Duas Faces - Continuação
43 Capitulo 88
Capitulo 88
(Já é tarde e todos foram deitar-se. Paula está no seu quarto… o mesmo que residia quando ela menina. Após o casamento, uma enorme obra foi feita. Juntaram-se as duas mansões e fez-se um palacete. Deitada no quarto cor-de-rosa com detalhes em marfim e mármore ela observava as pomposas bonecas de porcelana encomendadas da Itália. Tinham todas vestidos de damas do seculo XVI… os olhos eram de pedras preciosas, diamantes, safiras, esmeraldas, topázios… enfim! Eram elegantes, entre tanto tinham um olhar vago e sombrio que assustava. Tantas cortinas e panos brancos que cobriam os móveis antigos, davam um ar assombroso. Havia muitos anos que ela não entrava lá, mas como a casa estava cheia… cobria-se com os lençóis e ouvia o vento assobiar, as janelas velhas gemiam e batiam, a madeira estalava e um galho enorme fazia sombra na vidraça. Em frente a cama havia uma lareira e em cima dela o enorme quadro de madame Montserrat, sua mãe. Nascida no seculo XX tal e como a sua filha, o seu retrato fora feito nos anos cinquenta quando a madame só tinha dezasseis anos. Formosa era a senhora. Possuía cabelos negros como a noite, tinha pele branca como a neve e as bochechas rosadas como as da sua filha, era dona de olhos cor de café, tinha lábios naturalmente avermelhados, mãos pequeninas e dizia Telmo, sempre frias. Conquistara seu pai com um só sorriso e enfeitiçara-o com o seu perfume irlandês. Levava consigo um olhar meigo e doce, pronunciava palavras sempre amorosas… era quase uma rainha. Chamavam-na milady e ao senhor milorde. Adorava ler e tinha um senso de humor indestrutível. Suas flores favoritas sempre foram as gardénias, entretanto nutria uma secreta paixão pelo vermelho das tulipas. A sua voz atraia os passarinhos que ela alimentava ao pé do lago. Usava sempre saia longa, jamais vestiu calças que a roubassem a feminilidade e delicadeza que só uma rainha de berço poderia ter. Era a maior adoração do senhor Afonso. Mas a maldade residia ao lado… quando madame Ferreira faleceu no parto após o nascimento do pequeno príncipe Cesar e o senhor Ferreira afundou-se no trabalho para não sofrer, o pequenino ficou aos cuidados da ingénua Olga e da perversa Dolores. Ah! Quando ela pôs os olhos no D. Afonso quis que fosse seu, e madame Montserrat, que não era boba, afastou-o dos Ferreira para proteger o seu amor. Quando engravidou Dolores sentiu a sua fragilidade e esperou os nove meses para dar o bote mortal. Tinha dois empregados de origem latino-americana e ofereceu-lhes muito dinheiro para sumir com o filho que viria. Aproximou-se do Afonso e convenceu-o de que queria ajudar em tudo que fosse necessário. Dolores era bonita, loura, alta de olhos castanhos mas não tão bonita para ganhar da senhora Maia, a madame Montserrat. No dia do parto, teve a imensa sorte de que Afonso não estivesse em casa e chamou a empregada que fez o parto. Segurava nas mãos uma linda menininha de cabelos negros e olhos esverdeados. Mal nasceu, entregou-a aos empregados e mandou-os embora numa fração de minutos. Quando voltou para dentro viu Montserrat gritar de dor e foi então que descobriu que havia mais uma criança. Esta era loira como o pai, tinha os olhos da mãe e só chorou uma única vez. Ficou assustada sem saber o que fazer com aquela criança, os empregados já se tinham ido. Era tarde demais… aquela menina era suficiente para manter o amor dos dois intacto… a menos que… a madame morresse. Pousou a criança no berço e correu para casa. No porão havia pequenos frascos com venenos de cobra e viúvas negas. Ironicamente, a viúva foi quem destruiu a dama mais ilustre que Lisboa já criou. Alguns minutos depois, entra Afonso e destroça-se com a perda da esposa… olha para o berço e vê o seu consolo. Ele não sabia que eram gémeas, então só teve amor para uma. Dolores comemorou em silencio. Finalmente seria seu mas ele não tinha olhos para nada além da sua princesinha. Esteve com ela até os seus oito anos… quando sofreu o terrível acidente no navio que o levava para as Índias. E como se Dolores não tivesse já suficientemente desgraçada, o seu sobrinho achou de interessar-se justo pela imagem mais fiel da sua única rival, nutrindo assim, um odio eterno pelas duas crianças, fruto da sua desgraça. Pobre Paula e pobre Victoria… se ao menos soubessem que são irmãs, mas nem isso. Um trovão cai como um grito demoníaco e Paula sai do quarto a correr, entra nos aposentos de Frederico e refugia-se nos seus braços despertando-o assustado).
Frederico (abraçando-a forte nos braços) – Que foi, meu amor? Estás a tremer!
Paula – Frederico, o quarto é escuro e assustador. Quero dormir aqui… mas sem malandrices.
Frederico – Claro, Ofélia! Para dormir ao teu lado, mato até dragões. (Rir-se abraçando-a). Meu bem! (Paula olha-o) Eu senti tanto a tua falta… sofri a tua ausência e senti que ia morrer.
Paula – Sabes que tudo isto é culpa do teu ciúme e da tua desconfiança.
Frederico (senta-se e encosta-se à cabeceira) – Eu admito! Não… não nego. Mas é que só de pensar em outro homem a tocar-te… Jesus me valha! Sinto o sangue a ferver. (Olha-a e acaricia-lhe o rosto) Paula, o que tenho que fazer para recuperar o teu amor?
Paula (abaixa o olhar e deita-se sobre o seu peito) – Conquista-me como se fosse a primeira vez. (Adormece, cansada, afastando os pesadelos que tanto atormentaram aquele homem de alma açoitada que sem remorso abraçava-a e apertava-a entre lençóis ainda que verão fosse. Nasce o sol e distante daquele quarto estava o de Dolores que com a ajuda de Olga, já punha a mesa sem saber que eram necessários mais três lugares. De costas para a porta ela ouve um bom dia que vinha do Cesar. Responde confiante e sem se virar mas ouve outra voz e vira-se).
Dolores (admirada) – Cesar, que faz esta mulher aqui? Já dizia eu que ela não se tinha ido para sempre das nossas vidas. Maldita seja! Mas espera até os teus filhos virem isto.
Cristina (vem a entrar) – Bom dia, tia Dolores! Dormiste bem, tia Olga? (Vai até Cesar e dá-lhe um beijo) Como estás, papá? (Abraça-se à Victoria) Que bom ver-te pela manhã!
Dolores (assustada) – Mas… mas o que significa isto? Ah… mas sei que o Francisco não vai…
Francisco (entra na sala) – Bom dia à todos! O que há para se comer? Estou morto de fome.
Dolores (indignada) – Mas… ora bolas! Não têm olhos na cara? Será que não vêm que está a mesa uma candidata à madrasta? Olga, porquê não me contaste que ela dormiu cá?
Olga – Eu já ia dizer-te, Dolores. Há mais uma coisa que precisas de saber. Ouve, é que…
Dolores – O quê? Só faltavas dizer que o fantasma da Paula veio assombrar a casa.
Cesar (a rir-se) – Quase isso, tia! Mas garanto que a realidade é bem mais agradável.
Dolores – Já basta com estas conversas vagas. O quê há mais para se saber?
Paula (entra com Frederico) – Bom dia, Dolores! Ainda tão cedo já estás aos gritos?
Dolores (pálida e tem as pernas a falhar) – Mas… não pode ser! Tu estás morta… (Desmaia e Frederico segura-a antes que caísse ao chão. Dolores acorda deitada no sofá). O que houve? Aí! Nem sabem… sonhei que via o fantasma da Paula e… (Vê Paula diante de si) Fantasma!
Victoria – Aí, Dolores! Não sejas parva. Não é fantasma… é a Paula em carne e maquilhagem.
Paula – Ei! Como assim “carne e maquilhagem”? Em Prada e maquilhagem, querida!
Dolores – Não! Quanto mais eu tento mais eu falho. Malditas! Quantos pactos eu preciso fazer para levá-las ao inferno? Vocês não morrem… não morrem nunca… (chora de raiva).
Cesar – Não digas asneiras, tia… desejar a morte dos outros só atrai desgraças para nós.
Dolores (possessa de odio) – Malditas, mil vezes malditas! Mas eu ainda não desisti de tirá-las da minha vida… não desisti. (Levanta-se e sai de casa. Liga para Patrícia) Preciso ver-te, já!
Victoria – Maluca! Não me dá medo… Então, Paula, dormiste bem?
Frederico – Claro que sim… no meio da noite ela não resistiu e correu para os meus braços.
Paula (envergonha-se pela presença dos filhos) – Oh, Frederico! Então dizes isso assim?
Francisco – Oh, mãe, somos todos adultos aqui. Não há motivo para constrangimento.
Paula – E os adultos meus não têm nada que fazer? Faculdade e escola já… andem!
Cristina – Ah, não, mamã! Hoje queremos aproveitar a tua presença.
Paula – Querem é aproveitar-se de mim, isso sim. Eu voltei para casa e voltei ao comando. Vão logo antes que eu me zangue convosco. (Eles abraçam-na e saem porta fora).
Frederico – Ui! Que mãe mais autoritária. (Abraça-a) Adoro isso em ti.
Paula (empurra-o) – Pois para que fique claro, eu só fui dormir com o Frederico porque o meu quarto estava assustador… e só dormimos, só isso.
Frederico (beija-lhe o pescoço) – Por enquanto, não é meu bem?
Cesar – Ok, não precisamos mais ver e nem ouvir nada disto. Victoria, eu já vou indo, meu amor. Vai almoçar comigo, hoje, está bem? (Dá-lhe um beijo nos lábios e vai embora).
Paula – Por falar nisso, o senhor não tem nada que fazer hoje, senhor Moreno?
Frederico – Faço depois. Hoje quero estar contigo o dia todo, futura senhora Moreno.
Paula – Uma ova. Vai-te embora tu também e não te atrases para o almoço.
Frederico – Então almoçamos juntinhos, futura senhora Moreno? (Abraçando-a).
Paula – Nesta casa com os demais familiares, a menos que querias comer fora… e sozinho.
Frederico – Não, eu já vou indo. Amo-te, não te esqueças nunca. (Rouba-lhe um beijo e sai).
Victoria – Então na primeira noite já caíste em tentação, hã? (Rir-se) O amor é lindo.
Paula – Não sejas debochada. Vai buscar o carro. Precisamos ir à Sintra buscar o Telmo, e os teus filhos precisam saber que estou viva. Adoro aqueles malandrecos.
Victoria – Hoje estás muito mandona, não achas? Comigo não te armas, Paulinha.
Paula – Ah é? Então desde que te conheci que sigo as tuas ordens. Minha vez… vai logo!
(Como os jogos sempre viram, Victoria obedece Paula pela primeira vez. Seguem para Sintra).
Telmo (surpreendido ao ver Victoria) – Já voltou, minha senhora? Veio buscar as suas coisas?
Paula (entra) – Que petulância, meu Telmo. Pensei que eu fosse a tua única senhora.
Telmo (desata a chorar e abraça-a forte) – Filha, filha do meu coração, estás viva!
Paloma (assusta-se ao ver Paula) – Meu Deus, é um fantasma ou um engano? Paula!
Heitor – Paula não morreu? Mas… mas como isso é possível? Que loucura!
Santiago – Não, irmãos, não morreu… foi mais uma das vossas mentiras ou o quê?
Victoria – Não, meus filhos, não! Foi tudo um terrível engano que será esclarecido agora.
(Victoria e Paula explicam como aconteceram as coisas e como elas estão agora. Os filhos compreendem e alegram-se por tudo ter sido um engano. Agora o seu pai também recuperara a felicidade e as coisas finalmente pareciam ajeitar-se mas em Lisboa estava vestígios da desgraça. Dolores reuniu-se com as demais bruxas para contar a derrota).
Patrícia (enfurecida) – Viva? Quantas vezes serão necessárias para matá-la de vez?
Debora (entra em pânico) – E agora? Deu tudo errado… a Paula está viva e a Victoria continua com o Cesar. Será que não entendem? Elas são indestrutíveis. Desistam!
Patrícia – Desistir? Nunca! Desta vez vamos atacar a outra. Victoria é a próxima vitima.
Nina – E como vamos fazer desta vez? Vamos matá-la também?
Debora – Não! eu não sou assassina e nem quero ser. Se for para matar eu estou fora.
Dolores – Calem-se! Vamos atacar a Victoria, sim, mas como iremos fazer isso?
Patrícia – Com o passado mais culposo e vergonhoso que ela tem… Lorenzo Bernini!
FIM (CAPITULO 88)
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