por perto, certa vez ele até leu um pequeno conto para Alvo que adormecia no sofá.

Ao que tudo aparentava, agora ele e Harry eram bons amigos e Severo foi convidado para apadrinhar o pequeno que recebeu seu nome em homenagem, Alvo Severo Potter. Ela não esperava ver o antigo mestre de poções assim, tão sociável e (será?) feliz. Então, o evitava sempre que possível, temerosa de estragar estes momentos únicos.

— Você ainda tem medo dele? — Gina perguntou a ela após uma tarde de histórias que o bruxo passara junto aos pequenos.

—Não, eu apenas não quero atrapalhar essa dinâmica que ele tem com vocês, quando está à vontade. Sei que ele não ficaria nem cinco minutos se eu estivesse junto na sala. Ele se lembraria de mim e iria embora no segundo seguinte. — Olivia não tirou seus olhos do exemplar de Os Contos de Beedle, o Bardo, que Snape havia deixado na mesa de centro do cômodo.

— Acho isso uma besteira e você sabe. Se não te reconheceu naquele dia em que o atendeu na porta — riu Gina — acredito que você tenha uma chance de recomeçar.

— Isso é ridículo — as duas riam, porém Olivia se perguntava quanto tempo ele levaria para reconhecê-la em Hogwarts, será mesmo constrangedor assim?

Por algum motivo ela achou que ao se intrometer na conversa entre os professores, ele a trataria diferente. Assim que as palavras lhe escaparam, ela se arrependeu amargamente ao ver o rosto de Snape. Ele não lembrava dela quando estudante, não se lembrou dela nos Potter, mal haviam se visto na verdade, e mesmo assim se perguntou por um instante se ele não estava com algum efeito colateral neurológico da guerra e riu sozinha ao pensar nisso.



— Severo -



"Lamento que sua memória seja falha ao ponto de sequer lembrar de mim", Severo fizera um esforço tremendo para lembrar-se dela nos Potter, repassou cada dia em que estivera lá, e então algo lhe veio à mente: o cheiro! Este cheiro que lembrava quando olhava para ela.

No dia em que ele juntou coragem para visitar os Potter, Severo comprou um livro de contos para dar de presente aos meninos. Desde que havia batizado Alvo Severo, nunca tinha ido a casa do próprio afilhado, "ele gosta de você e sente sua falta, Snape", disse Harry em uma carta no natal anterior. A verdade é que ele ainda se sentia deslocado em meio a tudo isso, toda essa atenção, não estava acostumado a ser bem tratado, nem em ser querido por qualquer pessoa.

Sim, naquele dia ela o atendera na porta, com o mesmo sorriso brilhante, com os mesmos cabelos cuidadosamente lisos e avisou que os Potter haviam saído com as crianças. Severo lembrou-se de ter pensado que era um sinal do destino de que ele nunca poderia se sentir "em família". Mas, descobriu mais tarde, que não era verdade.

Quando visitava a família, era como entrar em uma coberta aconchegante que o abraçava. Ainda se sentia um estranho com Harry e Gina, mas descobriu que se sentia bem com os meninos, e ele sabia que Harry também havia notado isso, às vezes o deixavam sozinho com os garotos, só para que Alvo fosse até ele, com aqueles olhinhos cintilantes para pedir que lesse para eles uma história, afinal eles adoraram o livro de contos. Ler para os garotos e ter suas atenções, explodindo de expectativa para saber o que acontecia no final de cada história, era como estar no lugar certo, no momento certo.

Severo se pegava lembrando desses momentos e, com frequência, se culpava. Lílian deveria lá, deveria ter conhecido eles, ela quem deveria estar lendo histórias. Mas então ele pensou que, se ela estivesse ali com eles, Tiago também estaria, e ele não.

Se sentiu egoísta por isso, por se sentir bem com os meninos, no entanto afastava esses pensamentos sempre que sentava junto deles e sorria; riam muito juntos e como Severo se divertia! Ver o mundo através deles, com tudo novo, tudo era alegre e puro, não havia maldade nem perigo.

Um dia esteve tão à vontade que dormira sentado com Alvo ao seu lado, depois de ter gasto a noite anterior em uma pesquisa em casa, e acordou apenas com as mãos de Tiago Sirius em sua barriga, dizendo que estava quase caindo no irmão mais novo. Lembrando destes momentos ele sorria.

Lembrava-se sim da mulher, apenas não sabia que ela havia permanecido durante todo o verão.

Levantou um pouco o olhar desconfiado de que alguém tinha visto ele sorrir como bobo e quando viu Olivia, que também sorria, pensou se ela poderia ter visto sua cara de idiota, mas não sentiu vergonha "OK, isso é estranho, Severo" disse para sí mesmo, quando sentiu vontade de sorrir mais ainda com ela. Então ela também ergueu o olhar e pareceu muito surpresa ao encontrá-lo a observando de novo.

“É senhorita” ela disse, e isso mexeu com Severo, ele só ainda não conseguia descobrir o porquê.

E então, seu contato foi quebrado (graças a Merlin) por Minerva, que se levantou para anunciar aos alunos o mais importante evento do ano letivo.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui! O próximo cap já esta quase pornto.