Duas Faces - Continuação
16 Capitulo 61
Capitulo 61
(Victoria está encostada à parede, as pernas tremem, o suor se lhe escorre pelo corpo, o medo toma conta de si. Oh, Deus, já o perdeu! Agora que sabe da verdade, teme que a abandone. Cesar percebe o seu desespero e corre até ela. Abraça-a e dá-lhe um beijinho à testa)
Cesar – Não, meu bem, não tenhas medo! Oh, pobrezinha… está a tremer. (levanta-lhe o rosto segurando-a pelo queixo) Para quê tanta aflição, minha deusa Tétis?
Victoria (abraça-o a chorar) – Perdão! Perdoa-me, eu não mereço o teu amor. (olha-o nos olhos) Eu não te queira enganar, não foi por maldade, eu juro-te! (ajoelha-se) Não me deixes!
Cesar (levanta-a) – Não tenhas medo, meu amor, que eu não te vou devolver à tua família.
Victoria – Então? Que me vais fazer? Vais-me deixar a viver aqui, abandonada?
Cesar (diz a sorrir) – E eu consigo viver sem ti, minha adoração?
Victoria (fica abismada, não percebe a sua reação) – Mas… mas deixa-me explicar-te que…
Cesar (cala-a levando o dedo à sua boca) – Não é preciso que me expliques nada. Eu posso chegar à uma conclusão. (solta-a e vira-se de costas) Tu conheceste-me naquele dia de outono em Paris, apaixonaste-te como eu por ti. Devido aos encontros, começaste-me a amar, e quando percebeste, já não podias viver sem mim e sem o nosso amor. Como conheceste a Paula? Bem… isso, e tenho-o salvo, não é do meu interesse. Conhecendo a Paula… não acredito que isto tenha surgido daquela cabecinha inocente, logo, julgo que tu decidiste sobre isto. Como a convenceste? Disto sim, tenho curiosidade, o simples facto de ela já não me amar, não lhe era motivo suficiente para tal infâmia. (vira-se para ela e segura nas suas mãos) Mas eu sei que toda esta loucura foi por amor, e eu adoro-te por isso. Amo-te… Victoria!
Victoria (estremece ao ouvi-lo dizer o seu nome, mais que dizer, foi como se o recitasse igual a um poema) – Tu… perdoas-me? Mas… mas eu sou uma desgraçada mentirosa que…
Cesar – Que sacrificou a personalidade e a vida para ficar ao meu lado. No começo, tive raiva, odio… por isso não te queira ver, mas quando te via, só tinha vontade de abraçar-te e beijar-te… não te soltar jamais. Não te preocupes, minha Victoria, eu guardo este segredo que agora é nosso. (põe a mão dela no seu coração) Está aqui como o nosso amor.
Victoria – Mas… ao fim duns meses… (abaixa o olhar e afasta-se dele virando-se de costas)
Cesar (abraça-a por trás e beija-lhe o pescoço) – Já sei… voltas para a tua casa. (vira-a para si) Mas não precisas de voltar para o teu marido. Divorcia-te dele, Victoria que eu divorciar-me-ei da Paula. Poderemos viver o nosso amor, livremente e para sempre.
Victoria – Não é tão simples, Cesar. Os meus filhos, se descobrem a verdade… os teus filhos… nunca me vão perdoar. Isto deverá ser um segredo para a morte. E sendo um segredo, viveríamos a sombra, onde ninguém nos pudesse ver. Os teus filhos não podem ver duas mães e os meus não podem ver o marido da mulher que esteve a morar com eles. O que mais cedo ou mais tarde aconteceria, devido ao facto de que os teus filhos teriam de conhecer a sua nova madrasta. Não, Cesar, não há futuro feliz para nós.
Cesar – Nem que seja às escondidas… tu preferes viver sem mim?
Victoria (aflige-se só de imaginar e abraça-o forte) – Não, meu amor, eu sem ti… morro!
Cesar (sente-se fantástico com aquelas palavras) – E eu sem ti não existo, minha Deusa! (aquelas palavras lhe deram tal felicidade que ele só desejava tomá-la nos braços naquele mesmo instante, e assim o fez. Ouvir: Laura – Viveme con Alejandro. Cesar beija-a e Victoria adora aqueles beijos que sabe que são seus, já não são da esposa e sim da mulher que se entrega aos seus braços como uma deusa às nuvens. Victoria passa a respirar mais aceleradamente a medida que Cesar passeia a mão pelo seu corpo. Já não são estranhos, são um casal de amantes apaixonados que vivem uma vida dupla e cheia de aventuras excitantes. Deita-a sobre a cama e Victoria solta-se dele, olha-o e sorri como uma ninfa dos bosques alemãs. Faz-lhe um sinal para que a siga e corre para a banheira, despe-se lentamente enquanto entra nas espumas. Cesar observa com um desejo selvagem de a possuir. Arreia as calças e entra na banheira de mármore negro. Victoria está relaxada a olhar para ele convidando-o a achegar-se e tomá-la nos braços, Cesar obedece aos seus olhares e com instinto, agarra-a para si tornando-a sua em meio àquelas aguas quentes, fazendo lembrar o episodio da Ilha dos Amores, obra Os Lusíadas de Camões. Aquele episódio em que Vasco da Gama deita-se com a deusa Tétis, oferecida à ele como um prêmio pela sua bravura e coragem. Assim era Victoria nos braços de Cesar, uma oferenda dos deuses)
(Em Sintra, Paula está refugiada na escuridão dos seus aposentos, com a mão pousada sobre o livro e o olhar afastado do recinto, a pensar em velhas lembranças e no amor que se deixava escapar por entre os dedos. Telmo chega ao pé de Paula que não o sentiu entrar)
Telmo – A minha senhora está a ler?…
Paula (despertando) – Ah! És tu, Telmo… não, já não leio: há pouca luz de dia já; confundia-me a vista. E é um bonito livro este! O teu valido, aquele nosso livro, Telmo.
Telmo (deitando-lhe os olhos) – Oh! Livro para damas e para cavalheiros… para todos: não há outro, tirante o respeito devido ao da palavra de Deus! Mas esse não tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como o meu senhor… quero dizer, como o senhor D. Frederico Moreno – que, lá isto!... E assim foi o pai da minha senhora, que muito bem o conheci: grande homem! Muitas letras, e de muita galante prática, e não somemos as outras partes de cavalheiro: uma gravidade!... Já não há daquela gente.
Paula – Olhai, Telmo; bem sabeis que desde aquele tempo que… que…
Telmo – Que já lá vai, que era outro tempo.
Paula – Pois sim… (suspira) Eu era uma criança; pouco maior que Paloma.
Telmo – Dezoito anos feitos, é quase uma senhora, está uma senhora…
Paula (abaixa o olhar) – Oh! Telmo, meu Telmo… se ele soubesse…! Eu só queria deixar destas brigas contínuas, destas discursões, mas as vezes, parece-me, que ele gosta de me ver assim. Sabes, as vezes tenho vontade de abandonar tudo e voltar para casa.
Telmo – Não diga isso, minha senhora! Há brigas entre os melhores casais.
Paula (levanta-se) – Eu sei, eu sei! Mas ele faz para me provocar. Sabe que eu tenho razão mas é tão teimoso que não o quer aceitar. Oh céus, que ego, que ego! (Frederico entra e eles calam-se, disfarçando pouco, do assunto que falavam. Frederico percebe e sente a tensão)
Frederico – Telmo, deixa-nos a sós, se faz favor! (Telmo retira-se. Paula vira-se de costas. Frederico pega no paletó e começa a vestir-se) Falavam de mim?
Paula (Victoria) (aborrecida) – Que te faz pensar que falávamos de ti?
Frederico – Oh… eu não sou totó. Percebi logo pela vossa maneira de estar quando eu entrei.
Paula (Victoria) – Sim, falávamos da tua imaturidade… (vira-se para ele) Onde vais?
Frederico (aproveita-se) – Não sei… se calhar à casa da tua amiga… Patrícia.
Paula (Victoria) (inerva-se) – Se fores à casa daquela naja, não precisas voltar para dormir.
Frederico – Estás a dar permissão para que eu passe a noite em casa dela?
Paula (Victoria) – Não! Não é uma permissão… é uma advertência ou ameaça, se preferires.
Frederico – Ameaça? Ameaças-me de quê? Vais-me por para fora de casa, é?
Paula (Victoria) (enfurece-se e atira-se à ele esbofeteando-o) – Tu não me provoques!
Frederico (agarra-a nos braços para que deixasse os tapas) – Eu vou à empresa, acalma-te!
Paula (Victoria) (exaltada) – Mentira tua! Hoje é domingo. Que vais fazer lá?
Frederico (solta-a, chateado e enfurecido) – Qualquer lugar é melhor para não ver-te assim…
Paula (Victoria) (magoa-se e começa a chorar) – É verdade? Então vai… e que não me encontres morta, ao voltar… atirada sobre este tapete vermelho como o sangue que derramarei sobre ele… vai-te já! E reza para me encontrares com vida.
Frederico (aproxima-se dela) – Não sejas dramática! Vamos esquecer isso e parar com as brigas, sim? Já estou tão farto de tudo isto… (abraça-a) Ofélia minha… sinto falta disto. Sinto falta do teu amor, dos teus beijinhos, do teu abraço durante a madrugada. Não me castigues com a tua ausência… eu não mereço tal tortura, meu amor!
Paula (Victoria) (a soluçar, abraça-o forte e aperta-se ao seu peito, sussurrando) – Frederico… eu também já não posso com estas brigas contínuas. Passo as noites a chorar de saudade.
Frederico (Ouvir: Rita – Preciso de ti. Ergue-a pelo queixo e beija-a docemente como no primeiro dia em que beijou a sua Ofélia. Pensar que está a beijar Victoria, confunde-lhe os sentidos, porque sente que está a beijar a sua Ofélia e a ninguém mais. Aperta-a e acaricia-lhe os cabelos enquanto dá-lhe os beijos sedentos. Sentia-se sempre tão estranho cada vez que a beijava... porque aquela não podia ser Victoria, mas supostamente era. Os beijos desta mulher fazem morrer a lembrança do antigo casamento, o que fracassou. Por mais que tentasse visualizar esposa, ele só sentia Ofélia. Isto fazia-lhe sentir uma confusão, uma loucura imensa, algo que não sabia explicar e por isso estava tão apaixonado por aquela dama que deitava-se nos seus braços durante a madrugada, procurando aquecer-se entre os lençóis brancos.
Paula (Victoria) (desfalecida de amor, segurada por Frederico, apenas) –Eu deveria estar chateada contigo, ainda, mas… mas está tão frio…
Frederico (ofegante, com o olhar voltado para os seus lábios) – Eu aqueço-te! (Beija-lhe o pescoço e Paula não resiste. Deixa-se beijar, relaxada nos lençóis que já começavam a aquecer-se. Frederico põe-se sobre ela e Paula abraça-o. Mantém-se os beijos no pescoço enquanto ela suspira de desejo e saudade. Paula cessa aquelas caricias e beija-lhe a boca, aquele beijo destruía a tristeza em segundos, como se só precisasse daquilo. Frederico abaixa-lhe as alças do vestido de seda branca que cobria-lhe o corpinho pequenino e arrepiado. Beija-lhe os ombros, leva a mão esquerda à sua perna e levanta-lhe a saia do vestido. Paula desabotoa, lentamente a camisa fina que o fazia parecer um príncipe. Já nem se lembrava da raiva que sentia, só sabia que não poderia passar mais uma só noite sem aqueles beijos. As janelas abriram-se com o forte vento da chuva contínua de inverno, fazendo as cortinas moverem-se como véus, e deixando o frio arrepiante entrar. Ao sentir-lhe arrepiar a espinha, Paula aperta-se contra Frederico)
Paula (Victoria) (sussurra, cheia de desejos) – Aquece-me! Aquece-me já! (Frederico aumenta a velocidade dos beijos para que se pudesse suar. Mas sentia Paula tremer, já nua em seus braços, roçando as pernas para que se pudesse esquentar um pouco. Frederico levanta-se, ainda vestido nas caças deixando-a entre os lençóis, e fecha os janelões de vidraça embaçada pelo frio. Vira-se para ela e achou notar-lhe ser uma deusa entre as nuvens. Paula ergue a mão, convidando-o a deitar-se consigo. Frederico não resiste àquelas mãozinhas rosadas pelo frio e deita-se sobre ela, fazendo-a sua, pela segunda vez. O quarto enche-se de calor, e Paula não contém os gemidos desejosos, enquanto Frederico possuía-lhe o pequenino corpo agora suado, devido ao ato de amor cumprido. Paula arranha-lhe as costas e Frederico puxa-a para cima deixando-a controlá-lo e guiá-lo ao que desejava obter. Mas Paula, docemente e inocentemente, mantém beijinhos apenas, como se fosse uma virgem, parecia ser sempre uma virgem nos braços de Frederico que sentia-se rapaz, junto dela).
(Em Lisboa, Victoria e Cesar entravam em casa aos beijos. Pareciam dois adolescentes enamorados. Dolores encontra-os e admira-se, sente o odio queimar-lhe por dentro)
Dolores — O que ela está aqui a fazer? Maldita! Tens mais vidas que um gato.
Victoria (Paula) (olha-a com um sorriso triunfante. Aproxima-se a olhar nos seus olhos e deixa escapar uma bofetada bem recebida) – Pega as tuas coisas e sai desta casa ainda hoje!
Dolores (aflita e ofendida) – Cesar, meu filho, vais deixar esta mulher me falar de tal maneira?
Cesar – Eu lamento imensamente, tia, mas se ela pede-lhe que se vá… obedeça!
FIM (CAPITULO 61)
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