Capitulo 78

(Cesar agarra-a nos braços e beija-a incansavelmente, mas Victoria resiste).

Cesar – Victoria, por favor, não me faças esta maldade! Eu amo-te, amo-te mais que tudo…

Victoria – Eu também amo-te, Cesar… juro-te que nunca pensei amar alguém como tu… mas assim não pode ser. Desculpa mas eu não te quero obrigar a viver ao lado duma selvagem, adultera, mentirosa e manipuladora como eu. Sei que estas palavras não são tuas e nunca hão de ser. Eu vou embora, Cesar. Já está decidido. Acabou!

Cesar (abraça-a forte e chora) – Não, meu amor, não! Vamos conversar antes, sim?

Victoria – Não há mais nada que se conversar, Cesar. É melhor para ti.

Cesar – Eu sei o que é melhor para mim… tu! Victoria, os casais mais apaixonados também brigam… desculpa as minhas palavras, meu amor.

Victoria (solta-se dele e pega nas malas) – Depois que te divorciares da Paula… talvez possas-me procurar e me fazer tua esposa para que não me olhem ou me julguem como amante.

Cesar (põe-se a frente da porta) – Não te vou deixar ir. (Ouvir: Laura – Viveme con Alejandro. Segura-a e beija-lhe a boca fazendo-a tremer nos seus braços fortes que apertavam-na e prendiam-na. Victoria corresponde ao beijo, mas tenta soltar-se dele quase sem forças).

Victoria (sussurra) – Cesar… deixa-me ir, por favor! Não pode ser… solta-me!

Cesar (sussurra-lhe com aquela voz grossa e sedutora) – Já não te estou a prender…

Victoria – Porquê me fazes isso? pões-me rendida às tuas caricias… quase que descaio.

Cesar (beijando-lhe o pescoço) – Cai… cai nos meus braços e deita-te comigo outra vez.

Victoria (quase a ceder, solta as malas e deixa-se beijar) – Louco, és um louco!

Cesar (pega-a nos braços) – Louco de amores por ti. (Beija-a e leva-a para a cama, deita-a e põe-se sobre ela. Dá-lhe beijos fogosos ao pescoço, acaricia-lhe a perna e tira-lhe as calças vermelhas que condiziam com o blazer. Victoria desabotoa-lhe a camisa que ele costumava usar com terno, tira-lhe o cinto e Cesar arreia as calças acinzentadas que unidas à camisa, faziam-no parecer um autentico cavaleiro corajoso em descanso, a espera da sua donzela que viria agradecer-lhe o salvamento. Victoria suspira enquanto é possuída por aquele corpo suado e másculo de peito voluptuoso… debaixo dos lençóis ela deixava de ser a manipuladora mas mantinha a selvageria que era fogo naquele quarto escuro de iluminação avermelhada. Cesar prende-lhe as mãos com uma das suas, para que Victoria ficasse indefesa às suas travessuras luxuriosas e pecaminosas, como um dominador rendido à paixão).

(Patrícia está no shopping do Colombo, as feridas já se curaram. Passeia pelos corredores atulhados de lojas de grife, admirada com os enfeites de decoração do prédio. No centro havia um globo terrestre e no ar, pendurada por fios de ferro, havia uma caravela de Vasco da Gama que enfatizava a frase de Fernando Pessoa: “o mar com fim é grego e o mar sem fim é português”. Distraída, esbarra-se numa pessoa, e como o destino é uma criança travessa, esta pessoa é Rodrigo Salgado, caído do céu ou enviado do inferno para realizar os planos mórbidos de Patrícia e Debora. A ideia vem-lhe à cabeça quase que imediatamente).

Rodrigo (surpreso ao vê-la) – Patrícia, tu aqui? Mas, que fazes em Lisboa?

Patrícia – O mesmo pergunto-te: que fazes aqui, na capital?

Rodrigo – Vim a procura do Frederico. Os filhos disseram-me que ele está por cá.

Patrícia – Sim… está! E tu não imaginas o motivo, julgo eu. Bem, vem comigo que eu conto-te.

(Patrícia leva-o para um café discreto e lá revela-lhe toda a verdade. Rodrigo está incrédulo).

Rodrigo – Não… da Victoria eu posso esperar tudo, mas esta mulher… Paula… sempre pareceu-me tão… tão distinta, correta. Uma mulher pura e sem pecados como ela não seria capaz de…

Patrícia – Mas assim foi. Frederico quase a matou… as duas, devo dizer.

Rodrigo – Então, mas isso quer dizer que… que a mulher que eu amo, essa Paula, não é casada com o Frederico. (Sorri demonstrando alegria) É livre para…

Patrícia – Para ti? Sim, claro! Ela… ela não é casada. Podes ir atras dela, é a tua chance.

Rodrigo – Eu vou, podes ter a certeza que eu vou… mas não sei onde encontrá-la.

Patrícia – Ah! Mas que não seja por isso. (Dá-lhe um papelinho) Aqui tens o endereço do hotel onde ela hospeda-se. Pobrezinha… Frederico abandonou-a e ela teve de ficar num hotel.

Rodrigo – Muito obrigado, Patrícia! És uma grande amiga. Podes ser a nossa madrinha.

Patrícia (rir-se sinicamente) – Oh! Mas com muito prazer. (Rodrigo sai empolgado e enganado. Patrícia olha-o a sentir o gosto da vingança fluindo no paladar) Agora sim, Paula Ferreira, agora sim vais-me pagar por todos aqueles tapas, maldita usurpadora.

(Paula e Frederico chegam ao quarto depois de já terem comido. Paula descalça-se e relaxa-se num elegante divã que havia no quarto).

Paula – Aí! Ainda não esqueço o mau momento que passei com os meus filhos.

Frederico (senta-se junto dela) – Já disse-te para esqueceres isso. (Levanta-se e começa a por uma gravata com um terno azul escuro com riscas negras).

Paula (levanta-se) – Onde vais, que te arranjas assim todo? (Ouvir: Rita – Preciso de ti).

Frederico – Trabalhar, meu amor. Mudei todos os meus tratados para Lisboa e tenho de os cuidar. Vou demorar muito então podes jantar com o Telmo… mas espera-me acordadinha.

Paula (a arranjar-lhe a gravata) – Vou sentir a tua falta, estando tão desamparada sem ti.

Frederico – Tens a boa companhia do Telmo, e eu chego por volta das onze da noite.

Paula – Tanto tempo, meu amor? Não… então, leva-me contigo para não me entediar.

Frederico (segurando-a pelos ombros) – Se eu te levar, sabes que não me vou concentrar no trabalho e sabes que não vou conseguir fazer nada que tenho planeado.

Paula (faz-lhe manha) – Eu comporto-me, fico caladinha, sossegadinha num cantinho.

Frederico – Exatamente! Quando estás caladinha num cantinho deixas-me todo aceso.

Paula (vira-se de costas para ele) – Oh! Frederico… eu acendo-te até a espirrar.

Frederico (abraça-a por trás) – Então, quem te manda ser assim tão sedutora?

Paula (deita-se na cama, seduzindo-o) – Está bem, então. Podes ir que eu fico deitadinha nestes lençóis macios… ah! Vou por aquela camisola cor-de-rosa que tu tanto gostas, juntamente com o perfume que te enlouquece. É pena tanta produção para ficar sozinha.

Frederico (excitado) – Paula, Paula! Não me faças ir ai porque depois não dás conta.

Paula – Eu? Mas que mal estou a fazer? Estou caladinha como um rato. Apenas digo-te como são deliciosos estes lençóis, ainda mais a tarde com esta brisa. Apetece-me ficar despida.

Frederico – Só não vou ai porque não quero vestir roupas.

Paula – E porquê havias de vestir alguma roupa, meu bem?

Frederico (agarra sobre a cama de joelhos nos lençóis) – Porque teria de tirar e depois vestir.

Paula (abre-lhe o paletó) – Eu ajudo-te a vestir depois… bem depois… umas duas horas talvez.

Frederico (já sem resistir) – Duas horas? Aí! Paulinha, não fales assim com esta voz e esta manha… (ela beija-lhe o rosto) Não faças isso, Ofélia! Eu tenho que trabalhar, amor.

Paula – Não, não! (Beija-lhe a boca) Trabalhar? Agora? Assim? Não!

(Frederico agarra-a e beija-a sem conseguir resistir àquele doce encanto, mas solta-a).

Frederico – Eu tenho mesmo que ir, meu amor. Anoite eu cuido de ti, está bem.

Paula – Não, não, meu amor! Anda cá, meu bem! (Frederico lança-lhe um beijo e sai as pressas, Paula, insatisfeita, calça os sapatinhos e vai até o quarto do Telmo).

Telmo – Senhora minha. Que gosto vê-la. Há muito tempo que não me procura.

Paula – Não tenho tido muito tempo, meu Telmo. Estou triste… Frederico e eu andamos tão felizes mas ele ainda não me propôs casamento.

Telmo (abraça-a e rir-se) – Oh, minha menina impaciente! Ele vai propor. Sabe de uma coisa? Sempre foi assim… desde menina. Quando queria muito algo, tinha medo de não o conseguir.

Paula – Mas era incapaz de pedir. Lembro-me que custei dizer ao meu pai o que queria de aniversário. Era uma boneca antiga que vi numa revista italiana. Era toda feita de porcelana.

Telmo – Os olhos eram de safiras verdadeiras… uma joia preciosa.

Paula – Dei-a à minha filha… tem guardada numa prateleira vidrada que ninguém põe a mão. (Boceja) Meu Telmo, vou-me deitar um bocadinho. Tenho sono.

Telmo – O sono da tarde. As três quero-a no saguão para o chá… não chegue atrasada.

(Paula sorri e vai para o quarto. Despe-se e põe a camisola cor-de-rosa. Favorita do Frederico. Suspira de saudades e deita-se sobre a cama, o calor que vinha das janelas, refletindo a luz solar, fê-la não embrulhar-se nos lençóis. Mais parecia um anjo adormecido. Enquanto isso, Rodrigo chega ao hotel, sobe para o andar e chega ao quarto de Paula. No corredor havia uma camareira e ele dirigiu-se à ela).

Rodrigo – Caríssima dama, está ai dentro uma formosa senhora de nome Paula Ferreira?

Camareira (olha num bloco de anotações que tinha) – Está! É sua namorada?

Rodrigo – Só peço-lhe que me abras o quarto, se fazes o favor. Não tens a chave?

Camareira – A chave? Quer que eu lhe dê a chave? Não, isso está proibido. Ainda me demitem.

Rodrigo – Eu garanto que ninguém saberá… e mais, até lhe posso pagar por isso.

(Cedida à corrupção, ela abre-lhe a porta. Rodrigo entra e depara-se com aquela visão majestosa de uma rainha que repousava sobre nuvens de algodão egípcio. Aproxima-se dela e debruça-se sobre o seu corpo beijando-lhe o pescoço. Paula desperta-se e sem abrir os olhos, ingenuamente acredita que aquele é Frederico, afinal, quem mais poderia ser? Abraça-o e deixa-se beijar o corpo… iludida com o pensamento de que ele voltara por ela).

Paula – Meu amor… sabia que virias. Não poderias resistir aos meus encantos. (Rodrigo beija-lhe os lábios e Paula percebe logo que aquela boca não era do seu Frederico. Abre os olhos e afasta-o rapidamente) Tu não és o meu Frederico… (assusta-se ao ver quem é) Rodrigo?

Rodrigo (aproximando-se outra vez) – Claro, meu amor… já sei de tudo Paula, já sei da troca.

Paula – Sabes? Que te contou? Afasta-te de mim, Rodrigo. Que fazes aqui?

Rodrigo – Já sei também que não és casada com o Frederico… és livre para mim, meu amor.

Paula (levanta-se da cama e corre em direção à porta, mas ele segura-a) – Solta-me!

Rodrigo – És tão cheirosa, meu amor! Amo-te, Paula, amo-te! Ele abandonou-te porque não te ama, mas eu amo-te e hei de amparar-te para que não te falte nada, meu bem. (Prende-a nos braços e lança-a à cama, põe-se sobre ela e começa a beijá-la contra a sua vontade. Paula debate-se para fugir mas não consegue e implora para que a solte… por desgraça e tragédia, diante daquela obscenidade surge Frederico que esquecera uns papeis e veio para buscá-los. Entra no quarto e depara-se com um engano de traição que os seus olhos não compreenderam. Sentiu-se traído ao ver a sua mulher na cama com aquele que se dizia amigo).

Frederico (grita furioso) – Paula! O que significa isto? (Rodrigo olha-o assustado).

FIM (CAPITULO 78)