Duas Faces - Continuação
15 Capitulo 60
Capitulo 60
(Paula sente-se encurralada, Frederico agarra-a e ela vê-se entre a cruz e a espada)
Frederico – Responde já! Eu já estou farto dos teus mistérios, da tua indiferença…
Telmo (entra no quarto e puxa-a para si) – Meu amo, a minha senhora estava comigo no hospital. Eu tenho setenta anos e a minha saúde já não é a mesma. Tive uns problemas respiratórios e ela apurou-se a levar-me ao médico. Ficamos lá até agora.
Frederico (sem palavras) – E… porquê não me avisaste? Eu poderia ter ajudado.
Paula (Victoria) – Não te queria incomodar. (aliviada graças à Telmo) Podes ir, meu Telmo!
Telmo – Boa noite, minha rica senhora! E… obrigada pela ajuda! (abraça-a e sai)
Frederico (envergonhado) – Eu… eu lamento pelas minhas atitudes mas… desta vez eu tinha uma ponta de razão. Estava preocupado contigo, pensei que me tivesses abandonado.
Paula (Victoria) (hesita mas reflete e sabe que ele tem razão) – Nem se eu quisesse.
Frederico (anima-se e segura nas suas mãos) – E não estás aborrecida comigo?
Paula (Victoria) (sorri e acaricia-lhe o rosto) – Não… eu fico feliz que te preocupes por mim.
(Ouvir: Rita – Preciso de Ti. Frederico toma-a nos braços e beija-a apaixonadamente como se fosse a última vez. Paula estremece e derrete-se naquele calor masculino que apertava-a enquanto se lhes uniam os lábios. Frederico leva os beijos ao pescoço e Paula encerra-os)
Paula (Victoria) (com as mãos encostadas ao peito) – Boa noite, Frederico! (solta-se dele)
Frederico (frustrado e confuso) – Mas… pensei que… (abraça-a por trás, sussurra) Não queres?
Paula (Victoria) (arrepia-se e sente-se humedecida) – É tarde já. Não são horas para isto.
Frederico (vira-a para si) – Mas não há horas, meu amor. (sussurra) É quando quiseres.
Paula (Victoria) – Bem disseste. Não quero agora. Vai para o teu quarto, por favor!
Frederico (chateia-se) – Até quando ficaremos assim? Olha que já me estou a fartar.
Paula (Victoria) (olha-o surpresa) – E o que pretendes fazer? Arranjar outra?
Frederico (enfurecido) – Sabes, talvez faça isso! Talvez procure em outra o que não me dás.
Paula (Victoria) (a raiva se lhe queira a alma) – Boa noite, Frederico! (vira-se de costas)
(Frederico sai, muito chateado deixando Paula enfurecida de ciúmes)
Paula – Patrícia… é dela que ele estava a falar. Vai procurá-la… não, meu Deus!
(ouvir: Laura — Viveme com Alejandro. Faz-se dia e Cesar desperta a sentir o perfume de Victoria sobre o seu peito. Acaricia-lhe os cabelos e admira-a. É a sua senhorita sorriso)
Cesar – Meu amor, minha adorada deusa, és minha e não te vou deixar ir, nunca, nem que me matem, tu não te vais embora da minha vida. Nem que fujamos.
Victoria (Paula) (Desperta-se e sorri ao ver aquele homem que a tinha presa nos braços) – Bom dia, meu amor! (dá-lhe um doce e meigo beijinho nos lábios)
Cesar (sorri) – Mais um! (faz-lhe o biquinho malandro e ela volta a beijá-lo) Dormiste bem?
Victoria (Paula) (a fazer joguinhos) – Não… tu rolas muito e eu assim não durmo.
Cesar (rir-se) – Eu rolo muito e tu rolaste comigo, nestes lençóis, durante toda a madrugada.
Victoria (Paula) (aperta-se junto à ele) – Amo-te muito, meu maroto! (beija-o outra vez)
Cesar (agarra-a com força e beija-lhe o pescoço) – Amas-me? E eu agora… só penso em comida! (rir-se) Estou a morrer de fome e a culpa é tua.
Victoria (Paula) – Minha porquê? (deita-se para o lado cobrindo-se com os lençóis)
Cesar (deita-se sobre ela) – Porque és muito selvagem e sexo assim dá-me fome.
Victoria (Paula) – Oh… não fales assim… esta palavra… prefiro: “fizemos amor”.
Cesar – Fizemos sim, fizemos amor e umas outras coisitas também! (sorri sedutoramente)
Victoria (Paula) – Não sejas parvo! (abraça-o enchendo-o de beijinhos) Também tenho fome.
Cesar (levanta-se e agarra no telefone do hotel) – Vou pedir o pequeno-almoço. (liga e pede, não tarda a tocarem a porta, Cesar abre, pega nas coisas e põe sobre a cama) Ai está! Bem, eu já fiz uma parte do trabalho… agora tens de me alimentar. Dá-me na boca!
Victoria (Paula) – Ah… malandrito! (com o garfo, serve-lhe um pedaço do flan macio)
Cesar – Podemos ficar cá todo o dia. O que achas, meu bem?
Victoria (Paula) – Não sei… os meninos já devem estar preocupados porque não dormiste em casa… as tuas tias então… ui, ui! A Dolores deve estar a roer as unhas de gel! (rir-se)
Cesar – Por falar nela… que pretendes fazer ao voltar à casa?
Victoria (Paula) (olha-o reticente) – Olha, eu sei que ela é a tua tia, mas eu não pretendo ficar sob o mesmo teto que ela depois do que me fez. Para já, andou a vasculhar as minhas coisas, e isso é invasão de privacidade, depois tentou separar-nos, quase conseguiu.
Cesar – Queres que eu a mande embora? Meu amor, ela é minha tia. Cuidou-me desde menino. Sou incapaz de expulsá-la, aquela casa também é dela.
Victoria (Paula) – Está bem, eu percebo. Então eu arranjo um lugar para mim.
Cesar (aflige-se) – Vais-te separar de mim? Queres abandonar-me?
Victoria (Paula) – Não sejas tonto! Eu moro em outro lugar e tu vais ter comigo sempre.
Cesar (a pensar) – Vê-se mesmo que ela não e mãe dos meus filhos. Paula nunca deixaria aquela casa, principalmente por eles. Mas a Victoria não é obrigada a aturar a minha tia. (fala) – Não pensemos nisto hoje! Depois decidimos como resolveremos esta situação. (beija-a)
(Enquanto isso, sentados junto a mesa do pequeno-almoço, os filhos percebem os sentimentos ressentidos da sua suposta mãe com o seu adorado pai. Paula nem levanta o olhar, parece concentrada a tomar o chá da xicara de porcelana, que está fria como ela, Frederico está em silêncio, toma o café enquanto lê o jornal do dia movimentando as páginas sem cuidado e interesse. Os filhos trocam olhares e olham um ao outro a espera que se olhassem e sorrissem, mas nada acontece, apesar de não dizerem uma única palavra, percebe-se o mal-estar)
Heitor – Pai, mãe, que se está a passar entre vocês? Estão chateados?
Frederico (a ler o jornal) – Porquê não perguntas à tua mãe se estamos chateados ou não?
Santiago (olha para Paula que não dá atenção à mesa e continua a tomar o chá) – Mãe?
Paula (Victoria) (sem lhes dar atenção e sem lhes olhar nos olhos, demonstrando estar despreocupada) – Porquê não perguntas ao teu pai os motivos do aborrecimento que tenho?
Paloma (olha para Frederico que mantem-se enrijecido e concentrado) – Meu pai?
Frederico (ainda a ler o jornal sem desviar o olhar) – Mas, queridos filhos, se motivos ela tem, e aborrecida mantem-se embora eu já tenha implorado o seu perdão mil vezes, que posso eu fazer se não aceitar a sua indiferença e respeitar a sua frieza?
Paula (Victoria) (leva a xicara aos lábios sem levantar o olhar aos filhos e responde ironicamente) – Adorados filhos, se o vosso pai não fosse tão bruto, já teria percebido que as magoas acabaram. No entanto, se peço-lhe que respeite um momento de descanso meu e ele se nega ameaçando buscar na rua o que não lhe dou, é natural que me aborreça.
Frederico (lê o jornal, a tomar o café, como se nada fossem aquelas palavras) – Mas, de facto, se a vossa mãe deixasse esta frieza com que me trata e fosse um pouco mais carinhosa, não teria que lhe fazer tal ameaça, ainda que, talvez ela não saiba, mas sou incapaz de a cumprir.
Paula (Victoria) (Mantem-se séria) – Se o vosso pai não é capaz de cumprir tal ameaça, então a faz unicamente para me provocar, o que também não é do meu agrado, logo continuamos na mesma. Se calhar se o vosso pai deixasse de ser tão ciumento e infantil não estaríamos assim. Mas de ameaça para ameaça, é bom que ele saiba que eu sim, sou capaz de as cumprir!
(Frederico aborrece-se, fecha o jornal com violência, atira-o sobre a mesa e sai sem refutar as palavras ouvidas. Paula tenta manter a pose despreocupada mas deixa a cabeça apoiar-se sobre a mão levantada pelo cotovelo que estava sobre a mesa e desata a chorar. Os filhos afligem-se com as lagrimas da suposta mãe e correm para abraçá-la)
Heitor – Mamã, não chores, não chores! Assim fazes com que choremos também!
Santiago (abraçando-a) – Oh, mamã, não fiques assim. O pai diz coisas que não faz.
Paloma (dando-lhe beijinhos) – Não te preocupes, mamã, ele te ama e é incapaz de te trair.
Paula (Victoria) (enxuga as lagrimas) – A mamã sabe disso, meus pequeninos. (abraça-os) Mas não se preocupem por nós. Somos adultos e saberemos resolver isto. (levanta-se e retira-se)
Heitor – Saberão resolver isto? Como? Com conversa?
Paloma (perversa, diz a sorrir) – Talvez resolverão na cama…
Santiago (diz despreocupado) – Talvez resolverão nos tribunais. Eu fico com o pai!
Heitor (olha-o abismado) – Santiago… (aponta para o horizonte) Olha ali!
Santiago (inocentemente, olha) – O quê? Onde? (Heitor dá-lhe um tapa sobre a nuca)
(Paula sobe para o quarto. Enxuga as lágrimas e encosta-se à penteadeira olhando-se ao espelho grande e antigo que se lhe refletia as tristezas no olhar. Vira-se e senta-se num cadeirão de época barroca. Ao seu lado há um livro dos Lusíadas, pega nele e começa a ler no episódio de Inês de Castro. Compara-se à Inês mas sente-se mais infeliz porque os terrores contínuos e os medos não a deixam viver um único instante de felicidade, nem sequer breve…)
Paula — «Naquele engano d’alma ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito…» Com paz e alegria d’alma… um engano, um engano de poucos instantes que seja… deve ser a felicidade suprema neste mundo. E que importa que não o deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu!... (pausa). Oh! Que não o saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo… este medo, estes contínuos terrores, que ainda não me deixaram gozar um só momento de toda a felicidade que me dava o seu amor. Oh! Que amor, que felicidade… que desgraça a minha! (torna a descair em profunda meditação; silêncio breve)
(Victoria e Cesar, ainda estão a aproveitar o dia, mas Cesar sente-se incomodado pelo facto de ela pensar que ainda o engana, fazendo-o crer ser Paula)
Cesar (segura nas suas duas mãos e olha-a nos olhos) – Meu bem, preciso contar-te algo.
Victoria (Paula) (senta-se apreensiva) – O que foi, meu amor?
Cesar (beija-lhe a mão) – Eu sou incapaz de seguir a fingir. Prefiro deixar as coisas claras.
Victoria (Paula) (aterra-se pelo tom da voz de Cesar) – Por Deus, homem, o que se passa?
Cesar – Eu já sei de toda a verdade há muito tempo. Escusas de seguir a mentir.
Victoria (Paula) (engole em seco, levanta-se) – De que verdade estás a falar?
Cesar (levanta-se e acaricia-lhe os ombros) – Eu… eu vi-te a conversar com a Paula, nos corredores do hospital quando eu estava internado.
(Victoria quase desmaia. Tem os olhos arregalados e o suor se lhe escorre o corpo. As pernas tremem e ela afasta-se de Cesar, quase a descair sobre o chão)
FIM (CAPITULO 60)
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