Duas Mentes e Um Risco
2 Segundo Capítulo
Notas iniciais
Agulhas não... Eu odeio agulhas... Agulhas não...
– Ryuzaki, ACORDA! — Eu acordei. Light havia me dado um tapa no rosto e eu quase caí da cadeira onde estava sentado com o queixo apoiado nos joelhos. Acho que ele estava gostando dessa coisa de me bater. Meu braço estava bem dolorido, acho que ele andou me cutucando antes daquele tapa. Pelo menos não eram agulhas! — Eu não acredito que você dormiu encolhido desse jeito nessa cadeira. E olha essa sujeira toda! Melhor jogar esses restos de doce no lixo, antes que as formigas carreguem você! Vamos, preciso da sua ajuda.
– Tudo bem.
Levantei sem vontade alguma, esfregando o lado do rosto que ele havia estapeado. Aquilo ardia. Ele me ajudou a jogar os restos de doce numa sacola e deixei os pratos dentro da pia. Enquanto ele os lavava, esquentei café e empilhei sete torrões de açúcar na palma da mão antes de virá-los para dentro da minha xícara. Isso me fez pensar sobre quanto tempo nós ainda ficaríamos naquele lugar. Já se passaram quinze dias e eu já havia comido pelo menos 20% dos doces. Enxuguei os pratos e guardei. Bom, eu só fiz isso porque o Light ficou me olhando daquele jeito, com os braços cruzados. Ele era bem preocupado com essa coisa de limpeza. Então ele me levou para a porta dos fundos, que estava aberta.
Que interessante. O tapete havia sido arrastado do lugar e havia uma marca no piso de linóleo, quatro linhas que se encontravam e cortavam a madeira. Era exatamente um quadrado, provavelmente a porta que daria para alguma espécie de porão. Quando me abaixei para examinar melhor, era visível que Light já tinha tentado abrir aquela tampa, pois tinha uma faca de cozinha largada no chão rente à porta e havia marcas de cortes e pequenos fiapos de madeira em diversos pontos nas extremidades do quadrado. Além de não ter nenhuma alça para levantá-la, somente a parte superficial do chão era de madeira, por baixo devia haver concreto e, com isso, talvez nós dois juntos não pudéssemos erguer aquela tampa.
– Você conseguiu erguer um pouco em algum dos lados? — Quis saber.
– Aqui. — Ele apontou para a extremidade em frente à porta. — Mas muito pouco. É provável que seja uma tampa de concreto, mesmo sendo a superfície de madeira. Como não tem alça, imagino que a intenção de quem colocou esse tapete bem aqui em cima é a de que não possamos abrir.
Hum. Eu também havia imaginado isso. Mas também pensei que esse lugar foi escolhido e preparado por Watari, como eu havia pedido, com as coisas mais básicas para a nossa sobrevivência. O que teria ali, que ele não iria querer que encontrássemos? O ideal seria que eu pudesse investigar o lugar sem que Light estivesse junto, mas seria impossível abrir a tampa sozinho. Era óbvio que ele também já tinha a certeza disso, que também teria preferido investigar sem mim, talvez ansioso por encontrar telefones, rádios ou algum meio de comunicação externa. Ele me chamou como último recurso.
Mãos à obra. Tentamos abrir a tampa com três facas de cozinha — se usássemos menos que isso, elas iriam apenas entortar ou quebrar -, uma em cada ponta e a outra no centro. Também conseguimos um pedaço de madeira pouco mais fino que uma tábua e, assim que conseguimos erguer minimamente a tampa, introduzimos o pedaço de madeira rapidamente na fresta para que ela não se fechasse novamente. A partir daí foi mais fácil. Agarramos a beirada de madeira da tampa e assim poderíamos levantar a parte de concreto também. Conseguimos. Light desceu a escada de madeira na minha frente. O local estava bem escuro, mas não estava empoeirado e nem cheirando a mofo, o que indicava que não estava a muito tempo sem o acesso de pessoas.
Tive certeza que se houvesse algum telefone celular ali, já poderia considerá-lo furtado. Não me preocupei, sabendo que onde estávamos não havia sinal. Mas a questão da foto... Poderia ser um problema. Nesse caso, precisaria confiar no bom senso de Watari e supor que não haveria nada do gênero, e desconfiar de Light por precaução, caso a primeira hipótese se mostre falha.
Ele encontrou um interruptor e ficamos calados por um momento.
– Uau! — Ele disse, animado.
– Puxa. — Eu disse.
Aquele porão era impecavelmente limpo e organizado. Havia uma estante de livros em um lado da parede, os romances estavam organizados em ordem alfabética. Havia uma estante de fitas cassetes no lado oposto, organizadas nas seguintes categorias: Documentários, Comédia e Animação, Suspense e Mistério. Na parede do centro, à nossa frente, tinha uma mesa com papéis em branco, uma luminária, vários lápis e canetas, a gaveta já estava vazia, segundo Light, mas eu podia jurar que ele colocou algo no bolso antes de fazer essa afirmação. Ao lado, no chão, havia várias caixas de papelão e uma tv de modelo bem antigo, em cima dela um aparelho vídeo cassete. Light ficou vendo as fitas enquanto eu me abaixei e examinei com cuidado aquelas caixas. Lâmpadas, fusíveis, lanternas, fita isolante, um par de walkie-talkies ainda lacrados, pilhas e uma infinidade de utensílios que, dependendo da situação, poderiam ser bem úteis. Agora eu estava certo de que aquilo foi algum tipo de providência preparada para a ocasião. Resolvi levar as lanternas e walkie-talkies para cima, depois ajudei Light a trazer a tv e o vídeo cassete.
Fui cuidar da minha higiene pessoal enquanto Light ligava os aparelhos na sala e praguejava quando percebeu que a televisão não dava sinal em canal algum. Quando voltei, com o último pedaço do bolo de baunilha, Light estava sentado no tapete, recostado no travesseiro entre a parede e suas costas. Ele havia colocado um travesseiro para mim ao seu lado. A tv estava instalada no chão com o vídeo cassete em cima. Percebi, pelo fundo musical, que ele assistia um filme de suspense.
Sentei ao seu lado. Não ofereci um pedaço do bolo, afinal, era o último pedaço. Quando acabei de comer, perguntei a ele.
– O assassino é o policial. O que você acha?
– O quê?! Não tem nem dez minutos de filme!
– Mas o assassino é o policial. Nesses dez minutos, já sabemos que o amigo próximo ao protagonista tem um comportamento bem atípico, manias estranhas e um tipo de humor cruel, mas ele mostra claramente isso tudo. Isso é usado para nos despistar e nos fazer acreditar que ele é o assassino. A namorada vai sobreviver porque é bem ingênua. Os demais amigos são alegres e parecem adolescentes normais, vão fazer coisas de adolescentes, como dar festas ou usar drogas e vão estar mortos até o meio do filme. Já o policial é bem reservado e calculista e, quando fala do assassino, parece entendê-lo perfeitamente. Embora ele demonstre ser uma pessoa correta e seu papel seja o de ajudar a desvendar o crime, ele próprio dá sinais de compreender o criminoso e formular hipóteses sobre os pensamentos dele não só visando prever a sua forma de agir, mas também compreendendo a sua filosofia. — Peguei o controle remoto e avancei o filme até os últimos vinte minutos, provando a minha teoria. O policial estava perseguindo o protagonista com clara intenção de assassiná-lo. — E então?
– Idiota! Você estragou o filme.
– Oh. É isso... Sinto muito.
Ele riu e eu também. Depois ficamos nos encarando por um momento, ele sorriu. Passou a mão pelo meu pescoço e me puxou pela nuca. Nos beijamos. A língua dele massageou a minha de um jeito gostoso, então comecei a sugá-la devagar. Talvez ele tenha começado a ficar excitado, porque começou a desabotoar a camisa azul clara, jogando ela para longe, depois tirou a calça preta. A minha excitação já era evidente desde o momento em que ele tocou minha nuca, para falar a verdade. Continuamos nos beijando. Ele levou minha mão ao volume em sua cueca e usou ela para acariciar a si mesmo. Não demorou a se livrar da cueca e levar a minha mão ao seu pênis ereto e completamente despido. Toquei ele com a ponta dos dedos, percebendo pela primeira vez o quanto era interessante algo tão endurecido ser ao mesmo tempo macio e maleável. Light suspirou de uma forma bem forçada para me mostrar que estava irritado e então fechou minha mão completamente em seu pênis e me encarou, como se eu estivesse deixando de perceber algo óbvio. Movimentei um pouco a mão segurando ele, para cima e para baixo e depois olhei para o Light, para ver se era isso que ele queria. Como já havia dito, esse tipo de situação prejudica quase 100% minha capacidade dedutiva. Revirou os olhos e se levantou.
– Espera aí, vou ajudar você, Ryuzaki.
Ele foi à cozinha e voltou com cobertura de sorvete sabor caramelo. Ele caramelizou o pênis bem ali na minha frente. Fiquei de joelhos, enquanto ele continuou de pé. Eu o segurei pelos quadris e passei a ponta da língua na extremidade de sua ereção. Ele gemeu. Depois segurou os cabelos da minha nuca e empurrou boa parte do seu membro para dentro da minha boca, o que quase me engasgou. Ele ficou movendo os quadris para frente e para trás, o que fazia com que seu pênis saísse quase completamente, para depois voltar a encher minha boca. Fiquei olhando para cima, para o rosto de Light. Ele estava com os olhos fechados, ofegava e gemia enquanto conduzia a velocidade do ato. Comecei a sugá-lo e ao mesmo tempo a massageá-lo com a língua. Parece que ele recebeu isso com muita animação. Saliva misturada à cobertura de caramelo passou a pingar no chão de linóleo e eu passei os dedos na base do pênis de Light, sem tirá-lo da boca. Meus dedos voltaram completamente molhados. Levei minha mão por entre as pernas dele e, com os mesmos dedos molhados — o indicador e dedo médio -, comecei a massagear a entrada de seu ânus, em seguida, introduzindo-os. Light não deu o menor sinal de que havia sentido dor. O movimento de seus quadris que controlavam a velocidade com a qual eu o chupava, perderam momentaneamente a sincronia, depois ele pareceu se mover de forma mais lenta e também mais prazerosa. Continuamos assim por algum tempo, até que ele gozou, sem prestar qualquer aviso. A sala se encheu de barulho dos gemidos de Light e do meu acesso de tosse.
– Da próxima vez, você precisa me avisar.
Eu disse, tossindo contra a manga da minha camisa de algodão branca.
– Da próxima vez, eu aviso.
Ele respondeu completamente sem fôlego e me empurrou até que eu ficasse sentado exatamente onde ele estava antes, recostado no travesseiro entre minhas costas e a parede. Desabotoei minha calça jeans e abaixei ela o suficiente para deixar livre a minha ereção dolorida. Estive excitado durante todo aquele tempo. Meu pênis estava lubrificado, pois já havia saído um pouco de esperma. Light se preparou para sentar no meu colo, de frente para mim. Fiquei entre suas pernas e ele começou a se encaixar devagar sobre o meu intumescido órgão. Não ousei apressar o movimento.
– Light, eu... Eu estou prestes...
Ele cobriu minha boca com os seus lábios. Estávamos nos beijando enquanto eu me afundava completamente dentro dele. Ele passou os braços pelo meu pescoço e eu por sua cintura. Ficamos abraçados e nos beijando enquanto fazíamos amor daquele jeito bem devagar. De todas as vezes que fizemos amor, acho que essa foi a mais íntima e suave. Light ficou acariciando meus cabelos, como costumava, enquanto eu me inclinava um pouco sobre ele, assim, sentíamos completamente o calor do corpo um do outro. Eu podia sentir a sua nova ereção se esfregando contra o meu abdômen enquanto ele rebolava no meu colo e gemia por entre nossos beijos.
Não pude me conter por muito tempo e logo gozei demoradamente dentro dele. Isso pareceu provocar uma onda de prazer em Light que, em seguida, gozou pela segunda vez naquela manhã, e bem em cima da minha camisa. Continuamos acomodados ali, do mesmo jeito, abraçados, suados.
Olhei para a o local molhado na minha camisa, uma mancha em potencial. Voltei a olhar para ele.
– Ainda bem que essa é a sua vez de lavar as roupas.
– Você não passa de um preguiçoso, Ryuzaki. — Ele riu um pouco. — Tem sido a minha vez de lavar as roupas muitas vezes.
Eu sorri, um pouco sem jeito, coçando a nuca. A verdade é que eu não levava jeito com aquelas coisas. Light vestiu a calça e disse que precisava comer alguma coisa. Fiquei ali sentado e voltei a pensar naquilo que me manteve a noite inteira acordado e me fez adormecer sentado na cadeira. O que estava acontecendo entre Light e eu. De todas as coisas ou atitudes que ele poderia tomar para provar que realmente não era o Kira — ou pelo menos que realmente não tinha qualquer lembrança ou consciência de ser -, essa foi a única que não se passou pela minha cabeça. A verdade é que quanto menos ele fizesse para tentar provar a inocência, mais eu ficaria inclinado a acreditar nela. Também era difícil acreditar que ele estava... Que nós estávamos fazendo tudo isso unicamente porque era uma estratégia dele para afastar suspeitas. Desde o começo Light foi alvo de todas as minhas suspeitas, e eu poderia apostar a minha vida que elas estavam certas. Ainda sei que estão. Mas não tenho a mesma certeza de que quero estar tão convicto disso. Eu poderia me apaixonar por Light. Eu estava me apaixonando por ele. Alguém como Kira poderia sentir algo como amor?
– RY-RYUZAKI! — Ele gritou da cozinha. — Te-tem um urso lá fora! Estou vendo ele pela janela!
Me levantei, abotoando minha calça e fui para a cozinha, sem conseguir acreditar naquilo.
– Você insistiu para que eu pusesse o lixo com restos de doces para fora. Bem, não temos formigas dentro, mas parece que atraímos um urso fora.
Olhei com curiosidade pela janela, mas não vi nenhum urso. De repente, um bramido poderoso invadiu a casa. Nós nos olhamos por uma fração de segundo e desatamos a correr para a porta da frente. Consegui pegar algumas coisas que estavam no meu caminho, como uma caixa de bombons, os walkie-talkies e uma lanterna.
Batemos a porta da frente às nossas costas. Light estava sem camisa e nós dois estávamos descalços na neve. E um urso havia entrado pela porta dos fundos da nossa, até então, casa.
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