Duas Caras
2 O Fim
No dia seguinte, André chegou no trabalho ainda pensando no caso dos gêmeos. Ligar para Adrian poderia ser uma opção, se ele não estivesse tendo que lidar com a morte do irmão justamente naquele momento. Pelo visto ele teria que se esforçar para buscar em suas memorias de infância, ou... Simplesmente insistir em tentar arrancar alguma coisa de Nicolas. Foi a opção escolhida. Depois do almoço, quando seus serviços já estavam adiantados, ele se dirigiu ao local em que Nicolas Halkias estava sendo mantido sob custódia.
‒ Bom te ver de novo, André. Encontrou o que procurava?
‒ Não. É por isso que vim falar com você novamente.
Nicolas olhou para o teto, desanimado.
‒ Eu não queria ter que usar isso contra o meu irmão, é algo bem baixo de se fazer, mas é o único jeito de provar que ele é o culpado e não eu. – Voltou a olhar para o jovem detetive. – Não se lembra do outro?
‒ O outro?
‒ O que mandou Alexander pro hospital dez anos atrás.
André se lembrava daquilo. Adrian disse na época que não conseguiram descobrir quem empurrou seu irmão mais velho da sacada do segundo andar e o próprio Alexander disse que não se lembrava. André tinha certeza que ele estava mentindo, mas por quê?
‒ Nick, isso não me é estranho, mas você tem que me explicar melhor!
O homem apenas o encarou inexpressivamente.
‒ Você sabe que é um segredo de família, apesar de já ter visto. Eu não posso jogar isso no ventilador sem ter ao menos uma testemunha ou confirmação de alguém confiável, como um detetive, ou ninguém iria acreditar em mim.
André voltou para sua sala, ainda pensando. Por que Nicolas não consegue provar o que diz? Foi então que um lampejo de memória passou por sua mente. Um episódio pouco antes do casamento de Theo e Alexander, em que ele vira os gêmeos discutindo e Theo se referia a si mesmo na terceira pessoa enquanto dizia coisas que André duvidava que pudessem sair da boca do Theo que ele conhecia. Todo gênio tem algo de louco. A loucura do gêmeo Halkias mais velho era externalizada por meio de...
‒ Transtorno dissociativo de personalidade! É isso!
A família Halkias sempre fez tudo o que pôde para esconder o distúrbio mental do filho, uma vez que de um rapaz exemplar Theo se transformava em um sociopata com tendências violentas. Suas crises eram esporádicas, às vezes ficava muito tempo sem manifestar o distúrbio. Pelo visto, a outra personalidade havia mostrado as caras há três dias, o dia do assassinato de Alexander. O detetive se levantou, decidindo de súbito ir procurar Theo e resolver a situação. Seria difícil para ele descobrir que tinha matado o marido, mas poderia ajudar a elucidar o caso, provando a inocência de Nicolas. Pensando nele por um instante, André pensou em avisar que ia visitar o outro gêmeo, mas achou que seria melhor esclarecer as coisas depois, com todos juntos.
Quando chegou no apartamento de Theo, após ser anunciado pela portaria, encontrou a porta aberta. Não achou estranho justamente pelo fato de sua chegada ter sido anunciada, mas estranhou o fato do homem que deveria estar esperando por ele estar sentado no sofá de costas para a porta de entrada.
‒ Theo! Acho que resolvi o problema, mas preciso que volte comigo na delegacia! Seu irmão pode realmente não ter sido o culpado!
‒ Que bom que chegou a essa conclusão, André. – A voz dele soava fria. – Theo disse que Nicolas era inocente e, bom, ele estava certo. Como sempre.
O detetive gelou. Não esperava encontrá-lo em meio a um surto. O outro estava ali.
‒ É incrível como Theo sempre acerta, não é? – Ele continuou falando, sem dirigir o olhar ao seu interlocutor. – Um gênio perfeito. Uma pena ter o coração mole, mas felizmente eu estou aqui para evitar que ele caia nas armadilhas da vida. Ele estava dando liberdades demais àquele fracassado do Katsaros nos negócios da família. Eu tive que dar um jeito nisso.
‒ E fez com que Nick levasse a culpa?
‒ Tenho tudo sob controle. Nicolas não será considerado culpado. Agora... Não posso aceitar que mais gente se intrometa nesse assunto familiar.
Ele se levantou e André levou um segundo a mais para perceber a besta armada em suas mãos, apontada para seu peito. O dedo no gatilho.
‒ Não...
Ele atirou.
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