Duas Pestinhas em Minha Vida
8 Páginas do Passado
Notas iniciais
Fiquei uns dois dias sem aparecer na faculdade. Estava tentando evitar ao máximo sair de casa desacompanhada, o caso de meu pai não saía dos jornais, a cada dia com uma notícia nova, cada vez mais exagerada. As pessoas me reconheciam nas ruas e nem sempre eram gentis, na verdade, a gentileza estava cada vez mais rara, ontem mesmo uma velhinha tentou me bater na rua com um jornal enquanto eu estava indo para o Kurt Café. Por falar nisso, as coisas também estão ficando complicadas por lá, a clientela está começando a diminuir nos períodos em que estou lá, o que está preocupando a todos os funcionários, por mais que tentassem não demonstrar isso na minha frente. Ninguém tocava em assuntos que pudessem me chatear, mas ainda assim o clima estava pouco pesado, era difícil ignorar totalmente o que estava acontecendo.
– Tenho certeza de que amanhã será um dia melhor!
Este comentário de Mira ficou martelando em minha cabeça enquanto eu ia para a casa das Marvel durante à noite, por mais que eu achasse otimista demais, isso me fez pensar que não posso evitar esse assunto para sempre, uma hora ou outra eu terei de encarar as pessoas, voltar à faculdade e seguir minha vida, mesmo não sendo fácil.
Então agora eu estava me aproximando dos portões da universidade, forçando uma coragem que eu ainda não tinha. Alguns olhares que eu recebia nas ruas me intimidavam um pouco, mas não poderia voltar atrás, já havia combinado com o pessoal que os encontraria nos portões antes da aula. Não demorou muito até que avistei Cana com uma garrafa de vinho em mãos enquanto bebia direto do bico.
– E aí loirinha! Sua sumida, quer um pouco? É impressão minha ou seus peitos estão maiores? – Suas bochechas já estavam bastante rosadas e sua voz estava arrastada. Como ela consegue vir para a faculdade bêbada logo de manhã?! Mas de certo modo, estava feliz por vê-la assim, mesmo bêbada ela consegue criar uma atmosfera descontraída, com esse comentário idiota.
– Não e não. Não está preocupada em ser pega pelo campus com isso?
– Ih, aqueles seguranças são tão bobocas que é mais fácil eles se juntarem a mim do que eu ser punida!
– Se você diz...
Comecei a notar então que algumas pessoas olhavam para mim e cochichavam logo em seguida. Já estava começando a ficar desconfortável com isso, queria sair logo daqui, mas onde estão os outros?
– Lu-chan!
Levy corria em minha direção com certa dificuldade, pois carregava cerca de uns quatro livros bem grossos consigo. Logo Gray e Jellal chegaram e Cana começou a atazanar Gray perguntando quando iria deixar toda essa frescura de lado e tomar alguma atitude em relação à Juvia. Foi engraçado ver ele vermelho e gaguejando, e falando em Juvia, logo ela chegou, também correndo, mas digitando alguma coisa no celular.
– Desculpa a demora, pessoal, Erza pediu pra avisar que não vai aparecer porque ela tem prova na primeira aula e não pode se atrasar.
– A PROVA! — Jellal gritou subitamente e saiu correndo em direção a seu bloco. — TINHA ME ESQUECIDO, ATÉ DEPOIS!
Todos rimos com sua reação e começamos a adentrar no campus com calma. Não sei se era intenção deles, ou se foi por acaso, mas eles meio que começaram a formar uma barreira à minha volta, impedindo que meus olhos se cruzem com olhares indesejáveis, tentando me manter numa zona de conforto, sem julgamentos. Agradeci mentalmente por isso, mas esta barreira de proteção não durou por muito tempo, aos poucos o grupo foi se desfazendo para ir para seus respectivos blocos e salas, até que restaram apenas Juvia e Gray comigo.
Agora eu estava bem mais visível para as pessoas e os olhares tornaram-se cada vez mais indiscretos. Juvia e Gray diminuíram o passo, pois agora Gray teria que tomar outro rumo. Avistei Natsu parado em frente a entrada do bloco, esperando Gray. Ele desviou o olhar assim que nossos olhares se cruzaram. Desde aquela guerra estúpida de chocolate, as coisas voltaram a ficar um pouco estranhas entre a gente, como se um imã nos afastasse sempre que estivessemos perto um do outro, nos puxando para uma zona “segura”.
– Almoço com vocês hoje? — a pergunta foi mais para Juvia do que para mim.
– Claro. — Juvia respondeu de prontidão.
Os dois trocaram um último olhar antes de tomarmos rumos diferentes, mas Gray não chegou a se afastar, uma conversa próxima a nós fez todos estacarem.
– Ei, não é a filha do assassino?
– Fale baixo, ela pode nos ver!
– E daí?
– Soube que ele matou a funcionária por não se dar bem com ela, vai que a loirinha tem o mesmo gênio? Se eu fosse você, tomava cuidado ao cruzar o caminho dela, não quero morrer tão cedo.
– Você está certo, melhor irmos logo.
Não sei quem eram essas pessoas, e pouco me importava também, nem fiz questão de ver quem falava aquilo, mas isso doeu. Gray lançou um olhar irritadiço para trás de mim, onde provavelmente essas pessoas estariam e Juvia me olhava preocupada. Apertei minhas mãos em um punho com força e respirei fundo, prendendo o choro que estava querendo se formar. Me obriguei a dar um passo para frente e ergui a cabeça, tentando juntar coragem para não dar meia volta e sair correndo.
– Podemos ir? — perguntei em um fio de voz.
Juvia acenou com a cabeça e logo se postou a meu lado, enquanto Gray dava uma última olhada antes de ir embora. A sala ficou em um completo silêncio quando eu e Juvia atravessamos a porta, as pessoas me encaravam e não ousavam dizer nada, o que me deixou ainda mais desconfortável. O único que parecia um pouco mais normal era Dan, mas este estava dormindo na carteira. Andei em direção a minha e Juvia se sentou ao meu lado e esperamos em silêncio qualquer reação da sala, mas nada acontecia. Meus punhos começaram a tremer de nervosismo. Por que ninguém pode simplesmente agir normalmente?
A porta então se abriu bruscamente e Yukino adentrou correndo e ofegante, com um copo de café em mãos e se jogou na certeira à minha frente, sem derramar uma única gota.
– Meu deus, estou exausta! Não dormi nada essa noite. Alguém quer café?
Eu e Juvia negamos e ela tomou do líquido com se sua vida dependesse disso.
– Por favor me digam que não tem nenhum trabalho pra hoje.
– Eu espero que não. — murmurei sentindo um frio na espinha, de repente pensando nas minhas notas. Eu estava completamente por fora do que estava acontecendo naquela faculdade e um zero não seria nada legal…
– Bom, na verdade… — Juvia começou com um sorriso sem graça, mas não pode terminar sua frase, o professor entrou logo em seguida, já perguntando que começaria o seminário.
Droga!
[..]
Vocês não tem noção do alívio que eu e Yukino sentimos quando descobrimos que seriam dois dias de seminário e que nenhuma de nós apresentaria hoje. Já Juvia não teve tanta sorte, mesmo estando preparada, ela não gostava nada de apresentações e gaguejou um pouco enquanto falava sobre os 5S, mas no final se saiu bem.
Antes do almoço, Yukino pediu para eu ir com ela à biblioteca, então Juvia foi na frente para o restaurante universitário, com a promessa de que guardaria um lugar para a gente. Precisávamos procurar livros para que pudessemos usar como referência para nossos seminários que por sorte ficaram para a semana que vem. Eu procurava alguma coisa que falasse sobre a história da Administração em uma prateleira alta, mas com certo receio porque a escada estava meio bamba. Yukino olhava os livros distraidamente, o sono evidente em seus olhos, ela estava quase dormindo encostada na estante.
– Está tudo bem, Yukino?
Ela pulou de susto, batendo a cabeça na estante e nisso esta balançou um pouco, desestabilizando a escada e consequentemente me fazendo levar o tombo da minha vida.
– KYAAAA!
Já era, agora estávamos eu e Yukino caídas, com meu caderno e um monte de livros espalhados pelo chão. O barulho das coisas caindo, somado ao meu grito chamou a atenção das pessoas que se encontravam na biblioteca, que vieram correndo nos ajudar. Não eram muitas, na verdade, apenas uma: Rogue.
– Lucy? Yukino? Com isso foi acontecer?
– A culpa foi minha. — Yukino se levantou com a ajuda de Rogue, gemendo um pouco. — Se eu tivesse dormido à noite, nada disso teria acontecido. Você está bem, Lucy?
– Não foi nada, não se preocupe. — Rogue me ajudou a levantar e logo guardavamos os livros no lugar.
– Desculpe perguntar, mas por que não dormiu à noite? — Rogue perguntou encarando dois livros, se decidindo qual era a ordem deles na estante.
– Preciso encontrar um emprego logo, isso está me preocupando. — ela suspirou. — Mesmo as coisas estando melhores aqui em Magnólia, ainda preciso me sustentar.
– Se você quiser, abriu uma vaga de estágio na área administrativa da Editora do meu pai. É só me passar seu currículo que eu te arrumo uma entrevista.
– É sério mesmo? — os olhos de Yukino brilhavam.
Os dois continuaram a conversar, o tom cada vez mais animado surgindo entre eles, o que me deixou muito feliz, era raro ver Rogue conversando tão alegremente, normalmente ele só fazia isso com Levy. Mas essa animação, por minha parte, não durou muito, logo comecei a sentir que eu estava sobrando ali. Peguei meu caderno e me despedi dos dois, que logo voltaram a falar sobre a vaga de estágio.
Umas das minhas principais características, desde criança, é o fato de ser muito azarada. Não basta uma coisa ruim acontecer comigo uma vez, um único mico não é suficiente, era como se meu corpo desejasse mais hematomas, então, num momento de distração ao virar o corredor, esbarrei em uma pessoa, derrubando tudo o que ele carregava, e no reflexo, derrubando minhas coisas também.
– Ah, me desculpa! Eu não vi por onde andava! — me abaixei e o ajudei a juntar o monte de papéis que eu havia derrubado.
– O azar te persegue mesmo, Lulu. — ele riu enquanto me ajudava. — Pelo cabelo bagunçado, presumo você tenha relação com o grito e o barulho de coisas caindo de agora a pouco.
Senti minhas bochechas esquentarem com o comentário, além de Dan ter ouvido tudo (e provavelmente mais algumas pessoas), eu ia sair pela faculdade com o cabelo parecendo um ninho de rato!
– Aqui. — me entregou meu caderno e me ajudou a ajeitar meu cabelo. Fiquei um pouco sem graça com sua atitude e não consegui olhá-lo nos olhos.
– Obrigada.
– Mais cuidado na próxima. — ele sorriu para mim e seguiu em frente, logo fiz o mesmo. Tive a impressão de ter ouvido ele me chamando, mas meu estômago roncou neste exato momento, então me dirigi ao restaurante universitário.
[…]
– Então ela disse que queria passar na prova com louros. Aí eu perguntei “não seria 'louvor'?” — eu, Rogue, Yukino, Juvia, Jellal e Gray riramos com o comentário de Levy, que entre risos continuava sua história. — Ela disse que não importava, contanto que passasse.
– Esses erros que ela comete são divertidos, a aula fica bem mais interessante quando ela fala. — Rogue deu um gole de seu suco e Levy concordou com um sorriso. Ao contrário do que qualquer um possa interpretar, não havia malícia na conversa.
– Vocês não tem outro assunto, não? — Erza se pronunciou pela primeira vez, irritadiça. — Meredy, Meredy, Meredy, é só sobre o que sabem falar?!
– Ei, vai com calma, Erza. — Jellal se pronunciou, mas em resposta recebeu um olhar mortal da ruiva.
– Não entendo todo esse ódio que você sente por ela. — foi a vez de Juvia falar. — O que a menina te fez de mal?
– Se gosta tanto dela, por que não vai lá com ela?!
Juvia se irritou com a resposta da ruiva e se levantou bruscamente da mesa.
– Ok, estou indo agora mesmo! Qual o seu problema?!
Juvia pegou sua bandeja e lançou um olhar reprovador para a ruiva enquanto marchava em direção à mesa onde Meredy se encontrava, falando animadamente com Sorano. Gray levantou e foi atrás da azulada, confuso com a reação da ruiva. O clima na mesa estava bastante pesado, eu mal ousava respirar, mas as coisas não pararam por aí.
– Viu o que você fez? Qual é a sua, Erza?! Meredy é uma garota legal, pra que tanto ódio? — Levy falou séria.
– Por que não cuida da sua vida!? — Erza retrucou e levantou da mesa logo em seguida, deixando todos abismados. Nunca, em todos esses anos Erza havia tratado alguma de nós desse jeito, principalmente Levy. Isso a magoou muito pois lágrimas começaram a brotar nos cantos de seus olhos enquanto seu rosto começava a adquirir uma coloração avermelhada. Rogue a acolheu em seus braços e a pequena logo desabou em lágrimas em seu ombro.
Aquilo havia sido a gota d'água para Jellal. Assim como Juvia, ele levantou bruscamente da mesa, mas antes que saísse, puxei seu braço, impedindo-o de continuar.
– Ela está irritada, se você for falar com ela agora, é capaz de as coisas só piorarem. Eu vou falar com ela depois, ok?
Jellal hesitou um pouco mas assentiu. Não havia mais nenhum clima naquela mesa para nada, ninguém queria conversar, ninguém queria comer, aquilo havia sido um tremendo desastre. Por fim, antes de se levantar e cada um se dirigir a seu devido destino, Jellal deu um soco na mesa e um grito de raiva ficou contido em sua garganta.
[…]
Gildarts ficou de me buscar na saída da faculdade, então todos foram embora sem demorar muito tempo comigo, mas acontece que Gildarts estava atrasado e já não havia mais tantas pessoas na frente dos portões. Estava começando a ficar nervosa e olhava o celular de cinco em cinco minutos. Então uma pessoa parou do meu lado e por um segundo sorri animada esperando ver Gildarts, mas meu sorriso morreu quando constatei que não era ele.
– Dias difíceis, Heartphilia? — o deboche era evidente no tom de voz de Lisanna.
– O que você quer?
– Apenas estou curiosa, há tantas versões sobre a mesma história, mas não é disso que vim falar.
Lisanna não chegou a dizer o que queria, Gildarts encostou o carro ao meu lado e no momento em que ele abaixou o vidro, Lisanna ficou estática. A pouca cor que tinha havia se esvaído de seu rosto, suas mãos começaram a tremer e o pavor estava claro em seus olhos. Estranhei sua reação repentina, nunca havia visto Lisanna desse jeito, e sem entender nada, me voltei para Gildarts. Ele olhou para ela por um breve instante e arqueou a sobrancelha.
– Algum problema, senhorita?
Ela engoliu em seco e deu um passo para trás, vacilante. Em todos esses anos, nunca havia visto Lisanna nesse estado, o que está acontecendo? Ela fez um sinal sutil com a cabeça em negação. Novamente olhei de um para o outro sem entender nada, Lisanna engoliu em seco, deu meia volta e saiu correndo antes que eu pudesse lhe perguntar o que estava acontecendo.
– O que foi isso?
– Não sei, amiga estranha essa sua. Não vai entrar?
– Ah, claro. — dei meia volta no carro, dando uma última olhada na direção em que Lisanna havia corrido, ela já não estava mais avista. Tomei meu lugar no banco da frente, colocando o cinto logo em seguida. — E só pra constar, ela não é minha amiga.
– Hum, entendo. Apenas uma curiosa, então?
– Provavelmente. Mas bom, alguma novidade?
– Silver encontrou uma coisa na autópsia. Uma marca de mordida na jugular. A marca é bastante sutil, estamos com dificuldade para identificar o dono da arcada, se não for de Jude, pode ser que nos ajude.
Apenas abri um sorriso fraco em resposta. Do mesmo jeito que essa marca de mordida pode nos ajudar, ela pode piorar ainda mais as coisas.
– Importa-se? — mostrei meu celular a ele. — Uma amiga precisa de mim.
– Fique à vontade.
Pensei em fazer uma ligação, mas no final optei apenas por mandar uma mensagem. “Apareça no Kurt Café quando puder”. Cliquei em enviar e suspirei, agora era só esperar. Gildarts começou a cantar alguma música que tocava no rádio que levei algum tempo para reconhecer, Still Loving You da banda Scorpions. Mamãe costumava ouvir essa banda quando eu era pequena, isso me trouxe boas lembranças, da época em que Lisanna costumava frequentar minha casa para brincar. Falando em Lisanna, me concentrei na cena que ocorreu momentos atrás. Lisanna estava com medo de Gildarts, mas por que? Tem algo estranho nessa história.
[…]
Cheguei um pouco atrasada no Kurt Café, como tem ocorrido nos últimos dias, o movimento estava baixo, com cerca de umas cinco pessoas no local, sem contar os funcionários, por sorte as coisas pareciam bem tranquilas então eu não me encrencaria tanto.
– Lucy!
Mal atravessei o balcão e Milliana veio até mim pouco agitada (mais que o normal).
– Um carinha apareceu aqui querendo falar com você, mas ele acabou de ir embora. Se eu soubesse que você não iria demorar, teria feito ele esperar mais um pouco.
– Quem era? E o que queria comigo?
– Se eu não me engano o nome dele era Dan, ele é bonitinho, não? Enfim, ele me pediu para te entregar isso.
Milliana tirou do bolso do avental uma pequena foto dobrada e meus olhos se arregalaram imediatamente ao reconhecer a figura. Quase como um reflexo, arranquei a foto da mão de Milliana e a abracei contra o peito. Era uma foto de quando eu era criança, nela estávamos eu, meu pai e minha mãe na frente de casa, era meu aniversário de 5 anos, a foto foi tirada pouco antes da festa. Eu segurava uma boneca que havia acabado de ganhar, Michelle, foi um presente de minha mãe. A nostalgia foi automática e a saudade do meu pai foi inevitável. Desde que essa bagunça toda começou, não consegui falar com meu pai nenhuma vez. A falta da família se fez mais presente do que nunca agora e por muito pouco não caí nos braços de Milliana e abri um berreiro. Como fui perder essa foto!?
Aí eu lembrei, a foto provavelmente caiu de meu caderno quando esbarrei em Dan acidentalmente na biblioteca. Então não foi apenas uma impressão ele ter me chamado, ele realmente me chamou para me entregar isso, como pude dar mais atenção ao meu estômago?!
– Obrigada.
Preciso agradecer ao Dan quando encontra-lo novamente.
– Ei Lucy. — Erza havia acabado de entrar no estabelecimento, estava com as bochechas levemente coradas e evitava me olhar nos olhos, ela puxava um pouco as mangas do casaco e fez um leve aceno para Milliana. — Queria falar comigo?
– Pode ir Lucy, as coisas estão bem tranquilas, deixa comigo.
– Obrigada. Vamos? — Apontei com a cabeça para uma mesa mais isolada da cafeteria e Erza me seguiu.
Por breves instantes, ninguém se atreveu a dizer nada. Erza estava claramente sem graça e eu não sabia como começar, o clima estava bastante desconfortável entre nós duas.
– Desculpe pelo que aconteceu no refeitório. — ela começou num fio de voz.
– Não é a mim que deve pedir desculpas. Erza, o que está acontecendo? Você nunca havia se descontrolado desse jeito.
Erza fechou as mãos em um punho e finalmente olhou para mim, seus olhos estavam marejados, prestes a transbordar. Me surpreendi com isso, nunca havia visto Erza tão… insegura. Ela secou os olhos antes que pudesse derramar alguma lágrima, Erza não choraria.
– É que ele fala tanto dela… — começou com a voz embargada. — Ela é sempre tão… gentil, sorridente, alegre… Fofa… Jellal é muito apegado a ela… Eu nunca fui nada disso, não tenho como competir com isso, Lucy.
– Você não está competindo com ninguém, Erza! — toquei seu ombro numa tentativa de fazer a ruiva relaxar. — Eles são apenas amigos, Jellal te ama, você sabe disso.
– Você não entende Lucy… Eles estão sempre juntos, eles saem o tempo todo… Ela tem feito ele mais feliz do que eu ultimamente.
– Erza…
– Ele sempre falou tanto dela! Desde antes de voltar do México, até hoje! — Agora as lágrimas começaram a escorrer em seu rosto, ela tentou impedir mas desistiu em pouco tempo. A abracei e deixei que chorasse livremente em meu ombro e assim ficamos até que ela parasse de chorar. Eu gostaria muito de dizer alguma coisa reconfortante para ela mas as palavras simplesmente não saíam da minha boca.
– Erza...
De certo modo, me sentia em cima do muro. Entendo tudo isso que Erza está sentindo, a emoção, a insegurança, a carência, o ciúme… Mas também entendo o lado de Jellal. Não acho que Jellal trocaria Erza por nada neste mundo. Quer dizer, acho que eu teria feito o mesmo com Áries, ela que me acolheu enquanto estive fora e se ela viesse para cá, certamente agiria do mesmo modo que Jellal, o que dificultava a situação no momento, ela estava se sentindo ameaçada, nada do que eu dissesse ajudaria agora, o que me deixou um pouco triste agora, eu só queria ver minha amiga bem.
– Vai ficar tudo bem…
[…]
Foi uma tarde sem nenhum tipo de hostilidade no Kurt Café. Terminando o expediente, me despedi de Mira e Milliana enquanto Mira fechava o estabelecimento e segui meu caminho rumo a casa das Marvel. Estava com tempo de sobra, então decidi ir com calma. Andava distraidamente chutando uma pedrinha, sempre em frente. Quando ia dar mais um passo, pronta para chutar a pedra mais uma vez, uma mão agarra meu braço e me puxa para trás.
– Você realmente quer se atropelada, não é?
– Que susto, Gray!
– Susto seria quando um carro te acertasse, já falei pra tomar cuidado, não aprende nunca?
– Desculpa. — encolhi os ombros envergonhada. — Pode me soltar agora?
Gray soltou meu braço e andamos calmamente por um tempo, sem trocar palavras. Queria ter continuado chutando a pedra, mas a perdi de vista. Olhei então com um pouco mais de atenção para Gray. Seu rosto estava sério, um vinco surgindo entre suas sobrancelhas e seus olhos estavam opacos, com certeza sua mente não estava no caminho que estava seguindo.
– Estou com um pouco de tempo, o que acha de um sorvete?
Ele olhou para mim e arqueou uma sobrancelha. Eu deveria ter sugerido outra coisa, estava um pouco frio para um sorvete hoje.
– Por mim, tudo bem.
Andamos até uma barraquinha completamente vazia em uma praça próxima, o dono parecia muito feliz quando escolhemos os sorvetes, provavelmente os únicos clientes do dia, então nos dirigimos até um banco e ficamos por lá, apenas observando os carros passando. Gray tomava seu sorvete, mas sua expressão continuava a mesma de momentos atrás, e isso estava me preocupando.
– Algo errado, Gray?
Ele olhou para mim com o canto do olho brevemente e suspirou.
– Se lembra que eu te disse uma vez que você me lembra minha irmã?
– Sim, foi no dia em que você me consolou por eu ter de fazer aquele trabalho com Sting.
– Exato. Se lembra também dos motivos de você me lembrar ela?
Acenei positivamente para Gray. Lembro-me vagamente disso. Ele falou que admirava minha preocupação com quem eu amo e o modo como colocava sua felicidade acima da minha. Não sei bem dizer o quanto isso é verdade, mas é o suficiente para me deixar um pouco sem graça. Nunca lidei muito bem com elogios, sempre me deixaram sem graça.
– Odeio a sua imprudência, Lucy. — ele falou agora com um tom irritado, me surpreendendo. Confesso que não estava imaginando o que ele diria, mas definitivamente não esperava que dissesse isso. — Você nunca olha por onde anda, nunca toma cuidado!
– Mas Gray! — tentei me defender, mas calei a boca. O que eu diria? Ele estava certo, sei que sou distraída demais e que não tinha como contra-argumentar.
Ele finalmente olhou para mim. Eu não sabia o que mais se passava em sua cabeça, mas seu olhar era firme e profundo e estava carregado de dor. Eu não sabia o que dizer, não sabia o que pensar, muito menos quando ele me abraçou e repousou a cabeça em meu ombro.
– Foi assim que eu perdi Ultear.
Ao contrário de Erza, ou Levy ou até mesmo eu, várias vezes, Gray não chorou, apenas permaneceu quieto em meu ombro enquanto me abraçava. Milhares de coisas deviam estar se passando por sua cabeça agora e acho que o fato de eu ser descuidada não ajudava em nada. Agora que ele havia me dito isso, me senti realmente mal. Posso ser um pouco lerda, mas finalmente entendi onde Gray queria chegar. No passado, ele me fez prometer que eu seria mais cuidadosa, mas incontáveis vezes eu descumpri essa promessa, e a cada vez que a descumpria, era como cutucar uma ferida que nunca cicatrizou em Gray. Eu lhe faço lembrar de sua irmã e a cada imprudência minha, uma lembrança ruim retorna a ele.
– Sinto falta dela. — murmurou, apertando com um pouco de força a manga de meu casaco.
– Sinto muito.
Eram duas simples palavras, mas elas diziam muito. Sentia muito pela morte de sua irmã, sentia muito por lhe trazer más recordações, sentia muito por ser tão descuidada. Sentia muito por fazer mal a Gray.
Continuamos em silêncio por mais uns instantes, eu fazendo um cafuné em seu cabelo desgrenhado, mas estranhamente macio. Gray precisava disso, eu precisava disso. Ele me disse que eu podia contar com ele, no passado, quero que ele possa contar comigo sempre que precisar, como irmãos.
– Eu só não quero perder mais ninguém.
– É por isso que não assume nada com Juvia?
Me arrependi imediatamente por ter pronunciado essas palavras. Não sei por que diabos disse o que disse. Era uma curiosidade minha, foi o tipo de coisa que escapa sem querer, definitivamente não era o momento para falar sobre isso. Não agora.
Gray ficou rígido por um momento e eu me amaldiçoei por ter estragado tudo, mas agora que a besteira estava feita, não havia muito como consertar.
– Me desculpe, eu não devia ter dito isso.
– Não, tudo bem. Acho que todos querem uma resposta.
Ele ajeitou sua postura e sua jaqueta de couro. Estava envergonhada com minhas atitudes, mas foi inevitável a expectativa. Desde aquele infeliz incidente com Sting no Kurt Café, em que fui parar no hospital, Gray tem prestado mais atenção em Juvia. Aos poucos este se tornou o melhor amigo dela e em certos momentos, seu guarda-costas, o que deixou o coração e a mente da azulada nas alturas. Ele se importava com ela de uma maneira diferente do que com qualquer outra garota, isso era evidente, eles gostavam um do outro, mas ninguém nunca entendeu o porquê de não estarem juntos até agora.
Sei que isso é algo pessoal e que não é de minha conta, mas é impossível não ficar curiosa.
– A resposta é bem mais simples do que espera. É simplesmente porque eu sou um covarde. Sabe, as pessoas que mais amo tendem a sumir quando me entrego. Minha irmã foi atropelada, meu pai deixou minha mãe em função de trabalho e por muito pouco não perdi minha madrasta num acidente de lancha.
– Gray… — Não queria ter tocado em feridas tão profundas, me senti um monstro por ter perguntado isso.
– Eu não quero perder mais ninguém, Lucy. Acho que tem sua resposta agora, tenho medo de entregar meu coração à Juvia e perdê-la depois.
A dor da perda de um ente querido é a mais forte de todas, te acerta onde você é mais frágil e te desarma de todas as maneiras. Pode até ser amenizada com o tempo, mas jamais esquecida. Páginas do passado nem sempre são boas de se recordar, mas tem o poder de valorizar os pequenos detalhes que fazem a vida valer a pena e nos tornam cada dia mais fortes.
– Sinto muito.
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