Duas Faces - Continuação
54 Capitulo 99
Capitulo 99
Meses depois…
(É uma nova primavera na bela Lisboa. O céu está azul, as flores embelezam as varandas e os passeios. Em Sintra, o Ramalhete reluz vivo e alegre, o jardim está florido e construído, a velha fonte jorrava agua que brilhava com os raios do sol matinal. As videiras haviam crescido, trepando-se na fachada que levava à varanda dos aposentos do apaixonado casal. As cortinas bailam com a brisa macia e adentram naquele quarto cálido. Ali está Paula, de pé, virada de costas junto à um berço, enfeitado com rendas e mantas de seda. Ela sorri e acaricia o rosto do seu bebê que já nascera. Tinha pele branca e rosada, olhos acinzentados que lembravam o olhar do seu pai, os cabelinhos doirados reluziam à luz e abria sorrisinhos de anjo enquanto brincava com as pequenas e macias mãos da sua mamã. Paula pega a criança nos braços, era ainda tão pequenina, de pouco mais que dois meses de idade. Frederico entra no quarto).
Frederico (aproxima-se dela e dá-lhe um beijo nos lábios) – Bom dia, minha rainha e bom dia… minha princesa. (Contente pega nos braços a filha do seu coração) Minha pequena Ofélia…
Paula – Esta noite dormiu como o anjinho que ela é. (Rir-se) É manhosa como a tia dela.
Frederico – E já viste que ela tem o sorriso igual ao meu? Mas a beleza é de facto da mãe.
Paula (rir-se) – Minha menina… tão pequenina. Vai crescer com os pais e será muito amada.
Frederico (não desvia o olhar. Está apaixonado pela sua criança. A ideia de ter um ser que leve no olhar o amor que ele e Paula viveram juntos, era-lhe emocionante. Só havia se sentido assim quando nasceu a sua primeira filha mulher, mas não era fruto de um amor e sim de uma paixão) – Ouve, já tens tudo arranjado? Despacha-te que vamos passar o fim de semana em Lisboa. A Victoria ligou ontem a dizer que quer ver a sobrinha dela e que tem uma novidade.
Paula – Já está tudo pronto. Eu e a Ofélia só esperávamos por ti. E os miúdos, já estão?
Frederico – Já! O Santiago e o Francisco estão no jardim a entrar o carro. Foi maravilhoso o teu filho ter vindo morar connosco. Assim ficamos mais ou menos equilibrados.
Paula – Então vamos porque a Victoria é capaz de morrer se não vir a Ofélia… é a sua adoração. Também… as duas têm o mesmo feitio. Só espero que tu não sejas de fazer travessuras como a tua tia. (Pega-a nos braços e os dois saem para Lisboa).
(Em Lisboa, Victoria está muito agitada, caminha dum lado para o outro).
Victoria (para Cesar) – Meu amor, eles já deveriam de ter chegado. Estou tão ansiosa!
Cesar (levanta-se do sofá e abraça-a a sorrir) – Acalma-te, bonita, que eles já vêm.
Victoria (beija-o) – Eu não vejo a hora de dar-lhes a noticia, meu amor. Estou tão contente.
Paloma (vem a descer as escadas) – Ainda não chegaram? Poças… quero ver a minha irmã.
Cesar – É uma confusa mistura de sangue que a minha filha e a tua filha sejam irmãs… da tua sobrinha. (Rir-se) Vamos ter muitas histórias para contar à esta criança.
(Ouve-se tocar a campainha. Victoria corre para atender mas é Olga, Telmo e Nina).
Telmo – Olá, Victoria. Então, e a nossa princesinha? Não me digam que ainda não chegou.
Cristina (entra) – Pois é… ainda não, tio Telmo. (Corre e abraça Olga) Tia, já tinha saudades.
Olga – E eu de ti, tontinha! (Estende-lhe um embrulho) Trouxe-te esta prenda dos Açores.
Victoria – Depois que vocês foram morar lá quase não nos vêm visitar. (Abraça Olga).
Nina – Mas a vida nos Açores é fantástica. Deveriam ir nos visitar um dia destes.
Cesar – Iremos sim. já estive nos Açores e é o lugar mais bonito do mundo.
Heitor – Bom dia, à todos. (Alegra-se) Telmo, já cá estás! Olga, Nina, que bom ver-vos.
Paula (vem a entrar com a Ofélia nos braços) – Então, deixam a porta aberta? Não têm medo?
Victoria (emociona-se e corre para ela) – Olá, minha irmã, e olá, coisinha perfeita da tia.
Frederico – Bom dia, família. (Abraça Paloma e Heitor) Meus filhos, que saudade!
Cesar – Paula, como estás? (Abraça-se) Agora deixem-me dar um beijo à minha sobrinha.
Paula – Ai está! É tão manhosa… meu Deus. Já vejo que vai ser malandra como a tia.
Victoria (a fazer uma voz fofa) — Não é nada malandra, minha pequerrucha, princesa Ofélia.
Paloma – Assim tenho ciúmes, mãe. Também quero estar com a minha mana.
Victoria – Santiago, meu filho, anda a dar um beijinho na mãe que está a morrer de saudades.
Santiago (abraça-a) – Eu já aviso que só vim pela piscina… estou louco por um mergulho.
Francisco – Porquê não vamos todos então? Está um solinho bom.
Cesar – Esperem, esperem! Antes, eu e a Victoria temos uma coisa para vos dizer.
Victoria (sorri) – Bem… a noticia é que… eu e o Cesar… vamos nos casar nesse mesmo sábado.
Paula (emocionada, abraça a irmã) – Parabéns, minha querida. Desejo-vos eterna felicidade.
Frederico (cumprimenta Cesar) – Muito bem, hã?! Já não era sem tempo.
Olga – Parabéns, meu filho. Mas, uma surpresa assim? Oh, querido, nem me preparaste.
Telmo – E já está tudo pronto para o matrimónio? E a festa? Oh meu Deus, estou assustado.
Cesar (sorri) – Bem, depois daquela triste tragédia eu tive que me dar um tempo para assimilar a minha vida e os meus sentimentos. Foram quase dez meses nisto e enfim, caso-me com a mulher dos meus sonhos. Agora estou em paz comigo e é a melhor hora.
Victoria – Acho que depois de tudo o que aconteceu, todos precisávamos de um tempo. As coisas acontecem no seu momento devido. (Todos ficam muito emocionados e eles recebem os cumprimentos dos filhos. Nota-se um semblante triste em Paula. Algo incomodava-a . Victoria percebe o seu desvio de olhar) Paula, vem que quero mostrar-te o vestido.
(Elas sobrem para o quarto e Victoria abre o armário deixando reluzir o exuberante vestido. O tecido em tule, macio e descaído fazia-se assentar nas suas curvas. Repleto de bordados doirados e rendas, era fino e elegante. Para um olho desentendido poderia soar simples, mas era muito trabalhado, um modelo único. Possuía mangas compridas, com pequenas perolas que a cobriam em enfeite. A saia do formoso vestido tinha uma tela com bordados também em pérolas que desfazia-se em degradê até os pés. Victoria estava emocionada e animada, enquanto Paula olhava o vestido com admiração. Novamente desvia o olhar).
Paula (diz num tom sem entusiasmo) — É tão lindo, Victoria. Não poderia ser mais perfeito…
Victoria – O quê tens, minha irmã? Estás assim desde que falei do casamento.
Paula – Não me dês importância. O meu problema é que… já se passaram dez meses e o Frederico ainda não me propôs casamento… será que ele não quer ou esqueceu-se?
Victoria – Não, não penses assim. Talvez ele não tenha sentido a necessidade e esqueceu.
(Cesar vai com Frederico ao escritório. Serve-lhe um copo de whisky, e serve-se também).
Frederico (senta-se) – Então, levaste-me a mulher, hã? Acho que devo agradecer. (Rir-se).
Cesar – Eu no teu lugar choraria e entregar-me-ia à morte… uma mulher como a Victoria… não, amigo, não se acha em todo lado. Com ela eu aprendi o significado da palavra “paixão”.
Frederico – De facto ela é uma mulher muito apaixonada, mas um casamento não é só isso.
Cesar – Victoria é uma mulher completa… é a mulher dos meus sonhos. Quando estou com ela, sinto que posso fazer qualquer coisa. Ela fez de mim o seu escravo.
Frederico (olha-o e sorri) — Nunca pensei que ela fosse capaz de fazer um homem amá-la.
Cesar (pousa o copo e abre a gaveta. Tira de lá um telemóvel) – Vês isto? Ela perdeu na noite do baile em Paris… saiu as pressas. Senti-me jovem como num filme para adolescentes. A Victoria que conheceste não é a verdadeira… mas deixou-se libertar. Ela viveu oprimida pela vida que teve de sujeitar-se. Não é má pessoa… apenas um ser mal compreendido.
Frederico (admira-se) — Curioso… tenho em posse um chale que a Paula perdeu justamente na noite desde baile. Parece que o destino tratou de consertar as coisas colocando cada uma no seu devido lugar. Victoria agora é herdeira também e vai se casar com quem ama.
Cesar (sorri e senta-se) — Nós os dois, meu amigo. Sabes, fico muito feliz por vocês terem uma filhinha. Não vejo a hora de ter um filho com a minha Victoria.
Frederico (assusta-se) – Mas… então vão adotar uma criança? Impressionante!
Cesar (estranha) — Adotar? Não. Quero ter um filho que seja nosso. Porquê a pergunta?
Frederico (fica apreensivo) – Não acredito que ela ainda não te contou. (Entorna o copo como se quisesse criar coragem para alguma coisa) Cesar, eu não sei se tenho o direito de contar-te isto mas… temo que a Victoria não será capaz de o fazer.
Cesar (aterrado) – Frederico… se tens algo a dizer, diz-me já! Estou preocupado, homem.
Frederico – Não faz muito tempo… cerca de sete anos atrás a Victoria engravidou do que seria o nosso quarto filho. Ela estava muito sensível e cheia de trabalho… haviam muitos textos para decorar pois fora escalada para protagonizar uma peça do Hamlet. Não parava em casa e quando estava, era sempre a estudar e passar o texto. Ela não parava se quer para comer ou dormir bem e andava sempre muito estressada. Eu fiquei preocupado pela saúde dela e pedi que parasse um pouco mas ela não me deu ouvidos. Era o terceiro mês de gestação… chegou o dia da peça e ela estava tão nervosa! Saiu de casa as pressas pois já era atraso e como conduzia com velocidade não percebeu que um cão ia atravessando a rua, quando se deu conta, fez uma manobra de tal forma bruta que o veiculo foi-se contra uma arvore. Acordou depois na cama do hospital com a noticia de que perdera a criança e que por consequência, havia ficado estéril. Ficou destroçada… a Victoria que chegou em minha casa já não era a mesma. Estava fria e distante… começou a beber e quase virou alcoólatra. Já não falava com os filhos e foi-se distanciando de todos cada dia mais e mais. Ficamos mais de um ano sem nos relacionar. Assumiu uma forma egoísta e meio maliciosa… fumava constantemente e nunca estava em casa. Parou de comer pois dizia estar obcecada pela aparência física. Quase dois anos depois ela foi melhorando e voltamos a ser uma família… mas nunca como antes. Ela voltou a me procurar para ter relações e eu já não a queria… comecei a rejeitá-la demasiado e ia cedendo aos poucos… quando me dava vontade. Acredito que foi nessa época que ela iniciou a vida de adultérios. Não sei o que tens tu, Cesar, só sei que a trouxeste de volta.
Cesar (fica pasmado… asfixiado com a noticia) – Pobre do meu amor. Quero abraçá-la!
Frederico – O quê? Não estás chateado com ela? Cesar, ela escondeu-te uma coisa assim e tu…
Cesar – Olha, Frederico, parte de amar é saber compreender o lado da outra pessoa e ser coerente. Se ela não me contou é porque ainda não conseguiu superar. (Levanta-se e sai).
Frederico – Bem… que coragem! Acho que preciso aprender muito com este homem.
Paula (entra no escritório) – Meu amor, estás ai! Sabes da Ofélia? (Ouvir: Rita – Preciso de Ti).
Frederico (estende-lhe a mão) – Ela está bem, querida. Desanuvia-te um pouco. Anda cá!
Paula (vai até ele e senta-se no seu colo) – Frederico, o que achas deles casarem-se?
Frederico – Hum… fico muito feliz. Encontraram-se… é ótimo. (Acaricia-lhe as costas enquanto fala. Beija-lhe a mão) Que tens, minha linda? Estás assim tão murcha porquê?
Paula (abraça-se a ele deixando-se relaxar, recostada) – Ah… nada! Meu bem, não achas que vai ser uma linda festa? Bom… eu ainda não sei onde vai ser mas para tal amor… suponho.
(Frederico mal escuta as suas palavras. Está mais preocupado em passear as mãos por aquele corpo que tinha a mente ocupada demasiado para prestar atenção as suas pretensões).
Frederico (beija-lhe o pescoço) – Deve ser. Meu amor, não queres aproveitar que a Olga deu-nos uma folga cuidando da Ofélia e… sabes… (acariciando-lhe a perna) O quarto já está pronto.
Paula (percebe e levanta-se desanimada e um pouco aborrecida) – Não! Não tenho vontade.
Frederico (levanta-se e agarra-a por trás. Sussurra-lhe ao ouvido) – Vamos! Vá lá… tenho tantos desejos… estou a arder por ti. Preciso daqueles carinhos. Vamos, meu bem.
Paula (solta-se dele) – Não… não quero. Vou procurar a Ofélia que já é hora de alimentá-la.
Frederico (segura-lhe o braço) — Qual é o teu problema? Diz-me, se faz favor que quero saber.
Paula (vira-se e olha-o nos olhos profundamente) – Tens a certeza de que não sabes?
Frederico (desentendido) – Não. Não tenho ideia. Desde que chegamos que estás assim.
Paula (solta-se) – Então não há o que se falar ou discutir. Até já, Frederico. (Retira-se).
(Ouvir: Viveme – Laura y Alejandro. Cesar entra no quarto e encontra Victoria distraída com umas fitas coloridas e brilhantes. Observa-a da porta com os olhos marejados e apaixonados. Aproxima-se dela sorrateiramente, pega-lhe o braço, vira-a para ele e beija-a docemente).
Victoria (assutada e sem fôlego) – Meu amor, o que foi isso? (Rir-se) Não esperava.
Cesar (acaricia-lhe o rosto) – Amo-te, minha vida, amo-te tanto que até dói. (Pega-lhe a mão e leva-a ao seu peito) Dói aqui dentro, porquê estás aqui… sente como bate forte.
Victoria (engole em seco) — Aí, Cesar… porquê estás assim tão… tão estranho?
Cesar (senta-a junto dele) – O Frederico contou-me sobre… sobre o filho que perdeste. (Victoria desata a chorar e abaixa a cabeça. Começa a tremer. Cesar volta a abraçá-la). Calma! Não precisas ficar assim, minha vida. Está tudo bem… eu estou aqui contigo. Amo-te.
Victoria – Foi… foi um acidente… eu não tive culpa, eu juro que não queria matar o meu filho…
Cesar – Eu sei… ei! Eu sei, está bem? Eu acredito, meu amor. Tu és incapaz de fazer mal a alguém. Não chores mais por isto. Acabaram-se as tristezas, lembras? Vida nova!
Victoria – Nunca vou poder dar-te uma criança como a Paula deu ao Frederico.
Cesar – Não importa. Só o que me importa é estar ao teu lado para sempre… sempre!
(Victoria abraça-o novamente e enxuga as lágrimas. Ela sente uma paz que nunca antes havia sentido… tinha tudo agora. A felicidade bateu-lhe a porta e ela não recusou a visita. O amor que eles tinham era mais forte que qualquer dor, e maior que a eternidade seria o seu amor. Não havia motivos para lamentos naquele lar, nunca mais).
FIM (CAPITULO 99) – Penúltimo.
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