Duas Caras

1 O Mistério


Quando o jovem André Megalos decidiu se tornar um detetive, ele não esperava que um de seus primeiros casos envolvesse alguém famoso. Alexander Katsaros, ninguém menos que o CEO da grande companhia de comércio internacional H Gemini Commerce, havia sido encontrado morto em seu apartamento. A causa? Uma flecha que atingira sua testa, atravessando seu crânio e matando-o instantaneamente. André não era o detetive responsável pelo caso, afinal, era um novato na delegacia de homicídios, mas por seu desempenho nos cursos de formação, foi chamado para auxiliar nas investigações. Agora chegava na delegacia às oito da manhã para interrogar o primeiro suspeito: Nicolas Halkias, cunhado da vítima.

Nicolas Halkias não era um sujeito bem visto nas delegacias de Atenas, ainda que nunca tivesse cometido um crime de natureza grave. O mais novo dos gêmeos Halkias era famoso desde os dezesseis anos por sua notória participação em festas dos mais variados tipos. Atualmente, com 36 anos, era um personal trainer de renome que atendia a elite de Atenas, apesar de não ter abandonado a vida de festas. A última delas, em seu iate há duas semanas, terminara com quatro convidados internados por overdose de cocaína e seis por coma alcoólico. André balançou a cabeça lendo o relatório sobre Nicolas e entrou na sala onde o homem aguardava para ser interrogado.

Sentado na cadeira de modo displicente, Nicolas era uma bela visão. Seus cabelos loiros, levemente cacheados, estavam soltos e iam até abaixo de seus ombros. Vestindo uma calça jeans com uma camisa de mangas curtas que deixavam seus braços tatuados à mostra, o homem parecia entediado, mas se animou quando viu o policial que chegava.

‒ Ora, se não é o pequeno André! Quanto tempo faz que não te vejo? Cinco anos? Seis?

‒ Provavelmente, mas não estou aqui para tratar de lembranças de infância, senhor Halkias.

‒ Prefiro que me chame de Nick, assim fico mais confortável para conversar com você.

‒ Então... Nick... Sabe que foi chamado aqui para ser interrogado quanto ao assassinato de Alexander Katsaros, não sabe?

Halkias suspirou, cruzando os braços com um semblante sério no rosto.

‒ Eu não matei meu cunhado. Você sabe que não fui eu.

André tirou alguns papéis da maleta que trouxera e colou na mesa ao alcance do interrogado.

‒ Seu irmão transformou Alexander em CEO da H Gemini Commerce logo depois que se casaram, além de transferir 40% da empresa para o nome dele. Pelo que me lembro, você não ficou muito feliz com isso.

‒ É claro que não! Theo não tinha o direito de ter feito isso sem me consultar, além de que ele me deixou com apenas 20%! Ainda que eu nunca tenha tido tanto interesse na empresa dos nossos pais, pois meu irmão perfeito assumiu tudo sozinho, ele não tinha direito de interferir nos meus rendimentos!

O jovem detetive sorriu irônico. Nicolas se acalmou antes de continuar.

‒ Mas isso não me faria matar Alexander.

‒ Então me ajude a descobrir quem foi. Não quero te deixar apreensivo, mas todos aqui desconfiam de você. Sua reputação o precede.

‒ Ok, posso ter uma péssima reputação, mas nunca matei ninguém. Não diretamente, pelo menos, já que fui considerado culpado pela overdose da minha ex-namorada cinco anos atrás.

‒ Vamos nos ater ao caso, sim? Você tem um álibi?

‒ Não foi considerado sólido o bastante. Eu estava em casa, bebendo sozinho.

‒ Nick, eu não sei se vou conseguir te ajudar com isso.

‒ Ah, você vai. Porque eu tenho minhas suspeitas e você vai acreditar em mim.

‒ Então diga!

‒ Theo o matou.

André se deixou cair na cadeira, apoiando o rosto na mão direita.

‒ Theo amava Alexander, você sabe disso mais do que ninguém.

‒ Sim, mas...

‒ Nick, eu posso até acreditar que não tenha feito isso, mas tentar colocar a culpa no seu irmão pode depor contra você.

Theo Halkias, ao contrário do irmão, era um cidadão exemplar. Orgulho de sua família, o gêmeo mais velho era um gênio acadêmico e empresário de sucesso, tomando o controle da empresa familiar após a aposentadoria do pai e transformando a H Gemini Commerce na maior companhia de comércio internacional da União Europeia. Aos 36 anos, tinha em seu currículo cinco graduações, quatro mestrados e três doutorados, sendo o primeiro em todas as turmas, além de conciliar o trabalho na empresa com o cargo de professor em cinco matérias da Universidade de Atenas. Qualquer pessoa pensaria que Nicolas tinha enlouquecido de tantas drogas por acusar o irmão de um crime desse nível.

‒ André, você é o único aqui que pode acreditar em mim. Eu tive um bom motivo para pedir ao responsável pela investigação que você me interrogasse.

‒ O fato de sermos velhos conhecidos não vai ajudar a livrar a sua cara se você não tiver um bom álibi, Nick.

‒ Não é isso... – Nicolas começou a ficar apreensivo. – Olha... Qual foi a arma do crime?

‒ Uma flecha.

‒ Irônico, uma vez que eu sou excelente no arco e flecha quando estou sóbrio. Quem cometeu esse crime me conhece e queria me incriminar.

‒ Nick...

‒ Espera. Preste atenção nisso: não era uma flecha de arco, era uma flecha de besta. Flechas de arco são mais compridas. Além de que um tiro de besta é muito mais potente. Atravessar um crânio a partir da testa? Eu não conseguiria isso, a flecha furaria o crânio, mas não o atravessaria.

André teve um arrepio involuntário ao pensar em Alexander com uma flecha fincada no cérebro em vez do buraco que tinham encontrado.

‒ O que te faz pensar que isso estaria a seu favor?

‒ Bestas são para fracos, que não tem capacidade de manusear um arco. Eu não usaria algo assim, tenho meu orgulho.

‒ Mas onde isso leva a Theo?

‒ Eu sempre tive mais força física que meu irmão, mas a inteligência dele nunca deve ser subestimada. Um tiro de pistola faria barulho, todos os vizinhos ouviriam e ele não teria tido tempo de fugir antes de alguém chegar ao apartamento. Experimenta disparar uma arma de fogo em um bairro de elite, você estará cercado antes que possa dizer “σκατά”[1].

André concordou com um movimento de cabeça, Nicolas estava certo. Ainda assim, por que Theo mataria o marido? Nicolas podia até ser inocente, mas por que estava tão determinado a culpar o irmão?

‒ André... Você tem que acreditar em mim. Foi Theo quem fez isso e você sabe por que insisto!

‒ Nick, eu não consigo imaginar por que seu irmão faria uma coisa dessas!

‒ Tente se lembrar! Você e Adrian...

‒ Agora vai meter Adrian na história também?

‒ Não! Quero dizer, você estava com Adrian quando viu. Se eu contar isso, só vão me taxar de louco mais uma vez.

André deu o interrogatório por finalizado, já estava quase na hora de seu almoço. Nicolas seria mantido na delegacia até encontrassem algo que minimizasse as suspeitas sobre ele.

Enquanto comia um gyros na lanchonete próxima à delegacia, pensava no que Nicolas havia dito. Por que diabos ele insistia em culpar o irmão? E por que André saberia o motivo? O que Adrian tinha a ver com aquilo? Adrian era o melhor amigo de André desde o jardim de infância e, coincidentemente, irmão mais novo de Alexander Katsaros. A família Katsaros era vizinha dos Megalos, o que fez com que as crianças praticamente crescessem juntas. Apesar da diferença de idade de oito anos, os irmãos Katsaros eram muito próximos e foi assim que André conheceu os gêmeos Halkias, quando Alexander e Theo começaram a namorar aos quinze anos.

Quando voltou para a delegacia, foi informado de que havia alguém a sua espera. Ao chegar em sua sala, viu um homem exatamente igual a Nicolas, mas completamente diferente. Ele usava um terno preto, seus cabelos estavam arrumados e presos em um rabo de cavalo baixo e, quando se virou, tinha uma expressão serena no rosto.

‒ André Megalos, é um prazer vê-lo novamente. – Ele estendeu a mão, que André apertou. – Uma pena que as circunstâncias não sejam nada agradáveis.

‒ É um prazer vê-lo também, Theo. Sinto muito por seu marido.

Theo suspirou triste e se sentou na cadeira que André lhe ofereceu.

‒ Obrigado. Não sei se conseguirei superar a morte de Alexander.

‒ É uma grande perda e muito recente. Não se preocupe com isso, deixe que o tempo faça seu trabalho.

O jovem detetive colocou um copo de água na mesa perto de seu visitante e se sentou em sua cadeira do outro lado.

‒ Então. – Theo Halkias começou a falar assim que André estava em seu lugar. – Soube que o principal suspeito é meu irmão. Mesmo com a reputação de Nicolas, eu não consigo acreditar que ele faria algo contra mim desse jeito. Sou capaz de crer que ele estimava mais Alexander do que eu, seu próprio irmão gêmeo.

‒ Theo... Os acontecimentos recentes na empresa de sua família levaram as suspeitas a apontar na direção de Nicolas. Soube também que tiveram uma briga...

O gêmeo mais velho interrompeu com um aceno.

‒ Foi apenas uma discussão. Nicolas costuma se exceder quando discutimos e tenho minhas dúvidas se meu irmão estava realmente sóbrio naquele dia, mas nada que o levasse a atentar contra a vida de meu marido. – Ele segurou a ponte do nariz, fechando os olhos por um momento antes de voltar a falar. – Ele não entende que não tem capacidade para reger a empresa da nossa família, que isso não é apenas a fonte de renda dele, mas sim um legado! Desculpe-me, isto nada tem a ver com o assunto, temo não estar em meu juízo perfeito.

‒ Não se preocupe, Theo, você está passando por um momento difícil. É normal não conseguir manter o foco.

‒ André... Espero encontrar um meio de provar a inocência de meu irmão. Não consigo aceitar que ele tenha sido o responsável por despedaçar minha vida.

Theo se levantou e cumprimentou André novamente antes de sair. O detetive ainda encarou a porta por alguns minutos, pensando no Halkias que acabara de sair. Theo era um gênio, mas às vezes meio estranho. Tentou lembrar dos títulos que ele possuía, o primeiro teria sido a graduação em economia? Sim, ele estudara junto com Alexander nesse curso. “Posso dizer que meu Theo coleciona títulos” a mãe dos gêmeos costumava dizer com orgulho. Economia, Administração, Física, Gastronomia e Medicina, André contou nos dedos enquanto lembrava. Quais eram os mestrados mesmo? Ele não se lembrava dos detalhes específicos discutidos, mas eram nas áreas de comércio internacional, energia nuclear, distúrbios psiquiátricos e direito penal. Os doutorados André não fazia ideia do tema de cada tese, mas sabia que tinha algo a ver com reatores atômicos, medicina legal e administração financeira. Era uma coleção no mínimo bizarra, mas o jovem Megalos costumava ouvir dizer que todo gênio tinha algo de louco. Theo era realmente um gênio... E era estranho.

Depois daquele dia incomum de trabalho, tudo o que André queria era tomar um banho e cair no sofá assistindo alguma série, mas não conseguia parar de pensar no caso de seus velhos conhecidos gêmeos. Depois de conversar com os dois, não acreditava mais que Nicolas podia ser o culpado, mas também não podia crer que havia sido Theo. Mesmo que ele não fosse o responsável pelo caso, queria acompanhar de perto. Aquilo tudo estava muito estranho. O que ele e Adrian viram no passado que podia ajudar a solucionar o caso?

[1] Merda (grego)