Duas Faces - Continuação
44 Capitulo 89
Notas iniciais
Capitulo 89
(Após as revelações feitas aos respetivos filhos, Victoria vai ao quarto pegar o resto das suas coisas e Paula acompanha-a. Fica feliz ao ver que eles dormiam em quartos separados).
Victoria – Bem, está tudo arrumado. Paula, quando vais dizer ao Frederico que estás gravida?
Paula – Oh, Victoria! Outra vez com isso. Ouve, vou dizer quando me apetecer.
Victoria – Não podes esconder um filho dele. Paula, tens que lhe dizer que estás gravida.
Telmo (ouve a conversa e entra assustado) – A Minha senhora está gravida? Eu ouvi bem?
Paula (apreensiva) – Sim, Telmo. É verdade, estou gravida… mas não vou dizer ao Frederico.
Telmo – Mas… minha senhora, isto é o cumulo. Tem de lhe dizer a verdade.
Paula – Isto é um problema meu. Me desculpem mas eu digo quando quiser.
Telmo – Bom… de qualquer forma… eu estou tão emocionado. Jesus, duas grandes noticias num só dia? Eu já estou velho e o meu coração é fraco para estas revelações.
Paula (abraça-o) – Ora, meu Telmo. (Rir-se) E as tuas malas? Já as fizeste?
Telmo – Já! Mas… e os meninos? Ficarão sozinhos aqui, os pobres coitados?
Paula – Por mim, que venham. Temos quartos mais que suficientes para todos, Victoria.
Victoria – Bom… está bem! Eu vou lhes dizer que venham connosco. Obrigada, Paula.
(Feitos os convites, aceitos são. A casa agora está cheia e as duas famílias uniram-se. Chegam em Lisboa e instalam-se. A casa reina em risos, é já o fim das desgraças? Talvez não. Dolores entra na sala onde todos almoçam em farra e indigna-se).
Dolores – Então, mas isto agora é abrigo de indigentes ou o quê? Quem são estes miúdos?
Victoria (levanta-se) – São meus filhos. Algum problema, Dolores?
Dolores – E com que direito trazes os teus filhos para esta casa? Quem te deu permissão?
Paula (diz em voz alta e autoritária) – Eu! Porquê? Metade da casa é minha, ou não?
Dolores – Bem sabia que tinha dedo da defunta nisso. O Cesar já sabe?
Cesar (vem a entrar) – Não sabia mas agora sei e alegro-me imenso que tenham vindo.
Dolores – Eu não acredito que vais permitir isto, Cesar. Olha que ultraje!
Olga – Ah, Lola, por mim não tem problema os meninos ficarem… gosto de ter a casa cheia.
Dolores – Ninguém pediu a tua opinião, então cala-te! E tu, Cesar, resolve isto já!
Telmo (entra na sala) – Boa tarde! (Gela-se ao ver Olga diante de si. Ouvir: Mariza – Chuva)
Olga (pasma-se e é como se todos a volta sumissem) – Telmo… Telmo Queirós, és tu?
Telmo (vai até ela e beija-lhe a mão) – É um prazer ver-te outra vez, Olga Ferreira.
Olga (nervosa) – Desculpem, mas… eu… eu não me sinto bem. Com licença! (Olga sobe para o seu quarto. Tem a garganta seca) Jesus me valha… é ele… Telmo! Meu Telmo…
Telmo (paralisado na sala, sussurrava) – É ela… Olga, minha Olga… que saudades!
Paula (estranha aquele momento, vai até ele e toca-lhe o ombro) – Telmo, estás bem?
Telmo (desperta) – Ah… sim, sim, minha senhora. Peço-vos desculpa mas também retiro-me.
Cristina (para Paloma, que está ao seu lado na mesa) – Que estranho… entendeste algo?
Paloma – Se tu, que és da família, não entendeu, imagina eu. Viu como eles se olhavam?
Victoria – Mas… o que foi isto, Paula? O Telmo e a Olga têm algo entre eles?
Paula – O quê? Não… não que eu saiba… será? Viram como olhavam-se?
Cesar (abraçando a Victoria) – Do mesmo modo como nos olhamos, meu amor.
Dolores – Que disparate! Não há nada entre eles. Olga jamais se meteria com um criado.
Paloma – Telmo é muito mais que um criado e nós gostamos dele como se fosse da família.
(Dolores sente uma ameaça naquele encontro e retira-se também deixando uma incógnita no ar. Telmo hesita mas o faz. Bate na porta do quarto da Olga e ela assusta-se ao vê-lo).
Telmo – Não fujas de mim outra vez, Olga… se o destino nos reuniu foi por algo.
Olga – O único a fugir aqui foste tu. Aí, Telmo, não sabes o mal que me fizeste.
Telmo – Eu não fugi, tu me mandaste ir embora… naquela carta sem perfume e triste cujas palavras duras e amargas eu nunca esqueci. “És só um criado e eu sou uma herdeira, vai-te embora que não és suficientemente digno do meu amor”. Nunca me ei de esquecer.
Olga – Carta? Do quê estás a falar, Telmo? Não há carta nenhuma… bem há uma sim mas não dizia nada disto. Uma carta de amor que te mandei porque tinhas que saber que eu… (hesita).
Telmo (segura-lhe os braços) – Tu o quê, Olga? Diz-me! Se a carta não era aquela então…
Olga – Já se passaram mais de vinte e cinco anos… não vale a pena esconder tal segredo. Dei a carta ao jardineiro e pedi que ta entregasse. Nela dizia que eu… que eu esperava um filho teu.
Telmo (surpreso e assustado) – Um filho? Mas… Olga, eu nunca soube de nada disto. Se tivesse sabido teria me casado contigo até porque amava-te. Eu não era e nem sou homem de fugir.
Olga – Mas, então… a carta foi trocada, Telmo. Alguém adulterou a entrega para separar-nos.
Telmo – E eu até já sei quem. Dolores, é claro! Só pode ter sido ela… maldita.
Olga – Impossível! Dolores não sabia de absolutamente nada, Telmo… só depois soube.
Telmo – Não sei… não sei… mas, Olga, então este filho? Onde está esta criança?
Olga – Dolores disse que a menina nasceu morta e levou-a embora. Quando eu acordei ela disse que já havia tratado de tudo e que eu me acalmasse.
Telmo – Não acredito. E o tumulo? Essa historia está muito mal contada.
Olga – Esquece isso, Telmo. Já faz mais de vinte e cinco anos… esqueçamos os dois.
Telmo – Eu… bem… a minha senhora Paula, convidou-me a morar nesta casa. Será difícil conviver contigo depois de tudo o que vivemos juntos.
Olga – Foi um romance que já acabou. Agora convivamos como amigos e nada mais.
Telmo – Oh, Olga! Não sobrou nada daquele amor de há tempos atrás? Nada?
Olga – Receio que não, Telmo. Afasta-te de mim, eu te peço. Podes viver nesta casa… isso eu não vou impedir, mas peço-te que me trates com a maior discrição possível.
Telmo – Como desejares. (Beija-lhe a mão) Até logo, minha Olga! (Retira-se).
(Enquanto isso no andar de baixo, chega Frederico e surpreende-se com a presença dos filhos. Victoria explica-lhe o que sucedeu. Ouvir: Casta Diva — Maria Callas. Ele pergunta pela Paula que subira para o quarto. Entra e depara-se com ela sentada numa cadeia diante da janela. A ópera celebra a tranquilidade como um canto de anjos vinda dos céus. Ela estava de costas para ele e acariciava o ventre enquanto permitia o filho ou filha deleitar-se naquele intelecto. De sábia consciência, sabia que era vital um bebê ouvir clássico no ventre da mãe para acalmar-se ainda que muito pequeno fosse. Estava de olhos fechados e, ainda calma, escuta passos que adentram no recinto como um gato sorrateiro que a quisesse surpreender).
Paula (balbuciou) – Já passou da hora de almoço, Frederico. Onde estavas? Se pode-se saber.
Frederico (aproxima-se dela) – Almocei num restaurante com alguns sócios. Preferi ficar com eles… se viesse para casa só receberia os teus frios olhares de repudiação.
Paula (levanta-se) – Não te faças de vitima comigo, Frederico Moreno. Podias vir se quisesses.
Frederico (estranha ela ter a mão na barriga) – Sentes-te mal? Tens a mão na barriga…
Paula (percebe e fica nervosa) – Ah… sim… um leve mal estar que já passou. (A disfarçar).
Frederico (preocupa-se) – Não seria melhor ir à um medico? Pode ser grave!
Paula – Mas não é. Não te preocupes por mim agora! Hoje já não voltas a trabalhar?
Frederico – Não. Poderíamos passar a tarde juntos. (Aproxima-se dela e abraça-a por trás. Ouvir: Rita Guerra – Preciso de Ti) Juntinhos… no jardim, no salão… (abaixa a voz) …neste quarto… (sussurra) … nesta cama. (Paula arrepia-se com a proposta e ele beija-lhe o pescoço).
Paula (quase sem resistir) – Aí, Frederico! Para… por favor, não me faças isso que não resisto.
Frederico (vira-a e beija-a com aspereza. Sussurra-lhe com a voz grave) – Tira-me a roupa.
(Paula exaltou um suspiro longo e trémulo. Olham-se durante algum tempo e Frederico agarra-a, mexendo-se tão depressa que ela não teve tempo de reagir. Pega-a ao colo e deita-a sobre a cama. Sufocados em beijos ela tira-lhe a camisa e desliza as palmas das mãos pelo peito maculo. Era suave, delicioso. Aquela sensação distraiu-a durante um instante. Ela não fazia ideia… ouviu o seu suspiro e reparou que os seus músculos se contraiam e tremiam sob os dedos dela. Encorajado, virou a cara para o seu pescoço e apertou os lábios contra a pele fazendo-a emitir um suave gemido. Paula beija-lhe os ombros nus daquele corpo suado. Ele sabia a sal, a calor, cheirava a perfume de bergamota e a couro. Aquilo era-lhe familiar e ao mesmo tempo excitante. Frederico desliza a mão às suas brancas e desnudas pernas que pareciam sempre estar a sua disposição. Beijavam-se entretidos pela saudade, e ela esquecia a raiva que sentia dele… aqueles baços tudo faziam. Entregava-se aos poucos e puxava os lençóis para cobrirem-se quando estivessem já livres de roupas. Ela tinha intenções de ceder mais uma vez àquelas caricias. Teria, ele, vencido pelo desejo mais uma vez? Quase a tirar-lhe a roupa, Frederico e Paula são interrompidos por um tocar de porta. Ela levanta-se e abre. É a Victoria).
Victoria (desconcertada ao ver Frederico sem camisa sobre a cama) – Interrompi algo?
Frederico (exclama em voz alta, chateado) – Sim!
Paula (olha-o envergonhada pela sua clareza e desculpa-se) – Não, Victoria. Que queres?
Victoria – Desculpa! É que os criados querem saber à quem devem perguntar sobre o jantar.
Frederico (impetuoso) – Que te perguntem à ti. Paula e eu jantaremos fora esta noite.
Paula (olha-o surpreendida) – Desde quando decidimos isto? Victoria, escolhe tu o menu.
Victoria – Está bem. Com licença e desculpem lá o incomodo. (Retira-se).
Frederico (levanta-se e agarra-a por trás) – Onde paramos? (A beijar-lhe o pescoço).
Paula (solta-se dele) – Que historia é essa de jantar? Não combinei nada disso.
Frederico – É para passarmos um tempinho juntos, meu bem. Não queres?
Paula – Deixa-me em paz, Frederico. Ainda tenho raiva de ti e estou muito magoada.
Frederico – Até quando, Paula? Até quando ficaremos assim? Eu te amo mas parece que…
Paula – Ainda é dia. Podes te ir embora agora. O combinado era passares a noite só.
Frederico – Mas… os meus filhos estão aqui e… Paula, é mesmo isso que queres?
(Será que a Paula terá coragem de permitir a partida do Frederico? Victoria e Cesar serão as próximas vitimas do covil? Telmo e Olga descobrirão o enigma da sua separação? Quem será a filha perdida de Olga e Telmo?)
FIM (CAPITULO 89)
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