Notas iniciais
Espero que goste

Dreamnot não era bonita. Nunca fora e provavelmente nunca seria. Seu céu cinza — ora pela anunciação de tempestades ora pela poluição das fábricas — refletia o humor de seus habitantes.

Scar era a capital e de lá partiam todas as ordens para o Estado. Lá eram formados os melhores Cavaleiros do Alvorecer e Soldados do Futuro. De lá saiam as leis e para lá iriam os piores criminosos. Scar era a representação do inferno na terra e ninguém negava isso, na verdade, eles diziam que Dreamnot era esta encarnação, mas você sabe como é: Bêbados não entendem muito suas próprias conversas.

Em Scar, haviam um lugar chamado Trash Street. O lugar mais pobre e miserável de toda Dreamnot. O lar dos marginais, batedores de carteira, assassinos e mendigos. Obviamente, também lar das pobres famílias que não tinha como subir na escala social. Era neste lugar que Guilliam fazia sua moradia nos últimos anos. Ele perdia seu tempo mendigando moedas nas alamedas para gastar em tavernas, amargurado, tentando afogar suas tristezas.

Atualmente, ele tinha uma bela pança de desleixo com sua alimentação e falta de exercícios. Era baixote e careca, vivendo no ir e vir do caminho entre o lixo dos becos e a Patas de Porco, seu lugar favorito para beber já que o dono não o expulsava. Bom, ele não expulsava ninguém, o que fazia o lugar ser eleito como ponto de negócios obscuros. A vantagem do proprietário cobrar barato para manter o bico fechado atraía muitos clientes também.

Na parte manhã e da tarde Guilliam mendigava na rua, tentando ganhar algumas esmolas. Catava restos de comida no lixo ou pedia aos transeuntes alguma misericórdia. A noite, a Patas de Porco lhe servia uma bebida vagabunda e barata, que servia muito bem para embriaga-lo.

Ele sentou-se a mesa e pediu para a garçonete o de sempre. A moça olhou para o balcão em busca do dono, este assentiu com a cabeça, como toda noite. Logo a moça lhe trouxe um grande caneca com um liquido ardente e amargo com gosto de criolina e álcool. Para Guilliam estava bom. Ele sabia que não conseguiria anuviar seus pensamentos, mas a sensação no corpo já bastava.

Ele tomava da caneca e admirava o liquido. Passava em sua mente repetidas vezes seus fracassos. Analisava friamente cada passo, cada plano, tentativa e falha. Ele via todos os pontos errados, sabia onde estavam os detalhes a serem acertados, os corrigiu, tentou de novo, e só conseguiu obter falhas. A bebida começava a afetar aquele corpo. Ele mal sentia as pernas, mas a velocidade do pensamento continuava acelerada. Agora ela remoía o sentimento da falha. Justo ele que mal entendia sentimentos. Achava irônico e começava a destrinchar novamente a origem desta emoção e esmiuçar os mecanismos que a geravam, como um exercício para nunca enferrujar. Mais um gole na bebida infernal. Agora mais práxima da temperatura ambiente, além do gosto de álcool, a bebida parecia ter um gosto de mijo. Será que teria mijo ali? Mais um gole na bebida e ela estava findada. Novamente ele repassava suas ações. Pensava nas arquiteturas das instalações, em como eram complexas e como ele conseguira mapeá-las e mesmo assim falhara todas as vezes. Era hora de ir embora. Deixou suas moedas no balcão e cambaleante pegou o caminho de "casa".

Ele seguiu pela rua, tonto, mas ainda bem consciente. Fazia cálculos e projeções para evitar tombar. "Devia ter escolhido um corpo melhor" pensou enquanto se apoiava em uma parede qualquer. Tomou um pouco de folego e centralizou a mente. Começou a andar de novo.

As ruas mal iluminadas eram perfeitas para saqueadores noturnos, mas Guilliam já conhecia todos, eram bons companheiros. Então ele caminhava sem preocupação. Entretanto, quando um figura nefasta de veste negras despontou vindo em sua direção, ele ficou apreensivo. O corpo não tinha capacidade de reagir caso sofresse um ataque. A figura se aproximava mais e mais, agora revelando que além das vestes negras, dignas de um funeral, havia uma máscara também negra, a máscara de corvo. Guilliam travou ali mesmo, apoiado no muro. O Homem-corvo se dirigiu a ele, calmo. Parou poucos centimetros distante, pegou uma das mãos do embriagado Guilliam com leveza e depositou um papel enrolado nela, fechando a mão dele sobre o papel. Em seguida continuou seu caminho, usando a escuridão como cobertura.

Guilliam analisou aquela figura. Não tinha cheiro de nada, não se movia de forma particular, nem exibia símbolos ou brasões além da mascara. Guilliam continuou seu caminho até o abrigo que tinha em um beco. Pousou o corpanzil embriagado nos trapos sujos que usava como cobertor e abriu o papel.

"Amanhã a noite o encontrarei na Patas de Porco. Esteja sóbrio, E85"

O cérebro disparou como um animal fugindo de um caçador. Alguém sabia quem ele era. Alguém sabia sobre o "Executor de deuses"

Notas finais
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