Dueto - Olhares

1 I know you


Notas iniciais
Para este capítulo eu recomendo que escute a música Who - Lauv, para mim ela casa completamente com esta parte da história. Boa leitura!

Dez anos haviam se passado desde que a batalha final acontecera em Hogwarts, muito já não era como antes. No entanto, certas coisas permaneceram iguais, como Severo, que pouco mudara e tampouco queria.

— Severo —

Quando recebeu alta no St. Mungus, Potter foi visitá-lo na Rua da Fiação e ali tiveram uma longa conversa sobre perdão e passado. Harry não guardava mágoas nem culpava Severo por nada que havia acontecido, pelo contrário, o agradeceu por todos os anos de cuidado que teve com ele, mesmo depois de tudo que passou.

Severo, engolindo todo o orgulho, também o agradeceu por ter sido salvo pelo garoto, tinha certeza naquele dia que morreria, mesmo que não se sentisse pronto e não admitia nem para si mesmo que tinha medo. Quando acordou no St. Mungus demorou a entender o que havia acontecido, se sentiu grato e desesperado ao mesmo tempo, por simplesmente estar vivo.

No período em que ficou em casa, se recuperando, recebeu muitas cartas e presentes de pessoas gratas pelo que tinha feito. O Profeta Diario escreveu uma matéria sobre os "herois da grande guerra" e, para sua mais pura surpresa, seu nome constava lá, Potter o havia coroado, "maldito seja, garoto", não se sentia merecedor de jeito algum, no inicio até usou seu jeito "Severo" de ser para afastar as pessoas que vinham falar com ele.

Entretanto, quando Minerva o visitou pela primeira vez, pedindo perdão por toda desconfiança e aspereza com a qual ela o tratava, eles tiveram uma conversa sobre isso.

Severo se sentia recompensado, e ao mesmo tempo culpado e indigno. Pela primeira vez desde a guerra, permitiu que lágrimas correrem por seu rosto, e com elas lavou suas frustrações, medos e raiva.

— O que farei agora Minerva? Não me preparei para sair desta guerra, não me preparei para sobreviver. — Ele ainda estava acamado e as emoções que segurava quase o afogavam naquele momento, então Minerva o ajudou a se sentar na beira da cama e sentou-se na poltrona logo a frente dele, onde Potter se sentou nas semanas anteriores quando o visitava.

— Nem tudo pode ser previsto Severo, nem tudo pode ser controlado. — Ela disse calmamente. E foi com essa frase, depois de muito refletir, que ele voltara a Hogwarts.

Levou um ano até que Minerva o convenceu de voltar à escola, oferecera até o cargo de diretor de volta, no entanto naquele momento, quase completamente curado das feridas físicas da guerra, sem saber para onde ir e o que fazer, o bruxo aceitou apenas o cargo de poções novamente, queria de volta parte do conforto da rotina vivida durante anos.

Estava, mais uma vez, sentado na mesa do corpo docente, ouvindo o chapéu seletor anunciar as casas dos novos alunos. Vez ou outra olhava para o teto encantado do castelo e se perguntava o que ainda o mantinha ali.

Já não era mais Lílian que o prendia, mesmo com toda a culpa do passado, a pequena sensação de dever cumprido ao proteger Potter o libertara das amarras que sentia outrora. Vê-lo constituir família e crescer na carreira de auror o fazia pensar "está vendo Lili, ele conseguiu, você conseguiu" e o tranquilizava, era quase como um afago em seu coração. Mas, claro, a amargura de seus dias com Voldemort, as coisas que fez, ainda perambulavam por seus pesadelos e o forçaram a tomar uma sono sem sonhos.

Olhava agora para Minerva discursando e sentia falta de Alvo, era seu confidente e amigo mais próximo, e ainda lhe doía lembrar da noite na torre de astronomia, "foi necessário" ele repetia para si "tinha que ser feito", mas mesmo assim não era exatamente fácil superar tudo. Seus erros do passado o assombravam toda vez que se permitia sentir alguma paz ou felicidade, não era fácil recomeçar, pensar diferente.

Quando notou que estava beirando ao ridículo olhando para o nada, voltou seus olhos para os companheiros que ali estavam bem a tempo de ouvir a Diretora anunciando os recém chegados.

— Quero também lhes apresentar nossos novos professores! — disse sorrindo e olhando para a mesa com a mão erguida, pediu que os citados se levantassem.

— Professor Neville Longbottom, que lecionará herbologia. — o nome foi seguido de muitos aplausos, já que o jovem também fora citado no "heróis da grande guerra".

— E professora Olivia Prewett, que será responsável pela disciplina de História da Magia, no lugar do professor Binns que resolveu encerrar suas atividades na escola depois de presenciar tantos momentos ruins; e Estudo dos Trouxas. — seguida de mais aplausos.

Severo correu os olhos para a nova professora sentada a quatro lugares à sua direita, ele não a reconhecia mas seu nome era familiar. Revirou então a sua mente à procura de sanar a curiosidade mas não achava nada. Ela era mais velha que Longbottom, porém um tanto mais jovem que Severo. O bruxo admirou sua atitude quando Minerva, na reunião do dia anterior, contara ao resto do corpo docente sobre os mais novos colegas.

Assumir duas matérias no mesmo período não era nada fácil; ele havia cogitado a ideia no ano de 1996, quando se ofereceu a Dumbledore para lecionar Defesa Contra as Artes das Trevas e Estudo de Poções ao mesmo tempo, depois de consecutivos desastres nos períodos anteriores. No entanto, o diretor se aproveitou mais uma vez da oportunidade que tinha nas mãos para se reaproximar de Slughorn através de Harry. De fato a garota teria um ano difícil por conta da adaptação inicial que sofreria.

Distraído na própria mente, ele não notou que continuava olhando para a jovem mulher, até que ela se sentou e olhou na sua direção. Os olhares se encontraram por uma mísera fração de segundo, que para ele pareceram uma eternidade até que ela desviou o olhar e corou nas maçãs do rosto.

Severo imediatamente olhou para o nada a sua frente e se censurou por ter parecido um imbecíl. Tinha se descuidado e baixado seu escudo emocional que, depois da guerra, às vezes falhava.

Um dia em sala de aula, até tomou um susto quando viu um segundanista se confundir nos ingredientes de uma poção simples e se pegou quase sorrindo genuinamente de dó do garoto, mas logo o converteu em um sarcasmo e alfinetou o aluno dizendo que explodiria o caldeirão em poucos minutos.

A questão que mais o surpreendeu foi depois de refletir tudo isto, ao olhar para o lado para responder Flitwick que o chamava, reparou no par de olhos castanhos profundos que o encarava como se quisesse usar da legilimência para saber o que ele pensava; era ela desta vez e só isto bastou para que se sentisse curioso como uma criança que encara o desconhecido.

O homem se sentiu realmente incomodado. Ela não teve medo de que ele percebesse, ela queria que percebesse e permaneceu assim por um tempo consideravelmente longo, isso mexeu em algo dentro do estômago dele, Severo pensou que poderia ter um ataque ali mesmo, se sentiu exposto como se ela pudesse ver através dele, com um "simples" olhar.

O que era isso? Por que se sentia assim? O que havia naquela mulher?

Notas finais
É isso, caro leitor. Até o próximo capítulo.