Duas Faces - Continuação
23 Capitulo 68
Capitulo 68
Paula (solta-se dele e corre para um canto do quarto como um ratinho assustado) – Frederico, não fiz por mal… não era para magoar-te… eu… eu fiz por amor, por…
Frederico – Por amor, Paula? Por amor? Então, mas o teu amor só dura um ano?
Paula (a chorar e a tremer) – Não… mas era só o que eu podia ter e dar… um ano!
Frederico (vai até ela e agarra-a pelos dois braços) – Então tu me ias deixar com uma mulher sem amor após cumprir um ano? (atira-a à cama) Vê-se o quanto me amas.
Paula (a soluçar) – Não me trates assim… eu dei-te todo o meu amor, entreguei-me à ti.
Frederico – Por diversão? É claro! Divertias-te por um ano e depois deixavas-me.
Paula (grita) – Era só o que eu podia fazer! Apaixonei-me por ti naquela viagem… eu estava tão cansada daquela vida sem amor, sem cor… eu encontrei em ti o que precisava e quis, nem que por um ano fosse, viver esta vida de fantasia e sonho ao lado do único, por que és, o único amor da minha vida. Frederico, nem pelo meu marido senti o que sinto por ti.
Frederico (incrédulo e frio) – Mentira tua! Já não te creio em nada. Tu e a Victoria são mesmo uma o espelho da outra. Duas mentirosas traidoras. Não quero mais saber de ti.
Paula (desesperada agarra no seu braço) – Não, meu amor! Pelas dores de Jesus Cristo, não me abandones. (Chora e implora) Estou sozinha neste mundo… meus filhos abandonaram-me, meu marido ama a Victoria… Frederico, só em ti posso achar carinho e proteção… amor!
Frederico – Vês como és mentirosa e manipuladora? Já te esqueceste do Telmo? O teu braço direito, a tua sombra… ele também era um Judas às minhas costas.
Paula (chora desesperada) – Frederico, não me abandones, és o meu único amor… eu amo-te!
Frederico (agarra-a nos braços e olha-a com lagrimas nos olhos. Ouvir: Rita – Preciso de Ti) – E tu tens a noção do quanto eu te amo? Do quanto desejo passar a vida contigo? Eu te venerava, pus-te num altar e tu foste a minha desgraça, o meu fim. (olha-a desejoso) Como eu queria beijar-te os lábios, tomar-te nos braços outra vez, que raio de poder tens sobre mim?
Paula (olha-o com amor e acaricia-lhe o rosto fazendo-o derreter-se) – E esta noite? Esta em que fizemos amor outra vez? (sussurra) Quando tocaste-me a pele… beijaste-me… teus lábios quentes percorrendo o meu corpo entre aqueles lençóis cúmplices do nosso amor proibido. (A medida que ela ia falando ele ia desapertando e apenas abraçando, com os olhos fechados) Lembras do dia em que nos beijamos pela primeira vez? Achas que aquilo era mentira? Lembras das vezes em que estivemos no jardim do castelo e eu fazia-te meiguices? Lembras do sabor dos meus beijos? Do calor dos nossos corpos quando unidos? Achas que é mentira?
Frederico (enfeitiça-se e acaricia-lhe os ombros) – Ofélia… minha linda Ofélia!
Paula (estende as mãos ao seu pescoço e encosta a cabeça no seu peito) – Meu Fernando Pessoa… meu bebezinho… poeta dos meus sonhos… (olha-o) Amo-te!
(Enquanto isso, em Sintra, Victoria sai da casa de banho a enxugar-se, percebe o olhar pensativo de Cesar que segue os seus movimentos e preocupa-se)
Victoria (aproxima-se dele) – Que foi, meu amor? Por quê estás assim? (vai beijá-lo)
Cesar (rejeita o beijo) – Victoria… quem é o homem da foto?
Victoria (amedronta-se) – Por quê estás a perguntar-me isto?
Cesar (começa-se a inervar) – Victoria, diz-me já! Quem é o homem da foto?
Victoria (abaixa o olhar, senta-se na cama) – É… é alguém que já está no meu passador e…
Cesar (inerva-se) – Quem é ele, Victoria? Diz-me já ou nunca mais saberás de mim.
Victoria (desespera-se) – Não… não, meu amor, isso é que não! Chama-se Lorenzo Bernini e fomos amantes antes de eu te conhecer. Mas… mas depois de ti… eu juro que não houve mais nada entre nós… porque eu só te amo à ti!
Cesar – Mentiste-me! Juraste-me que não o conhecias e era tudo mentira tua… (grita) Eu expulsei a minha tia de casa porque acreditei nas tuas mentiras. Meu Deus! Como pude ser tão ingénuo? Deixei-me cegar pela sedução dum demónio… mentirosa, manipuladora!
Victoria (desata a chorar) – Não, não, meu amor! Eu menti e está errado, mas foi… foi para proteger o nosso amor. Olha, não fazia sentido eu permitir que um passado, algo que já não existe, pudesse destruir o que de mais bonito nós temos. (aproxima-se dele) Meu amor, minha vida… eu não menti por malicia… menti porque não me parecia importante dizer que…
Cesar (afasta-se dela) – Porquê tinhas uma foto dele na gaveta, então?
Victoria – Eu não sei… deve ter vindo com as minhas coisas sem que eu percebesse… não te esqueças que eu estava ainda com o Frederico e que por isso guardava a foto dum amante.
Cesar (fica pensativo) – Como conheceste a Paula? Conta-me tudo, já!
Victoria – Está bem… conto-te como correram as coisas e depois decides.
(Victoria conta à Cesar como tudo aconteceu. Ele ouve e quase não acredita, de tão fantasiosa que era, apesar de ser a verdade. Como duas mulheres podem ser tão iguais fisicamente?)
Cesar – Mas… como pode ser isso? Vocês nem são irmãs, se quer!
Victoria – Eu sei, mas assim é a realidade. Paula só aceitou porque já o conhecia mas a ideia foi minha, o plano foi meu. Eu fiz por amor à ti e com uma intenção completamente egoísta. Afastá-la de ti para roubar-te dela. Ainda bem que ela estava com a mesma intenção. Por mim… ela que fique com o Frederico e que te deixe livre para casar-nos.
Cesar (ouvir: Laura – Viveme con Alejandro. Cesar cede àquelas explicações e abraça-a) – Minha Senhorita Sorriso… eu perdoo-te as mentiras. O meu amor é maior do que qualquer coisa neste mundo e eu sei que tu também me amas.
(Os filhos da Paula vão ao Ramalhete a procura de Cesar e deparam-se com os filhos da Victoria, que estão na sala de estar a olhar para o grande retrato da sua mãe. Cristina e Francisco reconhecem logo a mulher do retrato e percebem que os filhos foram unidos. Naquela sala estão os filhos dos dois casais, frente a frente pela primeira vez)
Paloma (ao vê-los, levanta-se) – Quem são vocês?
Cristina – Somos os filhos da Paula… a mulher que ocupou o lugar da mãe de vocês.
Francisco – Estamos a procura do nosso pai… ele veio para procurar por ela.
Heitor – Nós não sabemos do vosso pai e nem da nossa mãe… expulsamo-la!
Santiago – Ficamos tão irados com aquela revelação que… não a podíamos ver à frente.
Francisco – Sabemos como é! Pedimos que a nossa mãe saísse de casa também.
Cristina – Mas… sinto-me tão culpada! É minha mãe e… não sei se fizemos certo.
Paloma (indigna-se) – É verdade! Mas nenhuma delas pensou em nós na hora de trocar.
Francisco – Por isso mesmo. Se calhar somos tão maus filhos que elas abandonaram-nos.
Heitor – Não, não se culpem! Elas são adultas e conscientes. Nenhuma mãe, que se prese, é capaz de trocar de família. Isto não existe. Elas são más!
Santiago – Exato! Elas escolheram-se à si mesmas… deixaram-nos por outros homens.
Francisco – Mas… mas era só por um ano e foi porque elas apaixonaram-se.
Cristina – Olhem… não queremos justificar… só entender. Eu conheço a minha mãe desde sempre e posso garantir-vos: ela nunca, nunca pensou só nela. Não dava um passo sem ver por nós antes. A minha mãe sempre foi só a minha mãe, ela nunca teve um tempo para ela. Não sei como é a Victoria, mas perguntem-se: elas estavam felizes? Elas foram felizes durante estes meses de mentiras? Este homem é a felicidade dela? Eu quero que ela seja feliz?
Heitor – Que estão a dizer? Que devemos sentir pena e perdoá-las?
Francisco – E tu, que estás a dizer? Que não amas a tua mãe o suficiente para a perdoar?
Paloma – Elas abandonaram-nos para viver uma aventurazinha estupida.
Santiago – Tiraram férias dos próprios filhos. Isto, uma boa mãe não faz.
Cristina – Sabem de uma coisa? A julgar pela vossa soberba, percebo um dos motivos para a Victoria trocar de família.
Paloma – Então nós somos soberbos? E vocês são perfeitos? Então porquê a Paula trocou?
Francisco – Vocês são tão cegos pelo rancor. Elas não trocaram de filhos, trocaram de maridos.
Heitor – Não são ninguém para nos julgar. Que eu saiba, também expulsaram a vossa mãe.
Cristina – Não, nós só pedimos que se fosse embora mas vamos pedir que volte.
Santiago – Então vão perdoá-la apesar de tudo?
Francisco – Os erros da nossa mãe não diminuem o seu amor por nós e nem o nosso amor por ela. Se querem um conselho: façam o mesmo à vossa mãe. É boa mulher.
Paloma – Paula que é uma boa mulher. (suspira) A mãe perfeita!
Heitor – Sim…. tão atenciosa, adorável, centrada, rigorosa, carinhosa e boazinha.
Cristina – E Victoria? Liberal, amorosa, engraçada, experiente, divertida…
Santiago – Até parece que o destino as mandou para nós… cada uma é como gostamos.
(Em Lisboa, Frederico ainda está no quarto com Paula. O desejo de esquecer as mentiras e de lançá-la à cama era sufocante, mas o odio fê-lo despertar antes que caísse em tentação)
Frederico (solta-a) – Adeus… Paula! Obrigado por estes meses de ignorante amor.
Paula (ajoelha-se diante dele) – Não, meu adorado amor! Não me deixes, eu imploro-te, pelo nosso amor to peço, pelas lágrimas de nossa senhora, não me abandones! Tem piedade da minha alma, do meu coração que se está a partir. Amo-te tanto que sou capaz de morrer.
Frederico – Não blasfeme diante de nossa senhora! Não as-de morrer, isso eu garanto-te.
Paula – Vais me matar de desgosto… morro por este desamor. Frederico, és a única coisa boa que ainda me resta. Eu deixei tudo por ti e tu não deixas o teu orgulho por mim?
Frederico – Paula, não me cobres algo que não te devo. (Retira-se deixando-a largada ao chão, aos prantos, desesperada por um beijo seu, um beijo de misericórdia e amor)
(Em Sintra, Victoria e Cesar já estavam deitados, quase a adormecer um nos braços do outro. Eles dormiriam aquecidos pelo calor do seu amor que era forte como um navio de ferro, mas Paula e Frederico dormirão separados, congelados pela frieza do orgulho e da traição não perdoada. Os sacrifícios de Paula foram insuficientes para que houvesse absolvimento humano e divino. O que para Paula foi a tragédia e o fim, para Victoria fora um novo começo. Estava agora livre para viver o seu amor ao lado de Cesar que a correspondia mais apaixonado)
Victoria – Que faremos agora, meu amor? Para onde iremos?
Cesar – Eu possuo uma propriedade nos Olivais. É uma casa que pertencera à minha avó e que me ficou de herança. É confortável mas antiga.
Victoria (sorri enquanto aperta-se junto ao seu peito) – É perfeita para nós.
Cesar (sorri e dá-lhe um beijo cálido) – Chamá-la-ei de “A Toca”!
Victoria (arrepia-se) – Como n’Os Maias de Eça de Queirós? Este era o nome da casa onde Carlos e Maria Eduarda viveram o seu romance incestuoso.
FIM (CAPITULO 68)
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