Duas Faces - Continuação
34 Capitulo 79
Capitulo 79
(Rodrigo levanta-se rapidamente. Ele não compreende porque o Frederico estaria ali. Frederico olha-os precipitadamente a odiá-los. Julga e condena Paula só com o olhar).
Frederico – Minha mulher e o homem que eu julgava ser meu amigo… traíram-me!
Paula (chora desesperada) – Não, Frederico. Ouve-me, pelas dores de Jesus Cristo, ouve-me!
Frederico (grita) – Ouvir? Que verdades ouvirão meus ouvidos que já não viram meus olhos?
Paula (corre e abraça-o) – Não é o que pensas, meu amor! Eu seria incapaz de…
Frederico (empurra-a) – De me trair? De mentir? Enganar-me? Já suficiente o fizeste, Paula!
Rodrigo – Paula, o que faz o Frederico neste quarto? Ele não te abandonou?
Frederico (enfurecido) – Então foi isto o que lhe disseste para o ter como amante?
Paula (a chorar) – Não, não, Frederico! Eu não fiz nada disso… deixa-me falar…
Frederico (grita) – Não! Para quê? Para continuares a mentir? Para tentares me manipular? Não, Paula… não sou tão imbecil para descrer nos meus olhos.
Paula – Nem tudo o que vemos é a verdade, meu amor! Deixa-me falar, Frederico!
(Telmo entra no quarto, aterrado, ao ouvir os gritos… quando entra tem a visão da tragédia).
Telmo (abraça-se à Paula) – Minha senhora, que se passa aqui?
Frederico – Que se passa é que a tua formosa e digníssima senhora traiu-me com o Rodrigo!
Paula (a chorar) – Não, Telmo… eu juro que não fiz nada de mal!
Telmo – Mas é claro que não fez. Confio cegamente em si e sei que isto é um mal entendido.
Frederico (rir-se soberbamente) – Ela estava a esfregar-se nele sobre a cama, Telmo!
Rodrigo – Nós vamos nos casar, Frederico! Eu sei que ela não é a tua esposa.
Frederico (dá-lhe um soco) – Cala-te, desgraçado! Ela é minha mulher… ou pelo menos era.
Telmo – Senhor Rodrigo, é melhor que se vá embora. Já demasiado problema causou.
Paula (desesperada) – Não, Telmo. Ele tem de ficar para dizer a verdade ao Frederico.
Frederico – Não! Eu recuso-me a ouvir mais mentiras. Fiquem juntos e sejam felizes.
Paula – Meu amor. Esposo, esposo da minha alma, ficai por quem sois! Marido da minha alma, pelo nosso amor te peço, pelas memorias da nossa felicidade antiga, pelas saudades de tanto amor e tanta ventura, oh! Não, não me negues este ultimo favor.
Rodrigo – Que encanto, que sedução! Como lhe hei de resistir!
Paula (ajoelhada) – Meu marido, meu amor, meu Frederico!
Rodrigo – Ah! … E eu tão cego já tomava para mim! … Céu e inferno! Abra-se esta porta…. (investe para fora com ímpeto; mas para de repente) Não: o que é dito é dito. (Retira-se).
Frederico (frio e endurecido de odio) – Este homem está aqui, senhora! Que lhe quereis?
Paula – Oh, que ar, que tom, que modo esse com que me falas! …
Frederico – (Enternecendo-se) Paula… (Caindo em si e gravemente) Senhora, como quereis que vos diga? Não está tudo dito entre nós?
Paula – Tudo! Quem sabe? Eu parece-me que não. Olha: eu sei… mas não daríamos nós, com demasiada precipitação, uma fé tão cega, uma crença tão implícita a essas misteriosas palavras de romeiro, um vagabundo… um homem enfim que ninguém conhece? Pois diz…
Frederico – Oh! Paula, Paula! Não tenho mais nada que te dizer. Crê-me, que to juro na presença de Deus: a nossa união, o nosso amor é impossível.
Telmo (levantando a voz em aspereza) – É impossível, já agora… e sempre o devia de ser.
Paula (virando-se para Telmo) – Também tu, Telmo?
Frederico — Paula… senhora! Todas estas coisas são já indignas de nós. Até ontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens, estava na boa fé e seguridade de nossas consciências. Essa acabou. Para nós já não há senão estas mortalhas, e a sepultura de um claustro. A resolução que tomávamos é a única possível; e já não há que voltar atras… Quem nos diria… oh incompreensíveis mistérios de Deus! Ânimo, e ponhamos os olhos naquela cruz! Pela ultima vez neste mundo, querida… (Vai para a abraçar e recua) Adeus! Adeus! (Foge)
Paula – Ouve, espera: uma só, uma só palavra, Frederico, meu amor! (Cai ao chão quase morta de tristeza) Oh Deus, Senhor meu! Pois já, já? Nem mais um instante, meu Deus? Ampara-me tu, que já me abandonaram todos este mundo, e já não posso com as minhas desgraças… e estou feita em espetáculo de dor e de espanto para o Céu e para a Terra! Tomai, Senhor, tomai tudo… agora que mais quereis de mim, Senhor?
Telmo (erguendo-a do chão que mais parecia erguê-la do sangue de amor) – Deixa de prantos, senhora minha. Ainda mais por este mal feitor que não lhe quer bem. Basta uma travessura dos seus olhos para que se lhe serre o coração de ferro. Até parece-me… não sei! Que se calhar esta visão foi-lhe mais que um pretexto para deixá-la.
Paula (olha-o espantada e agoniada) – Tu achas isso, meu Telmo?
Telmo – Já estava inconsolado da mentira que lhe contou sobre ocupar o lugar de dona Maria Victoria. Ele só voltou para si porque sentiu-se culpado da sua doença.
Paula (chora) – Não, Telmo! Não pode ser isso… não… (desmaia nos braços de Telmo).
(Patrícia está com Debora e Dolores. As três estão muito nervosas).
Dolores (caminha dum lado para o outro) – Achas que a estas horas ele já os apanhou?
Patrícia – Acho que sim… faz mais de uma hora que estive com o Rodrigo.
Debora (aos nervos) – E se não deu certo? E se o Rodrigo falou de ti… ah não! Assim saberão que foi tudo uma armadilha nossa. Não vai dar certo! Estamos perdidas…
Dolores (segura-a pelos braços e dá-lhe uma sacudidela) – Acalma-te mulher!
Patrícia – Dolores, vai-te embora. Se aconteceu o planeado, então a Victoria ou o Cesar já devem de saber. Ligas assim que tiveres noticias que eu fico cá com a Debora.
(Dolores concorda e retira-se. Patrícia tenta manter a calma mas está aflita).
Patrícia – Tem que ter dado certo! Paula e Victoria têm de estar destruídas em breve.
(Frederico dirige como um louco. Está cegado pelo ciúme. Fecha os olhos e sempre lhe vem a cena à cabeça. A sua Ofélia tão amada nos braços de outro… do seu rival. Para o carro na beira dum penhasco de onde se via as ondas violentas do oceano a quebrarem-se nas rochas pontudas. A beira do precipício seria um espetáculo de morte inesquecível e talvez belo embora trágico. Ele aproxima-se e ajoelha-se a chorar e abre os braços. Está morto em vida. Enquanto isso, Victoria chega ao hotel onde Paula está hospedada).
Victoria (assustada) – Telmo, vim assim que me chamaste. Que tem a Paula de tão grave? (Telmo olha para a cama onde ela está deitada, Victoria desespera-se e corre até ela). Que houve para ela estar assim como uma morta?
Telmo – Uma tragédia, minha senhora, uma tragédia. Não sei como nem porque, o senhor Rodrigo tomou conhecimento da vossa troca. Precipitadamente acredito que dona Maria Paula estivesse livre para que ele a pudesse conquistar. Veio, não sei como, encontrar este quarto e este hotel. Adentrou sem que dona Maria Paula o pudesse impedir e agarrou-a em romance falso… D. Frederico, por desgraça do destino, entrou no quarto e encontrou uma falsa traição. A senhora o conhece mais que suficiente para saber o que vem a seguir.
Victoria (revolta-se) – Miserável… maldito! Quantas vezes mais ele fará isso com ela?
Paula (desperta-se) – Frederico… não vai embora… ouvi-me! (Vê que é Victoria e levanta-se).
Victoria – Paula, ouve com atenção as minhas palavras: esta é a ultima vez que choras por aquele mentecapto que não te quer bem. Ele não te ouve nem te crê, não é? Pois bem! Então agora ele há de implorar o teu perdão. Não tarda refletir o erro e voltar atrás e é ai que tu lhe dás o desprezo merecido. Vai-te para longe e deixa-o padecer na culpa e na saudade.
Paula – Desprezá-lo? Impossível. Não há desprezo quando há amor… muito amor.
Telmo – Dona Maria Victoria tem razão, minha senhora. Faça-o crer que vossa majestade não tem culpa e que portanto não há que implorar o seu perdão inexistente.
Paula (levanta-se da cama a enxugar as lágrimas) – Sabem que mais? Têm razão. Já demasiado chorei por este homem que me não valoriza. Vou-me para longe… vou ao México.
Telmo – Não! Tão longe não, minha rica mulher. Vá para Londres ou Alemanha se quiser.
Paula – Estes países ainda que muito belos não trazem lembranças nostálgicas como o México. Lá, onde vivi puramente o meu amor com Frederico.
(As janelas abrem-se com o vento e uma brisa gelada faz estremecer-lhes a espinha ao Telmo e à Victoria, mas Paula não sente nada e continua a arrumar as malas).
Victoria (abraça-a) – Paula, pelo o que mais amas, não vás nesse avião com destino ao México.
Paula – Eu vou e não há quem me possa impedir. (Segue com as malas e Telmo sai do quarto).
Victoria (sai para fora) – Onde vais, tu, Telmo?
Telmo – Procurar D. Frederico. Ela não pode ir ao México… não quero que vá.
Victoria – Mas assim, contradizes tido o que já lhe falamos sobre esquecê-lo.
Telmo – Eu tenho um mal pressagio desta viagem, um agouro que não me deixa em paz. Eu vou busca-lo… ela não pode entrar naquele avião. (Vai embora ).
(Victoria vai para entrar no quarto mas o telemóvel toca e é Cesar. Ela vai ao fundo do corredor apara atendê-lo).
Cesar – Onde estás, Victoria? Porquê saíste sem me dizer nada?
Victoria – É que… eu… eu estou em Sintra com os meus filhos. Não sei a que horas volto.
Cesar – Mas está tudo bem? Pareces nervosa, meu amor. Passa-se algo?
Victoria – Não… está tudo bem, querido amor. Eu ligo-te mais logo. Amo-te, minha vida!
(Volta para o quarto e já não encontra Paula. Aproveitou-se da sua ausência para escapar. Victoria desespera-se e vai a procura dela. Ao chegar no hall do hotel, vê Paula entrar num táxi com as malas. Pega no carro e dirige atras dela. Enquanto isso Telmo encontra Frederico, que vinha caminhando em direção ao hotel, estava desnorteado).
Telmo – Meu senhor, ainda bem que o encontro… venha! Tem de a impedir.
Frederico (sem perceber) – Impedir quem? Do quê estás a falar, Telmo?
Telmo – Dona Maria Paula… vai-se embora de Portugal. Não pode deixá-la ir.
(Frederico apura-se com Telmo para chegar ao hotel. Victoria perde Paula de vista e atrasa-se com o transito, mas sabe onde fica o aeroporto e segue para lá. Telmo e Frederico sobem para o quarto, avulsos de desespero mas já não encontram nenhuma das duas. Victoria consegue chegar ao aeroporto mas infelizmente o único voo para o México já havia decolado, Victoria, sem perder as esperanças, procura por Paula em todo o aeroporto mas já não a encontra. Parada diante dum janelão enorme, onde as pessoas apreciavam a decolagem dos aviões, ela vê no céu a tragédia e a desgraça escritas numa explosão e solta um grito escandaloso que ecoa por todo o salão. Paula está morta!).
FIM (CAPITULO 79)
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