Duas Mentes e Um Risco
5 Quinto Capítulo
Notas iniciais
Nove dias de confinamento.
Astronautas submetidos ao confinamento por um período de 520 dias sem luz solar e ar fresco, em simulação de voo, são expostos ao estresse, tédio, fatiga, irritação, cansaço da companhia dos companheiros ou mesmo à depressão. São coisas que se sente em uma viagem interplanetária. Acredito que só a falta de contato com o mundo lá fora ou com pessoas não causaria em mim qualquer indício dessas reações, mas não ter com o que trabalhar e pensar, sim, estava me enlouquecendo. Eu passava a maioria dos dias sentado na sala, comendo bolo e repetindo mentalmente todas as ligações possíveis que eu havia feito sobre o caso Kira, enquanto Light ficava olhando pelas janelas por muito tempo ou sentava ao meu lado, com os olhos fitos na lareira, mas sem parecer enxergá-la realmente. Foi o tédio, desde o primeiro dia, que me fez tomar notas sobre o que vem acontecendo, mas percebi que isso será muito útil não só para passar o tempo, como também para reler depois e ficar atento a qualquer detalhe importante que possa ter passado despercebido.
Durante sete dias, Light e eu experimentamos esses sintomas, mas aí a situação mudou ontem, na cama. Agora eu tinha muito o que investigar. Observação, dedução e instinto são necessários para satisfazer alguém e otimizar o prazer sentido.
Quando Light me olhava, não havia mais raiva ou tédio, mas sim... Desejo? Acho que sim. É provável que eu esteja devolvendo esse olhar com a mesma intensidade. A questão é que o apelo sexual entre nós é um grande problema. Até que ponto isso poderia influenciar na forma como o vejo? Ele está contando com o efeito que passou a causar sobre mim, sobre meu corpo e minha mente? Não me pareceu algo premeditado, mas isso não quer dizer que não seja. Afinal, ficar íntimo de outra pessoa com quem haja identificação – no caso, tanto física quanto intelectual -, inspira confiança. É isso que você espera, Light? Que uma avalanche de química invada meu cérebro e não me deixe pensar com clareza quando você está por perto? Aqui, isolados, onde não tenho onde mais concentrar a atenção, esse é um jogo perigoso.
Estou colocando o dedo de Light no gatilho. Tive essa certeza quando ele ficou atrás da minha cadeira, tocou meus ombros e passou a língua quente e úmida num percurso circular pela minha orelha, então ergueu meu queixo o suficiente para que pudéssemos nos encarar de cabeça para baixo, ele de pé atrás de mim e eu sentado na cadeira. Ele me beijou. O encaixe dos nossos lábios daquela forma era sensual. As nossas línguas se tocavam completa e profundamente e ele massageou a minha de uma forma intensa o suficiente para que eu percebesse o quanto estava prazeroso para ele também. As mãos deles escorregaram pelo meu peito lenta e firmemente, entrando pelo cós da minha calça e acariciando o começo da minha virilha, o que me fez automaticamente erguer os quadris, mas ele não aprofundou o toque.
Só o beijo quente e demorado que trocávamos já havia potencializado minha ereção. Ele voltou a deslizar as mãos sobre meu peito e, sem que eu esperasse, uma mão dele se encaixou no volume sob minha calça e começou a deslizar sobre a extensão do meu membro endurecido por cima do jeans, apertando com vontade vez ou outra. Entre o beijo, percebi que ele passou a salivar mais e, imediatamente, imaginei ele me chupando. Apertei a mão dele contra minha ereção, extremamente excitado. Bem, um pouco mais que excitado. A sensação era de que meu órgão estava furioso e não seria derrubado facilmente sem um bom combate.
Desabotoei minha calça, baixei o zíper, mas antes que Light pudesse me tocar, me ergui só o suficiente para trocar de posição e virar a cadeira, dessa vez sentando de frente para ele. Light olhou meu pênis em riste e lambeu os lábios, em resposta, ele pulsou violentamente. Senti que meus lábios estavam molhados quando deslizei o dedo ali, olhando para Light. Nós sabíamos o que o outro desejava sem dizer uma palavra. Estávamos na mente um do outro.
Light se ajoelhou entre as minhas pernas e engoliu minha ereção sem hesitar, transferiu a sensação de ter aqueles lábios quentes e macios na minha boca, para meu pênis, salivando um pouco mais que antes. Observei por algum tempo o sobe e desce da sua nuca e os cabelos castanhos empenhados sobre o meu colo, até que ele gemeu e parou repentinamente, me olhando, ofegante. Naquele momento havia bastante desespero em nós dois.
Escorreguei da cadeira, ficando de joelhos de frente para Light. Empurrei-o contra o chão, de bruços e ele não relutou. Penetrei-o imediatamente. Ele gemeu alto o suficiente para significar dor e prazer ao mesmo tempo. Apoiei as mãos em seus ombros e mantive o tronco erguido enquanto o penetrava com muita força e rapidez. Light apertava os olhos e seu maxilar estava enrijecido, provavelmente apertando os dentes pela dor. Ele apertava também meu órgão, dentro de si, com uma potência impressionante. Acho que estava sendo realmente doloroso, mas ele aguentou firme sem qualquer protesto. Parei, em parte porque ficaria prestes gozar desse jeito e, também, porque não queria fazê-lo sentir dor.
– Estou machucando você?
– Estou bem, não precisa parar.
Toquei seu ombro e ele entendeu o que eu queria, e virou-se de frente para mim. Mesmo estando embaixo do meu corpo, eu não estava apoiando meu peso nele, coisa que fiz quando ficamos de frente um para o outro. Fiquei entre suas pernas.
– Me desculpa, eu não queria machucar você.
– Tudo bem.
Cobri seus lábios suavemente com os meus e ele me beijou. Começamos a despir um ao outro, sendo que ele tirou minha camisa primeiro, sem pressa, depois tirei a dele e começamos a abaixar a calça um do outro quase ao mesmo tempo. Quando estávamos completamente nus, lubrifiquei os dedos com minha saliva e os levei entre as pernas de Light, massageando suavemente sua entrada e, então, me posicionei para penetrá-lo novamente. Dessa vez fiz devagar. Beijei seu pescoço e seus lábios, enquanto o penetrava. Precisei ficar com o corpo parcialmente erguido para conseguir penetrá-lo, porque ele não ergueu as pernas e nem deixou que eu as erguesse, forçando-as para baixo novamente, parecendo constrangido e contrariado quando o fiz. Muito interessante que ele conservasse algum tipo de recato depois de eu invadi-lo completamente, no entanto, não foi isso que achei estranho.
Achei estranho como isso me incomodou e me fez ter consciência de que aquele corpo não me pertencia e, ainda mais extraordinário, me dei conta de que inconscientemente eu considerava que sim, que o corpo de Light Yagami me pertencia. Ele estava me passando claramente uma mensagem de que não me pertencia? Por um momento, fiquei desorientado, sem encontrar naturalidade ou ritmo para continuar. Então Light me abraçou, beijou meus lábios como se os acariciasse com os seus e desceu as mãos pelas minhas costas até chegarem às minhas nádegas, por onde me puxou contra ele. Isso fez com que eu o penetrasse profundamente e aquilo me trouxe completamente de volta para a situação. Segurei-o por baixo de suas coxas enquanto o penetrava e suas pernas ficaram parcialmente erguidas. Entendi que ele estava me fazendo uma concessão e não a desperdicei. Eu imaginei que a reação dele ao me deixar “vencer” naquele pequeno ato representaria humilhação, um gesto capaz de tirar sua dignidade, mas ele me deixou surpreso por demonstrar apenas prazer. Prazer em estar me entregando aquela pequena vitória. Algo me disse que aquele foi um grande avanço de intimidade entre nós e não estava errado em pensar dessa forma.
Próximo ao fim, Light enterrou os dedos em meus braços, me arranhando um pouco e gozou entre nossos abdomens. Com isso, acelerei as estocadas e gozei dentro dele e digo que gozei, não apenas ejaculei. Aquilo era realmente prazeroso.
Posso dizer que eu sou alguém que não dava tanta importância a sexo. Se considerarmos o ato em si, é algo que se repete, apenas um ritual sem significado que se repete e desvia a atenção de coisas importantes, que faz perder tempo. Bom, eu estava mudando minha opinião. Talvez por me sentir ligado a Light.
Ficamos deitados lado a lado ali no piso de madeira por algum tempo. Fiquei imaginando se meu neocórtex já havia começado a repelir a claridade com a qual eu sabia que estava ali com Light unicamente por não duvidar nem por um segundo que ele era um assassino. Não. A clareza da certeza e de tudo o que evidenciou essa certeza ainda estavam ali.
– Você sabe que eu estou perdendo aulas na universidade enquanto estamos aqui, não sabe?
Eu realmente não conseguia ver importância naquilo. Mas podia entender que para alguém como ele, um estudante excelente, garantir um futuro nada menos que brilhante era algo essencial. Outra coisa se passou pela minha cabeça, antes que pudesse rejeitar a ideia. Isso era um pedido implícito para que voltássemos para Kanto? Ele estaria aproveitando o momento em que, provavelmente espera alguma fragilidade da minha parte, para me convencer a libertá-lo do confinamento? Fiquei grato a mim mesmo por ter decidido não tomar conhecimento do lugar em que estávamos. Não que eu estivesse com algum tipo de fragilidade a qualquer pedido feito por Light, mas não excluo a possibilidade de que possa vir a ter.
– Creio que seu pai conseguiu justificar sua ausência por um certo período de tempo, além do mais, com as suas médias, acho que você poderia voltar apenas no próximo ano letivo e, mesmo assim, continuar na frente dos seus colegas.
Estávamos bem próximos da lareira e, depois que disse isso a ele, o que crepitou em seus olhos não foi apenas o reflexo das chamas, mas também vaidade. Ele riu, fingindo modéstia.
– É claro que não, você está sendo exagerado, Ryzaki. — Ele assumiu um ar mais sério e se virou para mim. — A verdade é que, agora, não é nada mau saber que vamos passar um tempo aqui, só nós dois. A única coisa que me incomoda é termos abandonado a investigação, depois de tudo o que meu pai e eu passamos... Depois... Depois que você acreditou que eu era o Kira. Eu só queria poder provar para você quem eu sou. E eu sou alguém que não é um assassino.
É, seus olhos mostravam sinceridade. O que não mudava nada. Talvez só aumentasse minha impressão de que ele seria capaz de fazer qualquer coisa para me fazer crer em sua inocência.
– Light, eu gostaria que você soubesse não vou mudar minha opinião baseado em sentimentos. Além do mais, o único motivo para estarmos aqui, juntos, é porque suspeito que você seja o Kira. E peço, por favor, que você não fique nervoso agora por algo que você já sabia desde o começo. Você já deveria saber que para mim, é algo pessoal, quero resolver esse caso a qualquer custo.
– Eu sei que você suspeita de mim desde o começo, mas... Mas como você pode estardessa forma com alguém carregando uma suspeita tão horrível? Você encara esse caso de uma forma tão pessoal porque o Kira desafiou você e sua inteligência, por isso você quer pegá-lo. Você o odeia. Se você não consegue dar o braço a torcer e admitir que suas deduções estavam erradas, então, então você me odeia! – Por um momento ele se atrapalhou, fechou os olhos com força e sacudiu a cabeça em um gesto de negação. Parecia que sua garganta estava obstruída e ele não conseguiria continuar a falar. – Ãhn? O que é isso?
Eu tinha passado o dedo abaixo dos olhos dele, bem próximo. Meu dedo voltou úmido. Coloquei o dedo na boca e senti que estava um pouco salgado. Lágrimas. Ele estava contendo... lágrimas? Não poderia ser encenação. Mas por que lágrimas? Por raiva? Frustração? Hum. Eu precisava me concentrar no fato de que Light era convincente desde o começo. Achei que deveria esperar para descobrir, afinal, eu precisava de mais tempo para analisar como seria o seu comportamento de Light após um tempo confinado comigo e sem conseguir eliminar as minhas suspeitas.
– Nada. Eu não odeio você, Light. Você foi a única pessoa que, na minha vida inteira, foi tão próximo, em todos os sentidos. Seria impossível não perceber essa conexão. Ryuzaki e Light estão ligados pela mente e pelo corpo. No entanto, L é inimigo de Kira. A partir do momento que assumirmos essas identidades, seremos inimigos. Isso foi uma analogia representando a atual situação em que nos encontramos, é claro. Mas a verdade é que quero a cabeça do Kira, não importa qual nome eu esteja usando.
O silêncio pesou entre nós durante um longo momento. Ele não desviou o olhar nem por um segundo, parecia estar me desafiando.
– Eu vou continuar a ajudar no caso enquanto eu estiver vivo, e não vou parar até encontrar o Kira! Vou estar trabalhando com você e ao seu lado até que tudo isso termine. Dou a minha palavra.
A luz das chamas estava enfraquecendo. Quando o fogo se apagasse, não teria mais lenha para reabastecer. Precisaríamos buscar lá fora.
– Tenho certeza que você estará.
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