Capitulo 84

(Frederico entra no quarto de Victoria e encontra-a a dormir, aproxima-se para acordá-la).

Frederico – Bom dia, querida! Levanta-te que já são quase onze da manhã.

Victoria (ainda cansada e com sono) – Aí, Frederico… deixa-me dormir, vá lá.

Frederico – Mas o que é que tens? Nunca dormes até esta hora… estás doente?

Victoria (disfarça) – Sim… eu não me sinto nada bem. Deixa-me descansar…

Frederico – Espera que eu vou chamar um médico para ver o que tens.

Victoria (levanta-se rápido) – Não… deixa estar… só estou mal disposta, só isso… vai passar.

Frederico (desconfia) – Hum… está bem, então. Fica ai a descansar. Se precisar, chama! (Sai do quarto e recebe uma mensagem anônima no telemóvel) “A sua esposa está a enganá-lo mais uma vez. Se quer ver com os seus próprios olhos, vigie-a durante a noite”. Mas que raio de brincadeira é esta? (Pensa no sono da Victoria) Se bem que… hum! Vou averiguar. ~

(Em Lisboa, Dolores, Nina, Debora e Patrícia estão juntas).

Patrícia – Pronto! Já está feito… mandei-lhe a mensagem agora é só esperar a bomba explodir.

Nina – Quando ele a vir com o Cesar, tudo estará acabado para ela.

Dolores – A desgraçada não terá outra alternativa senão voltar a para sua casa no México.

Debora – E o Cesar ficará livre para mim. Mas… tenho medo. E se ela morrer também?

Dolores (rir-se) – Melhor ainda. Mas vaso ruim não quebra com facilidade.

Patrícia – É claro que ela vai voltar para o México. Frederico não a vai permitir manter-se na casa, os filhos do Cesar nunca a vão aceitar e ele não vai aguentar viver as escondidas.

Nina – Tem tudo para dar certo… e eu vou poder revelar ao Cesar que sou sua filha, por fim.

(Dolores franze as sobrancelhas… já sabe que também vai ter que se livrar da Nina, visto que ninguém pode saber que ela na verdade é a filha da Olga que Dolores jogou ao lixo. Enquanto isso, Cristina vai ao quarto do pai).

Cristina – Vá lá, papá! É tarde já… hoje não trabalhas? Levanta-te… anda!

Cesar – Oh, filhinha do meu coração, papá está muito cansadinho e hoje não trabalha.

Cristina (deita-se ao lado dele para o incomodar) – Porquê?

Cesar (boceja) – Querida, deixa o papá descansar, vá lá, amor meu.

Cristina – Estou com saudades da mamã… queria tanto que ela estivesse cá connosco.

Cesar (vira-se e abraça-a) – Eu também tenho saudades da mamã, meu amor.

Cristina – Mentiroso… tu amas a Victoria. maldita seja que se não fosse por ela minha mãe ainda cá estaria connosco. Odeio-a, papá, odeio-a!

Cesar – Oh, filha! Não digas isso. A Victoria nunca iria querer isso para a tua mãe e não é verdade que não sinto a falta dela. Sabes o quanto eu a admirava e o quanto lhe tinha carinho.

Cristina – Promete-me que nunca mais vais te casar. Eu não quero ter uma madrasta.

Cesar (levanta-se) – Filha, que me estás a dizer? Que raio de pedido é este?

Cristina – Aquela mulher não vai ocupar o lugar da minha mãe nesta casa. Não aceito.

Cesar – Cristina, filha, não digas isso assim, meu amor. A Victoria gosta tanto de ti…

Cristina – Se aquela mulher meter os pés nesta casa, o Francisco e eu sairemos porta a fora.

Cesar – Cristina! (Ela levanta-se e sai do quarto deixando Cesar apreensivo).

(A noite cai e a madrugada chega. Victoria prepara-se e sai após receber a ligação do Cesar a dizer-lhe que estava no hotel Mira Sintra. Frederico segue-a sorrateiramente. Estaciona e vê Victoria entrar no hotel, fica a espreita a ver se descobria quem era o seu amante mas não encontra ninguém. Victoria entra no quarto combinado e corre para a cama onde está Cesar).

Cesar (a beijá-la com sede de amor) – Porquê tanta demora, minha vida?

Victoria (abraçando-se a ele e tirando-lhe a gravata) – Tu não sabes o que é estar preso num calabouço como aquele. Guardado por um rei malvado e um dragão fiel.

Cesar (agarra-a e põe-na sobre ele) – Então da próxima vez eu vou lá com a minha espada e a minha armadura de cavaleiro corajoso salvar-te, minha princesa!

Victoria (rir-se, presa nos seus braços) – Sou demasiado velha para “princesa”.

Cesar – Velha? Meu bem, vinte aninhos não é velhice. (A brincar com ela).

Victoria – Não sejas parvo! Tenho quarenta anos, meu bem. Estás com elogios por interesse?

Cesar (faz-se de desentendido) – Eu? Imagina se sou capaz de algo tão malicioso.

Victoria (ansiosa) – Beija-me logo e tira-me esta roupa! (Começam-se os beijos, enquanto isso, Frederico entra no hotel e vai até a receção falar com o rececionista).

Frederico – Olá! Ah… boa noite ou bom dia… não sei. Olhe, eu preciso saber em que quarto entrou aquela senhora de cabelos negros e saia azul marinho que acaba de subir.

Rececionista – Lamento imensamente, meu senhor, mas isto é proibido.

Frederico – Ouça, rapaz, ela é minha esposa. Preciso saber em que quarto reside, se faz favor.

Rececionista – Então, é sua esposa e o senhor não sabe em que quarto hospedou-se?

Frederico – Está bem, faremos o seguinte: dou-lhe mil euros para me dar a chave do quarto.

Rececionista – Bem… quem diz mil, diz dois mil… isto é, se o senhor quer mesmo a chave.

Frederico (inerva-se) – Tome lá, e dê-me logo esta chave! (Pega-a e sobe para o quarto, está nervoso e apreensivo. Não sente ciúmes mas tem medo de ter o orgulho ferido por uma simples mulher. Chega ao quarto, é um momento de muita tensão. Ele abre a porta e os vê, nus sob lençóis a rolar pela cama. Ouve os sons do prazer e observa as posições. É como se o destino quisesse dizer: “querias tanto ver uma traição… ai tens! A diferença é que esta é real.” Desconfiou de quem deveria confiar, prendeu quem deveria livrar. Igual quando viu Paula e Rodrigo só que agora não é nenhum mal entendido, é a verdade mais clara que poderia ter. Sai do quarto sem fazer alardes. Desiste, simplesmente. Vencido pelo cansaço, volta para casa e encontra Telmo a dar voltas pela sala, estava preocupado e aflito).

Telmo – Então meu senhor, que se sucedeu para sair a esta hora da noite?

Frederico – Basta, Telmo, desisto! Chega desta situação. Estou saturado… hoje fui visitado pelo fantasma do passado, o do presente e o do futuro. O do passado mostrou-me como fui tolo e injusto toda a minha vida. O do presente mostra que sigo sendo enganado por ela e por mim mesmo e o do futuro mostrou que não há esforços que mudem esta situação. Victoria nunca será como a Paula. Nem pior e nem melhor, apenas vê o mundo com outros olhos. (Sobe para o quarto e Telmo, assustado, vai atrás dele. Frederico começa a fazer as malas).

Telmo (inquieto) – Para onde vai, meu senhor? E a esta hora?

Frederico – Paula morreu porque queria ir para o México viver das lembranças, eu agora vou para ficar. Voltemos para casa e tu podes vir connosco se quiseres.

Telmo – Mas, e D. Maria Victoria? Que será dela? Ainda nem se divorciaram.

Frederico (pega na gaveta uns papéis e assina-os) – Pronto, basta que ela assine. Estes são os papéis do divórcio. Já os tinha há muito tempo. Quis guardá-los para o caso dela mudar de ideia, mas já não é preciso. Dá-lhe isto e diz-lhe que assine. Estaremos divorciados.

Telmo – Como farei para os dar, meu senhor? Eu não vou com vós?

Frederico – Tu e os miúdos irão mais logo. Eu preciso saber se a casa já está pronta. Dentro de uma semana mais ou menos, eu mando-te noticias.

Telmo – Mas… como fará para ir assim… durante a madrugada? Espere até amanhã!

Frederico – Não. Não a quero ver nunca mais. A linha aérea de Lisboa está sempre apostos. Peço um voo imediato e estarei lá amanhã atarde. Cuida dos meus filhos e diz à Victoria tudo o que se passou, que eu já sei de tudo e que ela está livre para fazer o que quiser.

Telmo – Se esta é a sua decisão, respeitá-la-ei, meu senhor. Vá, eu tenho bom pressentimento desta viagem que fará. Boa sorte e que tudo corra bem por lá.

(Frederico pega nas malas e sai porta a fora. Telmo fica desconsolado e dececionado com a traição da Victoria, que não era bem uma traição. Enquanto isso, Cesar e Victoria, permanecem abraçadinhos na cama, com as pernas entrelaçadas).

Cesar – Meu amor, porquê não fugimos daqui… para longe? Onde ninguém nos vai incomodar.

Victoria – É uma boa ideia mas e não vou abandonar os meus filhos outra vez.

Cesar – Eu entendo… mas não era para sempre, era só por uns dias, meu bem…

Victoria – Não sei, Cesar… logo se vê! Por enquanto, vamos ficar assim que é gostoso.

Cesar (põe-se sobre ela e beija-lhe o pescoço) – Ah, é gostoso? (Rir-se e começa a beijá-la).

(O Sol nasce e Victoria entra em casa, outra vez, sorrateiramente. Telmo volta a surpreende-la).

Telmo – Então, a noite com D. Cesar foi muito agradável? (Rir-se) Imagino que sim.

Victoria – Não digas parvoíces, Telmo. Tu não sabes o que dizes e nem o podes provar.

Telmo – Por favor, D. Victoria… o senhor Frederico viu-a ontem nos braços de D. Cesar.

Victoria (aterra-se) – Mentira tua! Onde está o Frederico? Onde?

Telmo – Não, não! Não vale a pena gritar e fazer escândalos que ele foi-se esta madrugada para o México. Em uma semana leva os filhos e eu também me vou.

Victoria – Para o México? Mas assim tão repentinamente? O que será de mim?

Telmo (entende-lhe os papéis) – Aqui tem os papéis do divorcio, senhora Victoria. Assine!

Victoria (pega-os incrédula) – Mas… como isto é possível se só foi marcado para terça?

Telmo – Não importa! Assine-os e ficará livre para ir com D. Cesar.

Victoria – Mas… mas e os meus filhos, Telmo? Como fico diante deles?

Telmo – Isto eu já não sei. Terá de falar com eles para explicar o que se passa… assine!

Victoria (reticente assina o seu tratado de liberdade) – Eu posso ficar com esta casa?

Telmo – Até onde eu sei, vossa senhoria não tem fortuna própria e o casamento foi com separação de bens. A casa e tudo que há nela, pertence somente à D. Frederico.

Victoria (aflita) – Mas… mas então eu vou para a rua? Estou arruinada é isso? Telmo, tem piedade de mim que não tenho para onde ir. Estou na ruina, ajuda-me!

Telmo – Minha senhora, procure por D. Cesar que ele a vai dar teto e comida… até luxo. Agora que é divorciada pode casar-se com ele quando quiserem. Eu peço-lhe que retire-se desta casa o quanto antes para que tudo esteja nos conformes.

Paloma (vem a descer e ouve tudo) – Como assim a minha mãe tem de se ir embora?

Heitor (entra na sala) – O que houve? Porquê outra vez expulsam a nossa mãe de casa?

FIM (CAPITULO 84)