Capitulo 91

(Frederico levanta-se tremulo, incrédulo. Todos estão estupefactos).

Frederico – Grávida? E porquê… oh, Deus! Porquê não me disseste antes? Quando ias dizer?

Olga – Ouçam, meninos, porquê não vão conversar a sós, hã? Vão, queridos!

Paula – Olga tem razão. Vamos para o quarto… lá conversaremos como deve de ser.

(Eles sobem para o quarto deixando a sala em silencio surpreso. Cesar pega Victoria pelo braço e chama-a para segui-lo e ela o faz. Dolores está pasma… a história repetia-se).

Cesar – Victoria, porquê não me disseste nada sobre a gravidez da Paula?

Victoria – Como assim, Cesar? Isto não tem nada a ver nem comigo e nem contigo.

Cesar – Ah é? Então porquê tu e o Telmo sabiam? Porquê era um segredo… até para mim?

Victoria – Paula contou-me porque sou a única amiga dela e Telmo soube porque ouviu sem querer a conversa… mas isto não tem nada a ver com nenhum de nós, Cesar.

Cesar – Podias ao menos me ter contado, ou não? Achei que tivéssemos… não sei… confiança.

Victoria – Meu amor, há confiança quando são coisas que dizem respeito à nós dois.

Cesar – Não me interessa! Eu conheço a Paula desde que ela tinha sete anos… Victoria, crescemos juntos, fui o primeiro na sua vida e ela não me conta algo tão importante assim?

Victoria – Querido, nem o pai da criança sabia… que dirá tu. Ela não queria dizer… ah! Sei lá por que motivos. Acho que tinha medo de ele dizer que o filho era do Rodrigo ou o queria castigar por tudo que a fez sofrer… enfim, amor, eu não sei! Não penses mais nisto.

Cesar – O que mais me dói é tu não me teres confiado tal segredo. Victoria, Paula precisava de ajuda e eu estaria disposto a ajudá-la… eu nunca diria ao Frederico.

Victoria – Cesar, põe uma coisa na tua cabeça: isto não é da nossa conta!

Cesar – Não é só o segredo… é tu esconderes coisas de mim… que mais escondes?

Victoria (indignada) – Eu não escondi qualquer coisa, e não escondo coisas sobre mim. Este assunto tem a ver unicamente com a Paula e o Frederico. Porquê esta reação, Cesar?

Cesar – É que… eu pensava que as mentiras já se tinham acabado. Mas agora vejo que enganei-me. Tu e a Paula continuam com segredinhos.

(Frederico e Paula estão no quarto. Ele está de costas para ela, não sabe se tem raiva ou emoção. Aquela descoberta era demasiado surreal para ele).

Frederico – Gravida! Gravida… Paula, quando me pensavas contar que… que eu vou ser pai?

Paula – Pai? Tu? Ah é? Tens a certeza de que tu és o pai do meu filho? Bem… de repente pode ser o Rodrigo, porquê não? Afinal, eu e ele eramos amantes, segundo tu!

Frederico – Paula, por favor! Não é hora para isto… (cai em si) Oh, Deus! Tu não me contaste porque achavas que eu ia dizer que não era meu filho? Paula! Como pudeste?

Paula – Deixa-me ver se tenho boa memória: estava eu a chegar ao México, sozinha, quando senti uma estranha tontura, imediatamente procurei um medico que me deu a noticia. Abandonada e destroçada pelo único homem que eu amava, refugiei-me esperançosa do seu regresso. Eis que este homem de facto regressa e eu, ingénua, estava disposta a perdoá-lo outra vez, mas quando soube das atrocidades que fizeste, Frederico… como eu iria dizer-te que estava a espera de um filho teu? Filho de um homem louco e doente como tu.

Frederico (cai sentado sobre a cama) – Não… eu não posso crer que eu sou o culpado de…

Paula – Sim, és! Todos os prantos de outrora, todas as mentiras, Frederico, foram por ti! Como passar o resto da vida com alguém que sempre vai desconfiar por uma mentira de amor?

Frederico (ajoelha-se diante dela abraçando-lhe o ventre) – Perdão, meu amor! E tu, pequenino que aqui reside, perdoa este bruto a quem chamarás de pai. Perdoa este perro homem que não teve coração justo com a vossa mãe que quase santa é. (Levanta-se) Paula, amo-te e amar-te-ei até o dia da minha morte. Abandona-me se quiseres, mas não me tires este filho que tanto amor terá de mim. É meu, é nosso. Sê minha esposa e eu nunca mais te farei derramar uma única lágrima que seja. Viveremos um para o outro, vida minha. Vamos ser mãe e pai de um filho nosso! Paula, dar-me-ás um filho… não mereço tal recompensa.

Paula (a chorar) – Levanta-te, Frederico! Fiquei deveras admirada com a tua reação… pensei que me ias escorraçar outra vez. Alegro-me por teres ficado tão contente.

Frederico (a segurar-lhe as mãos) – Ofélia, amor da minha vida, casa-te comigo?

Paula – Ah… Frederico, eu não sei! Dá-me um tempo para decidir isto, sim?

Frederico – Claro, minha flor de Lótus! Só promete-me que ficaremos juntos até decidires.

Paula – Está bem, Frederico. Ficaremos um com o outro… mas do meu modo.

Frederico – Nada mais me importa além de ti e dos nossos filhos, querida… os meus, os teus e o nosso. (Frederico abraça-a emocionado com o presente. Ele tem tudo, agora).

(Dolores está no quarto enfurecida com a noticia. Parece dar voltas e não sair do lugar).

Dolores – Outra vez… gravida! Maldita seja, maldita! Além de voltar da morte, ainda trás consigo um demónio no ventre, este bastardo que nascerá de um adultério. Não… não vou permitir tal infâmia. Os meus sobrinhos eu perdoei mas o nascimento de um fruto maldito, isso não! Só que agora não haverá criados que o levem para longe, não! Morre o filho e morrerá a mãe. Já matei a mamãe das malditas irmãs… pois que me custará outra morte?

(Victoria vai atras do Cesar que está a descer a escadas injuriado. Os filhos estão presentes).

Victoria – Cesar, Cesar, espera! Onde vais assim? (Agarra-o pelo braço) Ouve-me!

Cesar – Vou trabalhar… é melhor do que ficar numa casa onde não me têm confiança.

Victoria – Não é isso, meu amor, ouve um instante! (Ele sai antes que ela pudesse dizer).

Santiago (para Francisco) – Ouve, o teu pai sempre é a mulher da relação?

Francisco (chateia-se) – Cala-te, puto (moleque) Não fales assim dele!

Cristina – Victoria, então… a minha mãe está mesmo gravida?

Paloma – É filho do meu pai então… também é meu irmão… aí que loucura!

Heitor – Porquê ninguém nos disse nada, mamã? Acho que… como irmãos deveríamos saber.

Victoria – Sim, queridos mas… isso não me cabe à mim explicar, hã! Cristina, pergunta à tua mãe que ela vos dirá tudo como deve de ser… isto não é minha responsabilidade.

Cristina – Sim, madrasta! Mais logo perguntar-lhe-ei sobre tudo isto.

Heitor – Mãe, tu e o padrasto estão chateados? É que ele pareceu-me um tanto…

Paloma – Heitor, deixa de cusquices que isto não nos interessa! Andem… vamos sair daqui.

(Victoria senta-se na escada, triste. Telmo aproxima-se e senta-se com ela).

Telmo – Discutiram? Imagino que foi por ter guardado mais um segredo.

Victoria – Não era meu, Telmo. Eu não tinha nada que contar ao Cesar sobre a gravidez.

Telmo – Eu entendo, minha senhora. Se D. Cesar reagiu assim imagina D. Frederico.

(Paula e Frederico vêm a descer as escadas de braços dados. Victoria e Telmo admiram-se).

Frederico – Se pensavam que eu me ia armar em parvo outra vez, enganaram-se.

Telmo (levanta-se) – Ainda bem que não foi assim. Já basta de problemas.

Paula – E de segredos. (Para Victoria) Obrigada por não lhe teres dito nada ao Cesar.

Victoria – Pois… mas a pala disso eu e ele discutimos. Disse que já está farto de segredinhos.

Frederico – Se quiseres, eu posso conversar com ele… passar o que eu aprendi.

Victoria (levanta-se) – Um sujo não ouve conselhos de um mal lavado, Frederico.

Paula (segura-lhe a mão) – Calma, Victoria. Nós queremos ajudar-te.

Victoria – Ajudar-me-ias se parasses de dramas e não me metesses nos teus problemas. Por culpa das vossas turras eu sai prejudicada. Vou ter com ele para ver o que faço. (Retira-se).

Paula – Victoria e Cesar brigaram por minha culpa… e justo eles que sempre nos juntaram.

Frederico (abraça-a) – Não, meu amor! A culpa é minha por teres ficado zangada comigo.

Telmo A culpa é das duas por terem inventado tantas mentiras e perdido tantas confianças. Sim, sim… já sei que foi por amor, mas os resultados foram tristes.

Paula – Tens razão, meu Telmo. Mas o que eu posso fazer para os ajudar?

Frederico – O ideal é que não nos metamos mais. Meu amor, eu queria ficar contigo mas tenho de votar ao escritório. É rápido, já estou de volta. (Beija-a e sai).

(Cesar chega à escola de teatro. Está nervoso e zangado. Ao entrar na sala, encontra Debora).

Debora (olha-o a sorrir, no meio do salão espelhado) – Olá, professor!

Cesar (fadiga-se) – Aí, eu não acredito! Mais essa para melhorar o dia. Que fazes aqui?

Debora – Que nervoso está o meu professor. O que houve? Problemas com a mulher?

Cesar – Não te interessa. Sai daqui, Debora. Hoje eu não estou para ninguém.

Debora – Oh, professor, nada que uma massagem não resolva. (Abraça-o por trás).

Cesar (vira-se para ela e segura-a pelos braços) – Eu já disse-te para saíres daqui!

(Debora agarra-se nos seus ombros e beija-o contra a sua vontade. Victoria entra na sala).

Victoria – Então mal discutes comigo e já estás com a outra não é, Cesar?

Cesar (afasta-a de si e vai até Victoria) – Não é o que parece. Deixa-me explicar.

Victoria – Não, não! eu não te quero ouvir. É por isso que já não me procuras anoite? Aquela briga foi o quê? Um pretexto para ficar com esta… ela quase te matou, Cesar!

Cesar (para Debora) – Sai daqui, Debora. Sai já! (Debora sai imediatamente) Olha, Victoria, o que houve lá em casa não tem nada a ver com o que se passa aqui.

Victoria – Pois eu não acredito. E já que estás assim não aborrecido comigo é melhor que eu me vá embora de uma vez daquela casa. Leva a Debora para morar contigo. (Vai a sair).

Cesar (segura-a pelo braço) – Não vais a lado nenhum. Ouve o que eu tenho para dizer.

Victoria (ao gritos) – Não quero mais ouvir! Sairei de casa e tu nunca mais vais saber de mim.

Cesar – Eu te procuro até no inferno se for preciso mas do meu lado não sais! És minha.

Victoria (desata a chorar) – Já não me amas… já não queres. (Ouvir: Viveme – Alejandro Sanz).

Cesar – Mentira! Nunca te vou deixar. Lembra do que disseste-me uma vez? “Se pulares eu pulo”. Tu não és só a minha mulher … és a minha companheira… para sempre.

Victoria (põe as mãos no seu rosto) – Então porquê estavas a beijar aquela mulher.

Cesar – Ela atirou-se a mim… eu jamais te seria infiel e sabes… amo-te, Victoria.

Victoria – Ainda estás aborrecido por eu ter guardado um segredo?

Cesar –Não… ficar sem ti… brigar contigo… é como arrancar partes da minha alma.

(Beijam-se como se estes beijos lavassem as almas feridas. Victoria abraça-se a ele).

Victoria – Basta de brigas, amor. Vamos para casa resolver isto como sempre?

Cesar (sorri abraçando-a) – Ah é? Está bem, então. E não queres resolver aqui?

Victoria – Onde? Na mesa? (Rir-se) Vês como já estou contente? Precisa de tanta maldade?

Cesar (beija-lhe a testa) – Não, meu amor, nunca mais. Agora vamos para casa.

Victoria (a sorrir para ele sedutoramente) – Mas… e a mesa? Estou a brincar, vamos!

(Em casa, Telmo sai para o mercado. Os filhos estão fora. Dolores e Paula estão quase sozinhas. O momento perfeito. Dolores levanta um pouco do tapete que cobria a escadaria. Desce e para chamar a atenção da Paula, ela derruba dois vasos ao chão que fazem imenso barulho. Paula desce as escadas a correr para ver o que era e tropeça rolando pela escadaria larga de mármore frio. Cai ao chão desmaiada com sangue a deitar dum pequeno rasgo na cabeça. Dolores aproxima-se dela a olhar com desdém, mexe o corpo com o pé e sorri satisfeita, ouve alguém a chegar e esconde-se no escritório. Victoria e Cesar entram e ao ver Paula jogada ao chão eles desesperam-se).

Victoria (ajoelhada junto dela) – Paula? Paula, responde! (Olha para o Cesar) Está morta!

FIM (CAPITULO 91)