Duas Faces - Continuação
24 Capitulo 69
Notas iniciais
Capitulo 69
(Em Sintra, os filhos ainda estão reunidos na sala)
Cristina – Bem… se calhar já nos vamos embora! É tarde já.
Francisco (levantando-se) – Sim, já é hora de ir-nos. Mas é melhor ficar num hotel esta noite.
Cristina – Também acho. Bem, foi um prazer conhecer-vos… somos quase meio irmãos. (sorri)
Paloma – Olhem, porquê não passam cá a noite? Estamos sozinhos em casa.
Santiago – Sim, era fixe que ficassem connosco, assim conhecíamo-nos melhor.
Heitor – Por favor, fiquem. Nem o vosso pai, nem a nossa mãe hão de voltar esta noite.
Cristina – Se insistem… não vejo malicia. Ficamos, então.
(No dia seguinte, Cesar e Victoria regressam à Lisboa, mas desta vez, vão para a casa dos Olivais, ao chegarem à casa, deparam-se com Paula, descaída na porta a chorar, quase desmaiada. Cesar, rapidamente, dá a chave à Victoria que abre a porta e entra, abrindo as cortinas, quando vira-se vê Cesar adentrando com Paula nos braços. Trazia-a de tal forma que fê-la sentir-se, pela primeira vez, inferior à Paula… sentiu-se uma amante. Uma ponta de ciúme veio como uma alfinetada cheia de insegurança diante daquele marido e mulher ali)
Cesar (leva-a para o quarto e deita-a sobre a cama, carinhosamente) – Pronto, querida.
Victoria (observa sem nenhum gosto e aproxima-se dela) – Paula, que tens?
Paula (a delirar. Perdeu os sentidos) – Frederico? Onde está o meu Frederico?
Victoria (preocupada) – Cesar, ela está a escaldar. Chama um medico!
(Cesar liga ao medico. Está aflito. Paula mexe-se na cama, sua frio e aperta os lençóis)
Paula – Meu Frederico… onde está? Amo-te, meu Frederico, meu amor!
Victoria (aflita) – Paula, calma! Paula, ei… ouve, Frederico não está aqui.
Paula (chora desesperada) – Frederico! Frederico! Eu quero o meu Frederico. Victoria, traz para mim, vai buscá-lo! Eu estou a ficar louca… trá-lo para mim, eu imploro-te.
Victoria – Cesar, temos que fazer alguma coisa! Ela está doente por ele.
Cesar (senta-se junto de Paula e segura na sua mão) – Desgraçado seja este Frederico que te faz tão mal, querida, Paula. (sente o seu suor) Victoria, ela está a suar frio.
Victoria – Está a delirar… pobrezinha. Perdeu tudo, os filhos, o homem que ama…
Cesar (acaricia-lhe o rosto) – Mas não me perdeu!
(Paula, num súbito de demência, agarra Cesar e beija-o, acreditando ser o seu Frederico. Cesar afasta-a rapidamente, está nervoso e incomodado com o que Victoria sentirá)
Cesar (olha-a ) – Victoria, eu… eu não tive nenhuma intenção ou culpa.
(Victoria olha-o com os olhos arregalados. Sente um ciúme que ela mesma intitula ridículo)
Victoria (levanta-se) – Ah… eu… eu sei… não… não te preocupes! Eu vou contactar o Telmo. Ele é quem deve cuidá-la. (sai do quarto e liga-lhe) Telmo? Onde estás?
Telmo – Dona Maria Victoria? Eu estou em casa da minha senhora, a verdadeira casa.
Victoria – Que estás ai a fazer que não estavas com ela?
Telmo – Viemos para cá, ontem, instalei-me num dos quartos de hospedes e não a vi mais.
Victoria – Estamos nos Olivais. Numa casa deles. Ela apareceu-nos aqui, quase desfalecida… está com febre e deitada sobre a cama aos delírios. Dou-te o endereço e vens cá ter.
Telmo (preocupado) – Imediatamente, minha senhora! (Telmo desliga e ouve-se bater a porta)
Victoria (abre e é o médico) – Ainda bem que já chegou. Acompanhe-me, se faz favor!
(O médico entra e examina-a tirando a sua temperatura e fazendo algumas perguntas)
Médico – Bem, o que me parece é que ela tenha tido algum trauma emocional. (estende um papel) Dá-lhe estes remédios e pode ser que melhore, do contrario, sugiro internação.
Cesar (aflito) – Internação, senhor doutor? Mas é assim tão grave?
Médico – Os traumas emocionais podem ser curados pelo próprio paciente, se for leve ou se o superar, mas nalguns casos o único remédio é a internação numa clinica especializada.
Victoria – Clinica? Está-nos a dizer que… que ela está a ficar louca?
Médico – Não é um hospício ou manicómio. É uma clinica psiquiatra. Lá ela terá acompanhamento de médicos especializados em traumas destes. Terá psicólogos, poderá juntar-se à um grupo com pessoas que estão a superar um trauma também… enfim, “N” de qualidades para uma recuperação. No entanto o melhor é que a paciente se cure sozinha.
Cesar – Faremos o possível para isto, senhor doutor. Obrigado por vir. (despedem-se e o médico vai a sair quando entra Telmo. Quando vê o médico, põe-se aflito e vai a procura dela)
Telmo (entrando no quarto) – Minha senhora, filha da minha alma e do meu amor. (ajoelha-se ao pé da sua cama enquanto segura-lhe a mão fria) Filha, minha filha, que te fizeram?
Paula (abrindo os olhos e deixando-os semicerrados) – Meu Telmo, vai-me buscar o Frederico!
Telmo – Mas era de se esperar que esta demência tivesse nome. Até quando o orgulho de D. Frederico será maior que o seu amor? Ainda há de haver muitas lágrimas em nome disto.
Cesar – É bom rever-te, Telmo! Conheci-te quando eu era um menino.
Telmo – Menino Ferreira… “o pequeno príncipe” do bairro de Alvalade. Era como o chamavam. (olha-a e sorri com lágrimas nos olhos) Menina Paula, “a princesinha” do bairro de Alvalade. Dois reinos vizinhos que eu tive o cuidado de separar. Ainda não sei como se casaram.
Cesar (a sorrir, aproxima-se dela e senta-se na cama) – Com a cumplicidade duma varanda coberta por uma videira e dum lencinho de ceda perfumado.
Victoria (enche-se de raiva e sai do quarto, mas eles nem dão por isso) – Oh, meu Deus! Porquê é que eu estou a sentir ciúmes dela? Como não sentiria… é tão gira e ele cuida dela com tanto carinho… além disso é a sua esposa e eu… eu que sou na sua vida? Não… eu estou a ser ridícula… Cesar me ama, ele já me o provou muitas vezes… mas ainda assim, não é ele quem tem que cuidar dela e sim o Frederico. Só ele a vai salvar.
(Em Sintra, os filhos da Paula já regressaram à casa e Frederico está a chegar no Ramalhete)
Paloma (corre e abraça-o) – Papai! Eu sinto muito mesmo por tudo o que passaste.
Heitor (aproxima-se) – Pai… eu… eu nem sei o que dizer-te… estou desnorteado.
Santiago (põe a mão sobre o seu ombro) – Pai, seja lá o que decidires à respeito da nossa mãe ou desta outra mulher, contarás com o nosso apoio.
Frederico (abalado e sem sentido) – Eu vos agradeço imenso… só não quero mais falar delas.
Heitor – É claro, meu pai. Nós o compreendemos.
Frederico – Preciso descansar… mal dormi esta noite. Não estou para ninguém. (sobe ao quarto e quando entra sente ainda o perfume de Paula que estava penetrado nos lençóis e naquelas paredes. Ouvir Rita – Preciso de Ti. Aproxima-se da cama onde tantas vezes fizeram o amor… deita-se e abraça-se ao seu travesseiro que tinha a fragância dos seus cabelos. O quarto ainda se parecia com ela, levanta-se e vai ao armário e encontra a camisola de seda branca com rendas que ele tanto adorava vê-la vestida, pega nela e ao sentir forte o seu perfume, não resiste e chora escandalizando soluços enquanto deita-se sobre a cama abraçado ao tecido fino. O quarto, que só se aquecia com ela, estava gelado e escuro… sem a sua Ofélia, o velho Ramalhete perdera o brilho, a luz e a cor. As gardénias do jarro de porcelana, já estavam mortas, havia um silencio insuportável naquelas paredes) Ofélia… meu amor, minha Ofélia… onde estás? Porquê eu te fui deixar, minha vida? Ofélia… minha doce mulher de pele branca e rosada… amo-te, minha Ofélia… minha… minha Paula. (sentiu-se estranho ao pronunciar o seu verdadeiro nome mas ao mesmo tempo sentiu-o doce como a sua dona e sorriu) Paula… um nome adorável… porquê tem que ser tão difícil assim?
(Em Lisboa, Cesar sai do quarto e não encontra Victoria em lado nenhum)
Cesar – Telmo, Victoria não está em lado nenhum, onde será que ela foi?
Telmo – Eu não sei, meu senhor… estive aqui todo o tempo.
(Onde estará Victoria? Que tal em Sintra? Sim! Victoria, guiada pelo ciúme, não permitiria que Paula pudesse ameaçar o seu amor com Cesar, então vai buscar a única pessoa que a curaria. Entra no Ramalhete e esbarra-se com os filhos)
Victoria – Filhinhos… (corre para abraçá-los mas eles rejeitam-na) Desculpem-me por aparecer sem vocês quererem mas… é vital que eu fale com o vosso pai.
Paloma (ressentida) – Que queres? Magoá-lo ainda mais?
Santiago – O nosso pai já sofreu demasiado por tua culpa. Vai-te e não voltes!
Heitor – Esperem! (aproxima-se dela) O que queres com o nosso pai?
Victoria (acaricia-lhe o rosto) – Meu filho… o mais velho e o mais sábio… obrigada por dar uma chance à mamã. Eu vim porque a… a Paula… ela está doente e precisa do vosso pai.
Paloma (preocupa-se) – Que lhe aconteceu? Porquê ela está doente?
Victoria (percebe a preocupação no olhar deles e entristece-se ao perceber que até os seus filhos dão-lhe mais atenção à ela do que à própria mãe) – O mesmo que à mim… só que eu ainda consegui aguentar porque tinha… bem… Paula precisa do Frederico ou ficará louca.
Santiago – Então vai chamá-lo. Ele está no quarto… é o ultimo do corredor.
Victoria – Obrigada, meus filhos… lamento ver que preocupam-se mais com ela do que com a vossa própria mãe.
Paloma – Se calhar é porque, ainda que sendo uma usurpadora, foi melhor mãe que tu.
(Victoria ouve e não quer acreditar naquelas palavras. As lágrimas tomam conta do seu rosto e ela olha-os com uma aflição e um desespero enorme. Sem dizer uma única palavra ela sobe as escadas a correr e entra no quarto dito. Frederico levanta-se ao vê-la)
Frederico (enfurecido e ainda com o rosto molhado pelas lagrimas) – Que fazes aqui?
Victoria (sem conseguir responder, apenas abraça-o a soluços) – Frederico, ajuda-me!
Frederico (ao sentir o seu coração a bater forte enquanto abraça-a, esquece o rancor e é tomado por uma preocupação sem fim) – Victoria, calma! Vem, senta-te aqui.
Victoria (a chorar desesperada) – Meus filhos odeiam-me… odeiam-me!
Frederico (beija-lhe a testa e abraça-a) – Eu sei… sinto por isso… mas são os teus filhos, não te podem odiar para sempre, querida. Estão com raiva, apenas.
Victoria (olha-o espantada) – Frederico, estás abraçado à mim… já não me odeias?
Frederico (levanta-se) – Já nem sei o que sinto… só tenho vontade de morrer.
Victoria (a enxugar as lagrimas) – Frederico, Paula precisa de ti.
Frederico (a tentar resistir) – Não sei se precisa. Se precisasse não me teria mentido e…
Victoria (grita) – Ela está doente! Está a delirar de febre e a única coisa e diz é o teu nome!
FIM (DO CAPITULO 69)
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