Duas Mentes e Um Risco
4 Quarto Capítulo
Notas iniciais
Algumas horas antes de eu planejar e decidir nosso confinamento, Light confirmou minha teoria, como eu imaginava e eu estava cem por cento certo daquilo: O poder do Kira era passado de pessoa para pessoa segundo a vontade do próprio Kira. Light Yagami, sendo Kira, transferiu seu poder para outra pessoa — no caso, Higuchi do grupo Yotsuba -, perdendo completamente suas memórias em relação a esse poder. Partindo da premissa de que o poder foi transferido pela vontade do Light, é possível e muito provável que ele tenha planejado uma forma de tomar esse poder para si novamente ou que de alguma forma esteja controlando o próprio Higuchi para garantir tê-los de volta. Capturar o atual Kira deve estar funcionando como um tipo de distração enquanto o verdadeiro Kira garante sua inocência e retoma o poder para si.
Depois de colocarmos câmeras no carro de Higushi, usamos o truque com Matsuda — membro da nossa força tarefa — para atraí-lo. Colocamos Matsuda em rede local alegando revelar ao fim do programa a identidade do Kira, o que desencadeou a corrida de Higuchi para matá-lo. Ele anotou em um caderno o nome falso que havíamos empregado ao nosso agente e ficou surpreso por não ter provocado a sua morte.
Estava óbvio que o poder de matar estava relacionado àquele caderno, o poder que não só matava com paradas cardíacas, mas que também podia controlar as ações das pessoas antes da morte. Eu sabia que a forma de agir e os ideais do primeiro Kira eram 100% compatíveis com os ideais de Light.
Tive que planejar e decidir na mesma velocidade em que tomei o café na minha xícara. Um único gole.
– Light? — Ele mal me olhou, pois as imagens de Higuchi nas telas do nosso Quartel General o deixavam vidrado, esperando pela verdade a ser revelada. Não só ele, mas todos nós. — Não restam dúvidas de que o Kira é esse cara. Se você realmente foi o Kira um dia, não tenho dúvidas de que agora não é. Vou soltar você das algemas.
Isso chamou sua atenção.
– Ótimo, já estava na hora! Eu disse que não sou o Kira, não sou esse tipo de pessoa!
Concordei. Dentro de 10 minutos, sob o pretexto de irmos ao local onde seria feita a coerção de Higuchi, sob minhas ordens, Light foi amordaçado e algemado novamente, mas dessa vez não era uma algema ligada a mim, mas que ligava seus dois pulsos, presos às suas costas. A mordaça era necessária parcialmente porque ninguém da força tarefa poderia perceber o que estava acontecendo e parcialmente porque eu não queria ouvir reclamações. Light era bem forte, mesmo imobilizado daquela forma. Pedi por telefone ao pai de Light e também membro da força tarefa, Soichiro Yagami, que confiasse em mim. Pouco depois estávamos na casa dos Yagami, onde Light, temporariamente solto das algemas, foi escoltado para pegar seus pertences. Se ele fez objeções, provavelmente fez, eu não escutei, fiquei esperando no helicóptero. Em menos de dez minutos Light estava de volta, novamente algemado, amordaçado e com os olhos vendados.
Na parte de trás do helicóptero, o vidro era fosco e eu não pude ver o caminho por onde sobrevoámos. Eu não deveria saber qual o nosso destino, mas era impossível não perceber que o rumo que havíamos tomado, era para o norte.
Não sei quanto tempo ficamos ao todo ali dentro antes de aterrissar, mas Light lutou bastante numa tentativa de que eu tirasse sua mordaça para dizer seja lá o que fosse, mas adormeceu depois de um tempo ou só se deu conta de que não havia solução.
Quando a temperatura já havia baixado consideravelmente, aterrissamos. As algemas de Light foram tiradas, as bagagens levadas para dentro e nós dois deixados à nossa própria sorte. Quando digo “à nossa própria sorte”, é porque estou indeciso se o lugar que Watari providenciou era genial ou improvisado de uma forma bem perigosa. Estávamos no meio de um nada completamente branco, cercados por neve. A casa modesta onde ficaríamos parecia estar no centro de uma clareira – se não me engano, clareiras em lugares cheios de neve são propensos a sofrer avalanches – e pouco depois uma floresta congelada se estendia em torno de nós. À esquerda tinha um lago parcialmente congelado, onde flutuavam pedaços de gelo. Quando imaginei um lugar desligado do resto do mundo, não era exatamente no meio de ursos, lobos e coiotes. Eu poderia jurar que ouvi uivos vindo da floresta. Apesar da única iluminação vir da casa em que ficaríamos, a neve era tão branca e o céu tão limpo que não parecia realmente escuro, ainda assim, aquele lugar parecia sombrio. Principalmente porque algo me dizia que eu não conseguiria um café expresso por ali, muito menos um sundae de morango.
Ainda por cima, aquela era a primeira vez que eu me afastava no decorrer de uma investigação. Era uma sensação completamente desconfortável. Bem, era o que eu queria, não era? Eu esperava atingir em cheio meu objetivo, que era pegar o verdadeiro Kira.
Enquanto Light lutava para desamarrar sua mordaça, tropecei, hum, quase acidentalmente e empurrei ele para dentro do lago escuro e quase completamente congelado próximo a casa em que ficaríamos. Em seguida, entrei na casa, aprovando a simplicidade do lugar e a rapidez com a qual ele foi preparado para nos receber.
A lareira estava acesa e a temperatura ali dentro era extremamente agradável. Seria necessário manter algumas janelas abertas, já que a lareira precisaria ficar acesa dia e noite. Eu não queria morrer intoxicado por monóxido de carbono.
– Ryuzaki, o que você pensa que está fazendo?!
Uma mão molhada e muito gelada tocou meu ombro. Quando virei, levei um soco bem no meio da cara. Toda ação tem uma reação. Chutei Light com toda a força nas costelas. Ele me puxou pela gola da camisa e me deu um soco com tanta força, que caímos os dois, eu de costas e ele por cima de mim. Lutamos silenciosamente por algum tempo, trocando socos, empurrões e joelhadas. Paramos por exaustão ou talvez porque vento frio que vinha da porta aberta estava nos congelando, afinal, ele estava encharcado e tinha me molhado bastante enquanto brigávamos. Light estava com o nariz sangrando e eu sentia um lado do meu rosto quente e dolorido, aumentando rapidamente de tamanho.
– Não se preocupe. Se a coisa ficar fora de controle, alguém virá nos buscar. Por enquanto, Higuchi não representa grande ameaça e, antes de uma prisão, precisamos de provas concretas sobre a sua forma de matar. Nós vamos ficar aqui até que tenham um relatório completo e provas de que ele é o Kira e que tem provocado essas mortes, só assim, tendo certeza sobre o método utilizado para matar, é que poderemos acusá-lo e condená-lo.
– Não seja idiota, Ryzaki! Você viu bem que ele escreveu naquele caderno e esperava que Matsuda morresse! Aquilo provavelmente tem ligação com o poder de matar! Como você pôde ignorar um fato desses?! Nós deveríamos estar lá agora, descobrindo como aquilo funciona e desvendando de uma vez por todas esse caso!
– Entendo. — Disse esfregando o inchaço no meu rosto. Ele estava certo. Mas eu também tinha certeza absoluta que esse caso não iria terminar com a prisão de Higuchi. Eu estava me arriscando, mas algo me dizia que eu não estava errando em fazer isso — Mas eu ainda acredito que você seja o verdadeiro Kira, Light, e que de alguma forma, você transferiu o poder de Kira para o Higuchi, mas não sem antes garantir que de alguma forma ele retornaria para você. Você mesmo me encorajou a tomar essa decisão quando confirmou a minha teoria mais cedo, você mesmo concorda que há lógica nisso.
– Isso não te dá o direito de me prender e jogar onde bem entender, como se eu fosse um cachorro! Onde nós estamos?!
– Sinto muito, Light. Isso é algo que não posso responder.
– Ótimo, vou descobrir sozinho!
Ele ficou de pé e saiu pela porta.
– Você vai acabar morrendo sem chegar a lugar algum.
– Isso seria melhor do que ficar aqui dentro com você!
– Light, por favor, não seja infantil.
Não adiantou. Deixei que ele saísse pela porta e fui vestir roupas secas, também vesti um casaco cinza impermeável e levei outro, amarelo, comigo. Aquilo já devia ter dado alguma vantagem em distância para Light, mas ainda pude distinguir sua silhueta rumando para a direção de onde tínhamos vindo. Era incrível como ele teve ainda algum senso de direção, mesmo estando vendado durante todo o percurso.
Que eu saiba, um frio como esse pode causar duas doenças, congelamento corporal e hipotermia. O congelamento ocorre quando a pele chega a ficar abaixo do ponto de congelamento e cristais de gelo começam a se formar dentro das células dela, se a coisa ficar grave, a pele fica enegrecida e se você sobreviver, acaba precisando amputar alguns dedos. A hipotermia acontece quando o corpo perde mais calor do que produz, isso pode ser tão grave quanto um coma ou mesmo a morte. Estar molhado e se submeter a um frio desses, causa hipotermia na certa, por isso mesmo fiquei surpreso com o quanto Light conseguiu andar antes de cair no chão, incapaz de continuar. Ele era persistente. Eu também não estava nas melhores condições, porque meus tênis e calça estavam encharcados.
Quando cheguei perto, Light estava tendo um tremor incontrolável, parecia estar convulsionando. Sua respiração estava acelerada e seu pulso estava fraco. Ele murmurava algo ininteligível e rolava os olhos de uma forma alucinada. Seu comportamento infantil por não suportar ser contrariado talvez custasse sua vida agora.
Tirei toda a sua roupa, porque nessa situação, era melhor ficar nu do que com roupas molhadas. Dois telefones celulares caíram da sua roupa, um dentro do bolso da calça e o outro devia estar escondido em algum lugar estratégico, ambos completamente inúteis depois de molhados. Tirei também o casaco que eu estava vestindo, junto com minha camisa, e abracei firmemente o corpo inacreditavelmente gelado de Light, para criar algum calor.
– Light, seu idiota. Não se atreva a ter uma parada cardíaca, isso seria tão estúpido agora.
Depois do que achei ser tempo suficiente, vesti minhas roupas de volta e fiz com que Light vestisse o impermeável amarelo. Passei um braço dele por cima dos meus ombros e carreguei uns 70% do seu peso até chegarmos ao nosso alojamento. Sabia que o calor do ambiente não seria o suficiente para aquecê-lo naquelas circunstâncias, então o levei para o banheiro e liguei o chuveiro na água quente. Tive que despi-lo mais uma vez e segurá-lo debaixo da água quente por algum tempo, até que ele começou a se firmar de pé quase sozinho. Sequei seu corpo e seus cabelos o melhor que pude e o levei para o quarto e coloquei-o na cama e o cobri.
– Não quero dividir a cama com você.
Ele conseguiu falar, depois de tudo.
– Poupe a energia e fique calado.
Na cozinha havia um estoque interminável de comida enlatada, isso fora a despensa. Comi uma porção de bananas fatiadas e carameladas enquanto escolhia algo para Light. Peguei uma lata de sopa de legumes e esquentei no fogão. Quando acabei de comer as bananas, desliguei o fogo e despejei a sopa em um prato. Aquela era a primeira vez que eu cozinhava. Parece que isso não impressionou muito o Light.
– Argh, que coisa horrível! — Ele tossiu um pouco. – Você está querendo me envenenar? Como alguém consegue errar até com comida que já vem pronta?
Acho que fiquei um pouco chateado depois disso.
– Só achei que faria bem você tomar algo quente.
Pela manhã eu estava na sala construindo uma mini Torre Eiffel com torrões de açúcar, antes de jogar calda de chocolate sobre elas e comê-las, quando Light apareceu. Não olhei para ele, mas distingui sua silhueta parada no vão da porta. Ele ainda estava nu.
– Acho que você já consegue se vestir sozinho.
– Eu... Obrigado. Por ter me salvado ontem.
O modo como ele falou foi quase como se essa tivesse sido a situação mais humilhante da sua vida.
– Não foi nada. Você está bem?
– Graças ao banho e à sopa queimada, acho que me recuperei. Vou me vestir. — Joguei bastante calda de chocolate na minha Torre Eiffel e a destruí gradualmente enquanto comia. Acho que Light estava mais calmo agora. Ele voltou vestido e com um pedaço de carne crua na mão. — Você cuidou de mim ontem, o mínimo que posso fazer é retribuir. Aqui, isso deve melhorar bastante essa equimose.
Ele ergueu meu rosto e colocou aquele pedaço gelado de carne ali. Segurei a carne contra o meu rosto, descobrindo agora que nossa briga na noite passada resultou em uma mancha escura na minha bochecha.
– Se você diz...
– Você passou a noite inteira aí, sentado desse jeito?
– Se não me engano, você disse que não queria dividir a cama, além do mais, eu estava sem sono.
– Bom, é claro que eu preferiria não dividir a cama com você, mas não é por isso que você precisa passar a noite inteira desse jeito desconfortável. Você exagerou nos trazendo aqui, devia estar desequilibrado quando decidiu isso, mesmo entendendo suas suspeitas, é loucura. Mas você me salvou. Sou seu amigo, Ryuzaki, ainda que você desconfie de mim e mesmo que eu sinta que não tive mais um momento de privacidade desde que nos conhecemos. Espero que você possa acreditar nisso um dia. — Ficamos nos olhando nos olhos por um longo tempo. Era uma batalha, sustentar o olhar significava confrontar um ao outro, Light com a sua verdade e eu com a minha desconfiança. Talvez para ele não se tratasse disso ou simplesmente não se importasse em vencer no quesito me fazer acreditar em sua sinceridade, então ele foi o primeiro a desviar o olhar e olhou para as ruínas da minha Torre Eiffel. — Você nunca come nada além dessas porcarias?
– Elas me ajudam a pensar. Light, nunca ocorreu a você que podemos sempre conversar de igual para igual?
– Ãhn? Claro que sim. Na maioria das vezes parece que pensamos na mesma velocidade, isso nos deixa confortáveis para conversar. Compreendemos o que o outro quer dizer. Não, mais do que isso. Nós sabemos o que o outro quer dizer. Chega a ser engraçado como parece que estamos na mente um do outro. Por isso trabalhamos bem juntos.
– Exato. Você deve concordar que isso é motivo o suficiente para que eu não confie no que você diz, especialmente porque você é inteligente o suficiente para me fazer acreditar em você.
A calça molhada de ontem tinha secado na minha pele e aquilo estava coçando bastante. Por algum motivo, só me senti incomodado com isso agora. Fui tomar um banho. Ainda sentia alívio por ele estar bem, não poderia deixar que nada acontecesse a ele. O senhor Yagami confiou em mim, mesmo sabendo que suspeito de seu filho. A morte de Light seria anunciada para sua esposa e filha também, além dos membros de nossa força tarefa. Não poderia correr o risco de deixar Misa Amane descobrir que essa notícia poderia não ser verdadeira. Eu também queria descobrir se essa mentira seria relevante para o atual Kira. Eu podia sentir que logo em breve eu iria descobrir algo novo e intenso sobre Light Yagami. Mas não poderia imaginar o quanto estava certo.
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