Capitulo 96

(Cesar desperta-se e vira para o lado onde está Victoria. Dá-lhe beijinhos ao pescoço para que ela desperte, mas já estava acordada. Estranhamente, ela rejeita as caricias).

Cesar (admira-se) – Então, meu amor? O que se passa? Estás aborrecida comigo?

Victoria (vira-se para ele e abraça-o) – Não. Mas… também não estou para mimos hoje. Entende, amor, descobrir tantas coisas terríveis é de tirar a vontade de qualquer um.

Cesar (pensa e tem uma ideia) –Meu bem, o que achas de um carro antigo, azul marinho?

Victoria (não percebe) – Como? Do que estás a falar, Cesar? Carro? Para quê?

Cesar – É que eu li numa revista, que estava na minha sala, que carros antigos são ótimos em casamentos. Ficaria lindo a condizer com o teu vestido… quando fores sair do carro e…

Victoria (sorri) – Meu amor, já estás a pensar nos preparativos? Mas ainda nem data temos.

Cesar – Eu já prearei todos os papeis, juntamente com o divórcio meu e da Paula… é só escolher o dia e o lugar… ah, e dizer “sim”.

Victoria (abraça-o forte) – Só tu mesmo para me fazeres sorrir em momentos destes.

Cesar – Ouve, é finito. Ninguém a pode denunciar para que ela não vos denuncie… para quê alimentar este ódio? Amor meu, ela vai seguir sozinha e nós viveremos felizes eternamente.

Victoria (encosta-lhe a cabeça sobre o peito desnudo, que buscava arrefecer-se no verão) – Assim espero, Cesar. Já não aguento mais tantas noticias, tantas revelações e…

Cesar (beija-lhe a boca para impedi-la de seguir) – Basta com este assunto. Amo-te, é o que importa, o nosso amor. Ainda me lembro do nosso primeiro beijo naquele salão de hotel.

Victoria (rir-se) – Roubado. Agarraste-me nos braços e ali tomaste-me em beijos vadios.

Cesar – O beijo mais doce que já provei nesta vida. (Malandro) E tu bem gostaste que eu sei… por isso cometeste tal loucura… oh céus, que tenho eu nestes lábios capazes de enlouquecer?

Victoria (dá-lhe um maroto tapa) – Parvinho! Tu é que ficaste enlouquecido pelas minhas curvas. Querias agarrar-me todo o tempo, beijar-me e fazer maldades.

Cesar – Queria? Não, não, senhorita sorriso… (sussurra) Ainda quero. (Põe-se sobre ela e desata a beijá-la, prendendo-a com as mãos. Victoria, num ato de brincadeira, faz-se de difícil e tenta esgueirar-se mas acaba por abraçá-lo e responder os beijos) Está quente não é? Aí, este verão! Acho que para refrescar era bom tirarmos as roupas. Que achas?

Victoria (sorri e senta-se) – Não, meu bem… eu não tenho muitos ânimos. Apenas quero os teus carinhos e meiguices, para esta menina órfã, cuja vida fora uma mentira.

Cesar – Olhemos pelo lado bom: se não fosse a minha tia, não terias os teus filhos, eu não teria os meus e a Paula estaria sozinha e amargurada, pobre dela.

Victoria – Então, porquê? Porquê estaria a Paula sozinha e amargurada? E o Frederico?

Cesar – Não ias conhecê-lo e é claro que tu e eu já estaríamos casados desde a adolescência.

Victoria (sorri e abraça-o) – É mesmo? Já íamos nascer apaixonados um pelo outro?

Cesar – Já nasceríamos casados por Deus, minha linda. Victoria, acho que sempre te amei mesmo antes de te conhecer, e sabes do que mais? Sempre vou te amar.

(Beijam-se esquecidos das tristezas que os rodeavam arduamente. Paula já está desperta, escorada na vidraça da varanda ela via o acordar dos passarinhos naquele fim de verão. Suspira e acaricia o ventre coberto por um manto de seda e rendas brancas, que era a sua camisola, por sinal, a favorita do seu Frederico que ainda dormia descansado).

Paula (a pensar) – Deus meu, que fiz eu para merecer tantas desgraças? As vezes penso que me castigais por já ter sabido dos meus pecados futuros que hoje são presentes. É pecado errar por amor, mesmo que este seja a fonte da minha felicidade? Talvez o sexo fora do casamento e o adultério sejam os meus crimes diante de vós, mas trocar de lugar com a Victoria me é injusto chamar erro. Só assim recuperei a minha irmã e encontrei o amor verdadeiro… ah! Como ia me esquecer desta pequenina criaturinha que levo em mim? Dos meus crimes fluíram verdades e amor. Oh, Deus, criador de todo o bem: não castigueis os bons, castigais os maus que têm responsabilidade neste vosso tribunal.

Frederico (acorda com o frecho de luz nos olhos que vinha da vidraça. Levanta-se e vai até ela abraçando-a por trás. Beija-lhe o rosto) – Em que pensas, minha vida?

Paula (responde-lhe o beijo) – Em nada de mais, meu bem. Vais trabalhar hoje?

Frederico – Tem de ser, querida. Há muito trabalho atrasado que tenho deixado de lado por estes problemas. Apesar de não me tranquilizar por ti agora que já sabes toda a verdade.

Paula – Eu já me cansei de chorar e sofrer, Frederico. Não, não! Já basta, meu Deus. (Vai até a cama e senta-se) Quero esquecer destes males e pensar nos bens que vieram deles.

Frederico – Como o nosso filho. (Senta-se ao lado dela) Já pensaste nos nomes?

Paula (sorri) – Não… vamos deixar para que quando nasça decidamos isto.

Frederico – Bem, mas eu já tenho as minhas preferências. Se for menina, quero que se chame Ofélia e se for menino quero que se chame Álvaro, Alberto ou Ricardo.

Paula (abraça-o) – Os heterónimos de Fernando Pessoa. Adoro que penses assim, meu bem. (Olha para ele) Frederico, não vás trabalhar hoje, meu amor… sinto algo ruim.

Frederico (fica nervoso) – Ruim? Porquê? Dói-te algo no corpo? Onde? Vamos já ao médico e…

Paula – Não… não é físico, é mais um pressentimento, entendes? Fica comigo hoje, só hoje!

Frederico (levanta-se) – Oh, meu amor, não posso. preciso mesmo de trabalhar com urgência.

Paula (abraça-o) – Então leva-me contigo que tenho medo, Frederico, hoje tenho medo.

Frederico (beija-lhe a testa) – Não tenhas, amor. Estás bem acompanhada pela Victoria.

Paula – Ainda assim tenho medo. Não sei, não sei o que é. Fica, fica só hoje, por favor!

(Frederico fica indeciso com aquele súbito pedido, apesar de ser Sábado, havia trabalho acumulado que ele precisava resolver imediatamente, mas se calhar os temores da Paula não são assim tão subestimáveis. Dolores não dormira durante toda a noite. Está enfadada, raivosa, quer matá-las e talvez o faça se tiver oportunidade. Patrícia chega à sala).

Patrícia – Então, não dormiste esta noite ou dormiste na sala?

Dolores – Como eu posso dormir sabendo que mais uma vez aquelas malditas vão vencer?

Patrícia – Chorar e zangar-se não vai ajudar, Dolores. Temos que agir e rápido.

Dolores – Somos só nós as duas contra toda aquela casa. Por isso estou desanimada.

Patrícia (senta-se no sofá) – Estamos em três. A Debora vai ajudar-nos, Dolores.

Dolores – Não, não acredito mais nisso. Esta pitinha vai dar trabalho. Do jeito que está-se a borrar de medo é bem capaz de ir às autoridades para entregar-se a si e a nós.

Patrícia – Achas que ela teria coragem disso? Não, Dolores… ela é burra mas nem tanto.

Dolores – Não gosto de deixar fios soltos, isto enerva-me. Temos de sumir com ela.

Patrícia (assusta-se) – Como? Vais pô-la na lista junto com a Paula e a Victoria?

Dolores – Exatamente. Na vida existem testemunhas perigosas das nossas maldades. Nina, Debora. (Rir-se) Mas os mortos, não falam.

(Paula desce as escadas e encontra Victoria, muito entusiasmada a folhear uma revista de noivas. Aproxima-se dela e senta-se ao seu lado para ver os vestidos).

Victoria – Olha, minha irmã! (Mostra-lhe a revista) Não são fabulosos? Já ando a escolher.

Paula (pega na revista com um brilho nos olhos) – São de facto. Mas… já a escolher o vestido?

Victoria – Pois claro. Cesar e eu já conversamos sobre o lugar onde sucederá a cerimonia, os trajes, os convidados, a decoração, a musica, os veículos… (suspira) Oh, sim e a Lua de mel.

Paula (entristece-lhe o semblante) – Oh! Já falaram mesmo de tudo isso? ele parece bem alegre com a ideia de voltar a casar-se e ainda mais contigo… o seu verdadeiro amor.

Victoria (percebe a tristeza) – O que tens, mana? Porquê ficaste assim com esse ar triste?

Paula – Bem… tu e o Cesar já andam tão adiantados enquanto que eu e o Frederico… ainda não tocou no assunto a fundo. Não o vejo tão animado como o Cesar parece estar.

Victoria – Aí, Paula, fui casada com este homem durante vinte anos e posso dizer que ele é mesmo assim distraído para estes assuntos. Não te preocupes que ele te ama.

Paula (anima-se) – Achas mesmo que ele quer casar-se comigo e que só está desligado?

Victoria – Não só acho como estou certa de que não tarda ele vir com a aliança, a subir pelas trepadeiras da varanda, com uma espada numa mão e na outra a pena.

Paula (rir-se pela referencia ao poeta) – É Pessoa, não Camões! Mas até que seria romântico.

(Cesar sai do escritório e Frederico vem a descer as escadas com uma pasta. Encontram-se a meio e desviam os olhares fazendo-se notar o interesse por aquela visão de deusas na sala).

Cesar – A única imagem majestosamente parecida com esta visão é de um mundo paralelo onde o por do sol e o nascer do luar aparecem ao mesmo tempo e juntos.

Frederico – Minha Paula e seus cabelos doirados como os raios do sol da manhã.

Cesar – Minha Victoria e seus cabelos negros como o anoitecer de verão, cujos reflexos são estrelas da meia noite e os olhos são como as duas luas de Marte, únicas e raras.

Victoria (levanta-se e vai até ele) – Meu Cesar, Marte és tu e eu a tua Vénus. (Beija-o).

Paula (recebe Frederico que senta-se no sofá) – Sou dia para ti e faço-me trevas quando estás longe, meu amor. (Abraça-o e ele beija-a docemente).

(Entra a criada Tereza com uma carta na mão, de envelope informal, mas soava um recado).

Teresa (vai até onde estão reunidos) – Senhores, um miúdo trouxe este envelope e disse-me que entregasse à uma das senhoras. Ele não disse nome, apenas entregou e fugiu.

Victoria (pega a carta. Está apreensiva) – Podes sair, Teresa. (Ela sai) Que será isto?

Paula (curiosa, levanta-se) – Ora, abre-o de uma vez por todas… (Sente um frio na espinha).

Victoria (abre o envelope) – “Muitas voltas dou e sempre padeço-me no mesmo lugar. Já tentei separá-las uma vez, em vida, mas foi-me falhado… maldita hora em que reencontraram-se, mas a minha vingança é paciente. Se não vos posso atingir em direto, então busco as vossas maiores fraquezas. O que é uma mãe sem os seus filhos? Se querem que eles vivam, é melhor correrem, queridas. Adoro crianças! Mal passadas com vinagre ficam divinas, mas para não ter uma indigestão, prefiro atirá-las às raposas da floresta que rodeia Sintra. Que fabulosa refeição, não acham? Tenho pena pelos meus sobrinhos netos, mas há que se fazer sacrifícios quando se tem objetivos, não é verdade? Venham rápido, senhoras, antes que as vossas crias paguem pelo ódio que vos tenho. Ah e não sejam tontas de trazerem a policia, não queremos que um acidente aconteça com os miúdos, pois não?! Com carinho: Dolores”.

Paula (cai sentada. Desata a chorar) – Meus filhos… não, não! Meus filhos, ela vai matá-los!

Victoria (descai nos braços de Cesar) – Meus meninos… meus filhinhos… não, não, meu Deus!

(Será Dolores capaz de machucar o sangue do próprio sangue ou só fará mal aos filhos da Victoria? Paula e Victoria terão coragem de a enfrentar?).

FIM (CAP 96)