Duas Luas
4 Sonhos
Notas iniciais
Fui caminhando do banheiro até meu quarto. Estava fechando a porta até que Marcos me envolveu com seus braços por trás.
–Você está louco? -Falei saindo do seu abraço sufocante.
–Você é gostosa... Ainda mais de toalha. -Falou ele rindo.
–Cai fora daqui! -Gritei e apontei em direção a porta.
Vesti um pijama "super coberto" e fui para o meu altar. Iria começar uma breve oração para a Deusa, mas estava revoltada demais para agradecer por mais um dia, estava cansada de pedir uma vida normal e não ser atendida. O que adiantava toda esquisitice, sendo que nada iria para melhor?
Notei que lágrimas iriam cair e sacudi a cabeça, eu não queria chorar novamente. Fui pentear meus cabelos -agora molhados- quando senti aquela sensação novamente, a presença de alguém. Fiquei paralisada ao escutar os passos logo atrás de mim. Sem esperar que aquilo me tocasse novamente -ou que eu tivesse um ataque de loucura- eu sai correndo, deixando a escova cair no chão.
–O que foi isso, Lua? -Perguntou mamãe, que estava sentada ao lado de Marcos conversando.
–Nada. -Respondi bufando. Sem olhar para trás caminhei em direção a eles.
A sala estava iluminada e da cor parda de sempre. A mesa de madeira ao centro que -na minha opinião- ocupava muito espaço. O sofá de quadro lugares mais perto da porta, com flores ao lado e uma pequena mesa de centro repleta de pequenas pedras e pentagramas.
–E ai, do que estavam falando? -Perguntei me jogando no sofá ao lado de Marcos.
–Sobre você. -Mamãe disse sorrindo. Passei a mão na cabeça, fiz uma careta e afundei a cara nas almofadas. Que tédio falar sobre mim...
Já estava na hora de dormir e estava decidido, Marcos iria dormir na sala e eu em meu quarto. Tudo estava certo. Apaguei a luz e fui me deitar, tranquila por -finalmente- o dia ter chegado ao fim. Fechei os meus olhos e estava realmente com sono... Ótimo, assim dormiria rapidinho. Dessa vez não fiz nenhuma oração de boa noite, estava decepcionada demais para ao menos dizer que estava vivendo.
O campo estava lotado de tulipas amarelas, borboletas voavam por cima das flores e realizavam suas tarefas matinais. Eu não vi meu rosto, apenas a roupa. Estava de longos vestidos de época, era castanho e tinha listras azuis, típico de uma antiga camponesa. Fui caminhando entre as flores através daquele corpo que não era meu. Comecei por pequenos passos e fui aumentando a velocidade, apesar daquela manhã maravilhosa, algo estava errado e eu sentia isso. Vi uma casinha -um tanto distante- logo a frente e fui diminuindo os passos, havia alguns homens batendo na porta e eu realmente não aprovara aqulo. Mudei de direção, estava suada, cansada, esgotada, queria ir para casa, tudo o que eu queria era a minha casa, mas eu sabia que não deveria voltar. Corria, corria, e tudo fora ficando preto. -Abigail... Abigail.... — vozes me chamavam mas eu não parava para escuta-las. Eu precisava correr, correr...
Acordei assustada com o barulho de uma porta batendo. Levantei-me da cama e passei a mão na minha nuca, estava toda suada. Que sonho terrível, minha Deusa! Será um castigo por não ter orado?
Fui colocando os pés no chão, quando Marcos entra no quarto segurando um tipo de bandeja. Estava com um cheiro delicioso.
–Que fofo... Você trouxe café na cama para mim? -Perguntei a ele sorrindo.
–Sim,sim. Hoje você irá comer pão de nozes que sua mãe fez e tomar o seu preferido, e o de costume, chá de maçã com canela. -Ele colocou a bandeja sob meu colo e se sentou ao meu lado. -Vamos, coma.
–Obrigada. -Agradeci enfiando um pedaço de pão na minha boca.
Eu não tinha dúvidas quanto ao gosto, mamãe sempre acertava e tudo ficava absurdamente delicioso. O chá estava quente e doce, como sempre, gostoso. Tomei o último gole e ele estava mais doce do que todos os outros.
Me arrumei para a escola, como fazia todas as manhãs. Fui penteando os meus curtos cabelos lentamente, torcendo para o tempo parar e eu não ter que ir para o inferno das maritacas. Realmente, querer não é poder.
–Boa aula meninos, que a Grande Mãe ilumine vocês. -Mãe se despediu.
–Blessed be. -Respondi .Marcos a agradeceu e acenou com a mão direita.
Fomos caminhando a rua em silêncio, nenhuma palavra ousaria ser dita, pois estávamos todos apreensivos com mais um dia de holocausto. Chegando à portaria, Marcos me abraçou e me desejou boa sorte.
–Obrigada. -Agradeci gentilmente.
Fui subindo as escadas olhando para o chão, não queria ver aquelas pessoas malucas por religião me chamando de estranha, já bastava eu me sentindo assim e não precisava de absolutamente ninguém para me lembrar disso. Fui aumentando os passos até me trombar com ele.
Livros e folhas caíram no chão junto a mim. Coloquei a mão na minha cabeça que estava doendo. Qual seria o mané que trombou em mim desse jeito?
–Desculpe, senhorita. -Falou uma voz máscula me levantando. Fui caminhando com os olhos até seu rosto. Ah, seu rosto...Ele era doce e sereno, como a mais gostosa brisa do mar, seus olhos eram tão azuis que, novamente eu poderia fazer uma comparação com o oceano. Ele sorria calmamente para mim e seus dentes eram tão brancos que eu poderia ficar cega. Não tive noção do meu falatório mental e devo ter ficado igual uma besta contemplando aquela beleza.
–Tudo bem? -Ele perguntou soltando a mão dos meus braços e por um momento desejei que ele continuasse a me tocar.
–Sim. –Consegui responder.
–Então... -Falou ele catando os papéis. -Você é do primeiro ano?
–Sou sim. -Falei sorrindo.
–Ótimo, nos vemos por aí. -Ele saiu andando. O que ele quis dizer com isso? Que iria me procurar?? Aijesusamado que homem gostoso. Espera... Homem? Sim, estava na cara que ele era mais velho, já tinha até uma barba super sexy.
Fui indo para sala e me sentei na minha carteira. Ouvi as maritacas fazendo qualquer tipo de zoação que fosse -eu não prestei muita atenção- e abaixei a cabeça. Que meninas chatas.
O sinal tocou e notei um movimento na sala, as meninas falavam que a professora de educação cristã saiu, fora demitida ou sei lá o que. Elas estavam animadas demais, parecendo um bando de malucas dizendo "ai já viram o novo professor de educação cristã, ele é muito lindo!". De fato, eu não estava nem um pouco animada para conhecer o tal professor, que por sinal devia andar por aí com uma Bíblia e pregando o preconceito com os pagãos.
–Bom dia classe. -A voz era familiar e levantei a minha cabeça para ver quem estava dizendo.
Eu deveria ter mantido a cabeça baixa, sumir ou simplesmente sair correndo, pois o meu novo professor de educação cristã era o cara gato da escada. Jesusdocéu eu acabara de trocar olhares com o meu professor... De educação cristã! De fato, eu deveria ter ficado em casa.
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