Mamãe estava agachada diante da grande estátua de quartzo da Deusa em nossa sala. Incensos perfumavam o aroma do ambiente e as baixas palavras dela escoavam pelo cômodo.

–Não vamos atrapalhar sua mãe Lua. –Disse Marcos em um sussurro.

Concordei e fomos para o quarto.

Entrei em meu quarto e joguei a mochila no chão, enquanto Marcos acendia a luz.

–Pode fechar a porta? –Ele perguntou já segurando na maçaneta.

–Não. –Respondi rapidamente. Ficar com Marcos em um quarto com a porta fechada e uma cama ao lado, realmente, não seria nada seguro para uma garota que quer manter sua virgindade.

–Tudo bem. –Ele respondeu confuso. –Bom, agora que chegamos, você poderia me explicar o que aconteceu?

–Eu adoraria dizer para você, acredite, mas nem eu sei exatamente o que foi aquilo. –Falei me deitando na confortável cama.

–Mas você sabe ao menos uma parte... Não?

–Que saco Marcos! –Exclamei me levantando da cama rapidamente- Poderíamos fingir só um segundo que somos dois namorados, que acabaram de ter seu dia no ensino médio um tédio total. –Pare, pensei e continuei- Na verdade, não um tédio, e sim legal porque zoamos com os amigos e demos uns amassos na esquina depois?!

–Ahm ... Lua, não somos namorados e não zoamos com os amigos. Não temos amigos, esqueceu? –Disse Marcos, olhando para o teto a fim de buscar alguma certeza no que acabara de dizer.

–Claro... Esqueci que não somos namorados. –Bufei saindo do quarto.

Marcos veio atrás de mim me chamando pelo nome e tentando agarrar meu pulso, mas eu estava com tanta raiva que o ignorei.

–Mãe! –Gritei e interrompi minha mãe em sua meditação. Eu não me importava se estivesse estragando qualquer rito que fosse, eu estava cansada, cansada de tudo, e principalmente de ser excluída por ser uma anormal.

–O que houve, querida? –Ela disse calmamente se virando para mim e Marcos logo atrás.

–Marcos já pode ir embora? –Perguntei.

–Acho melhor ele passar a noite aqui... –Ela disse olhando desconfiada para Marcos. Claro, ela também sabia que ele enrolava com a minha cara mais do que azeitona enrola na boca de um banguelo, mas ao contrário de qualquer mãe –uma mãe normal- ela não o mandara embora por ferir meus sentimentos, e sim o convidou para passar a noite por causa de um simples pressentimento idiota. Bah que tolice...

Sai pisando firme até meu quarto e fechei a porta –com tanta força, que o barulho escoou alto.

Afundei minha cara no travesseiro e chorei novamente. Eu seria uma fraca por chorar tanto assim, ou realmente tinha motivos de sobra para entrar em uma depressão profunda e jamais sair de casa? Eu preferia não saber essa resposta.

Ouvi delicadas batidas na porta e logo soube que era mamãe.

–Entre. –Falei baixinho.

Minha mãe entrou e logo atrás dela veio sua gata nojenta, Marie. Não me pergunte por que uma gata chata receberia o nome de uma personagem fofa da Disney. Ao contrário de Marie –a branquinha e felpuda gata dos desenhos- a gata da minha mãe era magricela e de cor cinza.

–O que foi? –Perguntei encarando Marie.

–Não implique com a gata Lua. –Suspirou ela. –Marcos ficou chateado com você e... –Antes que ela pudesse terminar a frase, eu a interrompi.

–Não acredito que você fica do lado de um babaca desses! –Berrei.

–Lua, não o chame de babaca! –Mamãe aumentou o tom de voz. –Ele é seu único amigo, e todos nós sabemos que Marcos a ama, você que não o ama de verdade.

Fui dizer alguma coisa sequer –sabe, para defender meu ponto de vista- mas mamãe tinha razão e eu detestava quando isso acontecia. Marcos sempre dizia que me amava e eu nunca disse que o amara, talvez fosse isso que faltasse. Porém eu não estava certa dos meus sentimentos e resolvi deixar isso quieto.

–Tudo bem, vou falar com ele. –Bufei novamente. –Onde ele está?

–Lanchando na cozinha... Fiz uma torta de morango.

A minha “cara de bunda” logo se transformou em um sorriso esfomeado. Eu amava aquela torta e estava morrendo de fome.

Sai em disparado para a cozinha e me deparei com um Marcos triste, comendo silenciosamente.

–Oi. –Eu disse me aproximando.

–Lua! –Ele exclamou e se levantou da cadeira e foi logo me abraçar. –Me desculpe, eu não quis te ofender.

–Não tem o que se desculpar, eu... Eu só estou um pouco emotiva hoje. –Retribui o abraço –Você não teve culpa de nada, bobão.

–Eu te amo, bobona. –Marcos riu me apertando.

–Bom, a torta está boa? –Perguntei já pegando um pedaço.

–Está ótima como sempre, tem gosto de...

–Infância! –Eu o completei. Rimos.

–Isso! –Falou ele enfiando mais um pedaço em sua boca.

Ficamos conversando sobre coisas aleatórias de adolescentes –como livros, filmes, séries e essas coisas- quando minha mãe entrou na cozinha com um monte de alhos em suas mãos. Eu e Marcos olhamos para ela com olhares duvidosos.

–O que é isso? –Perguntei de boca cheia.

–Alhos, querida.

–Tá, eu sei. Mas por que?

–Coloque em seus pescoços um colar desses. –Falou mamãe já colocando um em mim e em Marcos.

–Como foi o seu primeiro dia de aula? –Ela perguntou querendo soar normal. Encolhi ao lembrar das "maritacas infernais".

–Foi normal. –Respondi colocando o prato na pia.

–Você não sentiu nada de errado hoje? –Ela fixou os seus olhos em mim, mas eu desviei o meu olhar para poder pensar se realmente queria lhe contar o que acontecera.

–Mais ou menos... –Respondi embolando as palavras.

–Lua... –Ela me pressionou.

–Na verdade, acho que sim. Como se estivesse sendo vigiada. –Logo disse. Isso era o máximo de informação que eu poderia lhe dar agora, eu não queria a deixar preocupada.

–Certo... –Ela suspirou e continuou. –Tive um pressentimento muito forte de que algo está por vir, e que está já perto de nós. Foi como se alguém estivesse com você, alguém que não foi chamado.

Engoli seco e olhei para Marcos, ele estava sério e pela primeira vez desejei que estivéssemos fazendo sexo ao invés de ter aquela conversa anormal com a minha mãe.

–Eu quero que você use este colar.

–Você só pode estar de brincadeira! –Exclamei. –Não vou andar com um alho por aí.

–E você Marcos? –Ela perguntou.

–Bom, senhora Huttsen, isso seria muito estranho. –Respondeu Marcos rindo.

–Tudo bem, eu então farei um colar para você de Olho de Tigre, -Ela falou e eu revirei os olhos. –Isso é importante Lua!

–Está bem. –Respondi levantando as mãos fazendo um sinal de que me rendi. –Andarei com essa pedra sei lá o que é e tomarei cuidado, agora se você me der licença, eu tomarei meu banho de “purificação”. –Falei ironicamente indo para o banheiro.

Fechei a porta e tirei minha roupa. Observei no longo espelho as curvas do meu corpo — eu não era mais uma criança, tinha corpo de mulher- e percebi o tanto que eu era branca.

–Branca como uma Lua. –Sussurrei para o espelho.

Enchi a banheira com água quente e fui logo adentrar. A água morna tocava minha pele me dando uma sensação de aconchego, me fazendo então relaxar.

Peguei o sabonete de sal grosso –mamãe insistia que tomássemos banhos de sal grosso, todos os dias- e fui passando por mim. Eu estava ensaboando os meus braços quando senti um toque em minhas costas, era familiar e leve. Tive medo de olhar para trás e me deparar com algum rosto familiar. O carinho foi ficando mais atrevido e espalhou-se por todo o meu corpo, se expandindo da minha cintura até os meus seios. Fechei os olhos, aquilo era delicioso, e implorei para –quem quer que fosse- continuar.

Estava gemendo aos toques sinceros, me deliciando com aquele momento até algo sussurrar em meus ouvidos.

–Abigail, venha para mim...

Abri meus olhos e acordei do transe, assustada logo virei para trás e o que eu vira não passava de vapor d’água.

Me levantei apressada da banheira e rapidamente me enrolei na toalha, como se alguém estivesse me espionando.

Olhei novamente no espelho e tive pena da minha sanidade, todos aqueles anos estudando bruxaria, enfim me levaram à loucura.

Notas finais
E ai galerinhaaaa, acham que Lua está louca ou que há realmente algo vindo por ai??