Duas Mentes e Um Risco
3 Terceiro Capítulo
Notas iniciais
– Você está bem, Light? Você parece pálido.
– TEM UM URSO DENTRO DA CASA NESSE EXATO MOMENTO! E VOCÊ SÓ VAI FICAR AÍ COMENDO BOMBONS?!
– Ah. Me desculpe. Você quer um?
Light estava batendo os dentes e abraçando o próprio corpo, por causa do frio. Eu também estava com muito frio. A probabilidade de morrermos até o fim da tarde congelados era de 93%, enquanto que as chances do urso sair de dentro da casa eram de apenas de 7%. Trazendo essa caixa de bombons comigo, eu sabia que não tinha nada comestível ao alcance do urso, o que poderia fazer com que ele perdesse o interesse e fosse embora, isso se o aconchego e calor irradiado por toda a casa vindo da lareira não o fizesse escolher ali como sua nova morada.
Light recusou o bombom com um aceno impaciente de mão.
– Você precisa ligar para alguém que nos tire daqui, Ryuzaki. Ou que pelo menos tire esse urso de dentro da casa, se não, vamos morrer congelados.
– Entendo. Acho que preciso te contar uma coisa, Light. Eu não tenho como entrar em contato com ninguém, nem mesmo com Watari. Estamos completamente isolados. Nem eu sei onde estamos ou quando alguém virá nos buscar. Acho que você entende os meus motivos e isso não deve ser uma surpresa.
– Não, não é uma surpresa, isso já havia se passado pela minha cabeça, ainda assim, é loucura! Droga! Você devia ter me trancaficado naquela cela de novo, se queria tanto assim tirar suas dúvidas! O que deu em você para nos trazer para esse fim de mundo?! Nós precisamos atrair o urso para fora, entrar e trancar as portas. Mas o urso é mais rápido e mais forte. Se chamarmos sua atenção o suficiente para fazê-lo sair, será o suficiente também para sermos destroçados por ele.
– Sim, eu também pensei nisso. Mas não podemos morrer os dois inutilmente aqui fora. Se ficarmos os dois fora, temos 7% de chances de sobreviver até o fim do dia. Se atrairmos urso para fora, aumentamos a chance para 15%, isto é, são as chances dele não nos destroçar. Ainda é muito pouco. Mas se apenas um de nós atraí-lo enquanto o outro entra na casa pelos fundos, a chance de sobrevivência para quem entrar pelos fundos é de quase 100%.
– Nesse caso, eu irei distraí-lo. — Observei por um momento a determinação e a certeza que ele demonstrou ao afirmar aquilo. E se eu concordasse, será que ele levaria esse plano adiante? Não consigo imaginar alguém como o Kira colocando-se em risco por livre e espontânea vontade. Mas aquele era o Light, por enquanto, apenas Light Yagami. Um estudante universitário atrelado aos seus valores. Não conseguia duvidar disso agora. Ele estava reunindo neve com as mãos, formando pequenas bolas, quando disse: — Melhor você ir para os fundos agora.
– Não. — Segurei sua mão, impedindo que continuasse. — Eu coloquei você nessa situação, o risco tem que ser meu. Se você morrer, o que eu diria à sua família?
Ele afastou minha mão, com raiva.
– Por que você não diz de uma vez?! Se eu morrer agora, você não vai poder provar que eu sou o Kira, não é isso?!
Ele segurou minha camisa com as duas mãos, bem perto do meu pescoço e me puxou com tanta força, que a caixa de bombons e os walkie-talkies caíram no chão. Ele estava bem nervoso. Não olhei para ele.
– Não só por isso. Seria um problema se você morresse. Porque eu te amo.
As mãos dele afrouxaram na minha camisa e soltaram-se dela. Me abaixei para pegar a caixa, mas antes que eu terminasse de levantar, Light me abraçou, prendendo não só o meu tronco, como meus braços também. Ele praticamente se atirou em cima de mim, o que me fez cair de joelhos na neve e ele também. Nunca fui abraçado tão forte na vida. Ele enterrou o rosto no meu pescoço e me apertava contra ele como se sua vida dependesse disso. Fiquei imobilizado ali, olhando a cobertura branca que a neve tinha provocado nas árvores. Era engraçado como a neve encharcou minha calça desde os joelhos até os tornozelos e aquilo fazia parecer com que meus ossos estavam congelados, mesmo assim, o corpo de Light estava tão quente... Especialmente o rosto dele. Ele estava respirando bem forte contra o meu pescoço. Depois de um tempo, ainda de joelhos, ele segurou meu rosto entre suas mãos e encostou sua testa na minha.
– Nós vamos sobreviver. — Ele encaixou seus lábios nos meus, e eles pareciam cera de vela que tinha acabado de ser derretida... Pareceram arder contra a minha boca gelada. Ele me beijou do mesmo jeito que havia me abraçado. De um jeito forte e desesperado. — É uma promessa.
Eu continuei com a certeza de que nós dois não poderíamos morrer inutilmente e alguém teria que se arriscar.
Alguns minutos mais tarde, minha voz ecoou naquela brancura vasta e entrou na casa.
– AQUI, URSO IDIOTA, AQUI! VOCÊ NÃO QUERIA COMIDA? OLHA EU AQUI! VEM PEGAR! VEM AQUI, SEU GRANDALHÃO, VOCÊ NÃO É DE NADA!
Minha camisa de algodão já não tão branca era balançada violentamente pelo vento frio. Não demorou muito e o urso saiu da casa. Ele era branco e grande, bom, não tanto. Devia ter cerca de um metro de altura e pesar uns 160 kg, no máximo, o que explica a facilidade com a qual invadiu a casa. Tudo o que eu gritava não o deixou enfurecido, como acontece com pessoas, quando são provocadas. Ele apenas saiu erguendo o focinho, curioso, tentando descobrir o que era o barulho da minha voz, de onde vinha e, quem sabe, se eu daria uma boa refeição.
Continuei gritando provocações para ele a plenos pulmões até que o inevitável aconteceu. Minha camisa foi a primeira coisa a ser destroçada. Ainda pude ver um pedaço de pano rasgado parecendo dançar no ar enquanto era levado pelo vento.
Bem, só assisti até aí. Quando tive a certeza que o plano havia dado certo, corri da lateral da casa para os fundos e entrei. Light já havia trancado a porta da frente pela chave e pelos ferrolhos. Fiz o mesmo na porta dos fundos. Mais do que aliviados, ficamos satisfeitos por nosso plano ter dado certo.
Sabíamos que alguém devia ser sacrificado para chamar a atenção do urso, então criamos alguém para isso. Quebramos o maior galho de árvore que encontramos — era mais alto do que eu — e o enfiamos na neve só a um metro de distância da porta da frente, até ele se firmar em pé. Vesti a minha camisa nele, e ela ficou sendo sacodida vivamente pelo vento. Também peguei todos os bombons de dentro da caixa, amassei a parte de cima deles, quebrando o chocolate por fora e deixando o caramelo de dentro vazar e os deixei no chão próximo ao galho com a intenção de atrair o urso pelo cheiro. Light havia furado a tampa da caixa com ponta do galho, e encaixou ela nele pelo buraco. Assim a caixa ficou aberta, pendurada pelo furo na tampa, encaixada no galho. Ele colocou um transmissor walkie-talkie no volume máximo dentro da caixa e o outro ficou comigo. Fomos para a lateral da casa, mas com uns três metros de distância dela, para ficar fora da visão do urso. Assim que ele saiu atraído pela minha voz ou pelo cheiro de caramelo ou as duas coisas juntas, Light correu a toda velocidade para os fundos, pronto para entrar e trancar a porta da frente assim que ele saísse. E, assim que o urso começou a atacar o galho, despedaçar minha camisa manchada e o walkie-talkie, corri para os fundos também.
Foi assim que acabamos tomando nosso lugar em frente à lareira, bem rente ao fogo até sentir todo aquele frio ser esquecido pelos nossos corpos.
– Não é tão fácil sem as câmeras e o pessoal da investigação para dar apoio, não é?
Perguntou Light com ironia enquanto estendia suas mãos tão próximas ao fogo, que parecia que as chamas iam lamber suas palmas a qualquer segundo.
– Não quando se sabe usar isso aqui. — Indiquei com o indicador a minha própria cabeça. Ele sorriu, ainda com o ar irônico. – É, acho que eu preciso de um banho.
– Vou comer alguma coisa, estou tão faminto que até essa comida enlatada parece saborosa agora.
Tomei um banho bem demorado porque a sensação da água quente escorrendo por todo o meu corpo era um consolo. Esquisito que algo tão branco como a neve fosse tão sujo. Só depois que meus dedos estavam completamente enrugados que desliguei o chuveiro, enrolei a toalha na cintura e encontrei Light no corredor, saindo da cozinha.
– Olha só isso, você é pior do que uma criança, Ryuzaki! — Ele apontou para os meus pés, então entendi que ele se referia ao chão de madeira, que ficou bem molhado por onde eu havia passado. Uma poça de água estava se formando onde eu havia parado. — Me dá isso aqui.
Ele tirou a toalha da minha cintura — meu órgão reagiu imediatamente — e começou a secar meus cabelos de uma forma cuidadosa. Quando ele terminou, sorrindo, me entregou a toalha e percebeu minha excitação. Seu sorriso se ampliou.
– Estou muito cansado agora. E também preciso de um banho. Você quase não dorme e, tem sido muito desgastante tentar acompanhar o seu ritmo. Preciso dormir um pouco e depois resolvemos... — Ele fechou meu pênis ereto em sua mão. — Isso.
Ele foi para o banheiro. Cocei a nuca, olhando para minha ereção.
– Você anda muito animado ultimamente, não é?
Fiz essa observação para meu órgão, depois me vesti. Fiquei olhando vários títulos dos livros na estante do porão, folheando alguns e achando algumas coisas realmente úteis.
– Ryuzaki? — Light me chamou, olhando da tampa do porão. Por um segundo pensei que se ele fechasse aquela tampa, eu jamais conseguiria abri-la. — Será que você pode dar um pulinho aqui?
– Hum? O que foi?
Subi com um volume que pretendia ler debaixo do braço.
– Na verdade, não foi nada. Estou indo dormir um pouco, mas quero que você venha comigo. Não precisa dormir. Só quero ficar com você um pouco.
– Está bem.
Deitamos na cama e Light me acolheu contra o seu peito. Seu jeito de me abraçar lembrava um pai protegendo o filho. Talvez termos sobrevivido tenha nos tornado mais próximos. Light tinha um cheiro... Bem, não era nada adocicado, ou cítrico e nem acentuado. Era um cheiro categórico de limpeza. Eu estava com um mau pressentimento. Uma sólida impressão que, logo, aquele cheiro e tudo associado a nós dois se tornaria apenas uma lembrança distante. Quando tive certeza que ele havia pegado no sono, fui para a sala ler o livro que havia escolhido.
Eu já estava na metade do volume e no terceiro pacote de alcaçuz quando me senti desanimado o suficiente para parar. Eu uso o tempo todo a mente para decifrar mistérios, situações e até mesmo pessoas. Para isso, é necessário entender sobre números, probabilidades e também sobre como as pessoas pensam. Apesar de tudo isso, minhas deduções nunca estão erradas porque tenho uma intuição muito forte. Por exemplo, houve situações em que todas as provas apontavam para um suspeito, mas isso não me dizia nada, eu sabia que havia mais e havia. No caso de Light, apesar de várias situações, pela lógica e bom senso, apontarem sua inocência, sei que a lógica e o bom senso não se aplicam em um caso onde existe um caderno com o poder de matar. Mas não era isso, não agora. A minha intuição não estava me incomodando ou deprimindo sobre a culpa ou inocência de Light, mas sobre algo bem maior. Algo que eu não poderia combater. Algo que eu teria que aceitar.
De uma coisa eu tenho certeza. Quando você se apaixona, você está derrotado. Talvez você deixe de pensar com clareza ou talvez apenas não tenha forças para lutar contra aquilo que você deseja com todas as forças.
Com esse peso me atingindo como um baque dentro do estômago, fui até a janela e abri, me debruçando e olhando toda aquela brancura interminável da neve. O urso estava ali ainda perfeitamente camuflado sob a pelagem branca, e isso era ameaçador, mas uma pequena surpresa me deixou deliciado em observá-lo: Três pequenas figuras brancas o seguiam. Era uma mamãe ursa, no fim das contas, procurando alimento para seus filhotes.
– Sabe, uma coisa boa em estar nesse fim de mundo, é que ele é um começo para nós.
Light havia levantado. Não ouvi ele se aproximar. Agora ele me abraçava por trás. Eu queria ter qualquer outra coisa a dizer que não fosse “você está enganado”, mas não tinha. Então fiquei em silêncio.
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