Capitulo 85

Telmo (desconfortável com a inquietação dos filhos de Victoria) – Fala a senhora ou falo eu?

Victoria (aflita e desesperada) – Telmo, por favor… não! Eu imploro-te.

Santiago (entra na sala) – Bom dia… que se está a passar aqui?

Heitor – A mãe foi expulsa de casa outra vez… mas não nos explicam o porquê.

Paloma (preocupada) – Digam logo… andem com isso que já me estou a afligir.

Victoria – O vosso pai e eu já assinamos o divórcio. Telmo disse que devo-me ir embora.

Heitor – Divórcio? Mas… mas eu pensei que vocês já tinham se reconciliado e…

Santiago – Mãe, diz-nos, se faz favor, porquê vocês se divorciaram?

Victoria – Nós nunca nos reconciliamos como um casal… apenas como amigos. Filhos, eu já não amo o vosso pai e nem ele à mim. O divórcio já estava marcado há tempos.

Paloma – Não pode ser… aposto que o tal Cesar tem envolvimento nisto não é?

Victoria – Eu o amo, meus filhos. Cesar é a minha felicidade e o vosso pai sabia disso.

Heitor – Onde está o meu pai? Que venha explicar tudo como deve de ser.

Telmo –Lamento, filhos, mas o vosso pai saiu em viagem nesta madrugada. Foi para o México e disse que manda noticias até o fim desta semana para que todos nós possamos ir também.

Santiago – Como assim voltar para o México? E a minha mãe também?

Telmo – Sinto em dizer que a vossa mãe não regressará connosco. Pretende ficar com D. Cesar.

Paloma (vai até ela) – Mas… mamãe… vais-nos deixar outra vez e por causa deste homem?

Victoria – Filhos, acreditem, a ultima coisa que quero é vocês longe de mim. Mas o vosso pai decidiu levar-vos de volta ao México e eu não vos posso seguir. Mas sempre estarei aqui para quando precisarem da mamã. Eu amo-vos imenso. (Desata a chorar).

Heitor (corre e abraça-a) – Nós entendemos, mãe… eu não vou ficar longe de ti.

Santiago (abraça-a também) – Exato, mamã… o pai pode querer levar-nos, mas ficaremos.

Paloma (segue os irmãos) – Chega de tantos sacrifícios, mãe. Nós ficaremos contigo.

Victoria (a abraçá-los e a beijá-los) – Meus amores, é impossível. Vocês devem ficar com o vosso pai, porque eu não tenho como sustentar-vos.

Santiago – De quê estás a falar, mãe? Como assim não tens dinheiro?

Victoria – Casamento com separação de bens. Eu gastei tudo o que tinha com futilidades. Nem esta casa pode ser minha, meus filhos. Estou a contar com o amor do Cesar para me manter.

Heitor – Não, mãe. Esta casa é nossa por direito e nós te damo-la. É tua para podermos viver contigo como deve de ser. Não queremos viver sem ti, mamãe.

Victoria – Meus bebés, mesmo que a mãe fique com esta casa, não tenho como vos manter.

Paloma – Somos adultos, mãe. Arranjamos trabalhos e vamos nos sustentar.

Santiago – Sim. Se o pai é covarde o suficiente para nos abandonar, daremos nosso jeito.

Victoria – Não, filhos… o vosso pai é um homem açoitado pela vida. Ele merece o vosso amor.

Telmo – A vossa mãe tem razão, miúdos. Ele vos ama e não é que vos queira separar da vossa mãe, é que quer voltar para casa e levar os filhos com ele.

Heitor – Esta agora é nossa casa e ele que se aguente mas da nossa mãe não nos separa.

Victoria – E… vão aceitar o meu relacionamento com o Cesar?

Santiago – Se for para a tua felicidade mãe, aceitá-lo-emos como um segundo pai.

Victoria (emocionada) – Não sabem o quão feliz eu estou com este apoio que me dão.

Paloma – Assim será. Agora acho que deves procurar esse senhor e pô-lo a saber de tudo.

Victoria – Sim… eu vou e volto mais tarde. Amo-vos imenso, meus amores. (Victoria vai a procura do Cesar que ainda está no hotel onde passaram a noite. Ela entra e corre para os seus braços aflita) Descobriram-nos, meu amor. Frederico já sabe de tudo.

(Cesar toma-a nos braços e dá-lhe beijinhos para acalmá-la. Victoria conta-lhe tudo o que aconteceu. Conta-lhe sobre a viagem do Frederico e a compreensão dos filhos).

Cesar (pega-a no colo. Está feliz e emocionado) – Então, já és divorciada? És livre para mim.

Victoria – Livre não sou, pois estou presa ao teu amor. Sou tua, Cesar, só tua.

Cesar (pega no bolso do paletó uma caixinha de veludo) – Devolveste-me o anel e aqui o tens de regresso. (Põe-no ao dedo) Bem, ah… temos que escolher o lugar e fazer os convites…

Victoria – Espera, meu amor. (Rir-se) Estás muito excitado com tudo isto, não é? Bom, primeiro temos que anunciar o nosso casamento, falar com os teus filhos, comprar o meu vestido, tratar das flores, procurar o juiz, escolher o lugar, comprar as alianças… oh e a lua-de-mel!

Cesar (rir-se para o ar) – Podemos ir para um lugar paradisíaco porque eu adoro praias.

Victoria – As Maldivas? Uma ilha só nossa, meu bem. (Alegre, salta nos seus braços) .

Cesar – Finalmente seremos livres para viver o nosso amor sem culpa. Victoria, eu sou o homem mais feliz do mundo nestes dois últimos dias.

Victoria – A tempestade já passou, meu bem. Vês que o céu já quase não está nublado? Mas... (desanima) Eu não quero ir viver naquela casa com a Dolores.

Cesar – Sim… eu vou ver o que faço para resolver isto, meu amor. O que importa é que eu te amo, que tu me amas e que finalmente vamos viver felizes para sempre.

Victoria – Vamos fazer amor dia e noite. (Sorri seduzindo-o) Vais-te cansar.

Cesar (atira-a para a cama) – Eu te canso primeiro… mas não te deixo sair desta cama.

Victoria (a tirar a roupa) – Vem, vem meu bem! Vamos comemorar a ‘grande!

(E que comemoração! Parecia que quando um estava perto do outro, as roupas não se aguentavam no corpo e eram obrigadas a desnudarem-nos. Mal se tinha esfriado e já se pegava fogo sobre os lençóis outra vez. Frederico chega ao México. Dado o fuso-horário, seis horas menos, ainda o sol está a nascer enquanto que em Lisboa já é quase hora do almoço. Vai para a sua casa e encontra lá uma mansão diferente da antiga. Claro, como a outra havia ruido no incendio, era natural terem construído uma totalmente diferente. Ainda um pouco escuro, com os raios do sol a pontar, vê-se bem a arquitetura do pomposo palacete. De estrutura retangular, com influencias modernistas, possuía uma única torre, lembrava-lhe um castelo, mas não era assim tão vistosa e tão alta. Quase que como um anexo à mansão, a torre era pouco mais alta, quiçá dois andares no máximo. Telhado rosado e paredes brancas. Janelas e portas de madeira avermelhada. Vidraças coloridas, lembravam uma basílica de franciscanos. Olha para a janela da torre e nota uma peculiaridade. As portas da varandinha, já coberta por uma trepadeira de gardénias, estavam abertas e pontava-se o balançar duma cortina amarelinha de rendas. Vê-se um pássaro azul entrar no quarto da torre, este não sai. Curioso, Frederico entra na casa. Havia uma rica decoração do romantismo modernizada, de móveis em branco e marfim. Espelhos grandes e pomposos, decoravam as paredes nuas de retratos… o que mais chamava a atenção, era a enorme lareira que possuía bibelôs de porcelana, mas nenhum retrato. Tapeçarias finas, trazidas da Roménia, encantavam-lhe os olhos. Uma escadaria, no meio da sala, de corrimão em madeira e degraus de mármore acinzentado, com um tapete avermelhado, levava-o até os quartos do segundo andar, mas não à torre. Lá em cima, ele avista uma outra escadaria e fazia voltas para levá-lo ao quarto da torre. Esta, tinha corrimão de ferro banhado em ouro, os degraus não eram do mármore frio, eram de pedra escorregadia, forrada por um tapete de tom amarelado com detalhes doirados. As paredes arredondadas eram encrustadas em mármore branco com flores e ninfas em relevo. As imagens pareciam convidá-lo a entrar. A porta do quarto estava entreaberta. Era branca, possuía uma maçaneta dourada e roliça, não era retangular, e sim arredondada no topo. Ele finalmente entra no quarto. Encantado, sente um perfume conhecido, o quarto era claro e formoso, aconchegante e majestoso. Perfeito para ser o aposento duma rainha. No meio do quarto, iluminada pelos raios do sol que entravam pela varandinha, havia uma enorme cama, com quatro colunas que a revestia por cortinados nada transparentes. Estes eram de renda dourada e forro rosado. A sombra faz ver que ali repousava alguém, mas quem? Ele aproxima-se reticente, perguntando-se se estaria na casa certa. A medida que ia se aproximando o odor do perfume conhecido ia aumentando. Hesita, mas faz… ele abre as cortinas e tem uma visão escandalosa, algo que só seria possível num verdadeiro conto de fadas onde a donzela morre e só pode ser despertada pelo seu príncipe. Ouvir: Rita – Preciso de Ti. Sim, caros leitores. Era ela, repousava em sono profundo, vestida numa camisola cor-de-rosa com fitas e laços, coberta até a cintura por um lençol de plumas e uma das mãos sobre o busto. A pele rosada e os lábios molhados não deixavam duvida de morte. Aqueles reluzentes fios doirados estavam macios e formosos como sempre. Sua respiração era quase impercetível, era próprio de uma dama nunca ressonar. Frederico está em pânico. Pensa em internar-se num manicómio para deixar de ter visões e miragens. Leva a mão ao seu rosto macio e toca-o com a mais pura delicadeza que só um cavaleiro de malta era digno de ter. Sente o seu calor, mas ela não despertaria com um tocar de pele, o beijo do amor verdadeiro era o único capaz de a despertar como sempre foi. Incrédulo, debruça-se e beija-lhe os lábios saborosos. Aquele beijo foi como um impacto de vida que afastou as nuvens acinzentadas que nublavam o céu de Portugal. Paula era vida, Paula era luz e a sua ausência era a escuridão. Ela abre os olhos acastanhados e brilhosos).

Paula (sorri e sussurra) – Frederico? Meu amor, és tu? Que fazes aqui?

Frederico (a chorar, toma-a nos braços e aperta-a forte enquanto soluça) – Voltaste… estás viva, minha Ofélia! (Beija-lhe os lábios apaixonado e louco) Mas… não é possível!

Paula (confusa e preocupada com aquele choro) – Viva? Sim… sempre estive, ora porquê não?

Frederico – Mas… o avião… explodiu no ar contigo e… não morreste?

Paula (senta-se) – Avião? Mas que avião? Oh, Frederico, estou sem perceber. Eu nem se quer vim de avião. Eu disse-te que detestava-os. Vim num transatlântico luxuoso que…

Frederico – Navio? Vieste de… navio? Um mês leva-se para chegar em terra firme… por isso não deste noticias, por isso ficamos tanto tempo enganados. (Segura-a nos dois braços) Paula, os teus filhos, o Cesar, a Victoria, o Telmo… eu… todos choramos a tua morte em vão.

Paula (preocupada e aflita) – Morte? Pensaram que eu havia morrido neste acidente de avião?

Frederico – Mas não morreste, Ofélia do meu amor. É isso o que importa. Tinha tantas saudades, meu amor… eu estava a ficar louco, demente sem ti. (Frederico deita-a sobre a cama e beija-a como nunca antes. Paula deixa-se levar por aqueles beijos que lhe eram fogo no coração arrefecido de tristeza e abandono. Devagar, tira-lhe o paletó e desata-lhe a gravata cor de céu. Frederico abre-lhe os laços que prendiam a camisola e aprecia-lhe o corpinho pequenino que tanta falta lhe fazia. Estava quente e arrepiado por aquelas mãos que o tocavam lentamente. Os beijinhos que recebia no pescoço estremecia-a fazendo-a gemer naqueles braços que tanto amor levavam. Desnudos, os corpos aqueciam-se no novo leito que acostumava-se aquele calor carinhoso de amantes inocentes. Naquela luz matinal não havia magoas, mentiras ou traições. Só havia amor do bom e do puro. Outra vez, beijava-lhe as maõzinhas pequeninas que o envolviam num abraço cálido e travesso. Os beijos eram insaciáveis, os suspiros eram contínuos, e os gemidos eram de amor. Paula entrelaçava-lhe as pernas brancas para que se lhe pudesse dar prazer e amor. Oh que saudade. Divorciado e livre era o cavalheiro que a beijava, era seu de todo, faltava ela. Nunca mais choros, nunca mais lamurias. Rolavam no leito apaixonados e livres aquele casal mitológico e travesso).

FIM (CAPITULO 85)