Duas Faces - Continuação
55 Capitulo 100
Capitulo 100
(Ouvir: Laura y Thalia – Sino a ti. Fez-se já dia do casamento. É manhã e o sol já ilumina a velha Lisboa, os raios reluzem nas vidraças dos janelões lisboetas. O casarão não para, está agitado. Pessoas entram e saem a todo vapor; há garçons, decoradores, cozinheiros, empregadas… o jardim está-se a enfeitar mais ainda para a festa do casamento. A grama verde era um toque toscano que fez-se em faceta para aquele dia; havia um chafariz pomposo e elegante, decorado por querubins que jorravam agua dos lábios em pose de balé. Tulipas vermelhas eram a cor daquele ambiente; espalhadas por todos os cantos, elas davam vida à data. Há mesas com toalhas cor de rosa e outras em creme, em cima, arranjos de flores, precisamente gardénias… bastante curioso por sinal. O casamento seria naquele fim de manhã, ao meio dia. Da varanda do quarto da Victoria e do Cesar havia muito barulho, vozes agudas das mulheres daquela casa. Estavam todas muito nervosas enquanto arranjavam a bela noiva. Victoria, já vestia o elegante vestido que fazia-a parecer-se à uma deusa mitológica. Paula arranjava-lhe o cabelo com a ajuda de um exitoso cabeleireiro que discutia com ela as desavenças, tornando a ocasião feita para risos. As manicures tratavam cada uma duma mão… era um luxo sem fim. O maquilhador não sabia por onde esgueirar-se com tanta gente. Paloma e Cristina enfeitavam o bouquet com laços e fitas, enquanto cuidavam da Ofélia que usava um vestidinho banco com rendas e uma fita cor de rosa. No outro quarto, Cesar sentia-se sufocado com aquele fato de noivo que apertava-lhe o pescoço. Estava tão nervoso que nem sabia por onde começar. Frederico põe-lhe o paletó enquanto Francisco arranja-lhe o cravo que ia no bolso do peito, Heitor e Santiago recebiam os criados citados anteriormente. Era uma confusão, uns nervos… mas ainda via-se sorrisos naqueles rostos exaustos e aperreados).
Cesar (suava e tremia) – Oh, Deus do céu… estou a transpirar… justo hoje, justo hoje!
Frederico – Acalma-te, homem, que não és o único a estar de nervos em pele.
(No quarto onde estava Victoria).
Victoria – Andem com isto, não quero que saia muito atrasado… aí! Será que vou ficar bonita?
Paula – És a noiva mais linda que esta cidade já viu, agora deixa de mariquices e acalma-te!
Maquilhador (grita entusiasmado) — A noiva… está pronta! E que rica noiva temos.
Paula (com lagrimas nos olhos) – Pareces uma rainha, minha irmã! Parabéns. (Olha para os empregados) Bem, obrigada pelos vossos serviços, fizeram um trabalho fantástico. Na saída falem com a senhora Olga. É ela quem vai pagar-vos.
(A equipe olha para Victoria como se não entendessem o motivo de serem dispensados).
Victoria – Ah… meus senhores, esperem no corredor que eu já vos chamo. (Para Paloma e Cristina) Minhas lindas, saiam também, por favor, e levem a Ofélia. Obrigada!
Paula (sem perceber) – Ora… no corredor? Mas porquê se a noiva já está pronta?
Frederico (entra no quarto, está atrás da Paula e ela não o viu entrar) – Uma delas!
Paula (vira-se surpresa) – Frederico? (Olha-o da cabeça aos pés. Não usa roupas de padrinho).
Frederico (aproxima-se dela, beija-lhe a mão ajoelha-se e saca do bolso uma caixa de veludo branco. Abre-a e apresenta duas alianças) — Senhora Maria Paula, aceita casar-se comigo?
Paula (sente as pernas tremerem e engole em seco. Não pode acreditar no que vê e ouve… Frederico pedia-a em matrimonio) – Eu… eu acho que vou desmaiar. Como… eu não entendo.
Victoria – Achavas que ele não ia pedir-te em casamento, tola? (Rir-se) Foi tudo armado para fazermos uma surpresa. Vamos nos casar no mesmo dia. (Sorri).
Frederico – No mesmo dia nos apaixonamos, no mesmo dia nos conhecemos, no mesmo dia dançamos, no mesmo dia… no mesmo dia nos casaremos, pois é a ordem do destino.
Paula (desata a chorar) – Meu amor… Sim… sim… mil vezes sim! (Atira-se aos seus braços).
(Frederico retira-se e entra a equipe, pronta para arranjar a próxima noiva).
Victoria – Hoje é o nosso dia, minha irmãzinha. A partir de hoje seremos felizes para sempre.
Paula (abraça-a) – Mas… Victoria, eu não tenho o que vestir… não me posso casar assim… eu…
Victoria – Aí… Deus do céu! Reclamas muito. Anda cá! (Leva-a ao guarda-roupas e abre-o deixando-se ver um majestoso vestido de noiva. Era um branco rosado, com o mesmo desenho que tinha o da Victoria. possuía lindos e charmosos bordados que estendiam-se do busto aos quadris. Na cintura, acentuava-se um singelo cinto de ceda com uma fivela em flor, que no meio reinava-se uma pérola. As mangas eram longas, o tecido descaia aos cotovelos e completava-se com rendas feitas a mão. A olho nu soava simples mas era digno de vestir a realeza. Paula fica emocionada com tanta graça) Lembras que escolheste-o?
Paula – É mais lindo assim… visto de perto. Obrigada por tudo isto, minha irmã!
Victoria – Já era hora de eu fazer algo por ti, minha pequenina. (Abraça-a).
(Tudo era perfeito e todos estavam radiantes. Parecia que a felicidade enfim brilharia para aquelas irmãs que sofreram por quatro décadas. Com tudo, nem todos gozavam daquela felicidade. Distante de Lisboa, num campo afastado da civilização, havia um prédio grande… mais parecia um enorme castelo. Era feito de pedra e possuía aparência religiosa, com muros altos e portões bem guardados. Dentro daquela instituição, perambulavam pessoas dum lado para o outro, a deriva… como se estivessem sem objetivo. Todos vivendo individualmente, presos no seu próprio mundo. Usavam roupas brancas com um olhar vazio e por vezes assustado. Algures, vê-se uma mulher sentada no balanço com uma boneca de pano a balbuciar palavras continuas e sem sentido; na escadaria do prédio, temos um homem que desce e sobe sem parar; no gramado há uma jovem deitada com um lírio na mão julgando já estar morta. Nos confins daquele lugar, há um salão e nesse salão, mais pessoas confusas de branco. Ouve-se tocar uma irritante musica que parecia ter o intuito de os enlouquecer. Ouvir: Dominique — AHS. Sentada numa poltrona está uma mulher maltratada, tem um olhar triste e cansado, os cabelos louros acastanhados estavam embaraçados, grandes olheiras e nenhuma palavra lhe saia da boca. Balançava o corpo para frente e para trás, com os braços cruzados. Não desviava o olhar e mal piscava os olhos… estava perturbada. Aproxima-se dela uma freira, a diretora, mais precisamente dito. Tinha uma postura altaneira e uma feição de desgosto e soberba. Vem com ela dois homens vestidos de azul céu, com luvas).
Freira – Levanta-te! Estás ai já a muito tempo… é hora de ires ver o doutor Hans para tomares os medicamentos. Não estás a ouvir? Obedece, Patrícia!
Patrícia (para de balançar e olha-a como se lhe queimassem os olhos) – Chamo-me… Paula!
Freira (agarra-lhe o queixo com agressividade) – Ainda com isso? Tu te chamas Patrícia.
Patrícia (solta-se e cospe-lhe ao rosto) – Sou Paula e o meu marido Frederico me vem buscar… ele vem… ele vem porque… porque ele me ama… só a mim… eu sei que ama!
Freira (limpa o rosto e dá-lhe uma bofetada) – Levem-na para o Hans e depois para a solitária.
Patrícia (debate-se nas mãos dos médicos e começa a gritar) – Não! Para a solitária não… por favor, ele me vem buscar, o Frederico me vem buscar! Eu não estou louca… Frederico, salva-me! Elas deveriam estar aqui e não eu… eu sou a Paula… soltem-me, eu sou a Paula!
(Um triste fim para uma triste mulher. Patrícia era jovem e bela, era rica… tinha tudo o que uma mulher poderia desejar, mas ela quis mais… quis roubar o que não lhe pertencia e o destino foi um juiz cruel condenando-a a apodrecer num manicômio. Ouvir: Felix Mendelssohn — Marcha Nupcial del Sueño de una noche de verano. No castelo de São Jorge ouvia-se a orquestra que anunciava a entrada daquelas majestosas noivas. Entravam a caminhar sobre um longo tapete vermelho Paloma a deitar para o chão pétalas de tulipas vermelhas e Cristina lançava pétalas de gardénias, atrás delas vinha Heitor e Francisco com as alianças, em seguida entra o jovem Santiago de braços dados com a Olga. Por fim, entra Telmo, de braços dados a sua menina Paula e a sua querida Victoria. Uma visão dos deuses era o caminhar daquelas mulheres, que eram graciosas como dois cisnes brancos a voar. Os convidados, amigos, familiares de outrora, observavam maravilhados com tanta beleza num só lugar. No altar, um juiz, uma vez que já foram casados na igreja, agora eras-lhe negado um padre, mas isso não era impedimento para selar aquele amor. Frederico e Cesar, nervosos, esperavam ansiosamente que lhe fosse entregue as respetivas senhoras).
Juiz – Um facto deveras peculiar é o que vejo hoje. Nunca antes algo assim aconteceu. Duas irmãs… gémeas, trocam de marido neste recinto e neste dia. Bem, iniciemos a cerimónia. Antes de mais nada, se há alguém neste lugar que é contra este matrimonio que fale agora ou cale-se para sempre! (Os quatro olham para o publico com receio). Sendo assim, continuemos. Senhor Cesar Ferreira, aceita para sua esposa a senhora Victoria Maia?
Cesar (segura-lhe as mãos) – Aceito amá-la e respeitá-la, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza até que a morte nos separe. Aceito ser o teu esposo e companheiro para sempre.
Juiz – Senhora Victoria Maia, aceita para seu esposo o senhor Cesar Ferreira?
Victoria (quase a chorar, olhando-o nos olhos) – Aceito amá-lo e respeitá-lo, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza até que a morte nos separe. Se tu pulas eu pulo… é assim!
Juiz – Senhor Frederico Moreno, aceita para sua esposa a senhora Paula Maia?
Frederico (beija-lhe a mão direita) – Quero estar contigo até o ultimo dia da minha vida, até o ultimo suspiro do meu corpo e até o ultimo sol que verão os meus olhos. Aceito… aceito!
Juiz – Senhora Paula Maia, aceita para seu esposo o senhor Frederico Moreno?
Paula (deixa escorrer uma lagrima) – Viver sem ti é pior que morrer. Preciso de ti, meu amor, preciso de ti agora que já estás ao pé de mim. Aceito ser tua para sempre.
Juiz – As alianças, por gentileza. (São postas as devidas alianças) Bem, pelo poder que a mim me é investido, eu vos declaro, maridos e mulheres. Podem beijar as respetivas noivas.
(Ouvir: Laura y Thalia – Sino a Ti. Saem pelos portões do castelo sob uma chuva de pétalas de tulipas e gardénias. A espera deles estavam duas carruagens brancas, com detalhes em talha dourada, feitas no seculo XVII e puxadas por seis alazões de fino trato. Ofélia fica aos cuidados da sua tia Olga que tantas vontades tinha de cuidar um bebé. As carruagens arrancam com os dois casais, levando-os para um futuro limpo e livre de tragédias. Andam uma ao lado da outra, descendo as colinas da Baixa Chiado até separarem-se tomando cada uma um destino diferente como se os quatro já não estivessem mais entreligados, e portanto, independentes).
(Dias depois – Santorini, Grécia – Restaurante).
Victoria (numa mesa a luz de velas, de mãos dadas com o Cesar, dá-lhe um beijo) – Sentes esta paz? Só nós os dois… sozinhos neste lugar que mais parece um paraíso…
Cesar (suspira) – De agora em diante seremos só nós os dois… sem adereços indesejáveis. (Beija-lhe a mão) Nada poderia ser mais perfeito do que isto… amo-te!
Victoria – Eu também amo-te! Nada e nem ninguém vai nos separar… nunca. Excerto… esta necessidade de ir à casa de banho retocar a maquilhagem. (Beija-o) Volto num segundo.
(Victoria entra na casa de banho e fica diante do espelho. Suspira e sorri. Abre a bolsa para pegar um batom mas deixa-o cair sem querer, ela abaixa-se para apanhá-lo e levanta-se a olhar para ele e quando se vira para tem uma admirável visão).
Victoria (a olhar com os olhos arregalados) – Paula?
Paula (igualmente surpresa) – Victoria?
(Tudo acaba onde começa…)
FIM
Obrigada à todos que acompanharam esta história até o final.
Fale com o autor