Capitulo 95

(Após uma tarde de paixões, Victoria e Cesar chegam em casa aos risinhos e beijinhos).

Cesar (entusiasmado) – Bem poderíamos jantar lá e dormir… no sentido figurado. (Rir-se).

Victoria – Xiu! Vão-nos ouvir, oh parvo. (Beija-o em meio a sala) Anda… vamos jantar.

(Entram na sala e deparam-se com Paula e Frederico a sentarem-se para jantar).

Cesar (após puxar a cadeira para Victoria ele cumprimenta) – Ora, muito boa noite!

Paula – Boa noite, Cesar! Então, almoçaram juntos, os meninos, hã? Bem… na minha época não havia nada disso. (Rir-se). Pensei que esta cena nunca sucederia.

Olga (entra na sala com Telmo) – Lamento tirar-vos os apetites mas temos uma coisa a dizer.

Cesar (levanta-se preocupado) – Então, tia, que se passa? Qual a noticia da vez?

Telmo (em tom grave) – Já sabemos quem é o responsável, ou melhor dito, a responsável pela separação das senhoras dona Maria Paula e dona Maria Victoria.

Victoria – Ora… porquê tanto suspense? Digam logo quem é esta criminosa?

Olga – É… é doloroso dizer isto de alguém que esteve na minha vida todo o tempo mas…

Paula – Basta de rodeios! Diz-nos de uma vez quem nos fez isto? Andem!

Telmo (tenta hesitar, mas já não pode) – Foi… foi a senhora Dolores Ferreira!

(Aquela noticia soava-lhes como eco repetido aos ouvidos. Cesar não podia crer que o sangue do seu sangue foi capaz de tal crueldade com dois seres inocentes).

Cesar (perplexo) – Não… estão enganados… a… a minha tia? Não! isso é impossível.

Olga – Eu sei que dói, filho, mas é a verdade. Dolores é uma mulher má e sem alma.

Victoria (enfurecida, começa a chorar) – Até quando, meu Deus, até quando essa mulher nos vai fazer mal? Ter coragem de machucar à duas crianças! Ela é um monstro.

Paula (abraça a Victoria) – Acalma-te, irmã! Telmo, Olga, como vocês sabem disso tudo?

(Olga envergonha-se. Sempre soube e manteve-se calada em cumplicidade. Vira-se para não responder. A consciência pesa e as lágrimas escorrem-lhe pelo rosto).

Telmo – Eu escutei quando a senhora Dolores disse aos gritos, porque elas discutiam. E o motivo da discussão é que… bem é uma longa historia. (Vai até a Olga e segura-lhe a mão). Há muitos anos atrás, eu e ela apaixonamo-nos e tivemos um romance secreto. Quando a minha menina Paula ia fazer os seus dezoito anos, eu finalmente estaria livre para ir ou ficar, e decidi pedir a Olga em casamento, e fi-lo por uma carta. Era o costume naquela época. Mas quem recebeu esta bendita epistola, fora Dolores que assim descobriu tudo… aproveitou-se da semelhança da sua letra com a da Olga para responder à carta, a dizer coisas horríveis. Com dor no coração, e ingenuamente, eu acreditei naquelas falsas palavras, não sabendo que a Olga esperava já um fruto do nosso amor no ventre.

Paula (admirada) – Vocês os dois… tiveram um filho? Telmo, porquê nunca me contaste nada?

Olga – O Telmo não sabia, ficou a saber… vinte e dois anos depois que naquela época eu esperava uma menina. Quando o Telmo foi-se embora, eu fiquei destroçada e a Dolores, cínica, aproximou-se fingindo estar preocupada comigo, foi então que, num ato de confiança, revelei-lhe a verdade. Disse que estava gravida, e ela, astuta que era, disse-me para irmos longe de Lisboa e eu aceitei, para que a sociedade não soubesse da minha gravidez pois seria um escândalo. Fomos para os Açores e lá eu dei a luz. Estava com a Dolores e uma criada, esta foi encarregue por ela de sumir com a criança… atirou-a numa vagabunda lata de lixo. Depois a Dolores disse-me que nascera morta e que não havia motivos para eu vê-la.

Victoria (apavorada) – Jesus me valha! Esta mulher é o próprio Diabo. E… onde está a menina?

Nina (entra na sala) – Estou aqui, senhora Victoria. Eu sou a filha do Telmo e da Olga.

Victoria (indignada) – A criada? Mas isso é o cumulo. E como podemos saber se não é mentira? Eu lembro-me de te apanhar a bisbilhotar nas minhas coisas e te repreendi por isso.

Nina – Bem, de facto isso é verdade. É porque eu fui achada por uma mulher que me criou, ela procurou durante anos a minha verdadeira família e descobriu que eu era uma Ferreira, mas nem podia imaginar que a minha mãe era a Olga, então supôs que eu fosse filha do Cesar, mas que não era da Paula e por tanto, ela fora a responsável pelo meu abandono. A minha tia é a Vicenta que, durante anos, trabalhou nesta casa. Entrei aqui em prol de vingança e de recuperar o meu lugar, mal sabia eu que estava no caminho errado.

Paula – E andavas a espionar a Victoria porque achavas que ela era eu?

Nina – Exatamente! Logo depois, a senhora Dolores descobriu quem eu era e me aliciou para que eu não suspeitasse da verdade. Confesso que participei em coisas horríveis e peço perdão.

Victoria (reflete e chega a uma questão) – Só diz-me uma única coisa, Olga: tu já sabias que a Dolores tinha feito isso comigo e a Paula? Já sabias que ela nos havia separado?

Olga – Eu… bem, eu… Perdoem-me! Eu era muito jovem na época e tive medo dela… eu…

Victoria (dá-lhe uma bofetada) – Tu és tão culpada quanto ela! Tu és cúmplice, Olga.

Telmo (afasta-a da Olga) – Nunca mais encostará um dedo nas pessoas que eu amo, ouviu?!

Cesar (avança e abraça a Victoria) – Não faças isso, Telmo! A Victoria tem razão. Tia, como foste capaz de ficar calada assim diante de um crime destes?

Olga (a chorar) – Eu não sabia o que estava a fazer, filho. Ela ameaçou-me, não entendes?

Paula – Está bem… já basta! Olga, é verdade que cometeste um erro quando ficaste em silencio, mas ainda bem que resolveste dizer a verdade… é muito nobre da tua parte.

Victoria – Nobre? Tu não vês que ela está-se a vingar da Dolores pelo que ela lhe fez? Se não fosse a historia da criadinha, ela não teria dito nada, Paula. É tão má quanto a irmã.

Frederico – Já basta! O importante é sabermos a verdade. Vocês disseram que ela fugiu?

Olga – Sim. Esta manhã fomos a sua procura e as coisas dela já não estavam no quarto.

Paula – Mas isto não tem importância… denunciamo-la e ela vai ter o que merece.

Dolores (entra na sala a aplaudir) – Muito bem! Isso mesmo… chamem a policia. Mas antes eu quero dizer desde já que eu fico com a cama de cima e vocês duas que se arranjem.

(Todos ficam assustados com a presença dela. Como Dolores foi capaz de voltar lá?).

Victoria – Desgraçada, maldita! Como te atreves a entrar nesta casa depois de tudo o que fizeste? O que é? Não tens medo de ir presa ou de morrer, maldita bruxa?

Paula – Como foste capaz de fazer-nos tanto mal? E porquê disseste aquilo das camas?

Dolores (rir-se) – Denunciem-me se quiserem, mas eu também posso vos por na cadeia.

Victoria – Ah é? E como farias isso, se é que podemos saber? De quê nos acusarias?

Patrícia (entra na sala) – De usurpação e falsidade ideológica, minhas queridas gémeas.

Paula (inerva-se) – Ora… era-se de esperar que tu também estavas no meio do covil.

Patrícia (rir-se) – Podes dizer o que quiseres, queridinha, tu estás feita até o pescoço… vocês duas, aliás. Aí, que pena, não é? Loucas por justiça e hipócritas sem olhar o próprio rabo.

Dolores – Coitadinhas… eu sou a madrasta má e vocês as princesas resgatadas pelos príncipes encantados que vos salvam das minhas maldades. (Despeja uma gargalhada) Que pena.

Cesar (enfurecido) – Põe-te para fora da minha casa agora mesmo, que não te quero voltar a ver nunca mais nesta vida. Tenho vergonha de seres da minha família.

Dolores – E eu sempre tive vergonha de ter um molengas como tu na família. Casar-se com esta mulherzinha, filha dos Maia? Que asco tenho de ti, e como se fosse pouco, mudas de mulher mas para pior. Achas mesmo que serás feliz ao lado de uma… uma qualquer?

Victoria – Cala-te, Dolores! Posso não ser muita coisa, mas sou e sempre serei melhor que tu em todos os aspetos. Perdeste a tua família para mim, aceita-o de uma vez, vai-te doer menos.

Paula – Até podemos ficar caladas e não as denunciar, afinal, ainda assim sairemos a ganhar. Olha Patrícia, o Frederico e eu vamos casar-nos e teremos um filho. E tu? Ah, sim! tu seguirás sozinha e rejeitada como sempre. (Para Dolores) E tu… eu no teu lugar preferiria estar na cadeia. Perdeste a tua família, perdeste a tua casa. Para onde vais? Como te vais manter? Até onde eu sei, quem te sustentava era o Cesar, mas e agora? Agora estás na rua.

Victoria – Paula tem razão, Dolores. Não vais sair impune, vais ficar na miséria das tuas mentiras para sempre. Queres o nosso silencio? Pois bem, calamo-nos. Agora vai-te embora… as duas. Rua! Saiam da nossa casa. (Grita) Fora!

Dolores – Sim, sim, eu vou embora! Esta casa aqui… cheira a fossa! (Sai com a Patrícia).

(Paula corre e fecha a porta. Fica em silencio por uns momentos e desata a chorar encostada à madeira fria. Frederico vai depressa e abraça-a antes que ela deslizasse e caísse ao chão).

Frederico (dá-lhe beijinhos) – Calma, meu amor. Anda, vem! Levanta-te, minha querida.

Paula (levanta-se e vai até a Victoria. abraça-a forte) – Vai ficar tudo bem, irmã… agora vai.

Victoria (põe-lhe a mão no rosto) – Nada nem ninguém volta a fazer-nos mal. Eu juro-te.

(Elas abraçam-se. Era uma sexta feira cheia de intrigas e revelações, mas o curioso é que numa sexta feira foram separadas, numa sexta feira reencontraram-se e numa sexta feira souberam a verdade. Uma historia de tragédia, lembrava o Frei Luís de Souza, pois numa sexta feira Dona Madalena perdera D. João de Portugal e numa sexta feira ele regressou. Mas ainda não sabiam que Dolores matara a mãe delas num ato de crueldade. Dolores deixou palavras guardadas. Pretende ela voltar? Enquanto isso ela estava no carro com a Patrícia).

Dolores (irritada) – Não importa o que façamos, elas sempre dão um jeito de ficar bem.

Patrícia – Não vai ser assim por muito tempo, minha querida Dolores. Faremos algo depois.

Dolores – Não! Faremos algo já! E eu tenho uma ideia, só que desta vez… vamos matá-las.

(Em casa, os casais estão nos seus respetivos quartos, incluindo o Telmo e a Olga. Paula está deitada sobre a cama, de costas para Frederico que o tem abraçado junto a ela).

Paula (a chorar baixinho) – A minha vida inteira estive com uma cobra e nem sabia.

Frederico (dá-lhe um beijinho ao rosto) – Não penses mais nisso, meu amor. (Ouvir: Rita – Preciso de ti) Olha-me! Nunca mais ninguém vai te fazer mal algum. Eu juro-te.

Paula (abraça-o forte) – Protege-me, meu Frederico, protege-me deste mal que me rodeia em constante. Tenho tanto medo de que ela nos volte a fazer mal. E se for aos meus filhos? Ou a ti? Não! Não suportaria que ela vos magoasse… eu morro se te acontece algo, meu amor!

Frederico – Nada vai acontecer, minha vida, nada, porque eu estou aqui contigo. (Beija-a nos lábios, ternamente) Amo-te, minha Ofélia, e ficaremos juntos pela eternidade.

FIM (CAPITULO 95)