Duet

1 Caso nº1 - A morte de Sarah Wolf.


Prólogo

Completaram-se duas horas de viagem quando fiz a curva em um viaduto próximo. Pude perceber isso pelo rádio; já estava na programação das quatro e meia.

Mesmo que odiasse demonstrar, estava meio assustada. Quer dizer, eu nasci, cresci e vivi em uma cidade pequena, então eu resolvo um pequeno crime e pah! Sou transferida para a maravilhosa cidade de White Water. Mas isso também não queria dizer que não estava entusiasmada, afinal, era meu primeiro caso oficial como uma investigadora federal.

Foi como se todo meu esforço na Academia Blakenship of Investigation tivesse finalmente valido a pena. Depois de noites de estudos em claro, finalmente estava livre pra fazer o que quisesse! Tal liberdade me fez, acidentalmente, bater em alguma coisa de metal no caminho.

"Você está entrando na cidade de White Water". Eu tive que sorrir. Deus do céu, nunca fiquei com tanta vontade de beijar uma placa em toda a minha vida.

Mal podia esperar pra chegar no hotel. Finalmente, descanso e uma noite de sono pro meu mais novo trabalhinho. Não que eu fosse conseguir dormir, ainda tinha tanta coisa pra fazer, mas eu bem que merecia. Nada iria estragar o meu dia.

Caso n°1 — A Morte de Sarah Wolf

Uma das coisas que aprendi na Academia foi nunca desviar do assunto principal. E eu segui esse ensinamento até o final do curso, e sempre pretendi segui-lo. .

Infelizmente, isso não se aplicou no caso do meu parceiro.

Foi a cena mais frustrante que eu já vi em toda minha vida: Um homem de mais ou menos vinte e cinco anos, encostado na bancada, com os cantos da boca sujos de açúcar e as mãos ocupadas com rosquinhas e uma xícara de café. O pior de tudo era que ele não decidia se ria, falava ou terminava de mastigar.

Isso não quer dizer que ele não era bonito. Tá, ele ERA lindo, mas era o tipo de pessoa que não sabia disso, e não seria eu que iria dizer.

Resolvi me enturmar. Tentei ignorar o fato dele ser um completo estranho e pus um sorriso no rosto; não tão verdadeiro assim.

—... Aí eu disse "Cara, você é muito louco!", e adivinha só? Eu fui lá. É isso aí, ninguém segura o Krycek numa sexta-feira à noite! — Com uma gargalhada sapeca, ele deu um leve empurrão no outro policial que estava conversando. Não deu pra perceber a idade, ele era meio adulto com espírito de jovem. Tinha um nome no crachá: Randjit.

Foi então que o Aparentemente-Krycek notou minha presença ali. Foi bem rápido, mas eu consegui ver ele corar, limpar os dedos na blusa e empurrar a caixa de rosquinhas pro Randjit. Aí ele me olhou da cabeça aos pés, até parar em um ponto fixo: o sobrenome Summers na minha identificação.

— Ah! Então, você é a tal Summers? Parece que seremos parceiros. — Ele deu um sorriso de canto. Cara, ele realmente era um gato. Quando estendeu a mão para me cumprimentar, ainda consegui ver um rastro do açúcar das rosquinhas, o que me fez rir. Ele pareceu gostar. — Ryan Krycek, ao seu dispôr.

— Robin Summers. — Apertei a mão dele. Inclinei a cabeça profissionalmente, o que fez eu me sentir bem mais superior. — Me disseram que já temos um caso, não é?

— Aham! Uma mulher foi encontrada morta na entrada na cidade, na Área Industrial, e devemos ir lá verificar. — Ele falava como se não tivesse havido um assassinato: com um sorriso de orelha a orelha. — Eu, hã, fiquei aqui sem fazer nada, e como você não havia chegado, eu resolvi, bom, eu pensei...

Vi seu olhar novamente fixo na caixa de rosquinhas, que Randjit guardava como se fosse um tesouro. — Não se explique. Só... Vamos.

P. O. V — Ryan Krycek.

O FBI nos disponibilizou um carro para ir até a cena do crime. Já dava pra imaginar que no caminho todo, não demos um pio sequer. Nunca vi mulher mais séria que essa, Deus do céu.

Na delegacia, nem se fala. Eu não consegui nem pegar uma última rosquinha, ela já saiu me puxando como se fôssemos perder um trem ou algo parecido! Pensei até que ela não fosse me deixar dirigir. Nem o Comandante Skinner era tão severo assim.

— Então... — Decidi quebrar o gelo. Mesmo que aquele gelo fosse do tamanho de um Iceberg. — Você, ahm... Já visitou a cidade?

— Não. — Robin olhou pela janela, com um ar de indiferença que só ela tinha. — Cheguei bem mais tarde do que eu planejava, então só tive tempo de descansar. Entre aspas.

— Ah. Entendi. — Desviei o olhar. — Se quiser, eu te mostro. Quando isso acabar. Ou um dia. Quando você quiser, sei lá.

— Claro. — Ela deu de ombros, mas deu um sorrisinho. — Um dia.

Krycek 1x0 Summers.

Quem estava conseguindo contornar o Iceberg! Isso mesmo, o Krycek!

— Krycek. Olha pra estrada. Não quero ter que resolver um assassinato onde o culpado é o meu parceiro. — Ela revirou os olhos. E bum! Batida no Iceberg. O barco tá afundando, socorro!

P.O.V — Robin Summers.

Foi difícil passar com o carro. O lugar estava uma bagunça, cheio de curiosos.

O assassino fora descuidado: a arma do crime estava bem aos nossos pés. Uma faca.

O corpo da vítima foi encontrado ao lado da placa da cidade. A mesma placa que marcou o início da minha carreira aqui. Estava não nojenta que sentia vontade de vomitar em cima, e não beijá-la como antes. A vítima era loira, dos olhos claros, e com um corte na garganta. Mas a só a autópsia poderia dizer a causa da morte.

— O nome dela era Sarah Wolf. — Krycek veio até mim depois das investigações, com uma espécie de tablet na mão. Reconheci a vítima na tela. — Precisamos enviar o corpo dela para o Laboratório.

— Onde arranjou esse tablet? — Ergui uma sobrancelha.

— Com os policiais. — Ele apontou para alguns oficiais locais. — Eles têm um monte de coisas!

— Ah. Ok. — Apenas balancei a cabeça. Me direcionei até o corpo da menina; ela parecia ter sofrido. Cheguei a sentir pena dela.

Não. Foco, Summers! Não pode deixar isso te afetar.

— Coitada. Ela parece jovem. — Não era nenhuma novidade de que o pensamento de Krycek era bem diferente do meu. — Mas nós vamos fazer justiça. Nós sempre fazemos.

Olhando pelo lado positivo, Krycek parecia obstinado, e aquilo seria bom para um parceiro.

Observei o corpo dos pés a cabeça, foi quando percebi algo estranho embaixo da perna de Sarah. Era uma espécie de tecido. Sujo de terra. E... Sangue? Parecia sangue.

— Krycek! — Dei alguns tapas no braço dele, o que fez grunhir de dor. — Olha! Embaixo da perna da Sarah!

Krycek se ajoelhou, e com cuidado, retirou a perna de Sarah de cima do tecido. E então, como quem não quer nada, ele riu baixo.

— Esse tecido rasgado está coberto de sangue. Podemos reconstituí-lo para ver se encontramos algo. Summers, você é demais! — E, com a alegria de uma criança que ganha um doce, ele saiu correndo até os policiais com o tecido na mão.

Alguns policiais entraram nas viaturas, e Krycek me chamou para ver os especialistas reconstituírem o tecido. Parecia não haver mais nada ali, então eu o segui rumo à delegacia.

[…]

Tic, tac, tic, tac, tic, tac...

Quase taquei aquele relógio na parede e queimei com fogo.

Pela décima quinta vez, eu girei na cadeira giratória, acompanhando os movimentos do ventilador de teto. Eu não sabia que uma análise demorava tanto tempo assim.

— SUMMERS! — A criatura conhecida como Krycek simplesmente entrou na minha sala. Levei um susto tão grande que quase caí da cadeira.

— Deus do céu, Krycek! Esqueceu de quem é essa sala?! — Bati com os punhos na mesa. Com o impacto, minha cadeira voou na parede, e Krycek se recolheu como um gatinho com frio.

— Desculpa, desculpa! Eu prometo que bato na próxima vez. — Resmungou, choroso. Só então pude perceber que ele trazia algo: uma pasta. Ele pareceu ter seguido o meu olhar, pois o sorriso de moleque logo voltou. — São os resultados da análise. É uma camisa de futebol, Summers! O sangue que foi encontrado não era só da vítima, mas também do assassino. A-. O DNA bateu com um tal de Matt Barry.

— Um jogador de futebol, eu presumo. — Cruzei os braços, me recostando na mesa. Krycek não brincou em serviço.

— Exatamente. O assassino deve ter rasgado na cena do crime, provavelmente querendo se despistar. E mais: Matt Barry era NAMORADO da vítima, e eles tiveram uma briga feia, segundo os vizinhos.

Peguei a pasta da mão dele, e pela primeira vez, dei um maldito sorriso verdadeiro. — Krycek, você é demais.

Passei direto por ele, deixando sozinho na sala. Mas eu pude jurar ter visto um sorriso em seu rosto.

[…]

"...Matt Barry foi preso e ficará a disposição da justiça, fechando assim o caso de Sarah Wolf."

Apesar de ter entrado para a investigação criminal, só de pensar que pessoas são capazes de matar umas as outras ainda me deixa preocupada. No final do relatório entregue à polícia, não pude deixar de lembrar do agente Krycek. Apesar da infantilidade na maior parte do dia, ele se provou um bom investigador. Será interessante trabalhar com ele.

Ah. Esqueci de mencionar. Ele me comprou um uniforme policial. Sobre medida. Parece que agora sou oficialmente uma investigadora criminal.

Notas finais
Me desculpem pelo primeiro caso ter saído meio capenga, mas foi feito com o coração. *power ranger fazendo coração*